Artista: VA
Álbum: Vol.5: Jump Blues Classics
Lançamento: 1992
Selo: Rhino Records
Gênero: Chicago Blues, Harmonica Blues, Jump Blues, Texas Blues, Delta Blues, Electric Blues, Rhythm & Blues, Big Band
Lançado em 1992 pela Rhino Records, Blues Masters — The Essential Blues Collection, Volume 5: Jump Blues Classics é uma coletânea dedicada a uma das vertentes mais vibrantes e influentes da música afro-americana do século XX. Com 18 faixas, o álbum apresenta um panorama do jump blues, estilo que combina a expressividade do blues com o balanço do swing, a instrumentação do jazz, a força dos metais e uma pulsação rítmica orientada para a dança. A seleção reúne diferentes expressões do blues urbano do pós-guerra, incluindo elementos do rhythm and blues, do boogie-woogie, do jazz-blues e das primeiras manifestações musicais que contribuíram para o desenvolvimento do rock and roll. A importância histórica do jump blues está relacionada às transformações da música popular norte-americana durante as décadas de 1940 e 1950. Nesse período, as grandes orquestras de swing perderam parte de seu espaço comercial, enquanto conjuntos menores passaram a explorar arranjos mais econômicos, ritmos acentuados, solos de saxofone, piano percussivo, guitarras elétricas e vocais de forte personalidade. Em vez de privilegiar exclusivamente a atmosfera introspectiva do blues tradicional, muitas dessas gravações apostavam na energia, no humor, na dança e na comunicação direta com o público. O resultado foi uma linguagem musical que preservava as raízes do blues, mas incorporava novas possibilidades de interpretação e arranjo. O jump blues também representou uma importante ligação entre o jazz das big bands, o blues urbano e o rock and roll. A presença de artistas como Big Joe Turner, Wynonie Harris, Roy Brown, Tiny Bradshaw, Big Mama Thornton e Ruth Brown demonstra como diferentes tradições musicais convergiram para formar uma sonoridade moderna, rítmica e acessível. Muitas das canções associadas a esse universo foram posteriormente reinterpretadas por artistas de rock, tornando-se referências fundamentais para compreender a circulação de repertórios entre o blues, o rhythm and blues e a música popular das décadas seguintes. A coletânea abre com “Hand Clappin’”, de Red Prysock, uma gravação que estabelece imediatamente o espírito dançante do álbum. Classificada como jump blues, saxophone blues e rhythm and blues, a faixa destaca a força do saxofone, a pulsação regular e a interação com a seção rítmica. Prysock representa uma vertente instrumental na qual o saxofone assume o papel de protagonista, conduzindo a melodia com frases incisivas e um timbre encorpado. A gravação demonstra que o jump blues não dependia exclusivamente de grandes vocalistas: instrumentistas capazes de criar temas memoráveis também desempenharam um papel fundamental na popularização do gênero. Sua avaliação crítica é de 9,0/10, considerando a eficácia rítmica, a identidade sonora e sua função como introdução à estética da coletânea. Em seguida, Big Joe Turner interpreta “Shake, Rattle, and Roll”, uma das gravações mais representativas da transição entre o rhythm and blues e o rock and roll. Lançada originalmente em 1954, a canção evidencia a extraordinária capacidade vocal de Turner, cuja voz poderosa combina a tradição do blues com a exuberância do shout, uma forma de cantar caracterizada pela projeção intensa e pela expressividade rítmica. A interpretação integra a voz ao conjunto instrumental, utilizando o acompanhamento e os metais para intensificar a energia da composição. A canção alcançou posteriormente grande notoriedade na versão de Bill Haley and His Comets, mas a gravação de Turner preserva a força do contexto musical afro-americano em que surgiu. Seu valor histórico demonstra que o rock and roll não apareceu isoladamente, mas se desenvolveu a partir de linguagens já consolidadas no blues e no rhythm and blues. Pela qualidade vocal, pelo impacto e pela importância histórica, a faixa recebe 10/10. “Jump, Jive, an’ Wail”, de Louis