Artista: Memphis Slim & Champion Jack Dupree
Álbum: Piano Blues CD09
Lançamento: 2001/02/03
Selo: Habana
Gênero: Chicago Blues, Country Blues, Delta Blues, Harmonica Blues, Jump Blues, Louisiana Blues, Piano Blues, Rhythm & Blues, Texas Blues, East Coast Blues, Vaudeville Blues
O nono volume da coleção Les Triomphes du Blues (Habana) abandona temporariamente a supremacia das cordas para explorar a força sísmica, a percussão rítmica e a revolução armônica dos grandes mestres do teclado. Intitulado Piano Blues, este disco desconstrói a ideia equivocada de que o blues pertence unicamente ao violão e à gaita, revelando como o piano transformou o gênero de uma música de varanda rural em uma força orquestral autossuficiente capaz de incendiar os antros noturnos, as tavernas de beira de estrada e os salões de dança industriais do século XX. Este volume sustenta a tese de que o piano no blues operava como uma "pequena orquestra de um homem só". Enquanto o guitarrista dependia do braço do instrumento para marcar o ritmo e fazer a melodia, o pianista utilizava a independência motora absoluta entre as mãos: a mão esquerda ditava um ostinato rítmico implacável, mecânico e sincopado, enquanto a mão direita disparava cascatas de notas sincopadas e arranjos de jazz. O piano blues, portanto, é apresentado não como um subgênero polido, mas como a manifestação mais robusta da transição do campo para a modernidade metropolitana. Gravado em um arco temporal que abrange a década de 1920 até o início dos anos 1940, este repertório documenta o momento em que pianos desafinados de armário ou de caudas gastas em juke joints tornaram-se os verdadeiros centros nervosos da festa afro-americana. Acusticamente, as gravações de 78 RPM capturadas por unidades móveis de selos como Vocalion e Paramount registram a percussão física dos martelos batendo nas cordas de aço com uma ambiência rústica, onde o som da madeira do instrumento e a ressonância do piso de tábuas corridas misturam-se organicamente à dinâmica das execuções. A análise de destaques e narrativa dos músicos (três faixas-chave: O lirismo melancólico de Leroy Carr introduziu uma estética de toque minimalista, espacial e profundamente melancólica, abandonando a agitação festiva para criar um tapete sonoro de acordes limpos e contemplativos que dialogavam com confissões vocais de forte carga trágica. A Fúria mecânica do Boogie-Woogie (meade "Lux" Lewis): Uma aula de matemática rítmica e velocidade. A mão esquerda executa um padrão contínuo e frenético que simula perfeitamente o chocalhar e o ritmo cadenciado de um trem de ferro cruzando os trilhos, enquanto a direita explora dissonâncias e acordes de blues em altíssima rotação. O balanço urbano de Roosevelt Sykes: funde-se o balanço dançante com letras de forte apelo boêmio e irônico, utilizando acordes encorpados e uma pegada rítmica pesada que pavimenta a estrada direta para o nascimento do R&B do pós-guerra. A curiosidade de bastidor e narrativa dos músicos (fato raro) é o retorno das cinzas e o piano na lavagem de carros: curiosamente, a história dos pianistas de blues presentes neste volume é marcada por reviravoltas cinematográficas. Figuras fundamentais como Meade "Lux" Lewis, por exemplo, viram suas carreiras sumirem do mapa durante a Grande Depressão dos anos 1930, sendo obrigados a abandonar os palcos para trabalhar em empregos braçais — Lewis tirava o sustento lavando carros em garagens de Chicago. Ele só foi resgatado do anonimato absoluto e catapultado para apresentações históricas em templos da música erudita como o Carnegie Hall porque produtores obcecados vasculharam sebos atrás de velhos discos de 78 RPM e decifraram o paradeiro do pianista escondido na classe trabalhadora urbana. Conexão evolutiva dentro da grandiosidade da colezione (coleção) da arquitetura monumental de Les Triomphes du Blues, o Volume 9 cumpre um papel estrutural indispensável: ele é a força motriz rítmica que liga o passado acústico do Delta ao futuro vibrante do rock and roll. A técnica implacável da mão esquerda executada por estes pianistas foi copiada nota por nota, décadas mais tarde, por arquitetos pioneiros do rock como Fats Domino, Jerry Lee Lewis e Little Richard, provando que o teclado era tão letal quanto a guitarra elétrica na definição do ritmo jovem do século XX.“O Volume 9 de Les Triomphes du Blues consagra as teclas como os martelos que forjaram a modernidade do ritmo, transformando cada piano de taverna em um motor a vapor de alta octanagem sonora.”
Boa audição - Namastê



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