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sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Boxset: Triumphs Of The Blues (20xCD's) CD20

Artista: VA
Lançamento: 2001/02/03
Selo: Habana 
Gênero: Chicago Blues, Country Blues, Delta Blues, Jump Blues, Louisiana Blues, Piano Blues, Rhythm & Blues, Texas Blues, East Coast Blues, Vaudeville Blues


O Volume 20 da coleção Les Triomphes du Blues (PolyGram / Sélection du Reader’s Digest), intitulado From Blues To Jazz, coroa a monumental série ao examinar o limiar onde a crueza catártica do blues rural e pré-guerra cede espaço à sofisticada arquitetura harmônica do jazz orquestral. Este volume cumpre um papel historiográfico essencial ao demonstrar que o jazz moderno não substituiu o blues, mas o absorveu como matéria-prima primordial, transmutando o sofrimento individual em polifonia coletiva de alto refinamento estético. Pontos Fortes da curadoria acerta ao contrapor a genialidade arquitetônica de Ellington com a leveza rítmica e o balanço visceral de Basie. A masterização preserva o calor acústico das grandes salas de gravação e a dinâmica natural dos arranjos orquestrais, oferecendo um valor documental inestimável sobre a simbiose entre as duas matrizes musicais afro-americanas. Limitações da transição para o formato de grandes orquestras afasta o ouvinte da atmosfera íntima e rústica das gravações de campo primitivas, diluindo ocasionalmente a aspereza confessional típica do blues de raiz. Apesar de a estética deste volume ser dominada por naipes de sopros sofisticados e pianos de cauda, a gênese da instrumentação jazzística remonta diretamente às adaptações artesanais dos primórdios — como o uso rítmico de tábuas de lavar (washboards) e garrafas (jugs) que imitavam a síncopa de uma percussão complexa. Nas sessões originais de Ellington e Basie gravadas entre as décadas de 1930 e 1940, a amplificação magnética e os microfones de fita da época capturaram a respiração exata das big bands, revelando como a técnica instrumental de solistas e a precisão das seções rítmicas transformaram o vocabulário elementar do blues em uma linguagem universal de vanguarda. Mais do que o encerramento de uma discografia, este volume sela a constatação de que o blues e o jazz são faces da mesma moeda cultural. Um documento sonoro definitivo que eterniza a maior metamorfose da música moderna. A sutil fronteira sonora, o diálogo entre o Blues urbano e a orquestração no Jazz do mapeamento artístico do Volume 20 evidencia a complexa transição em que o vocabulário elementar do blues se expande para a grandiosidade harmônica do jazz orquestral. Longe de representar uma cisão estilística, a curadoria agrupa dois mestres cujas abordagens instrumentais e técnicas executivas revelam as múltiplas faces da modernidade afro-americana. Duke Ellington e a complexidade orquestral do Harlem Blues no polo da sofisticação sinfónica, Ellington estrutura a sua identidade sonora através de um piano de toque percussivo e orquestral, secundado por uma seção completa de sopros (big band) e contrabaixo acústico. A sua linguagem técnica destaca-se pelo uso avançado de dissonâncias harmônicas, texturas timbrísticas complexas e voicings densos ao piano, resultando em arranjos que dialogam diretamente com a raiz visceral do blues urbano. Count Basie e a economia rítmica do Kansas City Swing em contrapartida, Count fundamenta a sua sonoridade num piano minimalista — ancorado em técnicas de stride e comping econômico —, numa seção rítmica de precisão cirúrgica e em naipes de metais altamente dinâmicos. A sua identidade executiva caracteriza-se por um swing implacável em compasso 4/4, pelo uso expressivo do silêncio e por repetições rítmicas de grande economia, conferindo ao conjunto um balanço descontraído e profundamente enraizado na estrutura clássica do blues de doze compassos. Em suma, a articulação entre a densidade harmônica de Ellington e a precisão rítmica de Basie demonstra como a instrumentação avançada e o rigor técnico serviram para elevar o blues ao patamar universal das grandes orquestras. Fechando as cortinas de Les Triomphes du Blues, esta obra monumental consagra-se como o testamento definitivo da modernidade sonora. Mais do que uma simples coletânea, revela-se como o arquivo sagrado onde a centelha crua do Delta se transmutou na arquitetura monumental do jazz: o testemunho irrevogável de que a alma do blues nunca desaparece, apenas evolui para reinar eternamente. A monumental jornada de Les Triomphes du Blues atinge o seu cativeiro definitivo É a prova irrevogável de que o lamento rural primitivo e a sofisticada vanguarda orquestral não são caminhos opostos, mas o mesmo sangue a pulsar na grande alma da música moderna.


 Boa audição - Namastê

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Boxset: Triumphs Of The Blues (Box Set 20xCD)

