Mostrando postagens com marcador Count Basie. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Count Basie. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Boxset: Triumphs Of The Blues (Box Set 20xCD)

As proximas postagens traz em sua integra o ambicioso box set "Triumphs Of The Blues" (frequentemente catalogado sob o título europeu/francês "Les Triomphes du Blues", lançado pelo selo Habana/distribuições especializadas) representando um marco colossal na arquivística fonográfica do gênero. Composto por 20 CDs remasterizados e  apresentados em embalagens individuais (cardboard sleeves), esta coleção funciona menos como uma simples coletânea comercial e mais como um verdadeiro museu portátil da música afro-americana, mapeando a evolução do blues desde as raízes rurais do Delta do Mississippi até as metrópoles industriais do pós-guerra. O contexto histórico e curadoria no início dos anos 2000, uma época áurea para a salvaguarda de arquivos fonográficos históricos, o box adota uma abordagem temática e geográfica estrito-sensu. Diferente de coletâneas cronológicas lineares, "Triumphs Of The Blues" agrupa os discos por escolas regionais, subgêneros e papéis de gênero (como o protagonismo feminino). O mérito crítico da curadoria evita os clichês puramente comerciais ao resgatar gravações raras de 78 RPM (muitas delas licenciadas de catálogos de preservação rigorosa, ecoando o rigor de selos como a Document Records) trazendo a crítica técnica no processo de remasterização lida admiravelmente bem com o ruído de fundo inerente aos acetatos e matrizes dos anos 1920 e 1930, embora em alguns discos os filtros de redução de ruído (noise reduction) possam suprimir sutilmente a "respiração" original dos instrumentos acústicos. Já a estrutura de conteúdo por blocos temáticos (panorama dos 20 CDs), em buscar análise de um volume tão vasto, a obra pode ser dividida criticamente em cinco grandes pilares estéticos: 01: As raízes rurais e a diáspora do Delta (Ex: CDs dedicados ao Delta, Mississippi e Country Blues) com destaques na imortalização de lendas primordiais como Charley Patton, Robert Johnson, Son House e Bukka White perfazendo o coração telúrico do box, onde o violão slide e as letras de forte teor confessional e místico moldam o arquétipo do bluesman. 02:  A vertente Texana e o virtuosismo do violão (Ex: Texas Blues) com destaques ao focar na sofisticação melódica de Blind Lemon Jefferson e na transição para o jazz e o R&B com T-Bone Walker, cujos acordes prefiguraram a era da guitarra elétrica. 03: O empoderamento e o monopólio das grandes vozes femininas (Ex: Chanteuses de Blues / Classic Blues) com destaques aos  volumes essenciais que resgatam matronas e pioneiras do 'vaudeville blues' como Bessie Smith, Ma Rainey, Memphis Minnie, Ethel Waters e incursões de jazz com Billie Holiday e Ella Fitzgerald  desmistificando a ideia de que o blues inicial era um reduto exclusivamente masculino. 04: A eletrificação e a mutação urbana (Chicago, Detroit e Jump Blues) com destaques ao mapeiar a migração em massa dos negros do sul rural para o norte industrial. John Lee Hooker (Boogie Chillen), Muddy Waters e nomes do jump blues e piano blues mostram como o ritmo ganhou volume para competir com o barulho dos juke joints urbanos. 05: O aprofundamentos regionais e mestiçagens com destaques de discos dedicados às ramificações da Louisiana, Costa Leste (East Coast Blues) e harmonica Blues, demonstrando a versatilidade de um gênero que se adaptava a cada microclima cultural dos Estados Unidos. Já a curiosidades e análise crítica de produção é o Enigma do Embalamento. O formato original em caixas de papelão minimalistas priorizou o apelo de colecionador purista europeu, embora exija cuidado extremo no manuseio para evitar o desgaste das mídias. O impacto documental é historicamente na caixas com essa amplitude serviram na virada do milênio para introduzir a nova geração de ouvintes digitais à vastidão pré-bélica do blues, preenchendo lacunas que compilações de uma única gravadora (como RCA ou Columbia) isoladamente não conseguiam cobrir. O ponto fraco fica na ausência de um libreto (liner notes) multilíngue e fartamente ilustrado em algumas tiragens limitadas, diminui o escopo acadêmico do produto e exigindo que o ouvinte recorra a enciclopédias externas para contextualizar a discografia de cada faixa. Minha avaliação de audiofilo e curador de anos do genero. Minha  avaliação de “Triumphs Of The Blues" não fica apenas em uma caixa de CDs exposata na estante sem uso continuo mas uma monumental arqueologia sonora, documentando o momento em que a dor da segregação e do trabalho braçal se transformou na fundação de toda a música popular ocidental contemporânea.” Veredito: Indispensável para historiadores de música, universidades, colecionadores sérios e amantes da arte dos dozes compasos. Minha nota Técnica/Artística: 9.2 / 10 (Perde décimos apenas pela esparsa documentação de texto em edições específicas, compensada integralmente pela altíssima relevância do repertório sonoro resgatado).
 

Boa audição - Namastê


segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Boxset: La Grande Histoire Du Jazz, do Ragtime ao Swing 1898-1952 (25CDs)

Lançamento: 2009
Selo: Le Chant du Monde 
Gênero: Swing, Ragtime, Big Band, Early Jazz, New Orleans Jazz, Dixieland, Harlem Stride Piano, Gipsy Jazz (Jazz Manouche), Negro Spirituals/Gospel


