Artista: VA
Álbum: Piano Blues CD10
Lançamento: 2001/02/03
Selo: Habana
Gênero: Chicago Blues, Country Blues, Delta Blues, Harmonica Blues, Jump Blues, Louisiana Blues, Piano Blues, Rhythm & Blues, Texas Blues, East Coast Blues, Vaudeville Blues
O décimo volume da prestigiada coleção Les Triomphes du Blues (Habana) aprofunda e consolida a exploração dos teclados iniciada no disco anterior, expandindo o mapa sonoro dos grandes mestres dos 88 tons. Intitulado estruturalmente como Piano Blues Vol. 2, este volume mergulha na fase de transição em que o piano de taverna (barrelhouse) e o boogie-woogie urbano se fundem com as demandas mercadológicas das gravadoras independentes das décadas de 1930 e 1940, transformando o instrumento em uma verdadeira arma de entretenimento de massa nas metrópoles industriais norte-americanas. Este volume defende a tese de que o piano de blues urbano funcionava como o termômetro social e rítmico das comunidades afro-americanas durante e após a Grande Depressão. Enquanto o violão mantinha a sua melancolia intimista, o piano exigia espaço físico, eletricidade ou pianos verticalizados robustos para cortar o barulho ensurdecedor dos juke joints superlotados. A tese central aponta que os pianistas deste volume não eram meros executores de doze barras, mas arranjadores intuitivos que adaptaram texturas de jazz, marchas de fanfarra e ragtime em uma linguagem agressiva, dançante e de altíssimo rendimento físico. O panorama técnico e histórico abrangendo o período que vai do colapso econômico dos anos 1930 até o alvorecer do som elétrico do pós-guerra, este repertório captura o momento em que os pianistas deixaram as margens rurais para dominar os circuitos de clubes em cidades como Chicago, St. Louis e Detroit. Acusticamente, as gravações evidenciam a busca dos engenheiros de som por capturar o ataque percussivo dos dedos nas teclas sem estourar os microfones dinâmicos primitivos. O som característico dos martelos batendo nas cordas sem abafadores perfeitos, somado ao ranger dos bancos de madeira e à reverberação natural de salas pequenas, confere a este volume uma ambiência tátil e visceral. Análise de destaques e narrativa dos músicos (faixas-chave), ostinato hipnótico do Boogie Urbano: A aplicação sistemática de figuras rítmicas repetitivas na mão esquerda cria um efeito transeunte quase hipnótico. O pianista assume o papel de bateria, contrabaixo e guitarra rítmica simultaneamente, sustentando uma base de forte densidade mecânica. O diálogo harmônico entre teclado e voz: A crônica vocal desenrola-se de forma coloquial, quase falada, enquanto a mão direita pontua as pausas das frases cantadas com frases agudas, estridentes e repletas de blue notes cortantes. A transição rítmica para o R&B: As faixas finais do disco demonstram a aceleração do tempo e o encorpamento dos acordes, antecipando o formato rítmico frenético que daria origem direta ao rock and roll da década seguinte. O Piano de tábua corrida e os martelos desgastados: curiosamente, boa parte das sessões de gravação que originaram este repertório histórico não aconteceu em estúdios sofisticados com instrumentos de concerto da marca Steinway, mas sim em depósitos de gravadoras, fundos de lojas de penhores ou estúdios improvisados em hotéis baratos. Os pianistas frequentemente chegavam para gravar e encontravam velhos pianos de armário com feltros de martelos comidos por traças, cordas desafinadas e pedais emperrados. Longe de ser um empecilho técnico, essa "degradação material" forçaba os músicos a tocarem com uma força física brutal — batendo com os punhos ou usando ataques pesados nos graves —, gerando aquele timbre metálico, estalado e rústico que se tornou a assinatura estética inconfundível do gênero. Já a conexão evolutiva dentro da grandiosidade da coleção apresenta uma arquitetura monumental de Les Triomphes du Blues com o Volume 10, funcionando como o ponto de inflexão mecânica da coleção. Ele sela a era em que o piano competia de igual para igual com as guitarras elétricas nas paradas de sucesso, fornecendo o arcabouço rítmico que os futuros ícones do jump blues e do rock primordial utilizariam para moldar a paisagem sonora moderna do planeta. “O Volume 10 de Les Triomphes du Blues prova que o teclado desgastado das tavernas do pós-guerra foi o verdadeiro motor de alta pressão que manteve a alma rítmica da América em constante combustão.”
Boa audição - Namastê



Um comentário:
Mil gracias, amigo! Excelente y admirable labor!
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