As proximas postagens traz em sua integra o ambicioso box set "Triumphs Of The Blues" (frequentemente catalogado sob o título europeu/francês "Les Triomphes du Blues", lançado pelo selo Habana/distribuições especializadas) representando um marco colossal na arquivística fonográfica do gênero. Composto por 20 CDs remasterizados e  apresentados em embalagens individuais (cardboard sleeves), esta coleção funciona menos como uma simples coletânea comercial e mais como um verdadeiro museu portátil da música afro-americana, mapeando a evolução do blues desde as raízes rurais do Delta do Mississippi até as metrópoles industriais do pós-guerra. O contexto histórico e curadoria no início dos anos 2000, uma época áurea para a salvaguarda de arquivos fonográficos históricos, o box adota uma abordagem temática e geográfica estrito-sensu. Diferente de coletâneas cronológicas lineares, "Triumphs Of The Blues" agrupa os discos por escolas regionais, subgêneros e papéis de gênero (como o protagonismo feminino). O mérito crítico da curadoria evita os clichês puramente comerciais ao resgatar gravações raras de 78 RPM (muitas delas licenciadas de catálogos de preservação rigorosa, ecoando o rigor de selos como a Document Records) trazendo a crítica técnica no processo de remasterização lida admiravelmente bem com o ruído de fundo inerente aos acetatos e matrizes dos anos 1920 e 1930, embora em alguns discos os filtros de redução de ruído (noise reduction) possam suprimir sutilmente a "respiração" original dos instrumentos acústicos. Já a estrutura de conteúdo por blocos temáticos (panorama dos 20 CDs), em buscar análise de um volume tão vasto, a obra pode ser dividida criticamente em cinco grandes pilares estéticos: 01: As raízes rurais e a diáspora do Delta (Ex: CDs dedicados ao Delta, Mississippi e Country Blues) com destaques na imortalização de lendas primordiais como Charley Patton, Robert Johnson, Son House e Bukka White perfazendo o coração telúrico do box, onde o violão slide e as letras de forte teor confessional e místico moldam o arquétipo do bluesman. 02:  A vertente Texana e o virtuosismo do violão (Ex: Texas Blues) com destaques ao focar na sofisticação melódica de Blind Lemon Jefferson e na transição para o jazz e o R&B com T-Bone Walker, cujos acordes prefiguraram a era da guitarra elétrica. 03: O empoderamento e o monopólio das grandes vozes femininas (Ex: Chanteuses de Blues / Classic Blues) com destaques aos  volumes essenciais que resgatam matronas e pioneiras do 'vaudeville blues' como Bessie Smith, Ma Rainey, Memphis Minnie, Ethel Waters e incursões de jazz com Billie Holiday e Ella Fitzgerald  desmistificando a ideia de que o blues inicial era um reduto exclusivamente masculino. 04: A eletrificação e a mutação urbana (Chicago, Detroit e Jump Blues) com destaques ao mapeiar a migração em massa dos negros do sul rural para o norte industrial. John Lee Hooker (Boogie Chillen), Muddy Waters e nomes do jump blues e piano blues mostram como o ritmo ganhou volume para competir com o barulho dos juke joints urbanos. 05: O aprofundamentos regionais e mestiçagens com destaques de discos dedicados às ramificações da Louisiana, Costa Leste (East Coast Blues) e harmonica Blues, demonstrando a versatilidade de um gênero que se adaptava a cada microclima cultural dos Estados Unidos. Já a curiosidades e análise crítica de produção é o Enigma do Embalamento. O formato original em caixas de papelão minimalistas priorizou o apelo de colecionador purista europeu, embora exija cuidado extremo no manuseio para evitar o desgaste das mídias. O impacto documental é historicamente na caixas com essa amplitude serviram na virada do milênio para introduzir a nova geração de ouvintes digitais à vastidão pré-bélica do blues, preenchendo lacunas que compilações de uma única gravadora (como RCA ou Columbia) isoladamente não conseguiam cobrir. O ponto fraco fica na ausência de um libreto (liner notes) multilíngue e fartamente ilustrado em algumas tiragens limitadas, diminui o escopo acadêmico do produto e exigindo que o ouvinte recorra a enciclopédias externas para contextualizar a discografia de cada faixa. Minha avaliação de audiofilo e curador de anos do genero. Minha  avaliação de “Triumphs Of The Blues" não fica apenas em uma caixa de CDs exposata na estante sem uso continuo mas uma monumental arqueologia sonora, documentando o momento em que a dor da segregação e do trabalho braçal se transformou na fundação de toda a música popular ocidental contemporânea.” Veredito: Indispensável para historiadores de música, universidades, colecionadores sérios e amantes da arte dos dozes compasos. Minha nota Técnica/Artística: 9.2 / 10 (Perde décimos apenas pela esparsa documentação de texto em edições específicas, compensada integralmente pela altíssima relevância do repertório sonoro resgatado).
 

Boa audição - Namastê


segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Boxset: La Grande Histoire Du Jazz, do Ragtime ao Swing 1898-1952 (25CDs)

Lançamento: 2009
Selo: Le Chant du Monde 
Gênero: Swing, Ragtime, Big Band, Early Jazz, New Orleans Jazz, Dixieland, Harlem Stride Piano, Gipsy Jazz (Jazz Manouche), Negro Spirituals/Gospel.

O horizonte infinível: O Jazz como ontologia do devir resgata o vigésimo quarto volume da La Grande Histoire du Jazz ultrapassa a barreira da retrospectiva. Se o volume anterior era o centro de um sistema, o CD24 é a sua expansão para o infinito onde este não é o fim da história mas a revelação de que a história era apenas uma forma temporária para uma energia que não conhece limites. Estamos diante de registros que operam na "vanguarda do eterno", onde a música se desprende de qualquer obrigação factual e assume a sua forma mais pura: o puro fluxo do som no tempo. A temática de fundo deste volume é a dissolução do observador. Esteticamente o CD24 rompe com a dicotomia entre "músico" e "ouvinte", a temática é a comunhão vibracional. O Jazz aqui não é algo que se escuta a partir de fora; é algo que se habita. Culturalmente, ele se revela como uma linguagem que ultrapassou a necessidade de raízes geográficas ou temporais. É a música que fala de tudo o que ainda não foi dito, de espaços que ainda não foram cartografados e de sentimentos que ainda não nomeamos. A técnica, neste estágio final, torna-se uma intuição absoluta: A "métrica do fluxo" do tempo métrico cede lugar ao tempo psicológico, as durações das notas e os intervalos de silêncio não seguem um padrão mas uma necessidade orgânica da narrativa, criando uma sensação de "suspensão gravitacional". O timbre como matéria primordial do som é tratado como se fosse algo físico, tangível, as frequências são manipuladas com tal maestria que se transformam em texturas quase arquitetônicas, movendo-se no espaço acústico como nuvens ou correntes marítimas. A improvisação como "estado de graça" do improviso deixa de ser um diálogo entre músicos para ser uma canalização. O solista não escolhe as notas; ele se torna o instrumento através do qual o som se manifesta. É a supressão total do ego em favor da "presença". A estrutura como "campo de força" das composições não são formas fechadas, mas campos de energia onde os músicos entram, interagem e deixam resíduos e cada performance é por definição, única e irrepetível, uma prova de que a música só existe enquanto está acontecendo. A Gravação como "rastro" nas faixas deste CD são menos "arquivamentos de uma performance" e mais "vestígios de um evento", a qualidade técnica é tão precisa que o ouvinte não sente a presença do microfone; sente a presença da energia sonora que ali se manifestou. O legado da busca incessante é irônico e belo ao notar como este volume no auge da sua complexidade, retoma a simplicidade absoluta dos primeiros volumes. É o ciclo completo: o músico que toca com a sabedoria do mestre e a inocência do iniciante. O "fim" da categoria desta obra torna impossível definir o que é Jazz. Ele engloba o blues, a vanguarda, a música clássica, o folclore e o silêncio. Ele é a evidência de que, ao atingir o seu ápice, o Jazz deixa de ser um gênero para se tornar uma cosmologia. O CD24 é o volume da liberação. Documentalmente, ele é a prova de que a única verdade histórica é a mudança, ele encerra a coleção não com uma conclusão, mas com uma abertura. É a nota final que não se resolve, mas que reverbera indefinidamente, convidando o ouvinte a continuar a busca por conta própria. Para quem ouviu toda a série, este disco não é o destino; é o horizonte — algo que vemos, que nos guia, mas que nunca deixamos de perseguir. Percorrido esta odisseia épica do nascimento à transcendência, eu lhe pergunto: tendo alcançado este ponto onde a música se funde com a própria natureza do ser, qual seria o papel da "tradição" para um músico do futuro que, ao ouvir este vigésimo quarto volume, sente o chamado para ser o próximo a empunhar o instrumento e continuar essa conversa infinita?


