Mostrando postagens com marcador Joao Gilberto. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Joao Gilberto. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Boxset: Kuschel Jazz Collection, Vol.1-8 (2002-2011)

Artista: VA
Lançamento: 2011
Selo: Sony Music/512088 2
Gênero: Jazz Bebop, Soul-Jazz, Downtempo, Easy Listening

Bossa Nova: Sofisticação, Minimalismo e Diálogo com o Jazz:
A Bossa Nova é um movimento musical surgido no Brasil no final da década de 1950, que representa uma das mais refinadas sínteses entre a música brasileira e o jazz. Desenvolvida principalmente no eixo Rio de Janeiro, a Bossa Nova combina elementos do samba tradicional com harmonias sofisticadas e influências diretas do jazz norte-americano, criando uma linguagem musical marcada pela suavidade, elegância e inovação estética. Diferente do samba mais rítmico e percussivo, a Bossa Nova introduz uma abordagem mais contida e intimista. Sua principal característica é a batida de violão, que reorganiza os padrões do samba em uma forma mais sutil e sincopada. Essa base rítmica é acompanhada por harmonias complexas, muitas vezes inspiradas no jazz moderno, com uso frequente de acordes estendidos, modulações e progressões harmônicas elaboradas. A interpretação vocal também se diferencia, adotando um estilo quase falado, suave e próximo, em contraste com o canto mais projetado de estilos anteriores. Entre os principais nomes da Bossa Nova, destaca-se Antônio Carlos Jobim, compositor fundamental que ajudou a definir a identidade do gênero com obras que se tornaram universais. João Gilberto é outro nome essencial, responsável por consolidar a batida característica do violão e o estilo vocal intimista. Vinicius de Moraes contribuiu com sua poesia, trazendo profundidade lírica às composições. Outros artistas relevantes incluem Baden Powell, com sua fusão entre Bossa Nova e elementos afro-brasileiros, e Nara Leão, importante intérprete na difusão do movimento. Os afluentes da Bossa Nova são diversos e revelam sua natureza híbrida. O samba é sua base estrutural e rítmica, fornecendo o fundamento sobre o qual o estilo se desenvolve. O jazz, especialmente o cool jazz, contribui com a sofisticação harmônica, a liberdade interpretativa e o senso de espaço musical. A música erudita também exerce influência, particularmente na construção harmônica e no refinamento das composições. Além disso, elementos da música popular urbana brasileira ajudam a contextualizar o gênero dentro de um cenário cultural mais amplo. A relação entre Bossa Nova e jazz é profunda e bidirecional. Enquanto a Bossa Nova absorveu influências do jazz, ela também impactou significativamente músicos norte-americanos, que passaram a incorporar seus elementos em suas próprias produções. Essa troca cultural contribuiu para a internacionalização do estilo, transformando a Bossa Nova em um fenômeno global e consolidando sua presença dentro do universo do jazz. Do ponto de vista estético, a Bossa Nova valoriza o espaço, o silêncio e o equilíbrio. A música não busca o excesso, mas sim a precisão e a delicadeza. Cada elemento — seja o violão, a voz ou os instrumentos de acompanhamento — ocupa um lugar específico, criando uma sonoridade limpa e sofisticada. Essa abordagem minimalista é uma de suas marcas mais distintivas e um dos fatores que a aproximam do jazz moderno. Em síntese, a Bossa Nova representa uma das mais importantes contribuições brasileiras à música mundial. Ao unir a base rítmica do samba com a sofisticação harmônica do jazz, ela cria uma linguagem única, marcada pela elegância, inovação e universalidade. Mais do que um gênero musical, a Bossa Nova é uma expressão estética que traduz uma forma particular de sensibilidade, equilíbrio e refinamento dentro da tradição do jazz e da música popular.


Boa audição - Namastê

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Boxser: The Perfect Jazz Collection 25 Original Albums (CD21)

Artista:  Stan Getz  
Lançamento: 1976 / 2010
Selo: Columbia / Great Jazz Composers Series
Gênero: Bossa Nova, Latin Jazz


Para os amantes dos ritmos doces, suaves e românticos da bossa-nova, com os mestres: saxofonista, Stan Getz e cantor e guitarrista, João Gilberto, que começou toda a tendência, em 1964, com "The Girl of Ipanema". Lançado pela Columbia Records em 1976 para apresentar Stan Getz em uma reunião com João Gilberto onde sua colaboração anterior foi uma década antes em Getz/Gilberto Vol. 2. Heloisa Buarque de Hollanda ( Miúcha ), que na época era casada com João Gilberto, cantou os vocais em inglês.


Baixo – Clint Houston , Steve Swallow
Bateria – Billy Hart , Grady Tate
Guitarra – João Gilberto, Oscar Castro Neves 
Percussão - Airto Moreira, João Gilberto, Ray Armando, Ruben Bassini, Sonny Carr
Piano – Albert Dailey
Vocais (Inglês) – Heloisa (Miucha) Buarque De Hollanda 
Vocais (Português) – João Gilberto 

Gravado nos estúdios Columbhttps://borboletasdejade.blogspot.com/search/label/2010ia Recording Studios, 21 de maio de 1975 - Nova York.



Boa audição - Namastê
 

sábado, 24 de setembro de 2022

# 079 - Stan Getz Quartet In Paris (1966)

Artista: Stan Getz

Álbum: Jazz in Paris 079

Lançamento: 2001

Selo: Gitanes Jazz Produção

Gênero: Bossa Nova, Post Bop


Um dos maiores saxofonistas tenor de todos os tempos, Stan Getz tinha um dos tons mais bonitos da história do jazz. Conhecido como O Som, seu nome figura entre os grandes improvisadores por seu som e vocabulário únicos! Apesar de ser mais conhecido no Brasil por sua parceria de sucesso com João Gilberto — que levou a bossa nova para o mundo — o jazz era a sua verdadeira casa. Desde cedo, o jovem Getz demonstrava aptidão para a música e, aos 6 anos, tocava gaita ouvindo as canções que passavam no rádio. Aos 13 anos, ganha do pai seu primeiro saxofone e clarinete. De instrumento na mão, não demorou muito para que ingressasse na All City High School Orchestra, na cidade de Nova York. A música Girl from Ipanema (Garota de Ipanema) já foi a 5ª mais ouvida nos Estados Unidos e já figurou no top da Billboard? Pois é, uma loucura! Aconteceu em julho de 1964. Neste mesmo ano, Stan Getz e João Gilberto foram indicados ao Grammy em 4 categorias e venceram 3, sendo elas: Melhor Performance Instrumental de Jazz, Álbum do Ano e Música do Ano por Girl from Ipanema!

Contrabaixo – Steve Swallow (faixas: 1 a 5, 7)

Bateria – Roy Haynes (faixas: 1 a 5, 7)

Saxofone Tenor – Stan Getz (faixas: 1 a 5, 7)

Vibrafone – Gary Burton

Gravado em 13 de novembro de 1966 na Salle Pleyel, Paris


 Boa audição - Namastê 

domingo, 14 de julho de 2019

1963 - Stan/Gilberto - Stan Getz & Joao Gilberto



Artista: Stan Getz & João Gilberto
Album: Getz / Gilberto
Lançamento: 1963
Selo: Verve
Gênero: Bossa Nova, Brazilian Songs, Latino Jazz
“Eu quero que o Brasil faça silêncio para ouvir João Gilberto. Que os brasileiros 
ouçam mais João Gilberto” - Maria do Céu Harris

Boa audição - Namastê

domingo, 16 de junho de 2019

1993 - João Gilberto & Astrud Gilberto, Maria Toledo, Stan Getz ?– Bossa Nova Sambalero - VA

Artista: VA (Compilation)
Album: Bossa Nova Sambalero
Lançamento: 1993
Selo: Saludos Amigos
Gênero: Bossa Nova, Brazilan Songs, Latino Jazz

