Artista: Tommy Flanagan (1957) & Herbert Hancock (1962)
Lançamento: 2020.
Selo: The Intense Media/(Milestones of Jazz Legends)
Gênero: Bebop, Hard Bop, Cool Jazz
Análise Crítica e Curatorial do CD6: A Elegância Suprema de Tommy Flanagan e o Despertar Genial de Herbie Hancock. O sexto volume (CD6) da prestigiosa caixa antológica The Art Of The Piano..., lançada em 2020, representa um verdadeiro tesouro arqueológico e estético para os amantes sincopados. Longe de apenas revisitar os caminhos mais batidos da historiografia oficial, a curadoria deste volume traça um paralelo fascinante entre o apogeu lírico do mestre do acompanhamento, Tommy Flanagan, e os primeiríssimos e raríssimos passos de um jovem prodígio que viria a redefinir a física do piano moderno: Herbie Hancock. Este disco serve como um tratado sobre o equilíbrio entre a tradição melódica do bebop e as tensões harmônicas embrionárias que desaguariam no jazz modal e no post-bop dos anos 1960. As Performances, Cronologia e os Registros Histórico, para os aficionados por dados de arquivo e pela pureza mecânica das sessões analógicas, o CD6 destaca-se por resgatar duas fitas master de altíssimo valor histórico, capturadas em contextos geográficos e criativos completamente distintos: Tommy Flanagan: O Poeta de Detroit em Solo Escandinavo, conhecido na comunidade do jazz como o "Poeta Laureado do Piano", Tommy Flanagan exibe no CD6 o toque aristocrático, a clareza cristalina e a sutileza rítmica que fizeram dele o músico de escolha de Ella Fitzgerald e John Coltrane (marcando presença no antológico Giant Steps). Suas performances neste disco transbordam um lirismo introspectivo, onde cada nota improvisada funciona como uma extensão natural da melodia original, pontuada por um suingue discreto e uma precisão cirúrgica de dinâmica. Data e Local de Gravação: Gravado no renomado Metronome Studio, em Estocolmo, Suécia (Stockholm, Sweden), em 15 de agosto de 1957. Esta sessão histórica captura Flanagan no auge de sua forma, aproveitando a impecável acústica e a engenharia de som europeia da época para registrar um de seus trabalhos em trio mais puros e sofisticados da década. Músicos de Apoio e Dinâmica: Escoltado por uma seção rítmica local de altíssimo nível, o trio constrói uma atmosfera intimista típica do Chamber Hard Bop. A conversa entre o piano de Flanagan, as linhas sinuosas do contrabaixo e a condução sutil dos pratos traduz o ambiente de um clube europeu esfumaçado, onde o silêncio da plateia reverenciava a precisão do toque do pianista. Herbie Hancock: O Despertar Arqueológico de um Gênio. A inclusão das faixas de Herbie Hancock no CD6 é o ponto que faz os olhos dos colecionadores brilharem. Trata-se de um registro milagroso de Hancock quando ele tinha meros 15 anos de idade. Para o ouvido atento do amante sincopado, a audição é eletrizante: embora o jovem Herbie ainda estivesse sob a forte influência estilística de mestres como Oscar Peterson e George Shearing, já é possível detectar os germes de sua genialidade futura. Há uma ousadia rítmica sutil nas síncopas, um ataque percussivo diferenciado e escolhas de inversões harmônicas que apontavam para o revolucionário que, anos mais tarde, ancoraria o segundo grande quinteto de Miles Davis e eletrificaria o mundo com os Headhunters. Data e Local de Gravação: Registrado em Los Angeles, Califórnia (CA), em 1 de agosto de 1955. Trata-se de um documento de valor inestimável — uma sessão gravada muito antes de sua estreia oficial pela Blue Note com o álbum Takin' Off (1962). Capturado nos Estados Unidos, este registro flagra o pianista em sua fase de transição entre o prodígio da música clássica (tendo tocado Mozart com a Sinfônica de Chicago aos 11 anos) e sua conversão definitiva ao jargão do jazz moderno. A Estética Sincopada: O balanço das faixas de 1955 revela um vigor juvenil fascinante. O fraseado corre veloz, mas a síncopa é distribuída com uma maturidade precoce. Herbie brinca com os tempos fracos do compasso e introduz pequenas tensões de blues que quebravam a rigidez acadêmica, oferecendo um vislumbre fascinante da arquitetura harmônica que ele viria a reinventar na década seguinte. Curiosidades do CD6 e Joias Ocultas, a grande curiosidade histórica que este volume consolida reside na desconcertante distância geográfica e cronológica que as duas sessões apresentam, mas que se unem organicamente pela linha evolutiva do instrumento. Enquanto Tommy Flanagan estava na Europa em 1957 operando como um mestre maduro e estabelecendo o padrão ouro de elegância pós-bebop no Metronome Studio de Estocolmo, um Herbie Hancock adolescente, dois anos antes (1955), absorvia o suco do rhythm and blues e da efervescência da Costa Oeste em Los Angeles, tentando traduzir o complexo vocabulário de síncopas para seus dedos ainda em formação. Outro detalhe técnico fascinante para os entusiastas da alta-fidelidade: a sessão de Flanagan na Suécia foi uma das pioneiras na Europa a utilizar microfonação de alta sensibilidade posicionada de forma extremamente próxima às cordas e martelos do piano. Isso confere às faixas do CD6 um realismo impressionante, onde o ouvinte consegue escutar o estalar da madeira e a dinâmica física do pedal do pianista, criando um contraste rústico e belíssimo com o som mais aveludado, histórico e denso de fita monofônica da sessão de Hancock de 1955. Nível de Escolha das Faixas: Um Monumento à Curadoria Histórica, o nível curatorial do CD6 transcende o mero entretenimento e atinge o status de documentário musical de vanguarda. A escolha do repertório demonstra uma coragem intelectual rara em caixas comemorativas: Em vez de rechear o disco com as gravações amplamente difundidas de Herbie Hancock nos anos 60 — como Watermelon Man ou Maiden Voyage —, a curadoria optou por dar ao público a oportunidade única de testemunhar a arqueologia do gênio. O encadeamento do disco é cirúrgico: a audição flui do refinamento pacificado, lírico e matematicamente perfeito de Tommy Flanagan diretamente para o frescor audacioso, enérgico e sincopado do jovem Hancock de 15 anos. A masterização realizada em 2020 unificou esses dois universos sonoros díspares através de um ganho harmônico sutil, preservando a patine e o chiado característico das fitas originais, para o completo deleite dos puristas do jazz. Veredito Curatorial: O CD6 de The Art Of The Piano... é um marco indispensável para os ouvintes de percepção aguçada. Ao costurar a poesia estruturada de Tommy Flanagan em Estocolmo com o despertar histórico de Herbie Hancock em Los Angeles, o volume oferece mais do que grandes performances: ele entrega uma radiografia da evolução do piano jazz. Um disco essencial, profundo e intensamente sincopado, moldado para os ouvidos que buscam a beleza nas entrelinhas do tempo e do ritmo.
Boa audição - Namastê