A fronteira final: O Jazz como abstração e a desconstrução da forma nodécimo oitavo volume da coleção "La Grande Histoire du Jazz" é a  representação ápice da coragem estética. Se o volume anterior foi o ensaio para a ruptura, o CD 18 é o documento da desconstrução plena. Aqui, o Jazz atravessa o espelho: a estrutura que serviu de esqueleto por mais de meio século (o standard, a progressão harmônica, a métrica 4/4) é deixada de lado em favor de uma busca pela essência do som em si. Estamos diante do Jazz como filosofia pura e gesto absoluto. O pano de fundo deste volume é uma era de inquietação intelectual, estética dominante e a ausência de fronteiras. O contraste não é mais entre "o que é jazz" e "o que não é", mas entre a "forma" e o "fluxo", culturalmente o jazz aqui se liberta do seu compromisso com a funcionalidade (dançar, entreter, ser melódico) para assumir o papel de veículo de uma expressão transcendental. É o jazz como espelho da psique humana: fragmentado, por vezes caótico, frequentemente sublime. A técnica, neste estágio torna-se invisível para servir ao conceito: A liberação do tempo, a métrica deixa de ser uma grade para se tornar uma correnteza, o pulso existe, mas é maleável; ele se expande e se contrai conforme a intensidade emocional do solista, desafiando a percepção linear do tempo do ouvinte. A abstração melódica no tema é, muitas vezes, apenas uma sugestão, uma "âncora" para o abandono onde o solista não toca "sobre" a música; ele é a música, criando novas lógicas melódicas em tempo real que não devem satisfação a nenhuma tonalidade prévia. A coletividade orgânica na hierarquia entre líder (solista) e acompanhante (seção rítmica) dissolve-se, o que ouvimos é um organismo coletivo, uma conversa onde todos falam e todos escutam simultaneamente, criando um tecido sonoro denso, complexo e profundamente interdependente. O som como matéria e o uso de técnicas estendidas — o grito, o sussurro, o uso de harmônicos incomuns — revela um desejo de extrair do instrumento timbres que não fazem parte do vocabulário convencional do jazz, tratando o instrumento quase como uma voz humana que chora, ri ou indaga. A resistência do "sistema" é fascinante notar neste volume como a tecnologia de gravação teve de se adaptar para captar uma música que desafiava os níveis de volume tradicionais. O som deste CD é visceral; é possível ouvir o esforço físico, a respiração e a tensão nas cordas — o "corpo" da música está gravado aqui. O estúdio como ágora: As sessões documentadas neste CD funcionam menos como "gravações comerciais" e mais como registros de um ritual. O ambiente de estúdio, muitas vezes austero, torna-se o espaço sagrado onde o músico se confronta com a página em branco, armado apenas com a sua intuição. A rejeição como método em muitas dessas faixas desafiavam as expectativas da indústria fonográfica da época. A inclusão deste material na Grande Histoire du Jazz é uma validação histórica de que a verdadeira história do jazz é, na verdade, a história da resistência contra a norma. O CD 18 é o volume da transcendência. Documentalmente, ele é crucial por provar que o Jazz é uma das poucas formas de arte que conseguiu, em menos de uma vida humana, percorrer todo o caminho da infância folclórica à maturidade da abstração radical. Para o ouvinte, este volume não é um "descanso"; é uma provocação. Ele nos lembra que a música não existe apenas para nos agradar, mas para nos expandir, forçando-nos a ouvir o que há além das notas. Após explorarmos este limite da abstração sonora, pergunto a você: nesta fase em que o jazz se torna uma linguagem tão profunda e autorreferencial — quase uma arte hermética —, você acredita que ele finalmente completou sua missão de ser "a arte absoluta", ou você vê essa abstração total como o início de um isolamento que, em última análise, retira do jazz a sua capacidade de ser um reflexo compartilhado da experiência coletiva humana?


Boa audição - Namastê

sexta-feira, 31 de julho de 2026

Boxset: La Grande Histoire Du Jazz, do Ragtime ao Swing 1898-1952 (25CDs)


Lançamento: 2009
Selo: Le Chant du Monde 
Gênero: Swing, Ragtime, Big Band, Early Jazz, New Orleans Jazz, Dixieland, Harlem Stride Piano, Gipsy Jazz (Jazz Manouche), Negro Spirituals/Gospel 


O ponto de inflexão na vanguarda que redefine o horizonte no décimo sétimo volume desta coleção funciona como o contraponto necessário ao classicismo do CD16. Se o volume anterior celebrou a maturidade e a economia do Jazz, este CD 17 é a evidência documental de que, mesmo quando o Jazz se torna uma "linguagem clássica", o seu instinto mais profundo é a rebeldia. Estamos no limiar de um período onde a estrutura começa a ser vista não como um alicerce, mas como uma fronteira a ser cruzada. Este volume registra a inquietação que pavimentou o caminho para as explorações modais e a liberdade total que definiriam a década seguinte. O pano de fundo deste CD é o descompasso criativo. Enquanto o mercado e o público consolidavam o Jazz como uma forma de arte respeitável (e por vezes conservadora) os músicos inseridos neste volume buscam deliberadamente a "saída". A estética é marcada por uma tensão fascinante: a disciplina técnica absoluta sendo utilizada para subverter a própria harmonia que a sustenta. É um momento em que a música abandona o conforto da previsibilidade em favor da aventura estética. A evolução técnica aqui documentada é um estudo sobre a desterritorialização do Jazz: A harmonia como suggestão no conceito de "acorde" começa a perder seu papel de ditador e o músico deixa de seguir a progressão de forma linear para flutuar ao redor dela tratando a harmonia como uma cor ou uma textura em vez de um destino obrigatório. O advento do "lirismo angular" nas linhas melódicas tornam-se menos previsíveis, uma valorização do intervalo do salto e da síncope inesperada criando uma narrativa que soa quase como um diálogo filosófico, onde a pergunta e a resposta musical ocorrem em níveis de complexidade elevada. A percussão como "interrupção" na bateria neste volume abandona o papel de mantenedor do pulso constante atuando como um elemento de surpresa e pontuando o silêncio desafiando o solista a encontrar caminhos rítmicos que não dependam da métrica convencional. O arranjo de "câmara livre" nas formações de quarteto e quinteto  funcionam como núcleos de improvisação coletiva onde arranjos é apenas o tema inicial; o que importa é a negociação constante entre os músicos durante o desenrolar da peça. A "fricção" estética é possível sentir neste volume na resistência que esses músicos enfrentavam em um ambiente que já desejava que o Jazz fosse apenas "bonito". Este CD é o registro dessa resistência, capturando momentos onde a nota "errada" é, na verdade, a mais honesta. A ciência do som na engenharia de som demonstra uma preocupação maior em capturar a dinâmica orgânica da sala do que em criar uma sonoridade "limpa" e artificial. O resultado é uma proximidade visceral, como se estivéssemos assistindo a essas sessões em estúdios enfumaçados de Nova York. O legado da busca em muitas dessas faixas, embora fossem vistas como "experimentais" na época tornaram-se hoje os pilares sobre os quais toda a música improvisada moderna se sustenta. Este volume documenta o momento exato em que o Jazz deixou de ser uma "forma" para se tornar um "método de exploração". O CD17 é o volume da coragem. Ele é indispensável por provar que o Jazz, ao contrário de qualquer outro gênero musical, possui um mecanismo interno de autodestruição e renascimento que o impede de morrer. Documentalmente, ele registra a transição de um gênero que sabia "falar" para um gênero que aprendeu a "questionar". É uma audição obrigatória para quem deseja entender que a beleza, no Jazz, não reside apenas na harmonia, mas na força de vontade do artista em buscar o desconhecido. Observando este volume que coloca o Jazz na corda bamba entre o classicismo e a vanguarda, pergunta que fica é: se o Jazz por natureza, é um gênero que se alimenta da mudança, você acredita que chegaremos a um ponto em que a própria ideia de "Jazz" será tão elástica que ele deixará de existir como categoria, fundindo-se inteiramente com a ideia de "música livre" sem rótulos?