Prima, apresenta uma abordagem mais teatral e exuberante do jump blues, aproximando a energia do blues dançante do espetáculo vocal e instrumental associado ao swing. Prima combina humor, espontaneidade e forte comunicação com o público, demonstrando como o jazz popular podia incorporar elementos do blues sem abandonar seu caráter festivo. A presença dos metais e a articulação rítmica sustentam uma interpretação orientada para a dança, na qual a personalidade do artista é tão importante quanto a estrutura musical. Uma curiosidade é que a canção voltou a ganhar projeção internacional décadas depois, quando novas interpretações recuperaram a estética do swing. Essa trajetória confirma a capacidade do repertório de Prima de atravessar gerações. A avaliação crítica é de 9,5/10. Wynonie Harris surge com “Good Rockin’ Tonight”, uma das gravações historicamente mais importantes do repertório. A composição foi originalmente gravada por Roy Brown em 1947, mas a interpretação de Harris, lançada em 1948, tornou-se decisiva para a consolidação do rhythm and blues do pós-guerra. Sua voz vigorosa e expansiva combina o shouting blues com uma postura performática que transforma a canção em uma experiência de grande intensidade. A organização rítmica, a presença dos metais e a força do acompanhamento antecipam características posteriormente associadas ao rock and roll. A trajetória da composição também evidencia como uma mesma canção pode adquirir diferentes significados conforme o intérprete e o arranjo. A gravação de Harris destaca-se por sua contribuição à formação de uma nova linguagem musical, razão pela qual recebe 10/10. Em “Rockin’ at Midnight”, Roy Brown apresenta uma abordagem diretamente vinculada ao blues vocal, sem abrir mão da energia dançante característica do jump blues. Sua voz combina expressividade, controle e um fraseado particular, enquanto o acompanhamento sustenta a pulsação sem reduzir a importância da interpretação vocal. Brown foi uma figura importante na consolidação do rhythm and blues do pós-guerra, e sua obra demonstra como o blues podia ser reorganizado em arranjos urbanos mais compactos, apropriados tanto para a audição quanto para a dança. Uma curiosidade relevante é que Roy Brown também compôs e gravou “Good Rockin’ Tonight”, posteriormente popularizada na versão de Wynonie Harris. A presença dos dois artistas permite compreender diferentes abordagens de uma mesma tradição musical. A faixa recebe 9,5/10 por sua clareza melódica, expressividade e importância histórica. A interpretação de “Hoy Hoy”, de Little Johnny Jones, destaca o papel do piano no desenvolvimento do blues urbano. Classificada como piano blues, Chicago blues e jump blues, a gravação combina elementos do boogie-woogie com uma pulsação rítmica que contribui diretamente para a construção da música. O piano não funciona apenas como acompanhamento harmônico: ele sustenta o ritmo por meio de figuras graves, acordes marcados e variações que interagem com os demais instrumentos. Ligado à cena do blues de Chicago, Jones representa uma tradição em que pianistas, guitarristas, baixistas e bateristas ajudaram a desenvolver uma sonoridade urbana de grande influência. A faixa oferece um contraponto às gravações dominadas pelos saxofones e demonstra que o piano podia produzir o mesmo impulso dançante por meio da articulação e dos acentos rítmicos. Sua avaliação é de 9,0/10. “The Train Kept A-Rollin’”, de Tiny Bradshaw, constitui um dos pontos culminantes da coletânea. Lançada originalmente em 1951, a gravação apresenta um ritmo insistente, arranjos vigorosos e uma estrutura que transmite a sensação de movimento contínuo. A imagem do trem, recorrente na música norte-americana, funciona como metáfora para a força rítmica da composição. Bradshaw, cantor e líder de orquestra, trabalhava em uma tradição na qual o swing das big bands se encontrava com a energia mais direta do rhythm and blues. A interação entre os metais, a seção rítmica e a voz produz uma sonoridade simultaneamente sofisticada e agressiva. Uma das