Artista: Leadbelly & Josh White
Álbum: Blues & Folksong CD12
Lançamento: 2001/02/03
Selo: Habana
Gênero: Chicago Blues, Country Blues, Delta Blues, Harmonica Blues, Jump Blues, Louisiana Blues, Piano Blues, Rhythm & Blues, Texas Blues, East Coast Blues, Vaudeville Blues
O décimo segundo volume da magistral coleção Les Triomphes du Blues (Habana) promove um recuo estratégico e necessário no tempo. Após a exploração das sofisticadas metrópoles e dos arranjos complexos, Blues & Folksong opera como uma verdadeira escavação arqueológica. Este disco abandona a rigidez comercial dos estúdios para resgatar a tradição oral das varandas rurais, das fazendas e das penitenciárias sulistas, documentando a matéria-prima rústica que deu origem ao blues antes de ele ser formatado pela indústria fonográfica. A tese central deste tomo destrói o mito de que o blues nasceu isolado. O volume argumenta que os pioneiros do gênero não eram estritamente "bluesmen", mas sim songsters — verdadeiros arquivos musicais ambulantes. Esses músicos dominavam um repertório vastíssimo que incluía baladas narrativas (murder ballads), cantigas de trabalho (work songs), música hillbilly, ragtime e spirituals. O disco prova que as fronteiras raciais e musicais no sul agrário eram altamente permeáveis, resultando em um amálgama onde o folclore europeu e a polirritmia africana se fundiram definitivamente. O panorama técnico e nistórico sob a perspectiva da engenharia fonográfica, este volume é um marco do registro documental. Diferente das sessões em Chicago ou Nova York, muitas das gravações originais que compõem este universo foram feitas em campo, utilizando gravadores de disco de acetato portáteis (como os operados por folcloristas como John e Alan Lomax) montados no porta-malas de carros. Acusticamente, as matrizes capturam ruídos de fundo genuínos — o arrastar de pés no assoalho de madeira, o canto de insetos e a reverberação crua de pátios ao ar livre. É uma captação desprovida de qualquer maquiagem de estúdio, valorizando a crueza e o peso histórico da performance. Já Análise de Destaques e Narrativa dos Músicos (três eixos-chave) dentro da tradição dos Songsters (Mississippi John Hurt & Mance Lipscomb): Armados com violões acústicos, esses músicos executavam a técnica de fingerpicking sincopado, onde o polegar marcava um baixo alternado constante e os demais dedos dedilhavam melodias complexas. O resultado era uma sonoridade doce, melódica e narrativa, utilizada para contar lendas de heróis populares (como John Henry) ou tragédias passionais. Work Songs e Field Hollers (O ritmo do trabalho): Faixas frequentemente gravadas a cappella ou acompanhadas apenas pelo som de machados e enxadas batendo na terra. A ausência de instrumentos melódicos destaca a estrutura de "chamada e resposta" (call and response), revelando como o compasso musical era estritamente ditado pelo esforço físico e pela sobrevivência diária. String Bands e Jug Bands (A polirritmia comunitária): A instrumentação aqui é de uma inventividade caótica e brilhante. Músicos utilizavam o que estava à mão: violinos (fiddles), banjos, tábuas de lavar roupa (washboards) arranhadas com dedais de costura e garrafões de barro (jugs) soprados para simular o som de um contrabaixo. A narrativa sonora é festiva, densa e coletiva. Curiosidade de bastidor e narrativa dos músicos (fato raro) mostra as penitenciárias como cápsulas do tempo e o violão de 12 cordas um dos fatos mais fascinantes da pesquisa folclórica documentada nestes registros é que as fazendas-prisões do Sul (como a famigerada penitenciária de Angola, na Louisiana) funcionaram como ironicamente perfeitas "cápsulas do tempo" culturais. Devido ao isolamento extremo e à ausência de rádios, os prisioneiros preservaram cantigas de trabalho do século XIX intactas, imunes às influências do jazz e do pop emergentes nos anos 1930. Foi nesse ambiente hostil que pesquisadores gravaram a força primeva de Huddie "Lead Belly" Ledbetter. Lead Belly utilizava um massivo violão Stella de 12 cordas, afinado vários tons abaixo do padrão, o que lhe conferia um rugido grave e ressonante que competia, em volume e agressividade acústica, com o som de um piano de armário. Conexão evolutiva dentro da grandiosidade da coleção na vasta arquitetura de Les Triomphes du Blues, o Volume 12 atua como a Pedra de Roseta de toda a obra. Se os volumes anteriores mapearam as ramificações e os galhos frondosos da árvore do blues, este disco revela suas raízes profundas encravadas na terra. Ele demonstra que antes de se tornar uma estrutura formal de doze compassos comercializada em discos de 78 RPM, o blues era, essencialmente, a respiração oral e folclórica de um povo documentando sua própria história. “O Volume 12 de Les Triomphes du Blues abandona o palco iluminado para nos levar de volta à poeira do campo, lembrando-nos que o som moderno da América nasceu do suor, da madeira rústica e do poder inquebrável da tradição oral.”
Boa audição - Namastê



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