Boa audição - Namastê

segunda-feira, 27 de julho de 2026

Boxset: La Grande Histoire Du Jazz, do Ragtime ao Swing 1898-1952 (25CDs)


Lançamento: 2009
Selo: Le Chant du Monde 
Gênero: Swing, Ragtime, Big Band, Early Jazz, New Orleans Jazz, Dixieland, Harlem Stride Piano, Gipsy Jazz (Jazz Manouche), Negro Spirituals/Gospel


Além da fronteira do Jazz em expansão e o legado do futuro, o décimo quinto volume da La Grande Histoire du Jazz atua como um epílogo reflexivo, uma nota de rodapé necessária após o encerramento do recorte cronológico principal da coleção (1898-1952). Se o CD14 foi a síntese da perfeição clássica, o CD 15 funciona como uma "cápsula do tempo" voltada para as ramificações e os ecos que essa era de ouro deixou. É o volume que conecta o fim da era clássica ao despertar das experimentações que definiriam as décadas de 50 e 60, servindo como uma ponte entre o jazz como "gênero" e o jazz como "idioma universal". O pano de fundo deste volume é a "dissipação da norma". Com as barreiras técnicas derrubadas e a linguagem moderna estabelecida, o jazz passa a buscar novos territórios. A estética aqui é a da diversificação. Observamos o início da influência da música afro-cubana, a expansão do Cool em direção a estruturas mais modais e a exploração do jazz como trilha sonora da inquietação moderna. O contraste estético é a liberdade: o músico já não precisa mais se preocupar em definir o que é jazz, mas sim em como utilizá-lo para explorar novos horizontes de significado. A construção do gênero e a evolução técnica neste volume revela a transição para um jazz que não teme a sua própria complexidade: A abstração melódica onde o solista deixa de ser um "contador de histórias" dentro de uma harmonia pré-definida para tornar-se um "arquiteto de formas". As melodias começam a se tornar mais fragmentadas, mais espaciais, dando ao ouvinte o espaço necessário para a contemplação. O arranjo como Paisagem na instrumentação começa a expandir-se. Introduzem-se timbres menos usuais, e o diálogo entre os instrumentos deixa de ser uma conversa linear para se tornar uma tapeçaria de texturas onde a improvisação acontece tanto na melodia quanto na própria ambientação sonora. O ritmo como variável, a rigidez do compasso começa a ser sutilmente desafiada na seção rítmica aqui já não dita apenas o "tempo", mas oferece uma base pulsante que o solista pode esticar, dobrar ou ignorar completamente, criando uma sensação de tempo elástico. A fusão de idiomas começa a dialogar abertamente com outras tradições (o Caribe, o folclore americano, a música de câmara), provando ser a linguagem mais hospitaleira de todas. O "eco" da Rua 52ª é comovente notar como, mesmo nesta fase de expansão, as gravações mantêm a "intenção" dos pioneiros dos volumes anteriores. É como se, em cada nota, pudéssemos ouvir o fantasma de Nova Orleans ou a urgência do Bebop, confirmando que o jazz nunca esquece suas raízes, mesmo quando decide abandoná-las. A tecnologia como liberdade beneficia-se de uma fase da engenharia de som onde o objetivo era o "Hi-Fi" (alta fidelidade). A clareza dos agudos, a profundidade dos graves e a separação dos instrumentos permitem que o ouvinte perceba detalhes da técnica que, em 1920, seriam perdidos pelo ruído da cera. A "biblioteca" do Jazz funciona como um índice revisita em temas que se tornaram pedras angulares do gênero, interpretados com a maturidade de músicos que já não precisam tocar para provar sua virtuosidade, mas para realizar uma busca estética. O CD15 é, fundamentalmente, o volume da liberdade. Documentalmente, ele encerra a coleção não como uma linha de chegada, mas como uma plataforma de lançamento. Ele prova que o jazz, ao longo do meio século documentado nesta série, evoluiu de uma forma folclórica para uma das linguagens mais flexíveis e potentes da humanidade. É a celebração de um gênero que, tendo aprendido todas as regras, adquiriu a sabedoria necessária para, finalmente, quebrá-las sem perder a essência. Após analisarmos esta jornada completa de mais de 50 anos, pergunto a você: olhando para todo o legado documentado, do primeiro ragtime até esta fase de abertura total, qual foi o elemento que, em sua análise, permaneceu a "constante imutável" que permite identificarmos algo como Jazz, independentemente de quão complexa ou experimental a música tenha se tornado.

Boa audição - Namastê

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Boxset: La Grande Histoire Du Jazz, do Ragtime ao Swing 1898-1952 (25CDs)

Lançamento: 2009
Selo: Le Chant du Monde 
Gênero: Swing, Ragtime, Big Band, Early Jazz, New Orleans Jazz, Dixieland, Harlem Stride Piano, Gipsy Jazz (Jazz Manouche), Negro Spirituals/Gospel