curiosidades mais importantes é a trajetória posterior da canção, que foi reinterpretada por artistas ligados ao rock, incluindo grupos que ajudaram a transformá-la em uma referência duradoura do gênero. A gravação demonstra a influência do repertório afro-americano sobre o desenvolvimento do rock and roll e recebe 10/10 pela energia, originalidade e relevância histórica. Em “Juicy Fruit”, Rudy Greene apresenta uma interpretação mais compacta, na qual a interação entre voz, piano e acompanhamento rítmico ocupa posição central. A faixa aproxima o jump blues do boogie-woogie e do rhythm and blues, privilegiando a clareza do tema e a eficiência do arranjo. Em muitas gravações comerciais do período, a capacidade de estabelecer rapidamente uma melodia reconhecível e manter o interesse do ouvinte era tão importante quanto a elaboração instrumental. Greene representa uma vertente do gênero em que a simplicidade estrutural favorece a comunicação direta e a atmosfera dançante. Sua presença também amplia a representação de artistas menos conhecidos pelo público geral, lembrando que a consolidação do rhythm and blues dependeu de numerosos músicos além dos nomes mais célebres. A avaliação é de 8,5/10. Jackie Brenston and His Delta Cats aparecem com “In My Real Gone Rocket”, gravação associada ao contexto musical de Memphis e à expansão do rhythm and blues durante o início dos anos 1950. O nome do conjunto está historicamente ligado ao ambiente musical do pianista e instrumentista Ike Turner, cuja atuação foi importante para o desenvolvimento da música regional. A referência mais conhecida associada a Brenston é “Rocket 88”, gravada em 1951, frequentemente mencionada nas discussões sobre os primórdios do rock and roll por sua combinação de ritmo vigoroso, piano, saxofone e guitarra elétrica. “In My Real Gone Rocket” deve ser considerada uma gravação distinta, embora pertença a um contexto musical semelhante. A faixa demonstra a aproximação entre o blues e uma sonoridade mais agressiva, elétrica e orientada para o público jovem. Sua avaliação é de 9,5/10, considerando a relevância histórica e a representação de um período decisivo de transformação musical. “Cadillac Boogie”, de Jimmy Liggins, representa o blues urbano da Costa Oeste e sua ligação com o boogie-woogie. Guitarrista, cantor e compositor, Liggins desenvolveu uma linguagem na qual a guitarra desempenha papel central na construção do ritmo, acompanhada por uma seção instrumental que mantém a pulsação dançante. O título remete ao automóvel como símbolo de mobilidade, modernidade e aspiração social na cultura popular norte-americana do pós-guerra. Essa temática aparece com frequência no blues e no rhythm and blues, gêneros que incorporavam imagens da vida urbana, das relações amorosas e das transformações sociais. A gravação evidencia a capacidade do blues da Costa Oeste de combinar as raízes tradicionais com arranjos mais polidos e uma sonoridade voltada para o entretenimento urbano. A avaliação crítica é de 9,5/10. A interpretação de “Got My Mojo Working (But It Just Won’t Work on You)”, de Ann Cole, constitui um dos momentos mais importantes do álbum. A gravação, associada à década de 1950, combina blues vocal e rhythm and blues, colocando a voz feminina no centro da narrativa musical. O título faz referência ao imaginário do mojo, associado a amuletos, objetos de poder e práticas de proteção presentes em tradições culturais afro-americanas. No universo do blues, essa expressão aparece frequentemente como metáfora de atração, desejo, influência e poder pessoal, integrando um repertório simbólico mais amplo. Uma curiosidade histórica fundamental é que a interpretação de Ann Cole antecede a versão de “Got My Mojo Working” que se tornou amplamente conhecida por Muddy Waters. A gravação de Cole ajuda a compreender a circulação das composições entre artistas e gravadoras e demonstra a importância das cantoras para a evolução do rhythm and blues. Sua voz combina firmeza, clareza e senso rítmico, justificando a avaliação de 10/10 pela qualidade