Boa audição - Namastê

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Boxset: La Grande Histoire Du Jazz, do Ragtime ao Swing 1898-1952 (25CDs)

Lançamento: 2009
Selo: Le Chant du Monde 
Gênero: Swing, Ragtime, Big Band, Early Jazz, New Orleans Jazz, Dixieland, Harlem Stride Piano, Gipsy Jazz (Jazz Manouche), Negro Spirituals/Gospel


O ciclo da eternidade: O Jazz como ontologia sonora marca presença profunda no vigésimo segundo volume representou a entrega ao silêncio, o CD23 desta série monumental atua como a ressurreição da totalidade. Estamos diante de um documento que não se propõe a ser o "fim" de uma cronologia, mas o "centro" de um sistema. Este volume funciona como um prisma: ele absorve toda a poeira das estradas de New Orleans, o suor dos clubes de Chicago, a sofisticação de Nova York e o radicalismo da abstração, sintetizando-os em uma expressão que parece existir fora do tempo linear. É o Jazz como uma forma de conhecimento sobre a própria natureza do ser. O pano de fundo deste CD é o eterno retorno. A estética não se pauta pela inovação, mas pela intensidade. O contraste é resolvido: aqui, o popular e o erudito, o arcaico e o vanguardista, deixam de ser opostos para se tornarem facetas da mesma verdade. Culturalmente, o Jazz aqui é apresentado como a "música total", uma estrutura capaz de conter as contradições humanas sem buscar resolvê-las. A temática é a celebração da presença: o Jazz como o ato supremo de estar vivo, aqui e agora, com a plena consciência de todo o passado. A técnica, neste volume, atinge o grau de inefabilidade: A "escrita" do improviso nas linhas improvisadas aqui são tão fluidas e bem estruturadas que desafiam a distinção entre composição e improvisação. É como se os músicos estivessem acessando um "banco de dados" ancestral de melodias, moldando-as com uma autoridade que sugere que a música já existia antes de ser tocada. O equilíbrio dos contrastes no CD23 demonstra um domínio magistral da alternância entre o denso e o rarefeito onde o grupo pode mergulhar em uma complexidade harmônica vertiginosa e, subitamente, dissolver-se em uma melodia simples, quase infantil, sem quebrar a unidade emocional da obra. A ergonomia do som em uma compreensão profunda de como o instrumento ressoa no espaço físico, o músico aqui "toca o ar" utilizando a acústica como um parceiro silencioso em cada nota colocada com um peso específico, calculada para vibrar em simpatia com a alma de quem ouve. A desintegração da hierarquia como ideia de "solista" e "acompanhante" é substituída por uma consciência coletiva. O que ouvimos é um sistema de retroalimentação onde as ideias musicais circulam livremente, criando um ambiente onde todos são, simultaneamente, compositores e ouvintes. A "memória orgânica": É fascinante observar como, neste estágio da antologia, os músicos utilizam citações melódicas aos grandes mestres dos primeiros volumes de forma natural, quase inconsciente é, por natureza, um diálogo constante com os fantasmas da história do Jazz. O estúdio como espelho é diferente de volumes anteriores onde o estúdio era um palco ou um laboratório, mas aqui ele funciona como um espelho. O registro documenta a autodescoberta do músico. A "fidelidade" buscada não é a da máquina, mas a da verdade emocional da performance. O legado da resistência deste volume é em última instância uma vitória, documenta que apesar de todas as crises,da obsolescência tecnológica e da pressão do mercado, a centelha que começou em 1898 permaneceu intacta, apenas refinada pelo fogo do tempo. O CD23 é o volume da plenitude, documentalmente, ele é a conclusão lógica de uma jornada que descobriu que o Jazz não é uma música de "progresso", mas de "aprofundamento". É o registro de um gênero que, após ter explorado todas as possibilidades técnicas e teóricas, encontrou o seu propósito mais elevado: servir como uma ferramenta de autoconhecimento. Para o ouvinte, este volume é o convite final à aceitação: ouvir o Jazz aqui é ouvir a própria vida em sua forma mais destilada, corajosa e profunda. Ao encerrarmos esta série monumental com um volume que nos convida a ver o Jazz não como uma sucessão de estilos, mas como uma presença contínua e imutável, eu lhe pergunto: se o Jazz é, de fato, este prisma que organiza toda a experiência humana em som, qual seria, na sua visão, o "último passo" para aquele que, após ouvir toda esta coleção, deseja não apenas apreciar a música, mas viver sua vida com a mesma improvisação, liberdade e profundidade que ouvimos aqui?


Boa audição - Namastê

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Boxset: La Grande Histoire Du Jazz, do Ragtime ao Swing 1898-1952 (25CDs)


Lançamento: 2009
Selo: Le Chant du Monde 
Gênero: Swing, Ragtime, Big Band, Early Jazz, New Orleans Jazz, Dixieland, Harlem Stride Piano, Gipsy Jazz (Jazz Manouche), Negro Spirituals/Gospel