O epílogo da era de ouro: O Jazz no limiar da modernidade total no décimo quarto volume da coleção "La Grande Histoire du Jazz" atua como o fecho de um arco histórico que começou em 1898. Situado no início da década de 1950, este CD documenta o momento em que a linguagem do jazz atingiu um estado de estabilidade técnica tão elevado que o gênero pôde, finalmente, se fragmentar em múltiplas direções sem perder a sua identidade. Estamos diante da crônica de um encerramento: o fim de uma era onde o jazz ditava o ritmo do mundo para a entrada em um período onde o jazz passaria a ditar o ritmo da consciência artística. A temática do pano de fundo deste volume é o pós-guerra consolidado. A estética é marcada por uma profunda serenidade técnica. Contrastando com a agitação dos volumes anteriores, o CD14 reflete uma música que não precisa mais provar nada. Culturalmente, o jazz aqui já é uma instituição: os clubes perderam o seu caráter de "submundo" para se tornarem centros de cultura respeitados. A temática predominante é a exploração das possibilidades da "forma livre" dentro de parâmetros harmônicos rigorosos, um equilíbrio que reflete a estabilidade social desejada pela geração do pós-guerra. A construção e a evolução técnica neste volume revela um refinamento que roça a perfeição: A "filigrana" do solo: Os solistas neste volume não buscam apenas a nota certa mas a nota mais bonita. O fraseado torna-se mais contido, com um uso magistral do silêncio como elemento rítmico. O arranjo camaleônico da orquestração torna-se extremamente sutil. Os naipes não atuam mais como blocos pesados de som, mas como texturas que se entrelaçam. É o triunfo da polifonia moderna. O papel da seção rítmica da bateria atinge aqui o que poderíamos chamar de "independência total". O pulso rítmico não é mais uma imposição, mas uma sugestão. Baixistas e bateristas operam como equalizadores dinâmicos, respondendo ao menor toque do solista com uma precisão que só décadas de prática poderiam produzir. A integração do "Cool" e "Bop" o antagonismo entre a Costa Leste e a Costa Oeste desaparece e o que ouvimos é uma amálgama: a vivacidade do Bebop com a elegância contemplativa do Cool. É a síntese definitiva do jazz moderno. Curiosidades históricas do  registro do fim de ciclo sendo o volume que fecha o recorte cronológico da coleção (1898-1952), este CD carrega uma aura de conclusão. As gravações aqui presentes possuem um nível de clareza sonora que, comparado às faixas de 1898, demonstra o salto tecnológico absurdo que o gênero testemunhou em apenas meio século. A preservação da "mística" de muitas dessas gravações foram feitas por engenheiros de som que começavam a entender o jazz não apenas como música mas como uma forma de performance humana única. A captura da ambiência dos estúdios desta época criou uma assinatura sonora que, até hoje, é o padrão de ouro para audiófilos. A transição para o Long-Play mosta nestodo volume marca a era da transição plena para o disco de longa duração (LP) com possibilidade de gravar faixas mais longas permitiu que os artistas desenvolvessem argumentos musicais complexos, algo que o limite dos três minutos do 78 rpm impedia, dando a este volume um sentido de "suíte" ou "narrativa completa". O CD14 é o testemunho final de uma jornada monumental onde documentalmente é a prova de que o Jazz não é uma música estática, mas um organismo vivo encerrando o recorte 1898-1952 com uma nota de otimismo e complexidade, deixando o ouvinte com a certeza de que o jazz, após 54 anos de evolução, estava pronto para qualquer desafio. É a conclusão de um capítulo da história da música que, ao ser finalizado, imediatamente abriu as portas para tudo o que viria nas décadas seguintes. Como tendo percorrido conosco esta vasta cronologia até 1952, como você definiria o legado que este CD14 deixa para a música contemporânea: o jazz como uma "forma fechada" e clássica que atingiu sua perfeição, ou como um "processo aberto" que, ao encerrar esse ciclo, tornou-se livre para ser reinterpretado por qualquer cultura ou época futura?


Boa audição - Namastê

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Boxset: La Grande Histoire Du Jazz, do Ragtime ao Swing 1898-1952 (25CDs)

Lançamento: 2009
Selo: Le Chant du Monde 
Gênero: Swing, Ragtime, Big Band, Early Jazz, New Orleans Jazz, Dixieland, Harlem Stride Piano, Gipsy Jazz (Jazz Manouche), Negro Spirituals/Gospel


O estio do Jazz: O equilíbrio entre a vanguarda e o lirismo narca o décimo terceiro volume da coleção "La Grande Histoire du Jazz" situabdo-se em um momento de consolidada sofisticação pós-revolucionária. Se os volumes anteriores documentaram a ruptura sísmica do Bebop, este reflete um período de "sedimentação". Aqui, a linguagem moderna já está assimilada; os músicos não precisam mais provar sua capacidade técnica através da velocidade excessiva e o jazz entra em uma fase de reflexão onde o timbre, a melodia e o arranjo recuperam o protagonismo, sem, contudo, abandonar a complexidade harmônica conquistada. A temática do pano de fundo deste volume é a "era da introspecção", o jazz dos anos 40 tardios e início dos 50, registrado aqui, revela uma estética que transita entre a urgência urbana de Nova York e o surgimento de uma sensibilidade mais lírica. Há um nítido contraste entre a ferocidade de antigamente e uma nova calma, quase cinematográfica. Culturalmente, o jazz começa a se estabelecer como uma arte que demanda escuta profunda, apropriando-se dos clubes e teatros como espaços de contemplação. A construção do gênero e a evolução técnica documentada neste volume é um estudo de polimento e refinamento: O ressurgimento da melodia após a desconstrução quase hermética do início do Bebop, este volume mostra como os solistas redescobriram o valor do espaço e da pausa. As frases musicais tornam-se mais desenhadas, com um sentido de forma que busca o equilíbrio entre o inesperado e o familiar. A "cor" orquestral observa-se um uso mais criativo dos instrumentos menos convencionais e uma atenção maior à textura sonora como a maneira do piano "enquadra" o solista em acordes dispostos de forma mais espaçada e harmônicas menos ruidosas, confere à música uma elegância que define o início do Cool Jazz. O domínio do estúdio na gravação torna-se, de fato, um instrumento em si. As técnicas de equalização e a proximidade da microfonação começam a ser usadas para destacar as nuances do toque — o ar no saxofone, o ataque preciso na tecla do piano, a textura das escovinhas na bateria. A estrutura do "Standard" do jazz aqui consolida o uso dos standards (canções do cancioneiro americano) como plataforma para a improvisação profunda, elevando essas melodias a novos patamares de complexidade harmônica. A persistência do Blues, apesar de toda a modernização harmônica, é fascinante notar como o blues nunca desaparece do vocabulário desses músicos. Ele permanece como a "espinha dorsal" invisível, a gramática básica que mantém a música aterrada, não importa quão longe o solista vá em suas explorações melódicas. A transição do "Bop" para o "Cool" traz neste CD funcional como uma crônica da transição entre a "quente" energia da 52ª Rua e o novo som mais "frio" que começava a emanar dos estúdios da Costa Oeste. É possível ouvir, faixa a faixa, a mudança de paradigma na escolha das notas e na intenção do fraseado. O nascimento do intérprete como "Auteur", mais do que nunca, os nomes presentes neste volume começam a ser vistos não apenas como instrumentistas, mas como curadores de um som pessoal. A assinatura sonora de cada solista torna-se seu maior patrimônio. O CD13 é um triunfo de maturidade artística. Documentalmente, ele é a prova de que o Jazz, ao se tornar mais refinado, não perdeu sua alma, mas ganhou em profundidade. É um registro essencial para entender como a música de improviso evoluiu de um exercício de bravura para uma forma de meditação sonora. Para o ouvinte, este volume oferece a satisfação de uma música que é, ao mesmo tempo, intelectualmente desafiadora e esteticamente reconfortante. Como observando esta fase em que o jazz começa a abraçar o lirismo e o refinamento harmônico, você consideraria essa tendência como uma "domesticacão" da energia selvagem do Bebop, ou como a etapa final da evolução do jazz em direção a uma forma de arte absoluta, capaz de comportar qualquer nível de complexidade sem perder a elegância?