interpretativa e pela relevância documental. Em “Hop, Skip and Jump”, Roy Milton apresenta uma abordagem que combina piano blues, jump blues e rhythm and blues. Cantor, baterista e líder de conjunto, Milton foi uma figura importante para a consolidação do rhythm and blues da Costa Oeste. Sua música valoriza a pulsação, a organização dos arranjos e a comunicação imediata com o público. A gravação demonstra que a transformação do blues em rhythm and blues não ocorreu apenas por meio da amplificação dos instrumentos, mas também por mudanças na organização dos conjuntos, na duração das músicas e na construção de refrões mais diretos. Milton contribuiu para estabelecer uma linguagem que preservava a expressividade do blues enquanto incorporava elementos da música popular urbana. A faixa recebe 9,5/10 por sua eficácia rítmica, pelo caráter dançante e pela relevância de seu intérprete. “Deacon’s Hop”, de Big Jay McNeely and His Band, representa uma das vertentes mais intensas do jump blues. McNeely ficou conhecido pela força de suas apresentações e pela maneira expansiva de explorar o saxofone tenor. A gravação evidencia a capacidade do instrumento de produzir frases vigorosas, timbres ásperos e acentos que se integram à pulsação da seção rítmica. O saxofone assume o papel de protagonista, conduzindo a melodia e ampliando o impacto físico da música. McNeely também ficou associado a apresentações de grande energia, nas quais o instrumento adquiria uma presença quase teatral. A faixa remete à cultura dos clubes e salões de dança do pós-guerra, em que o ritmo e a intensidade dos metais criavam uma experiência coletiva. Sua avaliação é de 9,5/10, pela eficácia instrumental e pela representatividade estilística. Em “Rock My Blues Away”, Clarence “Gatemouth” Brown apresenta uma abordagem que amplia as fronteiras do jump blues. Cantor, guitarrista, violinista e multi-instrumentista, Brown desenvolveu uma linguagem que combinava blues do Texas, jazz, swing e elementos de outras tradições musicais norte-americanas. Sua interpretação demonstra que o blues não estava limitado a uma fórmula única: a precisão instrumental e a sofisticação dos arranjos convivem com uma pulsação dançante e uma expressividade profundamente enraizada na tradição do gênero. Brown frequentemente resistia a classificações estreitas, e sua obra é reconhecida justamente pela capacidade de absorver diferentes influências sem perder a própria identidade. A presença da faixa enriquece a coletânea ao introduzir uma perspectiva mais aberta e instrumentalmente refinada. Sua avaliação é de 9,5/10. A gravação de “Hound Dog”, de Big Mama Thornton, é um dos pontos mais importantes da coletânea. Lançada originalmente em 1952, a interpretação apresenta uma voz poderosa, áspera e carregada de personalidade. Thornton transforma a canção em uma afirmação de autonomia, utilizando o fraseado e a intensidade para construir uma interpretação de grande autoridade. A composição foi escrita por Jerry Leiber e Mike Stoller e alcançou notoriedade antes de se tornar internacionalmente conhecida na versão de Elvis Presley, lançada em 1956. A comparação entre as gravações revela diferenças importantes entre o rhythm and blues afro-americano e a abordagem posterior do rock and roll. A interpretação de Thornton permanece profundamente enraizada no blues vocal e demonstra a contribuição decisiva de uma artista afro-americana para um repertório que alcançaria o mercado de massa. A gravação também evidencia a importância das mulheres no desenvolvimento do blues do pós-guerra, desafiando expectativas convencionais sobre a voz feminina na música popular. Pela qualidade interpretativa e pela relevância histórica, recebe 10/10. Em “’Til the Well Runs Dry”, Sister Wynona Carr aproxima o universo do rhythm and blues da expressividade vocal desenvolvida na tradição do gospel. Sua voz possui grande presença e combina intensidade emocional com clareza melódica. A faixa demonstra como a música religiosa afro-americana contribuiu para a formação dos estilos seculares, especialmente