Não sei se eu sou assim. Não tem essa história de som perfeito. O que tem é você fazer uma coisa, vir um sujeito e desfazer. E aí você não gostar do que o cara fez. Então você é chamado de perfeccionista. Certa vez estava gravando um disco na Polygram (João, lançado em 1991), na Barra, e dizia: ‘Puxa, está diferente’. E eles diziam: ‘Não está, é a mesma coisa’. Gravava, no outro dia estava mudado. Bom, eu peguei o maestro Guerra-Peixe (César Guerra-Peixe, que morreu em 1993, aos 79 anos) e fomos à gravadora num dia bem cedinho. Escolhemos as músicas. No outro dia tinham mudado. O disco saiu do jeito que não é. Ficou como na América se diz, sem a mordida. Tira a garra, o que pega. Eles sabem muito bem mexer no negócio, não fica nada, não transmite. Aí viro exigente.                                - João Gilberto -

Boa audição - Namastê

quarta-feira, 12 de junho de 2019

Outras Bossas são coisa nossas - Parte II

Entre 1958 e 1961, Tom Jobim produziu a maioria de suas canções clássicas, que ficariam identificadas como bossa nova: "Chega de Saudade" (com Vinicius de Moraes, 1958), "Desafinado" (com Newton Mendonça, 1958), "Esse Seu Olhar" (1958), "A Felicidade" (com Vinicius de Moraes, 1959), "Eu Sei Que Vou te Amar" (com Vinicius de Moraes, 1959), "Samba de Uma Nota Só" (com Newton Mendonça, 1960), "Meditação" (com Newton Mendonça, 1960), "Corcovado" (1960), "Insensatez" (com Vinicius de Moraes, 1961), "Água de Beber" (com Vinicius de Moraes, 1961) e "Garota de Ipanema" (com Vinicius de Moraes, 1961). Eis as mais emblemáticas - a lista, é claro, estende-se cancioneiro afora. Com Vinicius, o poeta moderno que aos poucos migrou da poesia escrita para a poesia cantada, Tom criou canções elegantes e sofisticadas que abriram um diálogo com a grande poesia modernista de sua geração - João Cabral de Melo Neto, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Cecília Meireles. Com o também pianista Newton Mendonça, seu amigo de infância e adolescência musical, Tom compôs sobretudo canções irônicas, paródicas ou metalingüísticas, como as canções-manifesto "Desafinado" e "Samba de Uma Nota Só". A bossa nova de Tom, Vinicius, João Gilberto e Mendonça descortinou uma área de permeabilidade inédita na cultura brasileira: sob a forma da canção popular urbana de sucesso, criou-se uma arte ao mesmo tempo "popular" e "sofisticada". O projeto de modernização do Brasil de Juscelino Kubitschek, no final dos anos 50, tinha a bossa nova como trilha sonora. JK, o "presidente bossa nova", soube capitalizar tudo de bom que o país produzia nas áreas das artes e dos esportes (o Brasil começava então a fixar sua imagem de país do futebol), moldando uma identidade nacional em que a soft evasive mist da bossa nova, os dribles de Garrincha e Pelé e o perfil empreendedor da política nacional pareciam fazer parte da mesma jogada. Por outro lado, esse período representou um momento de utopia de modernização conduzida por intelectuais e artistas progressistas e criativos, cujo símbolo maior foi a construção de Brasília, projetada por Lúcio Costa e Oscar Niemeyer - com música de inauguração encomendada à dupla Tom e Vinicius: Sinfonia da Alvorada. O desdobramento mais próximo da bossa nova pode ser identificado na efervescência cultural e política da segunda metade da década de 1960. Ao mesmo tempo popular e sofisticada, essa música forneceu parte dos elementos musicais e poéticos para os movimentos artísticos do período, quando as oposições dualistas entre democracia e ditadura militar, modernização e atraso, desenvolvimento e miséria, passado arcaico colonizado e processo moderno de industrialização e "raízes" culturais versus cultura de massas internacional passaram a ser compreendidas como integrantes de uma lógica contraditória e paradoxal, sobretudo pelos artistas e intelectuais que criaram a Tropicália. É nesse sentido, pensando de modo amplo em seus desdobramentos, que se pode dizer da bossa nova que ela abriu uma área de permeabilidade cultural inédita no Brasil. E para Tom Jobim tudo isso ganhou um sentido particular. O trânsito entre o popular e o erudito, a sinfonia e a canção ou o samba e o jazz, por exemplo, nunca foi problema para ele. Tom criou um gênero musical e ajudou a internacionalizá-lo, como veremos, de modo absolutamente pessoal e profundamente brasileiro, ao contrário de outros músicos bossa-novistas como Sérgio Mendes ou Eumir Deodato, que fixaram residência definitiva nos EUA. Mas a bossa nova, e mais especificamente a figura de Tom Jobim, seria acusada por parte da crítica nacional de não ser genuinamente brasileira. A reação do compositor ao pensamento dessa crítica mais conservadora (e ao conservadorismo generalizado do regime militar pós-1964) manifestou-se de modo irônico, numa verdadeira antologia de tiradas sobre o tema: "O inimigo do brasileiro parece que é o brasileiro mesmo"; "A gente faz uma batidinha de bossa nova; no dia que os americanos copiam, você é imediatamente acusado de os americanos já terem feito aquela batida"; ou aquela famosa boutade que lhe foi atribuída, cuja autoria Tom nunca assumiu ou negou completamente: "a melhor saída para o músico brasileiro é o Galeão".  - Por Cacá Machado 

Boa leitura - Namastê

quarta-feira, 5 de junho de 2019

Outras Bossas são coisa nossas - Parte I

João Gilberto é um baiano, "bossa nova" de 26 anos. Em pouquíssimo tempo, influenciou toda uma geração de arranjadores, guitarristas, músicos e cantores. Nossa maior preocupação neste long-playing foi que Joãozinho não fosse atrapalhado por arranjos que tirassem sua liberdade, sua natural agilidade, sua maneira pessoal e intransferível de ser, em suma, sua espontaneidade. Nos arranjos contidos neste long-playing Joãozinho participou ativamente; seus palpites, suas idéias, estão todos aí. Quando João Gilberto se acompanha, o violão é ele. Quando a orquestra o acompanha, a orquestra também é ele. João Gilberto não subestima a sensibilidade do povo. Ele acredita que há sempre lugar para uma coisa nova, diferente e pura que - embora à primeira vista não pareça - pode se tornar, como dizem na linguagem especializada: altamente comercial. Porque o povo compreende o amor, as notas, a simplicidade e a sinceridade. Eu acredito em João Gilberto, porque ele é simples, sincero e extraordinariamente musical. P.S.: Caymmi também acha. Foi assim que Antonio Carlos Jobim apresentou João Gilberto na contracapa de Chega de Saudade, LP de estréia do cantor baiano lançado em 1959. Nota-se que o post-scriptum indicava a legitimação de outro baiano, Dorival Caymmi, artista que acabou assumindo no Brasil a posição de uma espécie de pai da canção popular em seu sentido mais profundo e misterioso: suas canções se diluem em nossa memória como se fossem de todos nós, criações de uma memória coletiva. Sob a prosa despojada e carinhosa de Tom, existia a consciência e a certeza da originalidade desse disco. E também de sua filiação - profundamente brasileira. Tom assumiu a direção musical, o piano e os arranjos na maioria das faixas desse e dos dois LPs seguintes do cantor: O Amor, o Sorriso e a Flor (1960) e João Gilberto (1961). Em seu livro sobre João Gilberto, Walter Garcia vai ao xis do problema: O que é que o baiano tem para tamanha importância lhe ser atribuída tão cedo, no lançamento do seu primeiro LP, e somente aumentar nas décadas seguintes? O ritmo. [...] Ao final dos anos 50, é claro, esta não é a única novidade apresentada por João. De novo há o seu jeito balançado de cantar baixinho, as suas harmonias dissonantes, os arranjos despojados, o seu repertório que mescla uma jovem safra de compositores cariocas com velhos sambas já bastantes esquecidos e também o seu acompanhamento rítmico ao violão, depois conhecido como a batida bossa nova. O que João Gilberto fez foi esvaziar e estilizar a síncope do samba em sua batida de violão. E Tom fez algo parecido nos arranjos de seus discos. Não existe a presença do contrabaixo nas gravações - são os bordões do violão de João que criam a regularidade das acentuações dos tempos fortes. A bateria toca a caixa no contratempo, sem bumbo, junto com a condução sincopada da vassourinha. O piano entra em momentos escolhidos a dedo, literalmente, com acentuações rítmicas precisas ou realçando dissonâncias estruturais da condução harmônica, mas nunca, diga-se de passagem, como efeito ornamental. A interferência orquestral está presente nas madeiras, principalmente flautas, e nos metais, tocados suavemente (trompas, trombones e às vezes saxofone); na seção das cordas destacam-se as frases dos violinos, que em seus contracantos criam profundidade e espaço. Em suma, tudo orbita em torno do violão de João, com o máximo de fluidez e organicidade. Esse som era realmente novo e tinha bossa. E revelou-se "altamente comercial", preocupação que Tom explicitara na apresentação do LP. João Gilberto foi a fagulha que faltava para o estopim da bossa nova, segundo o próprio Tom: "Eu tinha uma série de sambas-canção de parceria com [Newton] Mendonça, mas a chegada de João abriu novas perspectivas: o ritmo que João trouxe. A parte instrumental - harmônica e melódica - essa já estava mais ou menos estabelecida". - Por Cacá Machado, (...) Continua na próxima postagem