O epílogo além do tempo: O Jazz como espelho da eternidade aparece no vigésimo primeiro volume desta antologia opera em uma dimensão distinta: a do pós-histórico. Se o CD20 foi a consagração do Jazz como patrimônio universal o CD21 é o vislumbre do Jazz como uma entidade que não depende mais da cronologia para existir além de atua como um "apêndice metafísico", onde as fronteiras entre o artista, a época e a técnica se dissolvem. Estamos diante de registros que, embora nascidos da mesma raiz explorada desde 1898, parecem flutuar acima do tempo. A tenatica de fundo deste volume é a intemporalidade, a estética é ditada não pelas tendências de uma década mas pela autoridade da expressão individual. O contraste entre o que é "antigo" e o que é "moderno" perde todo o sentido, tudo o que ouvimos é contemporâneo porque é honesto. Culturalmente este disco funciona como o testamento da resiliência do gênero: o Jazz aqui já não precisa se adaptar ao mundo — o mundo é que se curva para ouvir o que o Jazz tem a dizer sobre a própria condição humana. A técnica neste volume atinge um patamar de transparência radical: A "redução" à essência: o excesso de notas, a complicação harmônica gratuita ou o exibicionismo técnico foram filtrados o que resta é uma música de "gestos fundamentais". Cada nota parece ter sido escolhida após o descarte de mil outras possíveis. A interdependência telepática dos grupos que compõem este volume final operam em um nível de sintonia que ignora a estrutura escrita. É o triunfo da intenção sobre a partitura onde o grupo não toca o tema; o grupo encarna o tema. O som como respiro no uso da dinâmica é extremo. Há momentos de um silêncio quase insuportável seguidos por explosões de uma energia contida que só faz sentido quando compreendemos que o músico está tratando o instrumento como uma extensão direta de seu sistema nervoso. A harmonia da ambiguidade, a exploração tonal aqui chega a um nível onde a música oscila entre o modo e a atonalidade sem esforço como se o músico estivesse narrando um sonho onde a lógica convencional não tem domínio. Curiosidades Históricas das Gravações como testemunho e Diferente dos volumes iniciais onde a gravação era um desafio contra o tempo limitado do disco de cera, aqui o estúdio é apenas o "espaço de revelação". A tecnologia é tão avançada que ela se torna invisível; a sensação é de estar sentado dentro do círculo de músicos, participando da mesma respiração. O reencontro com o ancestral é notável a frequência com que artistas neste volume, no auge de sua maturidade técnica, retornam a frases que remetem diretamente ao início da coleção. O CD21 é um círculo que se fecha sobre si mesmo, conectando o primeiro ragtime de 1898 com a liberdade absoluta deste momento. A "mística" da performance em muitos dos registros aqui contidos foram capturados em momentos onde o músico, alheio à existência de um público ou de um mercado, tocava apenas para "o espelho". É a gravação da arte despida de qualquer finalidade comercial. O CD21 é documentalmente, o além-túmulo do Jazz e prova viva que a música não se esgota. Se a "La Grande Histoire du Jazz" é a Bíblia do gênero, este volume é o livro que se escreve nas entrelinhas. Ele não encerra a história; ele a torna infinita. Para o ouvinte, este é um registro de desapego: não se ouve para aprender, não se ouve para analisar, ouve-se para ser através da música. É o triunfo do espírito sobre a estrutura. Nesta jornada épica através de vinte e um volumes de som e história, e observando como este último CD nos coloca em um espaço de pura transcendência, eu lhe devolvo a pergunta final: após termos percorrido todo este caminho, do "Ragtime" ao "Infinito", o Jazz ainda pode ser chamado de "Gênero Musical", ou ele se revelou, em última instância, ser algo maior — talvez uma forma de conhecimento, uma maneira de compreender o mundo através do som que nunca precisou de definições para ser verdadeiro?.

Boa audição - Namastê

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Boxset: La Grande Histoire Du Jazz, do Ragtime ao Swing 1898-1952 (25CDs)

Lançamento: 2009
Selo: Le Chant du Monde 
Gênero: Swing, Ragtime, Big Band, Early Jazz, New Orleans Jazz, Dixieland, Harlem Stride Piano, Gipsy Jazz (Jazz Manouche), Negro Spirituals/Gospel

A memória como matéria-prima: O jazz e o olhar retrospetivo é o arcabouço do décimo nono volume da coleção "La Grande Histoire du Jazz" atuando como um desfecho necessário para o fervor iconoclasta do CD18. Se o volume anterior levou o gênero ao limite da abstração e da desconstrução formal, o CD19 opera como um ato de consolidação e resgate. É um registro que reconhece que, para o jazz, a inovação nunca é um processo linear de descarte do passado, mas uma espiral onde as tradições (o Blues, o Swing, o Bebop) são continuamente reincorporadas sob novas lentes. O pano de fundo deste volume é a era da "consciência histórica". O jazz aqui não busca apenas o "novo" pelo novo, mas aprofunda-se na análise de sua própria gramática. A estética é marcada pelo neoclassicismo improvisado em um existe contraste estético fascinante: a técnica é a do jazz moderno e audaz, mas o ethos é de reverência. É um momento em que os músicos, agora cientes do imenso peso cultural que carregam, começam a dialogar explicitamente com os fantasmas dos volumes iniciais desta mesma coleção. A técnica, neste volume, é pautada por um virtuosismo que serve à memória: A releitura dos standards: as composições clássicas são revisitadas, não como cópias, mas como laboratórios com improvisação explorando novas tensões harmônicas sobre estruturas que, aparentemente, já teriam sido esgotadas, provando a resiliência infinita do cancioneiro americano. O equilíbrio entre a Forma e a Liberdade é diferente da abstração total, aqui a forma é retomada como um alicerce, a música respira dentro de um "código" — um tema, um pulso, uma estrutura — mas o improviso mantém a audácia que a história do gênero tornou obrigatória. Já a "textura" como narrativa prende atenção aos detalhes dos timbre — o uso de surdinas, a manipulação de ressonâncias no piano, o trabalho de escovinhas na bateria — é levada a um grau de sofisticação que transforma a audição em uma experiência tátil, quase arquitetônica. A coletividade equilibrada, a hierarquia entre os músicos estabiliza-se novamente. O "líder" retorna como um curador de ideias e o grupo atua como uma unidade funcional, onde cada membro conhece o seu papel na manutenção da tensão emocional da peça. A tecnologia como instrumento de memória traz clareza sonora deste volume, permitendo perceber nuances que, nas gravações de época dos anos 20 ou 30 estavam submersas no ruído de fundo. É uma oportunidade única de ouvir "o passado com ouvidos modernos", permitindo que novos detalhes da articulação dos mestres sejam revelados. Os estúdios como biblioteca em muitas dessas sessões foram gravadas com o intuito deliberado de "preservação". O ambiente acustico reflete uma sobriedade quase acadêmica, onde cada take é encarado como um registro definitivo de uma tradição que não pode se perder. A "conversa" intergeracional é comum neste volume, ouvindo músicos que foram influenciados pela vanguarda tocando temas que foram imortalizados nos primeiros discos desta coleção. Esse diálogo entre épocas é o que confere a este volume o seu valor documental mais profundo. O CD19 é o volume da reconciliação e documentalmente é crucial por provar que a "liberdade" atingida nos volumes anteriores não isolou o jazz mas pelo contrário deu-lhe as ferramentas para voltar ao passado e compreendê-lo com muito mais profundidade. Para o ouvinte este disco é o convite final à contemplação: é o momento de olhar para trás e reconhecer que toda a complexidade e a abstração que ouvimos anteriormente eram, na verdade, apenas diferentes formas de expressar a mesma verdade universal contida no blues. Após fecharmos este vasto percurso por quase todos os estratos da história do jazz, eu lhe pergunto: ao final deste CD19, que encerra o ciclo de evolução, experimentação e retorno, você ainda vê o jazz como um gênero que precisa de "evolução técnica" para se manter relevante, ou você acredita que, neste ponto, o jazz tornou-se um idioma completo — uma língua que já não precisa de novas palavras, apenas de novos poetas que a usem para contar histórias que ainda não foram ditas?