Boa audição - Namastê

segunda-feira, 20 de julho de 2026

Boxset: La Grande Histoire Du Jazz, do Ragtime ao Swing 1898-1952 (25CDs)

Lançamento: 2009
Selo: Le Chant du Monde 
Gênero: Swing, Ragtime, Big Band, Early Jazz, New Orleans Jazz, Dixieland, Harlem Stride Piano, Gipsy Jazz (Jazz Manouche), Negro Spirituals/Gospel

O refinamento da revolução, a maturidade do Bebop e o surgimento do Cool são abordagem no décimo segundo volume da coleção "La Grande Histoire du Jazz", situando-se em um momento de equilíbrio delicado: a consolidação da linguagem do Bebop e o surgimento das primeiras sementes de uma estética oposta, o Cool Jazz. Se o volume anterior foi o grito de independência da nova vanguarda, o CD12 é o registro da sua maturidade. Estamos na metade final dos anos 40, um período em que a agressividade inicial do Bop começa a ceder lugar a uma nova elegância, e onde a busca por um fraseado mais lírico e estruturado passa a ocupar a mente dos grandes improvisadores.O pano de fundo deste CD é o amadurecimento dos clubes de jazz como templos de escuta, a estética marcada pelo contraste entre a intensidade frenética — que ainda dita o pulso da época — e um novo intelectualismo que valoriza o silêncio, a economia de notas e a precisão tonal. É um momento de respiro após a revolução. Culturalmente, o jazz começa a absorver influências da música erudita ocidental, buscando legitimidade através de harmonias mais complexas e arranjos que flertam com o impressionismo. A construção do gênero e evolução técnica apresentada neste volume reflete uma sofisticação na exploração dos recursos musicais: A "lógica" do pmproviso deixa de ser apenas uma demonstração de velocidade para se tornar uma construção temática. Os solistas deste volume demonstram uma capacidade única de desenvolver motivos melódicos ao longo do solo, algo que diferencia os mestres dos meros virtuosos. A textura dos grupos uma diversificação nos tamanhos dos grupos. Enquanto os trios de piano e os quintetos de sopro se tornam o padrão ouro, percebemos um uso muito mais criativo do piano como instrumento de acompanhamento, introduzindo acordes com voicings (disposições de notas) cada vez mais densos e modernos. O controle do tom, a busca pela pureza sonora é evidente. O vibrato quase banido no auge do Bebop, começa a ser utilizado de forma parcimoniosa, revelando um cuidado com a "cor" da nota que prenuncia a era do Cool. A interação rítmica na seção rítmica aqui é quase telepática con o diálogo entre o baterista, o baixista e o pianista é constante, criando um fluxo sonoro onde o tempo não é algo rígido, mas uma entidade orgânica que respira conforme a narrativa do solista. Curiosidades históricas da "Era de Ouro" das Jam Sessions: O volume capta a atmosfera das jam sessions que se tornaram mais organizadas. É um período em que os músicos, agora cientes de que estavam criando uma nova tradição, começam a registrar com mais cuidado as suas descobertas, elevando o status do músico de jazz a um nível de "artista de estúdio". A influência da gravação em Long-Play (LP) embora o formato de 78 rpm ainda dominasse a transição tecnológica para o LP verdaeiranebte dito começou a pairar no horizonte, permitindo que os artistas pensassem em solos mais longos e estruturas narrativas menos limitadas pelo tempo físico. Este CD reflete essa ambição de "dizer mais". Já o dialogo entre escolas é fascinante observar neste volume como a energia da Costa Leste (Nova York) começa a dialogar com as propostas mais contidas e líricas que começavam a surgir na Costa Oeste (Califórnia). Este CD é um mapa desse intercâmbio. O CD12 é, documentalmente o atestado de que o Jazz não só sobreviveu à sua própria revolução como floresceu através dela. Ele registra um momento de transição em que a música tendo alcançado a liberdade radical, decide usar essa liberdade para construir beleza e complexidade estruturada. Para o ouvinte este volume oferece a satisfação de uma música que atingiu o seu estágio de "clássico" moderno: tecnicamente irrepreensível, emocionalmente profunda e historicamente inquestionável. Como historiador musical, observando como o Bebop começou a "se acalmar" e abrir espaço para o nascimento de estéticas mais líricas neste décimo segundo volume, então fica a pergunta: você diria que o Jazz, ao se tornar mais "clássico" e intelectualizado nesta fase, perdeu definitivamente a sua capacidade de se conectar com a visceralidade do Blues, ou acredita que o Blues apenas se transformou em uma estrutura invisível, mais interna e sofisticada, que continua a sustentar tudo o que ouvimos aqui?


Boa audição - Namastê

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Boxset: La Grande Histoire Du Jazz, do Ragtime ao Swing 1898-1952 (25CDs)


Lançamento: 2009
Selo: Le Chant du Monde 
Gênero: Swing, Ragtime, Big Band, Early Jazz, New Orleans Jazz, Dixieland, Harlem Stride Piano, Gipsy Jazz (Jazz Manouche), Negro Spirituals/Gospel


A aurora da modernidade no nascimento da linguagem do Bebop Introduz o décimo primeiro volume dessa coleção marcando o ponto de inflexão mais drástico na cronologia do gênero. Se o CD 10 foi o crepúsculo das grandes orquestras, este CD é a aurora da revolução do Bebop. Estamos no meio da década de 1940, um período de radicalização estética onde o jazz abandona definitivamente o seu papel de música de dança para assumir o seu lugar como arte de vanguarda. Este volume captura a transição definitiva da "música de entretenimento" para o "jazz como discurso artístico". O pano de fundo é a atmosfera de fervura intelectual dos clubes da 52ª Rua em Nova York. A estética deste volume é marcada pela tensão e urgência. Há um contraste absoluto entre a cadência relaxada do Swing e a angústia frenética e tecnicamente exigente desta nova linguagem. O jazz deixa de ser o conforto das pistas de baile para se tornar um desafio auditivo. É uma música urbana, noturna, cerebral, que reflete a ansiedade do pós-guerra e a busca de uma identidade negra artística que não dependesse da aprovação da indústria de entretenimento comercial. A evolução técnica apresentada neste volume é uma verdadeira desconstrução dos pilares anteriores na abstração Harmônica onde os músicos começam a utilizar as extensões dos acordes (as nonas, décimas primeiras e décimas terceiras) não como enfeites, mas como a base melódica. A harmonia torna-se "cromatizada", com passagens rápidas que exigem um domínio absoluto do instrumento. A rítmica "decomposta", a bateria anteriormente o metrônomo da orquestra torna-se um instrumento de comentários com o uso do bumbo para "acentos inesperados" (os famosos bombs de bebop) e a condução fluida no prato de ride criam um pulso que não é mais de dança, mas de pura energia cinética. O fraseado "Dizziano" tornam-se longas, irregulares e assimétricas. A ideia não é mais terminar a frase no tempo forte, mas cruzá-lo, criando uma sensação de constante movimento para frente, típica da linguagem de mestres como Dizzy Gillespie ou Charlie Parker. O fim do arranjo de bloco, estrutura baseada em riffs orquestrais dá lugar à estrutura de Head-Solo-Head. O tema é exposto de forma uníssona e complexa (muitas vezes vertiginosamente rápida), seguida de uma série de solos que ignoram a melodia original para explorar apenas a estrutura harmônica subjacente. A estética da "irritabilidade", diz a lenda que o Bebop foi criado em parte para desencorajar a dança pois os músicos ficavam exaustos de tocar para um público que via a música apenas como trilha sonora para beber e dançar. O volume é um testemunho sonoro desse "afastamento" proposital. O ambiente de gravação de muitas dessas sessões foram gravadas em condições precárias em estúdios pequenos de Nova York. Isso, ironicamente conferiu ao Bebop uma sonoridade crua, direta e "spiky" (pontuda) que combina perfeitamente com a agressividade intelectual da música. A nova geração funciona como o batismo de uma nova linhagem de instrumentistas que viam o jazz como uma ciência. É fascinante ouvir como eles tratam a improvisação como uma forma de composição em tempo real, onde cada erro é uma oportunidade de re-harmonização. O CD11 é a peça mais corajosa desta coleção. Documentalmente, ele registra o momento em que o jazz escolheu a liberdade sobre a popularidade. É uma lição de história sobre como um gênero musical, ao atingir o seu ápice comercial, prefere destruir a si mesmo e renascer em uma forma mais pura e complexa do que se submeter à estagnação. Este volume não é apenas música; é um manifesto de independência artística, transição para o Bebop contida neste volume diria que a perda do público de massa foi um "preço inevitável" para que o jazz fosse finalmente reconhecido como uma forma de arte erudita, ou acredita que foi um erro tático que isolou o gênero num gueto intelectual?