Boa leitura - Namastê

 

quarta-feira, 29 de maio de 2019

Milton Banana, o rei do ritmo e do batuque

  Edgar Nunes Rocca, o pioneiro Bituca, Edison Machado, Dom Um Romão, Wilson das Neves, Hélcio Milito, Chico Batera,Pascoal Meirelles, Jorge Autuori, Airto Moreira, Toninho Pinheiro, Ronald Mesquita, Rubinho Barsotti, Ivan “Mamão” Conti, e tantos outros. Não restam dúvidas: o Brasil dos anos 1960 e 70 foi prolífico em revelar grandes bateristas. Músicos inventivos e essenciais para reescrever a história do instrumento no País e compor um irresistível jeitinho brasileiro de conduzir pratos, bumbos e tambores. Tradição que teve em Antonio de Souza, ou melhor, Milton Banana, a figura de um desbravador. Acompanhando João Gilberto e Tom Jobim no histórico concerto da Bossa Nova realizado em Nova York, no Carnegie Hall, Milton fez mais que história. Deu ao instrumento novas possibilidades e estabeleceu rico diálogo entre as tradições rítmicas do samba e a riqueza técnica do jazz. Naquela noite de 21 de novembro de 1962, em Nova York, arrebatados pela revelação da beleza harmônica das canções interpretadas por João Gilberto, os músicos presentes na plateia – e não eram poucos – também devem ter dado um nó na cabeça ao descobrir o modo peculiar com que Milton construía sua elegante teia percussiva para o baiano e o jovem maestro Tom. Se a João é atribuída paternidade da batida bossa nova ao violão, o mesmo vale para Milton em relação a seu instrumento, visto que, como o baiano, ele propôs um salto de modernidade sem precedentes. Depois deles, aos músicos que lidavam com os dois instrumentos, como diria a bela canção de Ronaldo Bastos e Milton Nascimento, 'nada seria como antes'.
Boa leitura - Namastê

quarta-feira, 22 de maio de 2019

O que é a 'Bossa Nova'

Recentemente dei uma entrevista sobre Bossa Nova para a BBC de Londres e sabendo que me dirigia a um povo culto me expandi à vontade, quase que em catarse. Ficou claro que a bossa nova é um fenômeno ainda não bem compreendido e sugere algumas considerações. Para começar existe uma grande afinidade com a Escola Provençal do século XIII, também conhecida como Fin Amors. Ali, Leonor de Aquitânia, mãe de Ricardo Coração de Leão, era destacada poeta e rodeada de trovadores e menestréis que ao som do alaúde (ancestral do violão) compunham trovas que eram sussurradas ao ouvido das mulheres. Também a Bossa Nova é sussurrada e nunca gritada. Romântica e elegante, nunca vulgar, está de acordo com a descrição do cineasta Luiz Buñuel: o discreto charme da burguesia. Sim porque a bossa nova nada mais é que um produto da classe média do Rio de Janeiro que se dirige à classe média do mundo inteiro. Classe média do Rio de Janeiro que abrigava, além dos cariocas, baianos como João Gilberto, capixabas como Roberto Menescal e Nara Leão, paraibanos como Geraldo Vandré, acreanos com João Donato e paulistas como Sérgio Ricardo e Wanda Sá e, futuramente, Toquinho. Cumpre notar que, durante minha vida artística, constatei uma coisa curiosa: que o talento artístico independe totalmente de inteligência, cultura, bom caráter e sanidade mental ou física. Conheci ou ouvi dizer de artistas dotados de indiscutível excelência e, no entanto, destituídos de uma ou outra das qualidades ou benefícios citados. Um compositor de Bossa Nova que se preza sofre uma série de influências que começam com o impressionismo de Ravel e Debussy, além de Bach, Villa-Lobos, Stravinsky, Brahms e Schumann. Sofre influência do bolero mexicano de Agustín Lara, Gonzalo Curiel e Maria Griber, bolero esse que no Brasil tomou o formato de samba canção. Da canção francesa de Charles Trenet e Henry Salvador. Em seguida vem a influência dos cinco grandes compositores norte americanos, Cole Porter, George Gerhwin, Jerome Kern, Irving Berlin e Richard Rogers estes, como nós, identificados com o jazz west coast de Gerry Mulligan, Chet Baker, Shorty Rogers, Barney Kessel, Stan Kenton e Modern Jazz Quartet. A Bossa Nova, enfim, deve seu nascimento a um efervescente surto cultural (e nãomovimento, como se diz erroneamente) que se processou no Brasil durante os anos 50 e que se manifestou no teatro com o Teatro de Arena de São Paulo, o TBC, o Teatro dos Quatro e o Oficina. Nas artes plásticas com Lygia Clark, Lygia Pape, Hélio Oiticica, Wesley Duke Lee , entre outros. Na arquitetura com Oscar Niemayer, Lucio Costa e Burle Marx. Na indústria automobilística, e nos esportes com Pelé e Garrincha nos mundiais de futebol, com Eder Jofre no box, Maria Esther Bueno no tênis, Ademar Ferreira da Silva no salto tríplice e até em beleza com a conquista do título de Miss Universo por Yeda Maria Vargas. A Bossa Nova foi, nada mais nada menos, que o fundo musical disso tudo. Quanto ao nome Bossa Nova, esse foi criado durante uma apresentação que fizemos, em 1958, na Sociedade Israelita: eu, Silvinha Teles, Menescal, Ronaldo Bôscoli e Nara Leão. Na porta do clube havia um cartaz com nossos nomes seguidos dos dizeres “...e os Bossa Nova”. Perguntei ao produtor e diretor social do clube o que significava aquilo. A resposta foi: Isso é um nome que inventei para vocês. Adotamos o nome e soubemos, mais tarde, que esse judeuzinho criativo se havia mudado para Israel. Depois disso nunca mais ouvimos falar dele.
Boa leitura - Namastê