Boa audição - Namastê

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Boxset: La Grande Histoire Du Jazz, do Ragtime ao Swing 1898-1952 (25CDs)

Lançamento: 2009
Selo: Le Chant du Monde 
Gênero: Swing, Ragtime, Big Band, Early Jazz, New Orleans Jazz, Dixieland, Harlem Stride Piano, Gipsy Jazz (Jazz Manouche), Negro Spirituals/Gospel


O estio do Jazz: O equilíbrio entre a vanguarda e o lirismo narca o décimo terceiro volume da coleção "La Grande Histoire du Jazz" situabdo-se em um momento de consolidada sofisticação pós-revolucionária. Se os volumes anteriores documentaram a ruptura sísmica do Bebop, este reflete um período de "sedimentação". Aqui, a linguagem moderna já está assimilada; os músicos não precisam mais provar sua capacidade técnica através da velocidade excessiva e o jazz entra em uma fase de reflexão onde o timbre, a melodia e o arranjo recuperam o protagonismo, sem, contudo, abandonar a complexidade harmônica conquistada. A temática do pano de fundo deste volume é a "era da introspecção", o jazz dos anos 40 tardios e início dos 50, registrado aqui, revela uma estética que transita entre a urgência urbana de Nova York e o surgimento de uma sensibilidade mais lírica. Há um nítido contraste entre a ferocidade de antigamente e uma nova calma, quase cinematográfica. Culturalmente, o jazz começa a se estabelecer como uma arte que demanda escuta profunda, apropriando-se dos clubes e teatros como espaços de contemplação. A construção do gênero e a evolução técnica documentada neste volume é um estudo de polimento e refinamento: O ressurgimento da melodia após a desconstrução quase hermética do início do Bebop, este volume mostra como os solistas redescobriram o valor do espaço e da pausa. As frases musicais tornam-se mais desenhadas, com um sentido de forma que busca o equilíbrio entre o inesperado e o familiar. A "cor" orquestral observa-se um uso mais criativo dos instrumentos menos convencionais e uma atenção maior à textura sonora como a maneira do piano "enquadra" o solista em acordes dispostos de forma mais espaçada e harmônicas menos ruidosas, confere à música uma elegância que define o início do Cool Jazz. O domínio do estúdio na gravação torna-se, de fato, um instrumento em si. As técnicas de equalização e a proximidade da microfonação começam a ser usadas para destacar as nuances do toque — o ar no saxofone, o ataque preciso na tecla do piano, a textura das escovinhas na bateria. A estrutura do "Standard" do jazz aqui consolida o uso dos standards (canções do cancioneiro americano) como plataforma para a improvisação profunda, elevando essas melodias a novos patamares de complexidade harmônica. A persistência do Blues, apesar de toda a modernização harmônica, é fascinante notar como o blues nunca desaparece do vocabulário desses músicos. Ele permanece como a "espinha dorsal" invisível, a gramática básica que mantém a música aterrada, não importa quão longe o solista vá em suas explorações melódicas. A transição do "Bop" para o "Cool" traz neste CD funcional como uma crônica da transição entre a "quente" energia da 52ª Rua e o novo som mais "frio" que começava a emanar dos estúdios da Costa Oeste. É possível ouvir, faixa a faixa, a mudança de paradigma na escolha das notas e na intenção do fraseado. O nascimento do intérprete como "Auteur", mais do que nunca, os nomes presentes neste volume começam a ser vistos não apenas como instrumentistas, mas como curadores de um som pessoal. A assinatura sonora de cada solista torna-se seu maior patrimônio. O CD13 é um triunfo de maturidade artística. Documentalmente, ele é a prova de que o Jazz, ao se tornar mais refinado, não perdeu sua alma, mas ganhou em profundidade. É um registro essencial para entender como a música de improviso evoluiu de um exercício de bravura para uma forma de meditação sonora. Para o ouvinte, este volume oferece a satisfação de uma música que é, ao mesmo tempo, intelectualmente desafiadora e esteticamente reconfortante. Como observando esta fase em que o jazz começa a abraçar o lirismo e o refinamento harmônico, você consideraria essa tendência como uma "domesticacão" da energia selvagem do Bebop, ou como a etapa final da evolução do jazz em direção a uma forma de arte absoluta, capaz de comportar qualquer nível de complexidade sem perder a elegância?


Boa audição - Namastê

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Boxset: La Grande Histoire Du Jazz, do Ragtime ao Swing 1898-1952 (25CDs)


Lançamento: 2009
Selo: Le Chant du Monde 
Gênero: Swing, Ragtime, Big Band, Early Jazz, New Orleans Jazz, Dixieland, Harlem Stride Piano, Gipsy Jazz (Jazz Manouche), Negro Spirituals/Gospel