Boa audição - Namastê

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Boxset: La Grande Histoire Du Jazz, do Ragtime ao Swing 1898-1952 (25CDs)

Lançamento: 2009
Selo: Le Chant du Monde 
Gênero: Swing, Ragtime, Big Band, Early Jazz, New Orleans Jazz, Dixieland, Harlem Stride Piano, Gipsy Jazz (Jazz Manouche), Negro Spirituals/Gospel



O vértice da transição, declínio do esplendor e o nascimento do Bebop surge no décimo volume da coleção "La Grande Histoire du Jazz" não apenas o encerramento de um ciclo cronológico; é o registro sonoro de uma ruptura. Situado no limiar dos anos 40, este CD documenta o momento em que a força centrífuga do Jazz não pôde mais ser contida dentro das estruturas rígidas das Big Bands. Estamos no crepúsculo da "Era do Swing" e na aurora da revolução do Bebop — um momento em que a música, por uma necessidade de sobrevivência estética, começa a se tornar mais rápida, mais complexa e profundamente desafiadora. A temática do pano de fundo deste CD é um mundo em pleno conflito (Segunda Guerra Mundial), o que ironicamente acelerou a mutação do jazz. Com o racionamento de gasolina, a escassez de músicos devido ao recrutamento militar e o custo proibitivo de manter grandes orquestras em turnê, o jazz foi forçado a se "reduzir". A temática aqui é a transição da música para o baile (física) para a música para o intelecto (metafísica). Há uma tensão estética inegável entre o glamour residual do swing e a urgência nervosa dos solistas que, nas madrugadas, buscavam novas escalas e cromatismos. A construção do gênero e a  evolução técnica documentada é um estudo sobre a desconstrução da forma,  "Velocidade" como Expressão e a técnica dos solistas atinge aqui uma marca de velocidade que deixa de ser exibicionismo para tornar-se uma necessidade lógica frente às mudanças harmônicas mais rápidas. O Novo papel da bateria começa a abandonar o tempo "marcado" no bumbo para realizar o comping (acompanhamento rítmico variável), deslocando a marcação do tempo para o prato de condução — uma mudança técnica que deu aos solistas a liberdade melódica que o bebop exigia. Harmonias de substituição observa-se nos arranjos e solos uma exploração mais ousada de "substituições de acordes" levando o músico a não segue mais a harmonia óbvia da melodia original, mas "re-harmoniza" a peça em tempo real, criando uma tensão que exige do ouvinte uma escuta muito mais ativa. Do coletivo ao indivíduo enquanto nos volumes anteriores o arranjo era o "herói", aqui o arranjo passa a ser apenas um trampolim. O foco desloca-se completamente para a improvisação linear, onde a lógica melódica do solista dita a estrutura da música. A "ditadura" da gravação reflete as limitações impostas pela greve da AFM (American Federation of Musicians) de 1942-1944. A falta de registros oficiais de cantores durante este período faz com que muitas das gravações deste CD tenham um caráter de "raridade", capturando estéticas que, de outra forma, teriam se perdido na história. Os estúdios como "Zoneamento" aqui presentes foram realizadas em um ambiente de transição tecnológica. O som torna-se mais seco e direto, permitindo que a "fricção" das palhetas e o toque das baquetas nos pratos sejam ouvidos com clareza clínica, quase como se estivéssemos dentro da cabine de gravação. A mudança de Éthos, a transição observada é tão radical que é possível notar como os músicos da "velha guarda" e os "jovens turcos" (os futuros beboppers) dividiam os mesmos palcos. Este CD é o registro desse diálogo geracional tenso, onde o jazz se dividia entre ser uma indústria de entretenimento e um movimento artístico de vanguarda. O CD10 é documentalmente o registro de uma metamorfose. Se os volumes anteriores narraram a construção e o triunfo do jazz, este volume narra a sua libertação. É um documento indispensável porque encapsula o instante exato em que a música deixou de ser um produto de consumo imediato para se tornar uma linguagem autoral e introspectiva. Para o pesquisador ou o apreciador atento, este disco é o testemunho final de que a história do jazz não é linear; é uma sucessão de reinvenções provocadas pela inconformidade daqueles que, armados apenas com seus instrumentos, decidiram que o futuro não cabia nas formas do passado. Do ponto de virada capturado no volume 10 fica a pergunta: essa mudança para a complexidade técnica e intelectual, que sacrificou a dança em favor do virtuosismo puro, foi o movimento que "salvou" o jazz de se tornar uma música de museu, ou foi o fator que, em última análise, começou a afastar o jazz do grande público de massa?