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Carnegie Hall é Bossa Nova

O ritmo brasileiro da bossa nova se apresentou no Carnegie Hall, a mais tradicional sala de concertos de Nova Iorque, para um público de cerca de três mil pessoas, que superlotou a casa com entusiásticos aplausos. Durante o espetáculo, milhares de xícaras de café foram servidas, numa oportunidade de apresentar o cafezinho preparado à moda brasileira. Os ingressos já se encontravam esgotados uma semana antes do concerto. Os brasileiros João Gilberto, Bola Sete, Agostinho dos Santos, Carmem Costa, José Paulo, Luis Bonfá, Carlos Lira, Sérgio Mendes, Antonio Carlos Jobim, Miltinho Bana, C. Feitosa e Roberto Menescal comandaram o espetáculo. Além dos artistas brasileiros, participaram do show o pianista e compositor argentino Lalo Schifrin com o sexteto de que se valeu para difundir a bossa nova, Stan Getz, amigo de João Gilberto e um de seus mais entusiastas admiradores e grande propagador da bossa nova, e o quarteto de Oscar Castro Neves. O Itamarati recebeu despachos dos EUA informando que compareceram ao concerto 300 repórteres, fotógrafos, cinegrafistas e críticos especializados de toda a América do Norte e da imprensa mundial, o que deveria garantir grande repercussão ao show de bossa nova. A nova música do Brasil.  Este novo gênero musical deriva das estruturas típicas do samba em harmonia com o jazz americano. A mulher do Presidente, Jacqueline Kennedy, a considerou "simplesmente maravilhosa", acentuando que "nunca houve coisa igual por aqui". Ela foi apresentada à bossa nova em um recital do sexteto de Paul Winter, que havia regressado de uma excursão pelo Brasil dois dia antes da apresentação no Carnigie Hall.

quarta-feira, 8 de maio de 2019

Curiosidades da Bossa Nova

O primeiro show profissional da turma inicial da Bossa Nova foi no Clube Universitário Hebraico do Brasil, no Flamengo, no Rio de Janeiro. No palco, Menescal, Lyra, Sylvinha Telles, Normando Santos, Luizinho Eça, Bebeto e Bôscoli. Na entrada, num quadro negro, lia-se: "Hoje, Sylvinha Telles e um grupo bossa nova". A secretária do clube colocou o termo "bossa nova" porque não sabia o nome do conjunto que iria tocar. Até então a expressão "bossa" já havia sido utilizada por outros músicos, como Noel Rosa, em 1932, para designar aquilo que era novo, diferente. E assim ficou. Trêmulos, aqueles moços e moças, exceto Sylvinha Telles, subiam a um palco pela primeira vez na vida, apresentando uma estranha combinação de jazz e samba.

A pré-bossa:
Antes da estréia do disco Canção do Amor Demais, em 1958, a Bossa Nova já dava seus primeiros passos na capital carioca. Artistas como Dick Farney, Johnny Alf, João Donato e Billy Blanco sedimentaram terreno e inspiraram nomes como Tom Jobim e João Gilberto. Em 1948 foi fundado no Rio de Janeiro, o fã-clube Sinatra-Farney, por admiradores do jazz americano. Uma de suas componentes era a que viria a ser a cantora Nara Leão. Dick Farney tocou em orquestras de jazz e música popular, chegando a ser uma das principais atrações do Cassino da Urca, no Rio de Janeiro. Também se especializou no repertório norte-americano até lançar a canção Copacabana, de João de Barro e Alberto Ribeiro, em 1946. Ainda nos anos 40, esteve nos Estados Unidos, onde se apresentou com Nat King Cole, Davis Brubeck e Bill Evans, e fez apresentações na rádio NBC durante dois meses. Farney foi o primeiro cantor a gravar o sucesso mundial Tenderly (Walter Gross).
Boa leitura - Namastê

domingo, 5 de maio de 2019

2000 - The Bossa Nova Exciting Jazz Samba Rhythms - Vol.02/06 (Box Set)

Artista: VA
Album: The Bossa Nova Exciting Jazz Samba Rhythms - Vol.02
Lançamento: 2000
Selo: Rare Groove
Gênero: Bossa Nova, Jazz Instrument, Latin Jazz Vocals
Fim do movimento, da bossa à MPB Um dos maiores expoentes da bossa nova comporia um dos marcos do fim do movimento. Em 1965, Vinícius de Moraes compôs, com Edu Lobo, Arrastão. A canção seria defendida por Elis Regina no I Festival de Música Popular Brasileira (da extinta TV Excelsior), realizado no Guarujá naquele mesmo ano. Era o fim da bossa nova e o início do que se rotularia MPB, gênero difuso que abarcaria diversas tendências da música brasileira até o início da década de 1980 - época em que surgiu um pop rock nacional renovado.  A MPB nascia com artistas novatos, da segunda geração da bossa nova, como Geraldo Vandré, Edu Lobo e Chico Buarque, que apareciam com frequência em festivais de música popular. Bem-sucedidos como artistas, eles tinham pouco ou quase nada de bossa nova. Vencedoras do II Festival de Música Popular Brasileira, realizado em São Paulo em 1966, 'Disparada', de Geraldo, e 'A Banda', de Chico, podem ser consideradas marcos desta ruptura e mutação da bossa em MPB.
Boa audição - Namastê

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Noites tropicais: solos, improvisos e memórias musicais - Parte III (Final)