por meio do fraseado expressivo, das variações dinâmicas e da capacidade de criar momentos de forte intensidade. A fronteira entre gospel e música popular nunca foi inteiramente rígida: muitos intérpretes desenvolveram suas técnicas em igrejas e corais antes de gravar repertório secular, levando consigo recursos vocais que se tornariam fundamentais para o rhythm and blues e, posteriormente, para o soul. A participação de Carr amplia a diversidade da coletânea e destaca a importância da expressividade vocal como elemento central do gênero. A avaliação crítica é de 9,0/10. “Why Don’t You Haul Off and Love Me”, de Bull Moose Jackson and His Buffalo Bearcats, apresenta uma vertente descontraída do jump blues, marcada pela combinação entre voz, metais e seção rítmica. Jackson, cantor e saxofonista, ficou conhecido por uma abordagem que integrava swing, humor, sensualidade e teatralidade. O título, com sua linguagem coloquial e sugestiva, exemplifica uma característica frequente do blues e do rhythm and blues da época: o uso de expressões cotidianas, duplos sentidos e situações amorosas para criar canções que dialogavam diretamente com o público. O humor não era um elemento secundário, mas parte importante da identidade musical e performática do gênero. A interpretação demonstra como o jump blues podia combinar musicalidade e entretenimento sem abandonar suas raízes. A faixa recebe 9,0/10. A coletânea se encerra com “Hello Little Boy”, de Ruth Brown, uma interpretação que destaca a importância das cantoras para a consolidação do rhythm and blues. Brown foi uma das artistas fundamentais para a Atlantic Records durante a década de 1950 e desenvolveu uma voz reconhecida pela clareza, flexibilidade e expressividade. Sua maneira de cantar combina elementos do blues, do jazz vocal e da música popular urbana, valorizando a precisão do fraseado e o controle dinâmico. Em vez de depender exclusivamente da força vocal, Brown constrói uma interpretação equilibrada, na qual a voz se integra ao acompanhamento e mantém uma comunicação direta com o ouvinte. Sua presença no encerramento é apropriada porque reforça a diversidade de personalidades musicais apresentadas no álbum. A avaliação é de 9,5/10. Do ponto de vista estilístico Jump Blues Classics pode ser classificado principalmente como uma coletânea de jump blues e rhythm and blues do pós-guerra. O conjunto incorpora elementos de swing, boogie-woogie, blues vocal, piano blues, saxophone blues, jazz-blues, blues do Texas e música popular dançante. Essa variedade demonstra que o jump blues não era uma categoria rígida, mas um espaço de encontro entre tradições musicais que compartilhavam instrumentos, estruturas rítmicas e práticas interpretativas. O saxofone aparece como um dos elementos mais característicos do repertório, especialmente nas gravações de Red Prysock e Big Jay McNeely. O piano desempenha papel importante nas interpretações associadas a Little Johnny Jones e Roy Milton, enquanto a guitarra e a instrumentação elétrica contribuem para aproximar o repertório de sonoridades posteriormente exploradas pelo rock and roll. As vozes de Big Joe Turner, Wynonie Harris, Roy Brown, Big Mama Thornton, Ann Cole e Ruth Brown demonstram a diversidade de abordagens vocais desenvolvidas nesse período. A coletânea também revela que a história do gênero não pode ser explicada exclusivamente pela trajetória de alguns artistas célebres. A consolidação do rhythm and blues dependeu de músicos, conjuntos, gravadoras independentes e circuitos regionais que ajudaram a construir uma linguagem musical compartilhada. Historicamente o jump blues ganhou força durante a década de 1940, quando mudanças econômicas, sociais e musicais favoreceram a reorganização das grandes orquestras e a formação de conjuntos menores. A economia de recursos, as transformações do mercado fonográfico e a expansão das gravadoras independentes contribuíram para a popularização de grupos que combinavam blues, jazz e música dançante. Nesse ambiente, o saxofone frequentemente assumiu o