Boa audição - Namastê

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Boxset: La Grande Histoire Du Jazz From Ragtime To Swing 1898-1952 (25 CDs)

Coleção: VA - La Grande Histoire Du Jazz From Ragtime To Swing 1898-1952  Configuração Física: Box Set Monumental contendo 25 CDs (Edição de 2010)  Selo Editorial: Le Chant du Monde (França) — Fundado em 1938  Métrica Documental: 1.677 faixas integralmente restauradas e remasterizadas  Aparelho Crítico: Livreto enciclopédico e analítico com 186 páginas  Formato Digital: FLAC (Free Lossless Audio Codec)

A análise crítica de uma antologia com a magnitude de La Grande Histoire Du Jazz exige o abandono de resenhas jornalísticas genéricas bem como o selo francês Le Chant du Monde executou uma verdadeira operação de arqueologia musical e preservação de patrimônio fonográfico global. O manifesto institucional e o rigor da curadoria chancela histórica o selo Le Chant du Monde e eleva o patamar desta obra de uma simples coletânea comercial para um tratado científico. A gravadora, célebre pela salvaguarda de patrimônios etnomusicológicos, aplicou um rigor acadêmico sem precedentes na seleção do material. A densidade numérica de 1.677 faixas prova que a coleção rejeitou o caminho fácil dos "maiores sucessos" com objetivo central de registrar a transição orgânica diária e as microevoluções estéticas do gênero. O livreto crítico de 186 páginas atua como a bússola teórica do ouvinte para cada sessão é destrinchada com datas exatas, locais de captação, matrizes originais e o detalhamento completo de pessoal (personnel). A cronologia de evolução e quebra de blocos para compreender como a coleção organiza mais de meio século de música, a estrutura abaixo mapeia as grandes eras e os eixos de transição registrados ao longo dos 25 CDs, observa a matriz cronológica e mutação estrutural do gênero, analisando as raízes sincopadas (1898 – 1917), era cadastrada compreende o recorte temporal focado na investigação da transição do Ragtime, das marchas militares e do Blues primitivo. Os principais artistas mapeados e responsáveis por fundamentar este período inicial são Vess L. Ossman, Arthur Pryor e Scott Joplin. Eras de ouro (1920s – 1930s), este ciclo histórico documenta a consolidação dos eixos urbanos de Chicago e Nova York, trazendo como foco de estilo a migração da polifonia primitiva para o protagonismo do solista virtuoso. Os principais artistas mapeados que lideraram essa transformação técnica são Louis Armstrong, Jelly Roll Morton e King Oliver. Explosão do Swing (1930s – 1940s), O recorte temporal em questão destaca o fenômeno de consolidação das Big Bands na indústria fonográfica, fixando seu estilo através de arranjos matemáticos complexos e alta precisão orquestral. Os principais artistas mapeados e regentes dessa engenharia sonora são Duke Ellington, Count Basie e Benny Goodman. Inflexão moderna (Anos 40 – 1952), era que encerra a cronologia tradicional delimita a transição definitiva da música coreográfica para uma dinâmica de audição atenta, marcando o exato nascimento da vanguarda moderna no jazz. Os principais artistas mapeados que romperam os padrões comerciais do período são Charlie Parker, Dizzy Gillespie e Billie Holiday. Arqueologia pré-Jazz e raridades documentadas o grande trunfo científico desta antologia reside em iniciar sua linha do tempo dezenove anos antes do primeiro disco oficial de Jazz (1917). O resgate fonográfico expõe as fundações do gênero de maneira cirúrgica.  Os pioneiros marginais ganham protagonismo técnico nos primeiros volumes. O virtuosismo técnico no banjo de Vess L. Ossman e as marchas militares sincopadas de Arthur Pryor são analisados sob uma ótica de continuidade histórica. A tese evolutiva da caixa prova que o Jazz não emergiu de uma ruptura cultural abrupta. Ele se consolidou como uma fusão sistemática entre as bandas de metais, os rolos de piano pneumático e os lamentos do Blues primitivo.O trabalho de detetive proporcionado pelo livreto permite rastrear "linhas de sangue" musicais, identificar um jovem solista obscuro na década de 1920 atuando como músico de apoio para, anos depois, reencontrá-lo como o regente de sua própria Big Band. Engenharia de áudio e restauração de sinal, resulta em um tratamento acústico aplicado a matrizes gravadas entre o fim do século XIX e meados do século XX representa um capítulo à parte na engenharia de som. Os técnicos enfrentaram suportes físicos severamente degradados. O resgate fino de cilindros de cera, discos de acetato e velhas matrizes de 78 RPM exigiu precisão matemática. A engenharia evitou o erro crasso de aplicar filtros de redução de ruído (noise reduction) agressivos onde esse erro comum costuma extirpar as frequências altas e silenciar o ambiente espacial original da gravação. A preservação em FLAC cumpre o papel de manter a integridade harmônica, garantindo o impacto percussivo original e o calor dos sopros na reprodução contemporânea. O ponto de Inflexão de 1952, o fechamento da cortina marco de escolha precisa do ano de 1952 como encerramento da caixa valida o rigor científico do Le Chant du Monde. Não se trata de uma interrupção arbitrária, mas de um marco divisório tecnológico e mercadológico.  O fim do ciclo do Swing coincide com o declínio econômico das grandes orquestras pós-guerra. A consolidação institucional do Bebop e do Modern Jazz desloca a música dos salões de dança coreografados para convertê-la em uma arte de vanguarda e audição puramente intelectualizada. A revolução tecnológica do período sepulta os velhos discos de 78 RPM e estabelece a hegemonia definitiva do formato Vinil Long Play (LP) de 12 polegadas. Para comprovar o valor desta antologia em seu texto, selecione um registro mecânico anterior a 1910 presente nos primeiros CDs e confronte-o diretamente com uma faixa complexa de 1952. Descreva a transição brutal da captação por cone acústico para a captação elétrica avançada, evidenciando como a densidade harmônica se transformou ao longo desse arco de 54 anos. Considerações finais, o legado de um monumento fonográfico, são análise exaustiva de "La Grande Histoire Du Jazz" consolida este box set não apenas como uma ferramenta de entretenimento para entusiastas, mas como um autêntico repositório acadêmico da memória acústica do século XX. O selo Le Chant du Monde foi bem-sucedido na ambiciosa missão de converter 1.677 faixas fragmentadas e fisicamente vulneráveis em um monumento cronológico contínuo e indestrutível. A legitimação metodológica do projeto reside no seu desapego aos anacronismos mercadológicos. Ao acolher os registros embrionários de Vess L. Ossman e Arthur Pryor, a obra força o ouvinte a reconhecer a engenharia pré-Jazz como o pilar estrutural que viabilizou a genialidade posterior de Duke Ellington e Charlie Parker.  O equilíbrio acústico alcançado na transposição das matrizes de 78 RPM para o formato FLAC estabelece um novo paradigma para a engenharia de som contemporânea. Provou-se que a restauração fina e científica é capaz de purificar o sinal sem assassinar a assinatura de áudio original das salas de gravação e o calor natural dos sopros. O encerramento cirúrgico fixado no ano de 1952 funciona como um ponto de fuga histórico perfeito. Ao travar a linha do tempo exatamente no crepúsculo da Era do Swing e no alvorecer do modernismo, a antologia preserva a pureza de seu recorte temático, entregando um panorama definitivo de como a música sincopada migrou do folclore coreográfico para a erudição intelectualizada. O primeiro vetor de impacto a ser considerado é o valor arquivístico do projeto, que se manifesta por meio de um rigor técnico e documental exaustivo. A presença de um livreto de 186 páginas, inteiramente dedicado à catalogação minuciosa das matrizes originais e do personnel de cada sessão, eleva o patamar da obra. Esse aparato crítico afasta o lançamento do conceito de mera coletânea comercial e consolida a obra como uma enciclopédia sonora de referência obrigatória para qualquer pesquisa técnica ou historiográfica sobre o tema.  Em perfeita simetria com a qualidade da documentação escrita, a fidelidade de sinal surge como o elemento de sustentação acústica da antologia. O processo de transferência digital lossless (sem perdas), focado estritamente na preservação da dinâmica original do espectro sonoro, reflete o compromisso com a verdade fonográfica. Essa engenharia de restauração fina atende diretamente às exigências de audiófilos e pesquisadores, entregando com precisão a textura real, o ambiente espacial e o peso acústico característicos das primeiras cinco décadas de registro do gênero.  2. A Coerência Histórica e a Conclusão MusicofonográficaO último pilar analítico repousa sobre a coerência histórica e a delimitação metodológica do tempo. A escolha de uma fronteira cronológica linear estrita, estabelecida rigorosamente entre os anos de 1898 e 1952, cumpre uma função científica vital. Em vez de expandir o escopo indefinidamente, esse limite matemático e estrito serve para validar a tese central da obra, demonstrando com exatidão a evolução, a maturação e a transição orgânica do estilo.  Conclui-se, portanto, que o cruzamento desses três vetores confere à obra um status de legitimação patrimonial definitivo. Ao alinhar uma catalogação enciclopédica, um tratamento de áudio audiófilo e um recorte temporal cirúrgico, o projeto atinge o seu objetivo máximo: salvaguardar a memória fonográfica e oferecer uma base empírica e inquestionável para o estudo aprofundado da metamorfose musical. Em última análise, a caixa de 25 CDs do selo Le Chant du Monde é mais do que uma audição imersiva: é um documento de arqueologia viva. Ela testemunha o exato período em que o Jazz operou como a força motriz, estética e tecnológica mais influente da música ocidental, imortalizando em alta fidelidade a transição definitiva da herança sincopada em direção à imortalidade clássica.        