A aurora da modernidade no nascimento da linguagem do Bebop Introduz o décimo primeiro volume dessa coleção marcando o ponto de inflexão mais drástico na cronologia do gênero. Se o CD 10 foi o crepúsculo das grandes orquestras, este CD é a aurora da revolução do Bebop. Estamos no meio da década de 1940, um período de radicalização estética onde o jazz abandona definitivamente o seu papel de música de dança para assumir o seu lugar como arte de vanguarda. Este volume captura a transição definitiva da "música de entretenimento" para o "jazz como discurso artístico". O pano de fundo é a atmosfera de fervura intelectual dos clubes da 52ª Rua em Nova York. A estética deste volume é marcada pela tensão e urgência. Há um contraste absoluto entre a cadência relaxada do Swing e a angústia frenética e tecnicamente exigente desta nova linguagem. O jazz deixa de ser o conforto das pistas de baile para se tornar um desafio auditivo. É uma música urbana, noturna, cerebral, que reflete a ansiedade do pós-guerra e a busca de uma identidade negra artística que não dependesse da aprovação da indústria de entretenimento comercial. A evolução técnica apresentada neste volume é uma verdadeira desconstrução dos pilares anteriores na abstração Harmônica onde os músicos começam a utilizar as extensões dos acordes (as nonas, décimas primeiras e décimas terceiras) não como enfeites, mas como a base melódica. A harmonia torna-se "cromatizada", com passagens rápidas que exigem um domínio absoluto do instrumento. A rítmica "decomposta", a bateria anteriormente o metrônomo da orquestra torna-se um instrumento de comentários com o uso do bumbo para "acentos inesperados" (os famosos bombs de bebop) e a condução fluida no prato de ride criam um pulso que não é mais de dança, mas de pura energia cinética. O fraseado "Dizziano" tornam-se longas, irregulares e assimétricas. A ideia não é mais terminar a frase no tempo forte, mas cruzá-lo, criando uma sensação de constante movimento para frente, típica da linguagem de mestres como Dizzy Gillespie ou Charlie Parker. O fim do arranjo de bloco, estrutura baseada em riffs orquestrais dá lugar à estrutura de Head-Solo-Head. O tema é exposto de forma uníssona e complexa (muitas vezes vertiginosamente rápida), seguida de uma série de solos que ignoram a melodia original para explorar apenas a estrutura harmônica subjacente. A estética da "irritabilidade", diz a lenda que o Bebop foi criado em parte para desencorajar a dança pois os músicos ficavam exaustos de tocar para um público que via a música apenas como trilha sonora para beber e dançar. O volume é um testemunho sonoro desse "afastamento" proposital. O ambiente de gravação de muitas dessas sessões foram gravadas em condições precárias em estúdios pequenos de Nova York. Isso, ironicamente conferiu ao Bebop uma sonoridade crua, direta e "spiky" (pontuda) que combina perfeitamente com a agressividade intelectual da música. A nova geração funciona como o batismo de uma nova linhagem de instrumentistas que viam o jazz como uma ciência. É fascinante ouvir como eles tratam a improvisação como uma forma de composição em tempo real, onde cada erro é uma oportunidade de re-harmonização. O CD11 é a peça mais corajosa desta coleção. Documentalmente, ele registra o momento em que o jazz escolheu a liberdade sobre a popularidade. É uma lição de história sobre como um gênero musical, ao atingir o seu ápice comercial, prefere destruir a si mesmo e renascer em uma forma mais pura e complexa do que se submeter à estagnação. Este volume não é apenas música; é um manifesto de independência artística, transição para o Bebop contida neste volume diria que a perda do público de massa foi um "preço inevitável" para que o jazz fosse finalmente reconhecido como uma forma de arte erudita, ou acredita que foi um erro tático que isolou o gênero num gueto intelectual?

Boa audição - Namastê

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Boxset: La Grande Histoire Du Jazz, do Ragtime ao Swing 1898-1952 (25CDs)

Lançamento: 2009
Selo: Le Chant du Monde 
Gênero: Swing, Ragtime, Big Band, Early Jazz, New Orleans Jazz, Dixieland, Harlem Stride Piano, Gipsy Jazz (Jazz Manouche), Negro Spirituals/Gospel



O vértice da transição, declínio do esplendor e o nascimento do Bebop surge no décimo volume da coleção "La Grande Histoire du Jazz" não apenas o encerramento de um ciclo cronológico; é o registro sonoro de uma ruptura. Situado no limiar dos anos 40, este CD documenta o momento em que a força centrífuga do Jazz não pôde mais ser contida dentro das estruturas rígidas das Big Bands. Estamos no crepúsculo da "Era do Swing" e na aurora da revolução do Bebop — um momento em que a música, por uma necessidade de sobrevivência estética, começa a se tornar mais rápida, mais complexa e profundamente desafiadora. A temática do pano de fundo deste CD é um mundo em pleno conflito (Segunda Guerra Mundial), o que ironicamente acelerou a mutação do jazz. Com o racionamento de gasolina, a escassez de músicos devido ao recrutamento militar e o custo proibitivo de manter grandes orquestras em turnê, o jazz foi forçado a se "reduzir". A temática aqui é a transição da música para o baile (física) para a música para o intelecto (metafísica). Há uma tensão estética inegável entre o glamour residual do swing e a urgência nervosa dos solistas que, nas madrugadas, buscavam novas escalas e cromatismos. A construção do gênero e a  evolução técnica documentada é um estudo sobre a desconstrução da forma,  "Velocidade" como Expressão e a técnica dos solistas atinge aqui uma marca de velocidade que deixa de ser exibicionismo para tornar-se uma necessidade lógica frente às mudanças harmônicas mais rápidas. O Novo papel da bateria começa a abandonar o tempo "marcado" no bumbo para realizar o comping (acompanhamento rítmico variável), deslocando a marcação do tempo para o prato de condução — uma mudança técnica que deu aos solistas a liberdade melódica que o bebop exigia. Harmonias de substituição observa-se nos arranjos e solos uma exploração mais ousada de "substituições de acordes" levando o músico a não segue mais a harmonia óbvia da melodia original, mas "re-harmoniza" a peça em tempo real, criando uma tensão que exige do ouvinte uma escuta muito mais ativa. Do coletivo ao indivíduo enquanto nos volumes anteriores o arranjo era o "herói", aqui o arranjo passa a ser apenas um trampolim. O foco desloca-se completamente para a improvisação linear, onde a lógica melódica do solista dita a estrutura da música. A "ditadura" da gravação reflete as limitações impostas pela greve da AFM (American Federation of Musicians) de 1942-1944. A falta de registros oficiais de cantores durante este período faz com que muitas das gravações deste CD tenham um caráter de "raridade", capturando estéticas que, de outra forma, teriam se perdido na história. Os estúdios como "Zoneamento" aqui presentes foram realizadas em um ambiente de transição tecnológica. O som torna-se mais seco e direto, permitindo que a "fricção" das palhetas e o toque das baquetas nos pratos sejam ouvidos com clareza clínica, quase como se estivéssemos dentro da cabine de gravação. A mudança de Éthos, a transição observada é tão radical que é possível notar como os músicos da "velha guarda" e os "jovens turcos" (os futuros beboppers) dividiam os mesmos palcos. Este CD é o registro desse diálogo geracional tenso, onde o jazz se dividia entre ser uma indústria de entretenimento e um movimento artístico de vanguarda. O CD10 é documentalmente o registro de uma metamorfose. Se os volumes anteriores narraram a construção e o triunfo do jazz, este volume narra a sua libertação. É um documento indispensável porque encapsula o instante exato em que a música deixou de ser um produto de consumo imediato para se tornar uma linguagem autoral e introspectiva. Para o pesquisador ou o apreciador atento, este disco é o testemunho final de que a história do jazz não é linear; é uma sucessão de reinvenções provocadas pela inconformidade daqueles que, armados apenas com seus instrumentos, decidiram que o futuro não cabia nas formas do passado. Do ponto de virada capturado no volume 10 fica a pergunta: essa mudança para a complexidade técnica e intelectual, que sacrificou a dança em favor do virtuosismo puro, foi o movimento que "salvou" o jazz de se tornar uma música de museu, ou foi o fator que, em última análise, começou a afastar o jazz do grande público de massa?