papel de instrumento principal, enquanto o piano e a seção rítmica sustentavam uma pulsação acentuada. Esse processo ocorreu em um contexto mais amplo de transformação da sociedade norte-americana. A migração de populações afro-americanas, a expansão dos centros urbanos e a criação de novos circuitos de entretenimento favoreceram a circulação de artistas e repertórios. Clubes, salões de dança, teatros, emissoras de rádio e gravadoras independentes passaram a integrar uma rede que permitia a disseminação de novos estilos. O rhythm and blues desenvolvido nesse ambiente contribuiu diretamente para o surgimento do rock and roll. A intensidade vocal de Big Joe Turner, a abordagem de Wynonie Harris, a força de Big Mama Thornton e a estrutura rítmica de gravações como “The Train Kept A-Rollin’” demonstram como muitos elementos posteriormente associados ao rock já estavam presentes nas gravações afro-americanas das décadas de 1940 e 1950. É importante, entretanto, evitar a interpretação simplificada de que o jump blues teria sido apenas uma etapa intermediária destinada a produzir o rock and roll. O gênero possui valor artístico próprio, associado ao swing, ao humor, à dança e à expressividade dos intérpretes. Seu significado histórico não depende exclusivamente de sua influência posterior, mas também da qualidade e da originalidade das gravações produzidas em seu próprio contexto. A principal virtude da coletânea está na combinação entre repertório conhecido e gravações que ajudam a ampliar o conhecimento sobre o gênero. A seleção inclui artistas cujas interpretações se tornaram referências para o desenvolvimento do rhythm and blues, mas também oferece espaço para músicos menos conhecidos pelo público geral. A presença de “Shake, Rattle, and Roll”, “Good Rockin’ Tonight”, “The Train Kept A-Rollin’”, “Hound Dog” e “Got My Mojo Working” confere ao álbum importância documental particular, permitindo acompanhar a trajetória de canções que ultrapassaram seu contexto original e passaram a integrar a história mais ampla da música popular. Ao mesmo tempo, faixas como “Hand Clappin’”, “Deacon’s Hop” e “Cadillac Boogie” ajudam a compreender a centralidade do ritmo, do saxofone e da instrumentação elétrica no desenvolvimento do jump blues. Como toda coletânea, o álbum apresenta limitações. Dezoito faixas não são suficientes para representar integralmente a diversidade do gênero, e a concentração em gravações do período de maior popularidade do jump blues deixa de fora outras tradições regionais e artistas igualmente importantes. Além disso, o caráter compacto de muitas gravações comerciais da época privilegia o impacto imediato, nem sempre oferecendo espaço para longos desenvolvimentos instrumentais. Essas limitações, entretanto, não comprometem o valor da seleção. O disco cumpre com eficiência sua função de introdução histórica e musical, reunindo exemplos de diferentes vertentes do blues urbano. Sua audição é especialmente produtiva quando realizada de forma comparativa, observando como o mesmo impulso rítmico pode assumir formas distintas nas mãos de cantores, saxofonistas, pianistas e guitarristas. Considerando a relevância histórica, a qualidade interpretativa, a originalidade musical e a contribuição de cada gravação para a compreensão do jump blues, “Shake, Rattle, and Roll”, “Good Rockin’ Tonight”, “The Train Kept A-Rollin’”, “Got My Mojo Working” e “Hound Dog” constituem os pontos mais fortes da seleção, recebendo avaliação de 10/10 nesta análise editorial. “Jump, Jive, an’ Wail”, “Rockin’ at Midnight”, “In My Real Gone Rocket”, “Cadillac Boogie”, “Hop, Skip and Jump”, “Deacon’s Hop”, “Rock My Blues Away” e “Hello Little Boy” também se destacam pela qualidade de execução, pela personalidade dos intérpretes e pela capacidade de representar diferentes caminhos do blues urbano. As demais faixas contribuem para a variedade estilística e para a compreensão do contexto musical, ainda que apresentem impacto individual menos expressivo dentro desta seleção. A avaliação geral da coletânea é de 