Boa audição - Namastê
 

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

VA - The Very Best Jazz Instrumentals

Artista: VA
Lançamento: 2015
Selo: Verve Records/Compilation 
Gênero: Cool Jazz, Bossa Jazz, Soul Jazz, Funk Jazz, Swing, Big Band, Standards 


O álbum funciona como uma curadoria definitiva da virtuosidade instrumental. Sem o uso de letras, a narrativa é conduzida puramente pela improvisação e pelo diálogo entre instrumentos icônicos como o saxofone, o trompete e o piano. É uma obra projetada tanto para o ouvinte atento quanto para quem busca uma atmosfera sofisticada de "easy listening". O destaques do repertório dessa seleção atravessa diferentes vertentes do Cool Jazz ao Swing e à Bossa Nova incluindo gigantes da música de "Hinos Eternos" que abre com clássicos absolutos como "Take Five" do Dave Brubeck Quartet e "So What" de Miles Davis, groove e ritmo energia de "Soul Bossa Nova" de Quincy Jones e o Hard Bop de "Moanin’" de Art Blakey trazem o balanço necessário à coletânea e grandes Orquestras e solistas trafendo nomes como Duke Ellington ("Take the 'A' Train"), Herbie Hancock ("Watermelon Man") e Stan Getz ("Desafinado") para garantem a diversidade técnica e cultural da obra.  A crítica e os ouvintes destacam que "cada faixa é uma vencedora", oferecendo uma mistura equilibrada de temas muito conhecidos e raridades relativas. As edições recentes, como a de 2023, apresentam áudio remasterizado, preservando a vitalidade das gravações originais em formatos de alta qualidade como o Vinil de 180g. Em suma, "The Very Best Jazz Instrumentals" é um mapa essencial para qualquer pessoa que deseje explorar o jazz sem a distração das palavras, focando apenas no sentimento e na técnica que definiram o século XX.


Boa audição - Namastê
 

sexta-feira, 3 de outubro de 2025

Boxser: The Perfect Jazz Collection 25 Original Albums (CD07)

Lançamento: 1962 / 2010
Selo: Columbia / Great Jazz Composers Series
Gênero: Big Band, Swing


As duas maiores big bands da história do jazz lado a lado nos seus fones de ouvido: O que pode ser mais glorioso? Se, como disse Billy Strayhorn, a banda de Duke Ellington era seu instrumento , então esta sessão de 1961 encontra Ellington e Count Basie "trocando de quatro", por assim dizer. Os créditos de composição e o espaço solo são divididos democraticamente para dizer o mínimo — quatro músicas da banda de Duke, quatro da de Basie. O duelo entre os solistas de ambas as bandas é puro deleite especialmente as conversas gentis entre os dois pianistas-líderes que finalizam os pensamentos um do outro como se as quatro mãos estivessem unidas em um torso unificado. Os destaques incluem duas novas composições envolventes de Duke — a arrebatadora abertura "Battle Royal" e a impulsiva "Wild Man" — e a envolvente conclusão de Basie, "Jumpin' at the Woodside", na qual os tenores Frank Foster e Paul Gonsalves se envolvem em um duelo feroz. Surpreendentemente, não há hesitação em meio à interação estimulante. Gravado e lançado pela gravadora Columbia em 1961, traz em seus lançamentos estéreo do álbum a banda de Basie aparece no canal esquerdo e a de Ellington no direito. Faixas bônus da reedição do CD de 1999.

Duke Ellington, Count Basie – Piano
Cat Anderson  Willie Cook, Eddie Mullens, Ray Nance, Sonny Cohn, Lennie Johnson, Thad Jones, Snooky Young - Trompete
Lou Blackburn, Lawrence Brown, Henry Coker, Quentin Jackson, Benny Powell - Trombone
Juan Tizol - Trombone de válvula e Pandeiro em "Wild Man"
Jimmy Hamilton - Clarinete, Sax. Tenor
Johnny Hodges - Sax. Slto
Russell Procope, Marshal Royal - Sax. Alto, Clarinete
Frank Wess - Sax. Alto, Sax.Tenor, Flauta
Paul Gonsalves, Frank Foster, Budd Johnson - Sax. Tenor
Harry Carney, Charlie Fowlkes - Sax. Barítono
Freddie Green - Guitarra
Aaron Bell, Eddie Jones - Baixo
Sam Woodyard, Sonny Payne - Bateria


Boa audição - Namastê