No rádio. Mas funcionava: o público em casa ouvia o artista americano e também a gritaria do público do auditório delirando com as dublagens que Tony Tornado e Gerson King Combo faziam de Chubby Checker e Little Richard. Depois havia o concurso de dança, animado e comentado por Imperial, e finalmente começava a música ao vivo: anunciado estrepitosamente por Imperial como “o Elvis Presley brasileiro”, Roberto Carlos, acompanhado pelos Snakes, com Erasmo Esteves no violão e nos backing-vocals. Em casa os ouvintes da Zona Norte e dos subúrbios ficavam incendiados com a gritaria e animação do estúdio. E a festa continuava: “E atenção, brotos, porque vem aí o Little Richard brasileiro!”, anunciava Imperial. E Tim Maia entrava e cantava um rock explosivo acompanhado pelos Snakes e levantava o auditório. Tim era amigo de Erasmo desde criança na Rua do Matoso, na Tijuca, quando ainda se chamava Tião e entregava marmitas da pensão de seus pais, dona Maria e seu Altivo, considerado no bairro um mestre dos temperos. Antes de música, o pequeno Tião aprendeu a comer bem e sempre foi gorducho. Quando saía para entregar as marmitas, pendurava-as num cabo de vassoura que levava nos ombros, como um pescador chinês de carnaval. Todos os dias na hora do almoço ele saía para fazer as entregas e, balançando suas latas, passava pelo Largo da Segunda-feira, onde sempre rolava animada pelada. Era irresistível. Em campo, Tião era o mais pesado e, às vezes, o mais violento: ia na bola como quem vai num prato de comida. O exercício lhe abria o apetite e Tião abria as marmitas e tomava uns goles de sopa aqui, beliscava um pastel ali, umas bocadas de arroz e feijão acolá, um pedaço de doce, e com as marmitas mais leves seguia para a entrega. Tanto quanto de comida, Tião gostava de música. Começou a aprender violão sozinho, ensinou três acordes para Erasmo e os dois tentavam tardes inteiras, em vão, fazer no violão as complexas harmonias do “Desafinado” de João Gilberto, que adoravam. Quando depois Tião foi para os Estados Unidos, se correspondia com Erasmo assinando “Tim Jobim” e recebia abraços de “Erasmo Gilberto”. Tião tinha 16 anos quando resolveu que iria para os Estados Unidos. Começou a dizer para todo mundo que ia morar com uma família americana num programa de intercâmbio, fez uma campanha de arrecadação de fundos na família e conseguiu, depois de suplicantes visitas, convencer o bondoso pároco da igreja da Tijuca a completar o que faltava para a passagem de avião, só de ida. Tião tinha falado tanto para tanta gente e dado tantos detalhes da sua “família americana” que acabou ele mesmo acreditando em sua ficção e se decepcionando: na chegada a Nova York ninguém o esperava no aeroporto. Em Manhattan e depois na vizinha Tarryton, Tião virou Tim e trabalhou de garçom, entregador de pizzas, aprendeu inglês, conheceu a música negra americana, cantou em grupos vocais, fez pequenos furtos e experimentou fartamente tudo que era droga leve e pesada. Uma noite, com três crioulos amigos, foi preso em Daytona Beach, onde estavam fumando maconha dentro de um carro roubado. Passou uma temporada na cadeia em Daytona e foi deportado para o Brasil. Na Tijuca, de tanto cantar o rock “Bop-a-lena”, Tim ganhou o apelido de “Babulina”. Mas “Babulina” também era o apelido de um garotão do Rio Comprido, um mulato atlético chamado Jorge, que também cantava “Bop-a-lena”, tocava violão e fazia parte da gangue “Os cometas”. Nas rodas da Praça da Bandeira, ponto de encontro das turmas da Matoso e do Rio Comprido, já se comentava que Tim iria ter problemas com Jorge, que se considerava o dono do apelido por cantar a música há mais tempo. Mas tudo se resolveu pacificamente e Jorge acabou participando de uma serenata com Tim e Erasmo, no Beco do Mota, debaixo da janela da generosa Lilica, que costumava receber a turma toda em sua cama, um por um. Chegavam a se formar alegres e ansiosas filas de dez, doze garotos à sua porta, e muitos jovens tijucanos e rio-compridenses tiveram com ela a sua iniciação sexual. Mas naquela noite acabaram todos na delegacia por reclamação dos vizinhos e o violão foi apreendido: a serenata não era de valsas e canções mas de twist e rock and roll. Com suas festas de rua, na Casa da Beira e na Vila da Feira, os clubes portugueses da área, com suas quermesses e suas festas juninas, a vida na Zona Norte era animada e Jorge estava em todas com seu violão, cantando “Bop-a-lena” e sempre agradando as meninas, até que começou a fazer suas próprias músicas, passou a usar o nome de Jorge Ben e começou a tentar a vida nos bares de Copacabana. Tudo virou Bossa Nova, do presidente à geladeira, do sapato à enceradeira, a expressão ficou muito maior do que a música que a originara. Amplificada pela publicidade, caiu na boca do povo para designar tudo que era (ou queria ser) novidade: eventos e promoções, comidas e bebidas, roupas, veículos, imóveis, serviços e pessoas que nada tinham a ver com música e muito menos com a música de João Gilberto e Tom Jobim. Não havia mais possibilidade de qualquer controle: se tudo era bossa nova, então nada mais era bossa nova. Até a bancada da UDN na Câmara tinha a sua “bossa nova”. Era preciso fazer alguma coisa: Ronaldo chegou a pedir a um advogado, meu pai, que redigisse os estatutos de um “Clube da bossa nova”, que daria shows, discos e um jornalzinho para seus sócios. Carlos Lyra registrou a marca “Sambalanço” e lançou seu disco na Philips com este título. A Odeon dispensou a “Turma” e resolveu gravar apenas um disco com quatro faixas, então chamado compacto duplo, com o conjunto de Roberto Menescal. Os dois discos passaram longe do sucesso popular mas provocaram intermináveis discussões nas rodas musicais de Copacabana. O disco de Carlinhos, além de “Rapaz de bem”, de Johnny Alf, tinha outras boas músicas, como “Maria ninguém” e “Ciúme”, arranjadas em estilo “jobiniano” e com a batida da bossa nova, mas metade do disco — talvez a melhor — era de toadas e sambas-canções. E a performance do cantor não era entusiasmante. No de Menescal, ótimas músicas, como “Céu e mar”, de Johnny Alf, mas nem cantor tinha: guitarra, baixo, bateria, piano, flauta e trompa produziam um balanço animado, um timbre diferente e tocavam arranjos bem jazzísticos, bem Copacabana. E eu ouvia os dois discos o dia inteiro. - Fonte: Incerto do livro, Noites tropicais: solos, improvisos e memórias musicais, Nelson Motta - Editora Objetiva, 2000 - 461 páginas
Boa leitura - Namastê

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Noites tropicais: solos, improvisos e memórias musicais - Parte II

Edu Lobo, que já tocava razoavelmente de ouvido, foi para a academia para ser aluno de Wanda Sá, aluna de Menescal, que não tinha mais horários. Acabou tendo aulas com Samuel Eliachar e em pouco tempo já tinha aprendido o método e tinha quatro alunos: pagava as aulas de Samuel e ainda lhe sobrava o suficiente para transporte e lazer. . Algum tempo depois até eu tinha algumas alunas.  Outro ponto de encontro era o Mau Cheiro, um botequim aberto para o mar de Ipanema, na esquina com Rainha Elizabeth. Era da praia para o bar e do bar para o mar, e vice-versa. De violão na mão. Muita gente achava cafonice, mas era com certo orgulho que atravessávamos a Avenida Vieira Souto de violão na mão. Quem carregava violão nas costas era Jucá Chaves, que era paulista e nunca teve nada a ver com a bossa nova. Com faro compatível com seu nariz, o esperto Jucá emplacou um hit com “Presidente bossa nova”, que de bossa nova não tinha nada, era mais uma paródia do novo ritmo, perfeita para ambientar um retrato satírico de JK e suas novidades. Jucá gostava mesmo era de modinhas, mas ao mesmo tempo em que pegou carona na confusão inicial da bossa, com o sucesso de sua música ele contribuiu para popularizar a expressão. E além de tudo, JK era realmente bossa nova. “Mas merecia música melhor...”, rosnavam os fundamentalistas da bossa e os guardiões de sua pureza, devotos da Santíssima Trindade — João, Tom e Vinícius. Nós nos considerávamos os apóstolos dos apóstolos. Mas tínhamos o supremo privilégio do acesso direto às divindades e a graça do testemunho. Mais que uma causa, vivíamos a bossa nova como uma religião. Na praia em frente ao Mau Cheiro, de preferência à tarde, embora alguns fanáticos tocassem e cantassem até mesmo ao sol do meio-dia —, formavam-se rodinhas de moças e rapazes em volta de alguém com um violão. Para cantar bossa nova, uma música que parecia ter sido criada para ser a trilha sonora das praias cariocas.  Foi inspirado pelo querido botequim que fiz minha primeira letra, para um sambinha de Maurício Tapajós cheio de bossa: “Um chope , no Mau Cheiro.” Já o título estava mais para Bukowski e Kerouac do que bossa nova e todo mundo achou que não cheirava bem. Tentei uma outra, para a mesma música: “Amor de gente moça”, inspirado em um Lp de Sylvinha Telles de bossa romântica que tinha este título. Desta o pessoal (aparentemente) gostou: era uma sucessão de clichês românticos da bossa nova (“as flores não são flores/são amores sem saudade/ são cores feitas de felicidade...”). Como Maurício era filho de Paulo Tapajós, diretor e produtor da Rádio Nacional, vivi a emoção de ouvir nossa música no rádio, ao vivo, com um arranjo para grande orquestra de ninguém menos que Radamés Gnatalli e cantada por sua mulher, Nelly Martins. Ao vivo pela Rádio Nacional, numa noite carioca de verão.  Minha mãe chorou. Nesse tempo, aquela música de praia era chamada pejorativamente de “música de apartamento”, como se fosse uma música restrita e fechada, distante das ruas, apesar de a bossa nova ser um grande sucesso popular, que ia muito além da classe média de Copacabana. Para nós o Rio era a Zona Sul, a praia de Ipanema e os bares de Copacabana. E o Brasil era o Rio e São Paulo e a construção de Brasília. Através de Jorge Amado, Guimarães Rosa e Érico Veríssimo conhecíamos um outro Brasil, de ficção, exótico e atraente, fascinante mas distante. Tão distante quanto os poetas da beat generation americana. Tudo parecia muito longe do Rio de Janeiro no final dos anos 50, mas a bossa nova começava a aproximar os jovens cariocas dos de São Paulo, de Salvador, de Belo Horizonte e de Porto Alegre. O rádio entrava em decadência, o disco e a televisão começavam a crescer no ambiente de liberdade, modernização e entusiasmo dos Anos JK. O apartamento de Nara era um luxo. Imenso, com dois salões envidraçados de frente para o mar de Copacabana. Chamava-se Champs Elysées, era um dos edifícios mais modernos e um dos endereços mais valorizados da cidade. Ipanema era quase só casas e árvores e a Barra da Tijuca era selvagem e inacessível. Chique era a Avenida Atlântica. Chique era a bossa nova. E o cool jazz. E o jazz-samba. Ou samba-jazz. Que para muitos eram praticamente a mesma coisa e assunto para muita discussão na praia e nos bares de Ipanema. As festas se sucediam, mas Tom e João raramente apareciam. Tinham discos gravados, eram profissionais, casados, tinham família para sustentar, trabalhavam. Viviam de música. E nós, para a música. Rock and roll era visto e ouvido entre nós como uma boçalidade, com seus três acordes primitivos, seu ritmo pesado e quadrado e seus cantores gritando e rebolando. Era a antítese da bossa nova e tão desprezado quanto o sambão tradicional. Era coisa de Carlos Imperial e de Jair de Taumaturgo, que movimentavam as tardes cariocas apresentando “Os brotos comandam” e “Hoje é dia de rock” na televisão, com garotos e garotas dançando o novo ritmo e calouros fazendo dublagens de sucessos do rock americano. “Alô, brotos, vamos tirar o tapete da sala... porque hoje é dia de rock!”, comandava Jair de Taumaturgo, veterano disc-jockey de rádio, um animado quarentão de cabeça branca, cercado de jovens no vídeo da TV Rio.  Em casa, diante da televisão, a gente ria. Nos tapetes macios do apartamento de Nara, os brotos comandavam e geravam a música do futuro. Foi onde vi pela primeira vez, tocado por Luiz Carlos Vinhas, um piano elétrico, novidade absoluta. Nara tinha mesmo um look diferente. Parecia meio japonesa, meio índia, meio existencialista francesa, tinha uma voz pequena e tímida e vestia-se de uma maneira cool e moderna, sempre com as saias bem acima dos futuramente célebres joelhos. Nara era o protótipo da “garota moderna”, que não queria saber do luxo e da quadradice da sociedade carioca e estava disposta a quebrar tabus, trabalhar, ser independente, estabelecer novos padrões de comportamento. E de música. Encarnação da bossa nova, mais do que uma voz e um estilo, Nara tinha principalmente o que era mais fascinante no mundo do rock and roll: atitude. Uma atitude bossa nova. O rock parecia não se ambientar bem no calor do Rio ensolarado, sua agressividade e seus casacos de couro não combinavam com o clima relaxado e cordial da cidade nem com seu humor e simpatia. As platéias de Imperial e Jair de Taumaturgo vinham principalmente da Zona Norte e dos subúrbios. As praias da Zona Sul, antes do Túnel Rebouças, eram distantes e de penoso acesso, quase privativas dos locais: os habitantes das favelas da Catacumba, do Morro do Pinto, do Pavãozinho e da Rocinha, que conviviam em relativa paz e harmonia com a classe média de Copacabana e Ipanema, unificados pelas praias e pela paisagem deslumbrante. Para nós o Rio não era rock, era bossa nova. O pequeno estúdio da Rádio Guanabara, no Centro da cidade, se transformava em agitado auditório e se enchia de jovens para o programa “Os brotos comandam”, de Carlos Imperial. Curiosamente, a primeira parte do programa era de mímica. (...) Continua nas Próximas postagem. Fonte: Incerto do livro, Noites tropicais: solos, improvisos e memórias musicais, Nelson Motta - Editora Objetiva, 2000 - 461 páginas
Boa leitura - Namastê