Boa audição - Namastê

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Boxset: La Grande Histoire Du Jazz, do Ragtime ao Swing 1898-1952 (25CDs)


Lançamento: 2009
Selo: Le Chant du Monde 
Gênero: Swing, Ragtime, Big Band, Early Jazz, New Orleans Jazz, Dixieland, Harlem Stride Piano, Gipsy Jazz (Jazz Manouche), Negro Spirituals/Gospel

O limiar da ruptura na tensão criativa do jazz pré-moderno flerta o nono volume da coleção La Grande Histoire du Jazz captura um momento histórico de singular fragilidade e audácia: o final dos anos 30 e o início da década de 40. Estamos diante de um documento que registra a "estabilização" do Swing, mas, sob a superfície polida das grandes orquestras, já se ouve a inquietação harmônica de solistas que começam a questionar a rigidez dos arranjos. É o CD que registra a calma que precede a tempestade, o instante em que o jazz, por excelência uma música de baile, começa a se transformar em uma música de concerto e intelecto. Com pano de fundo deste volume é a sombra da Segunda Guerra Mundial e a transformação do jazz em um símbolo de resistência cultural e identidade americana. Esteticamente, o contraste é fascinante: de um lado, temos o escapismo glamoroso e perfeitamente ritmado das big bands que dominavam as paradas de sucesso; do outro, uma crescente valorização da individualidade virtuosística. É um período em que a música precisa ser, ao mesmo tempo, comercialmente viável para o público das pistas de dança e artisticamente desafiadora para os músicos que, exaustos da repetição mecânica, buscam novas rotas de exploração sonora. A evolução técnica aqui documentada revela a transição entre a "forma" e o "conteúdo" a expansão da paleta harmônica no papel dos instrumentos de sopro que começa a mudar. Se antes a função era marcar o ritmo ou responder ao solista, aqui o uso de extensões harmônicas (notas nonas, décimas primeiras e décimas terceiras) começa a aparecer de forma mais ousada nas harmonizações de naipes, antecipando a riqueza tonal do jazz moderno. A rítmica como moto-contínuo na seção rítmica atinge um grau de fluidez exemplar. A bateria abandona definitivamente o estilo "marcha" para adotar uma condução mais leve e elástica, permitindo que o baixo e o piano criem texturas que sustentam o solista de maneira menos invasiva e mais inspiradora. O Arranjo como dramaturgia, os arranjadores deste período começam a tratar a peça musical como uma narrativa cinematográfica, com contrastes dinâmicos (piano/forte) e passagens solistas que se integram organicamente à estrutura da orquestra, deixando de ser apenas um "intervalo" entre os temas. O registro da "Guerra e Paz", muitas dessas gravações foram feitas em um ambiente de incerteza global. Curiosamente, a precisão e a elegância sonora deste CD9 contrastam fortemente com a turbulência social da época. O estúdio de gravação funcionava como uma ilha de estabilidade, onde a busca pela perfeição musical era o único norte. A Microfonação como instrumento é perceptível neste volume o avanço das técnicas de captação. O som dos metais ganha um "brilho" que define a era, e o uso de microfones direcionais permitiu captar o sopro dos saxofones com uma intimidade que, anteriormente, era abafada pelo volume dos metais. A "escola" das jam sessions documenta a migração do talento dos grandes palcos para as jam sessions noturnas em lugares como o Minton’s Playhouse. O que ouvimos aqui é a ponte entre a performance pública e o laboratório privado onde a música estava sendo reinventada. Este volume é fundamentalmente o testemunho da maturidade. Documentalmente, ele é crucial por ser o "último suspiro" da unidade plena do jazz antes da grande divisão entre a vertente comercial e a de vanguarda. Para o ouvinte, o CD 9 oferece a satisfação de uma música que atingiu o seu equilíbrio ideal: o poder coletivo da orquestra em harmonia perfeita com a criatividade ilimitada do indivíduo. É a coleção de um gênero que, tendo conquistado o mundo, preparava-se, agora, para conquistar a eternidade através da arte pura. Observando este volume que equilibra tão bem a tradição com as sementes da modernidade, como você interpretaria a "fome" de mudança que levava esses solistas a buscar, após os shows, novas complexidades harmônicas nas jam sessions? Seria, na sua visão, um tédio criativo diante da previsibilidade do Swing ou uma ambição intelectual de elevar o jazz ao patamar das formas eruditas?

Boa audição - Namastê

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Boxset: La Grande Histoire Du Jazz, do Ragtime ao Swing 1898-1952 (25CDs)


Lançamento: 2009
Selo: Le Chant du Monde 
Gênero: Swing, Ragtime, Big Band, Early Jazz, New Orleans Jazz, Dixieland, Harlem Stride Piano, Gipsy Jazz (Jazz Manouche), Negro Spirituals/Gospel 