9,4/10. Essa nota constitui uma apreciação crítica independente, baseada na qualidade do repertório, na importância histórica dos artistas, na diversidade estilística e na contribuição do álbum para a compreensão da evolução do blues, do rhythm and blues e do rock and roll. Não se trata de uma classificação oficial da gravadora ou de uma avaliação publicada por uma revista especializada. Em conclusão Blues Masters — The Essential Blues Collection, Volume 5: Jump Blues Classics é uma coletânea de grande valor histórico e musical, especialmente para quem deseja compreender as transformações do blues urbano durante o pós-guerra. Ao reunir gravações de artistas como Big Joe Turner, Wynonie Harris, Roy Brown, Tiny Bradshaw, Big Mama Thornton, Ann Cole e Ruth Brown, o álbum apresenta um panorama expressivo de uma tradição que combinou a força do blues, a sofisticação do swing e a energia do rhythm and blues. Sua importância ultrapassa a reunião de canções conhecidas. O disco permite reconhecer como o desenvolvimento musical ocorreu por meio de diálogos entre artistas, regiões, instrumentos e estilos. O saxofone, o piano, a guitarra e as vozes assumem funções diferentes, mas compartilham uma característica fundamental: a capacidade de transformar o blues em uma música urbana, rítmica, comunicativa e aberta à experimentação. A coletânea também ajuda a compreender o rock and roll como parte de uma história musical mais ampla, profundamente ligada às tradições afro-americanas. A influência do jump blues pode ser percebida na estrutura rítmica, na atitude vocal, nos arranjos instrumentais e no repertório que seria posteriormente reinterpretado por músicos de diferentes gerações. Em síntese, o quinto volume da série Blues Masters é uma referência recomendável para estudantes, pesquisadores, colecionadores e ouvintes interessados na história do blues. Sua audição oferece não apenas entretenimento, mas também uma oportunidade de compreender um período decisivo da música popular do século XX. A força do álbum reside na combinação de vitalidade rítmica, personalidade interpretativa e relevância histórica, características que mantêm o jump blues como uma das expressões mais dinâmicas e influentes da tradição musical afro-americana.
Gravada entre 1948 e 1957:
Faixa 1 gravada na cidade de Nova York, 8 de julho de 1955. Do álbum Rock 'n Roll, Mercury #MG 20088, janeiro de 1956.
Faixa 2 gravada na cidade de Nova York, 15 de fevereiro de 1954. Single Atlantic #1026, abril de 1954.
Faixa 3 gravada em Hollywood, 19 de abril de 1956. Do álbum The Wildest, Capitol #T-755, outubro de 1956.
Faixa 4 gravada em Cincinnati, 28 de dezembro de 1947. Single King #4226, abril de 1948.
Faixa 5 gravada em Nova Orleans, janeiro de 1949. Single DeLuxe #3212, março de 1949.
Faixa 6 gravada em Chicago, 9 de novembro de 1953. Single Atlantic #1045, dezembro de 1954.
Faixa 7 gravada em Cincinnati, outubro de 1954. 6 de junho de 1952. Single King nº 4497, dezembro de 1951.
Faixa 8 gravada na cidade de Nova York, janeiro de 1957. Single Ember nº 1012, fevereiro de 1957.
Faixa 9 gravada em Memphis, junho de 1951. Single Chess nº 1469, julho de 1951.
Faixa 10 gravada em Hollywood, 1954. Single Specialty nº 521, julho de 1954.
Faixa 11 gravada na cidade de Nova York, 27 de janeiro de 1957. Single Baton nº 237, abril de 1957.
Faixa 12 gravada em Los Angeles, 13 de julho de 1948. Single Specialty nº 314, setembro de 1948.
Faixa 13 gravada em Los Angeles, 15 de dezembro de 1948. Single Savoy nº 685, janeiro de 1949.
Faixa 14 gravada em Houston, março de 1955. Single Peacock. Nº 1653, julho de 1955.
Faixa 15 gravada em Los Angeles, 13 de agosto de 1952. Single Peacock nº 1612, março de 1953.
Faixa 16 gravada em Los Angeles, 1956. Single Specialty nº 589, novembro de 1956.
Faixa 17 gravada na cidade de Nova York, 15 de setembro de 1949. Single King nº 4322, novembro de 1949.
Faixa 18 gravada na cidade de Nova York, 16 de dezembro de 1953. Single Atlantic nº 1027, abril de 1954.
Boa audição - Namastê



Nenhum comentário:
Postar um comentário