sexta-feira, 22 de março de 2019

1981 - Milton Banana Trio – Ao Meu Amigo Vinicius (Samba e Isso) Vol. 4

Artista:  Milton Banana Trio
Álbum: Ao Meu Amigo Vinicius (Samba e Isso) Vol. 4
Lançamento: 1980
Selo: RCA Victor
Gênero: Bossa Nova, Latino Jazz, Brazilian Songs
Milton Banana (23/4/1935 - 22/5/1999)  -Um dos principais bateristas da bossa nova, começou a carreira tocando em casas noturnas na década de 50. Acompanhou o conjunto de Luís Eça e em 1959 participou da primeira gravação de "Chega de Saudade" (Tom Jobim/ Vinicius de Moraes), feita por João Gilberto. Tocou outras vezes com Tom e João Gilberto, participando do Festival de Bossa Nova do Carnegie Hall em Nova York, 1962. Também participou de outra gravação histórica: a do disco de João Gilberto e Stan Getz, em 1963. Excursionou pela Europa com João Donato e Tião Neto. Nos anos 70 criou o Milton Banana Trio, que gravou oito discos com grande sucesso. Seu balanço rítmico seria muito apreciado nos anos 90 pelos cultores ingleses do acid jazz.  Foi um marco notável a música criativa, com a influência jazzística, bossa nova e outros ritmos oriundos dessa fase.
Boa audição - Namastê

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

A história da Bossa Nova - Parte XX - Parte final.