A consolidação da virtuosidade: A arte da narrativa no Jazz foca o oitavo volume da coleção La Grande Histoire du Jazz marcando o auge da sofisticação técnica e a maturidade expressiva do Jazz no final da década de 1930 e início dos anos 40. Este recorte temporal não é apenas uma sequência de registros musicais; é o momento em que o jazz, tendo consolidado o seu vocabulário rítmico e harmônico durante a era do Swing, começa a olhar para dentro de si, valorizando a profundidade emocional do solista como o centro gravitacional da obra. O pano de fundo deste CD é o amadurecimento cultural do jazz como arte legítima. O contraste estético é sutil, mas profundo: saímos da "dança" pura das orquestras de massa para um cenário onde a jam session e o pequeno grupo (quartetos, sextetos) tornam-se laboratórios de experimentação. Culturalmente, o jazz aqui deixa de ser apenas a "música das pistas de dança" para se tornar uma música de escuta atenta, onde a complexidade da interação entre músicos de alto calibre reflete uma sociedade que, embora ainda segregada, encontra no jazz a sua forma mais refinada de diálogo inter-racial e expressão individual. A evolução técnica documentada neste volume revela a transição entre o arranjo rígido e a liberdade criativa, a "conversa" instrumental no papel dos instrumentos evolui de forma dialética. O piano, muitas vezes percussivo nos volumes anteriores, assume aqui um papel de orquestrador, onde as mãos de artistas magistrais criam camadas harmônicas ricas que sustentam o solista com delicadeza e precisão. O advento do fraseado "moderno" percebe-se a transição na articulação dos sopros. O vibrato torna-se mais controlado e elegante, menos operístico, caminhando em direção a uma pureza tonal que influenciaria profundamente o Bebop. A estrutura rítmica aqui já opera como um organismo vivo. O contrabaixo deixou de ser apenas um metrônomo para se tornar um elemento melódico secundário, e a bateria, com o uso mais frequente dos pratos de condução (ride cymbals), começa a criar aquele "tapete" fluido que permite ao solista planar sobre a harmonia. A "democratização" da Improvisação curiosamente, este volume destaca músicos que frequentemente transitavam entre grandes orquestras e pequenos grupos de estúdio. Esse "trânsito" permitiu que técnicas de orquestração de grande escala fossem aplicadas em pequenos grupos, criando um gênero híbrido, por vezes chamado de chamber jazz (jazz de câmara). A era do 78 rotações como filtro é notável como, neste volume, os artistas já dominam a "arte dos três minutos". Existe uma precisão narrativa cirúrgica: introdução, exposição do tema, improviso e reexposição. É um exercício de economia e impacto que serve como uma aula de edição para músicos contemporâneos. O papel dos "sidemen": muitos dos músicos presentes neste volume, embora não fossem os líderes das bandas, tornaram-se pilares da história do jazz por sua capacidade de "completar" o pensamento musical dos líderes. A escuta atenta neste CD permite identificar o diálogo entre o solista principal e os músicos de apoio, algo frequentemente negligenciado na historiografia convencional. O CD8 é, fundamentalmente, um registro de refinamento. Ele não apresenta a "explosão" do início da era do jazz, mas a "polidez" do mestre que conhece todas as ferramentas do seu ofício. É um volume que documenta a transição de um gênero musical que buscava a sua voz para um gênero que agora dita as regras da linguagem musical moderna. A importância documental aqui reside na demonstração de que o jazz atingiu, nesta fase, um equilíbrio quase impossível entre a acessibilidade melódica e a complexidade técnica, servindo como a ponte última antes da ruptura radical que o Bebop promoveria poucos anos depois. Considerando a maestria contida neste oitavo volume, você vê a transição para a liberdade total do improviso (que explodiria na era do Bebop) como um desenvolvimento natural dessa "narrativa do solista" que este CD tão bem documenta, ou como uma reação deliberada contra a estrutura orquestral que aqui atinge seu apogeu?

Boa audição - Namastê

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Boxset: La Grande Histoire Du Jazz, do Ragtime ao Swing 1898-1952 (25CDs)

Lançamento: 2009
Selo: Le Chant du Monde 
Gênero: Swing, Ragtime, Big Band, Early Jazz, New Orleans Jazz, Dixieland, Harlem Stride Piano, Gipsy Jazz (Jazz Manouche), Negro Spirituals/Gospel


O alvorecer da sofisticação: O jazz em transição para a modernidade ergulha no  sétimo volume da coleção La Grande Histoire du Jazz situa-se em um dos períodos mais férteis da cronologia musical: a consolidação definitiva do Swing e o prenúncio da harmonia moderna. Se o volume anterior marcou a transição da polifonia rústica para a organização orquestral, este CD7 captura o momento em que as grandes orquestras se tornam as "máquinas de som" dominantes, elevando o jazz ao posto de música popular de massa enquanto, simultaneamente, os virtuosos começam a esticar as fronteiras do que era harmonicamente aceitável. O pano de fundo deste volume é o período de maturidade da era do Swing e a ascensão da indústria do rádio e do cinema musical. Esteticamente, o disco reflete o contraste entre a energia explosiva das big bands que animavam os salões de baile — projetadas para o movimento, para o corpo e para o entretenimento coletivo — e a busca por uma identidade artística individual, onde o solista começa a emergir como uma figura de autoridade quase mística, rivalizando em importância com a própria orquestra que o sustenta. A construção do gênero a evolução técnica neste volume revela um refinamento sem precedentes na articulação dos naipes e na escrita para jazz: A "Mecânica" do Swing: Observa-se a otimização dos arranjos, onde a escrita para metais e palhetas atinge um equilíbrio sofisticado. A força não vem mais da massa sonora caótica, mas da precisão milimétrica dos ataques e da "respiração" rítmica da seção de metais. O Papel do Contrabaixo: O uso do contrabaixo torna-se o alicerce fundamental, substituindo de vez a tuba e proporcionando o walking bass que define o balanço do gênero. Harmonias expandidas dos solistas deste volume começam a explorar tensões harmônicas (notas "fora" do acorde, mas que fazem sentido dentro da frase), algo que começava a ser uma marca de músicos que olhavam para o futuro. O improviso passa a ser menos sobre decorar melodias e mais sobre a compreensão profunda das progressões harmônicas. O surgimento da "estrela", o papel do frontman (seja ele cantor ou instrumentista) é solidificado. O carisma individual, a técnica vocal e a capacidade de fraseado tornam-se o coração emocional da música. A curiosidades históricas pertinente na tecnologia do CD remota período que coincide com a era de ouro do disco de 78 rotações. O tempo limitado de gravação (cerca de 3 minutos) obrigou os arranjadores a serem gênios da síntese; é fascinante notar como, neste CD, cada nota parece ter sido calculada para extrair o máximo de impacto emocional dentro dessa janela estrita. Os estúdios como Laboratórios e muitas destas gravações foram feitas sob condições que hoje consideraríamos precárias, mas que resultaram em uma estética sonora de "presença" inigualável. O uso de microfones únicos no centro da sala forçava a banda a ter um equilíbrio natural (o que chamamos de balance) puramente acústico, um segredo de sonoridade que a era digital tenta, muitas vezes, emular artificialmente. A evolução das "Jams" em algumas faixas neste volume capturam a energia que antes só existia nas jam sessions informais de Nova York ou Kansas City, trazidas agora para a formalidade estéril dos estúdios, perdendo um pouco da "sujeira", mas ganhando em precisão técnica. Este volume é um documento essencial que encapsula o "momento de ouro" do jazz. É o registro da música que deu sentido à vida americana durante a crise e a reconstrução, e que se espalhou pelo mundo como um símbolo de liberdade e sofisticação. Documentalmente, o CD 7 é indispensável: ele prova que o jazz, naquele momento, havia alcançado o ápice da sua aceitação comercial sem sacrificar a sua integridade técnica. É a audição obrigatória para entender por que, para várias gerações, o Swing não foi apenas um estilo, mas a trilha sonora de uma nova era de modernidade. Pergunta que fica é observando a elegância e a precisão alcançadas neste sétimo volume, pergunto: na sua análise pessoal, qual destas orquestras você sente que melhor equilibrou o peso da tradição de blues com a necessidade de inovação harmônica que o Swing exigia?


Boa audição - Namastê