Na festa, Edu pegou o violão e começou a tocar algumas músicas. Vinicius, interessado, perguntou se ele não teria uma música nova, ainda sem letra. Edu tinha. Mostrou a música e Vinicius perguntou se poderia fazer a letra. “Dormi aquela noite sem acreditar e no dia seguinte, quando eu acordei, era parceiro do Vinicius de Moraes! Esse tipo de coisa não acontece em lugar nenhum do mundo. Se um grande letrista americano, por exemplo, encontrar um jovem compositor, antes de começar a parceria ele no mínimo vai ligar para o advogado”, garante Edu. A música em questão era Só me fez bem. “Isso foi mais que um prêmio, mais que qualquer empurrão”, lembra Edu, que ainda nessa época não pretendia seguir carreira musical. “Eu fazia música como quem pega onda, era uma coisa da geração. Inclusive muita gente, que tocava bem na época, hoje em dia faz outra coisa”, diz. Edu atualmente acha inacreditável a facilidade que se tinha de entrar nas casas de pessoas públicas como Vinicius e Tom Jobim. “A gente ficava só olhando enquanto eles trabalhavam. Na casa do Tom, eu tocava a campainha e entrava, a Teresa trazia um cafezinho e eu ficava ali, feliz da vida, só ouvindo. E eles deixavam. Era como se fosse uma escola”, garante. Musicalmente, no entanto, tanto Edu Lobo quanto Marcos Valle já começavam a trilhar seus próprios caminhos. Apesar da influência explícita da Bossa Nova, a inovação chegava através da versatilidade em termos de ritmo e principalmente nas letras, que começaram a apresentar mais temas políticos, deixando de lado a máxima “amor, sorriso e flor” da primeira geração da Bossa Nova. Marcos Valle, um dos primeiros surfistas cariocas, chegou a compor várias canções ligadas ao mar. O clima para músicas de fundo social começou a crescer no meio artístico como uma forma de protesto contra o sistema político vigente. Várias canções foram censuradas e outras tiveram frases mutiladas, o que só serviu para aumentar mais ainda a curiosidade e o prestígio das mesmas. inda em 1963, após muito hesitar, Nara Leão aceita o convite de Carlos Lyra e Vinicius para estrelar a Pobre Menina Rica, no Au Bon Gourmet. Entre as canções do espetáculo, todas compostas pela dupla, estavam Samba do Carioca, Sabe Você?, Pau de Arara, Maria Moita e Primavera. A temporada, de apenas três semanas, foi um sucesso. Nara havia começado um namoro com o cineasta Ruy Guerra, também letrista e parceiro de Edu Lobo. Carlos Lyra, na época, estava mergulhado em pesquisas sobre a música dos velhos sambistas do morro, como Cartola, Nelson Cavaquinho e Zé Keti, tentando inclusive compor com alguns deles. O disco Nara, lançado pela Elenco em 1963, reunia composições como Diz Que Vou Por Aí de Zé Keti, O Sol Nascerá, de Cartola e Elton Medeiros, e Luz Negra. de Nelson Cavaquinho, além de Feio não é Bonito e Maria Moita, de Lyra, Berimbau e Consolação, de Baden e Vinicius, Nanã, de Moacyr Santos, e Canção da Terra e Réquiem para um Amor, de Edu Lobo e Ruv Guerra. Quando o disco saiu, Nara foi ferozmente atacada por alguns críticos, mas seu novo estilo acabou agradando. Em janeiro de 1964 ela fez uma temporada no Bottle’s, e poucos meses depois partiu para o Japão com o trio de Sérgio Neto e Edison Machado. Quando voltou ao Brasil assinou com a Philips para gravar o Opinião. No repertório, Derradeira Primavera de Tom e Vinicius, Em tempo de Adeus, de Edu Lobo e Ruy Guerra, Opinião e Acender as Velas, de Zé Keti, entre outras composições que iam de capoeiras do folclore baiano. Nara estava fugindo de Ipanema, e o disco causou enorme polêmica, tendo sido considerado na época totalmente anti-Bossa Nova. Logo ela estrearia o show Opinião, de Oduvaldo Viana Filho, Armando Costa e Paulo Pontes, dirigido por Augusto Boal, e acompanhada por Zé Keti e João do Vale, no Teatro de Arena da Rua Siqueira Campos em Copacabana. O espetáculo, em toda a sua temporada, teve grande sucesso. E Nara passaria a ser a musa de outro movimento: o protesto da nova geração universitária Nesta época começaram a surgir os festivais da canção, que permitiam uma maior liberdade de composição. A partir de 1965, vários festivais começaram a acontecer nas emissoras Excelsior, Tupi e Record. Em 1966, Tom Jobim, já de volta ao Brasil após todo sucesso no Exterior, estava tomando tranqüilamente seu chopp no bar Veloso, em Ipanema. O telefone do bar tocou. Tom foi chamado e do outro lado da linha estava ninguém menos que Frank Sinatra, diretamente dos Estados Unidos, convidando-o para gravarem juntos um disco. Foi um encontro de gênios: O LP chamado Francis Albert Sinatra & Antonio Carlos Jobim, foi escolhido por unanimidade pela crítica especializada dos Estados Unidos como o álbum vocal do ano. Em 1967, o disco só perdeu em vendagem para os Beatles, que haviam acabado de lançar Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band. Mais tarde, já em 1968, Marcos Valle estourou em todas as paradas com a Viola Enluarada. E é ele quem conta como compôs a música: “Eu estava nos Estados Unidos, em 1967, participando de espetáculos e programas de televisão. E aquela saudade batendo. Fui gravar um disco em Nova York com arranjos do Eumir Deodato. Saudoso demais do Brasil, um dia entrei no banho e me veio, embaixo d’água, a melodia completa de Viola Enluarada na cabeça. Foi um ato de saudade, por isso ela é tão brasileira e tão triste também. Quando voltei ao Brasil, conheci o Milton Nascimento. Promoveram um encontro na casa do Tom para a gente se conhecer. Ele era meu fã, e eu dele. Neste encontro, toquei Viola Enluarada ainda sem letra. Todos adoraram a música e inclusive me disseram que deveria ser gravada sem letra. Mas eu preferi pedir ao Paulo Sérgio para fazer a letra. Quando ele me mostrou, fiquei um pouco na dúvida se a letra deveria ser aquela mesma, mas acabei concordando, e realmente o conjunto de letra e música deu supercerto.” Marcos lembra que, antes de ser sucesso de público e disco Viola Enluarada já era sucesso no meio artístico e era item obrigatório nas rodas de violão e nos shows. No espetáculo do Quarteto em Cy, por exemplo, Juscelino Kubitschek em pessoa levantou-se e cantou a plenos pulmões o refrão “Liberdade”. Logo Marcos Valle convidou Milton Nascimento para gravar música, que rapidamente estouraria nas paradas. Mais ou menos na mesma época, Marcos Valle foi convidado para participar do programa Almoço com as Estrelas, comandado por Aerton Perlingeiro na TV Tupi. Marcos seria agraciado com o prêmio Velho Capitão uma estatueta com a imagem de Assis Chateaubriand, dono dos Diários Associados e da TV Tupi. “Eu resolvi convidar o meu irmão Paulo Sérgio, já que ele era meu parceiro. O Paulo Sérgio se sentou num canto da mesa. meio escondido, e ficou observando tudo. Quando o Aerton anunciou o prêmio, eu comecei a agradecer e disse que também queria oferecer o prêmio ao meu irmão. Quando eu falei isso, o Paulo Sérgio já se levantou. Mas antes que ele chegasse perto, o Perlingeiro disse: ‘De jeito nenhum!’ Ficou aquele clima, o Paulo Sérgio já voltou pro lugar dele, e o Perlingeiro continuou: ‘Não senhor, o prêmio é seu. Quando o seu irmão merecer um, ele vai ganhar!’ Depois a gente chorava de rir e até hoje eu não sei se o Aerton viu que o Paulo Sérgio estava ali”, lembra Marcos. Poucos anos depois, o Brasil veria o surgimento de outro movimento importante: o Tropicalismo dos baianos Caetano, Gil e cia. Mas a verdade é que nunca um movimento musical influenciou tantos músicos em tantas partes do mundo como a Bossa Nova. Era incontestável que a música brasileira havia mudado, e para muito melhor. O respeito com que os compositores e músicos brasileiros começaram a ser tratados no Exterior era a prova do sucesso absoluto da Bossa Nova. O mercado internacional abria-se para o grupo de jovens amadores e seus seguidores, que haviam conquistado pela primeira um lugar de destaque para a música brasileira, livre de sotaques, batucadas e cachos de bananas. Em curto espaço de tempo, Antonio Carlos Jobim já era conhecido e consagrado como um dos maiores compositores do mundo. A gravação do seu disco com Frank Sinatra cantando suas músicas e músicas americanas no embalo da Bossa Nova era o reconhecimento da definitiva influência da moderna música brasileira. O violonista Baden Powell foi morar em Paris, e tanto na França como na Alemanha gravou inúmeros discos. O violonista pernambucano Cussy de Almeida morava em Genebra, Suíça, e chegou a ser o primeiro violino da orquestra Suisse Romande. Voltando ao Brasil encantou-se pela Bossa Nova. Viajava freqüentemente ao Rio de Janeiro, onde conheceu diversos personagens da Bossa Nova, terminando por gravar um belíssimo disco (O Mergulhador) de violino e violão com Candinho. Também para Paris mudou-se o violonista e cantor Normando. Carlinhos Lyra foi para os Estados Unidos e México onde viveu e trabalhou com grande prestígio. O pianista e compositor Eumir Deodato radicou-se em Nova York, onde ganhou diversos prêmios e discos de ouro, sendo considerado um dos maiores arranjadores pelos músicos americanos. Sérgio Mendes, há anos com o seu espetacular som característico, já é uma instituição no cenário da música nternacional. João Gilberto transformou-se em símbolo e padrão de qualidade de interpretação. Astrud mora na Filadélfia e será sempre a suave “Garota de Ipanema”. Edu Lobo, Dori Caymmi e Marcos Valle deixaram a marca de sua presença em todos os locais em que a Bossa Nova é ouvida. Vinícius de Moraes, o poeta dos poetas, correu mundo contando e cantando sua poesia, e por algum tempo chegou a morar na Itália, onde fez enorme sucesso. Oscar Castro Neves fixou residência em Los Angeles como notável arranjador e instrumentista. Roberto Menescal, dono de uma obra que é parte fundamental do acervo da Bossa Nova, fez diversos shows pelo mundo, e além da música tornou-se um dos maiores experts em bromélias no Brasil. Moacyr Santos e Don Salvador fizeram da América sua opção de vida e trabalho. A batida do violão e dos ritmistas Juquinha, Hélcio Milito, João Palma, Milton Banana, Paulinho Magalhães, Chico Batera, Edson Machado, Toninho Pinheiro, Ronnie Mesquita, Paulinho Braga, Ruben Bassini e Dom Um Romão, abriu no Exterior o caminho para que os percussionistas de vários países acompanhassem a Bossa Nova, que saiu das noites de Copacabana e Ipanema para as luzes internacionais. De um cantinho e um violão para as grandes platéias e orquestras do mundo. E 40 anos depois do seu nascimento, a riqueza, a suavidade e o encanto da Bossa Nova não se encontrou nada que a superasse. (...) Continua na próxima postagem. Fonte: Revista Caras - Edição Especial de Julho de 1996. 
Boa leitura - Namastê

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

A história da Bossa Nova - Parte XIX


O Carnegie Hall aplaudiu de pé, e cravos vermelhos foram atirados ao palco. Nos dias seguintes, alguns inimigos da Bossa Nova na imprensa brasileira noticiaram com fartura o “fracasso histórico” do show, A mentira e o exagero causaram uma repercussão tão negativa que Mário Dias Costa foi chamado pelo ministro das Relações Exteriores para explicar o que havia se passado. No entanto, o show havia sido filmado por uma equipe de TV americana. Dora Vasconcellos comprou o filme por 450 dólares e mandou-o para o Brasil na bagagem do radialista Walter Silva, o famoso Pica-pau. As TVs Continental e Tupi encarregaram-se de exibi-lo e a verdade veio à tona: o que se via era algo bem diferente do que a imprensa noticiara. Mostrava, por exemplo, a platéia aplaudindo entusiasticamente Tom, João, Bonfá, Agostinho dos Santos e os demais participantes do show. Logo Depois do concerto no Carnegie Hall, vários brasileiros fecharam contratos para continuar por lá. João Gilberto assinou um contrato de três semanas com a Blue Angel e outro com a gravadora Verve para gravar um disco. Tom Jobim foi contratado como arranjador pela Leeds Corporation. O conjunto de Oscar Castro Neves foi para o Empire Room do Waldorf Astoria. Chico Feitosa foi convidado por Mel Tormé para assistir ao seu espetáculo em Nova Jersey. Após a apresentação, no camarim, Chico ficou tocando suas músicas durante uma hora para Mel Tormé enquanto ele tirava a maquiagem. Tormé resolveu: “Quero gravar todas. Vamos nos encontrar na casa de Nesuhi Ertegun em Nova York depois de amanhã para acertar tudo”. Chico voltou para Nova York, caiu no redemoinho das festas para a Bossa Nova, esqueceu de Mel Tormé e voltou para o Brasil sem voltar a ligar para o grande cantor. Duas semanas depois do Carnegie Hall, aconteceu um novo show de Bossa Nova nos Estados Unidos — que muita gente, como o próprio Carlos Lyra, garante ter sido o “verdadeiro” — no George Washington Auditorium, em Washington. Dele participaram Tom Jobim, João Gilberto, Carlos Lyra, Roberto Menescal, o Sexteto Sérgio Mendes, Sérgio Ricardo, o quarteto de Oscar Castro Neves, Luiz Bonfá, Agostinho dos Santos e Milton Banana. O grupo fechou sua apresentação em Washington, sendo recebido na Casa Branca. Tom Jobim ficou em Nova York por nove meses, período em que foi considerado o melhor arranjador musical . pela National Academy of Recording Arts and Sciences, da qual recebeu seu primeiro troféu internacional. O prêmio foi concedido por causa dos arranjos do disco de João Gilberto que a Odeon havia enviado para os Estados Unidos. Em maio de 1963 Tom gravou Antonio Carlos Jobim — The Composer of Desafinado Plays, com doze músicas suas, entre elas Garota de Ipanema, que em breve seria o maior sucesso da Bossa Nova e da música brasileira no Exterior. No final daquele ano também chegaria às lojas o disco Getz/Gilberto – Featuring Antonio Carlos Jobim, que em menos de um ano vendeu mais de dois milhões de exemplares. O principal êxito do disco foi The Girl from Ipanema, interpretada por Astrud Gilberto. Getz e Gilberto conheceram-se poucos dias depois do concerto no Carnegie Hall, num encontro do qual também participaram Tom Jobim e o produtor Creed Taylor, dono da Verve. A gravação do disco foi uma novela: João e Getz brigavam feitos cão e gato, o primeiro criticando a altura do sax do segundo, que por sua vez brigava com a voz sussurrada de João. Mesmo assim as oito faixas foram gravadas em apenas dois dias e o LP estourou nas paradas, conquistando vários prêmios Grammy. Carlos Lyra também ficou algum tempo nos Estados Unidos, acompanhando o grupo de Stan Getz.“Ajudou muito o fato do Getz ser um músico ligado à Bossa Nova. Ele queria um elemento brasileiro que cantasse acompanhado pelo conjunto dele”, conta. Lyra cantava somente suas canções e era acompanhado por músicos da melhor qualidade: Getz no sax, Gary Burton no vibrafone e Chick Corea no piano. Juntos, apresentaram-se nos Estados Unidos, Japão, Europa, México, Canadá e até no Brasil. Quando se separou do grupo, Lyra continuou sua carreira no Exterior por conta própria. O Carnegie Hall havia enfim provado que o evento tinha sido um sucesso na vida dos compositores e na vida da própria Bossa Nova. Apesar das críticas negativas ao show no Carnegie Hall, a Bossa Nova no Brasil estava mais forte do que nunca no início dos anos 60. Incansáveis, os músicos não paravam de compor e novas parcerias surgiam da noite para o dia. Foi assim com Baden Powell e Vinícius de Moraes. Apresentado a Baden pelo empresário Nilo Queiroz, aluno do violonista, os dois acabaram passando três meses trancados na casa de Vinicius, onde beberam dezenas de garrafas de uísque e criaram 25 canções, entre elas Berimbau e Canto de Ossanha. Em 1962, mesmo ano do Carnegie Hall, Tom Jobim, Vinicius de Moraes e João Gilberto finalmente se reuniram para um espetáculo juntos. O antológico O encontro teve lugar na boate Au Bon Gourmet, em Copacabana. A temporada, prevista para um mês, acabou sendo prorrogada por mais duas semanas, tal foi o sucesso. Aquela foi a primeira vez que “o poetinha” cantou em público, e também foi a primeira vez que Garota de Ipanema foi apresentada num espetáculo. A música, que se tornaria um dos hinos da Bossa Nova em todo o mundo, foi composta por Tom alguns meses antes do espetáculo no Carnegie Hall, e Vinicius colocou a letra mais tarde, inspirado pela famosa garota que eles viram passar da varanda do Veloso, em Ipanema. Helô Pinheiro tinha apenas quinze anos na época. e costumava passar pela Rua Montenegro, atual Rua Vinícius de Moraes, a caminho do mar. Na mesma época, João Gilberto lançou seu terceiro disco, que levava apenas seu nome, viajando em seguida para os Estados Unidos, onde passaria alguns anos sem gravar e até mesmo sem voltar ao Brasil. Entre 1963 e 1969, João Gilberto apresentou-se em várias cidades dos Estados Unidos, Canadá e Europa, conquistando para sempre suas platéias. Em 1965, já separado de Astrud, conheceria em Paris sua segunda mulher, Miúcha Buarque de Holanda. Aloysio de Oliveira resolveu sair da Odeon e, em 1963, criou sua própria gravadora, a Elenco, que se tornou reduto da Bossa Nova. As capas dos discos, sempre brancas e com fotos de Chico Pereira, tornaram-se uma marca registrada da gravadora. Um personagem que marcou época na Bossa Nova foi o bailarino Lennie Dale, Ele chegou ao Brasil trazido por Carlos Machado para coreografar o show Elas Atacam pelo Telefone. Encantado com o Rio, Lennie foi ficando e se enturmou com os músicos do Beco das Garrafas, conseguindo convencê-los da importância dos ensaios para uma melhor performance profissional. Antes disso a improvisação costumava comandar os espetáculos. Lennie chegou inclusive a estrelar um espetáculo antológico, em que cantava O Pato com seu forte sotaque, segurando uma fruteira com um pato de verdade dentro. E foi Lennie também que resolveu inventar passos de dança para a Bossa Nova, já que na época qualquer novo ritmo musical sempre era associado a uma dança específica. Neste início dos anos 60, já começava a se formar a segunda geração dos compositores da Bossa Nova, da qual fizeram parte, entre outros, Marcos Valle, Edu Lobo, Francis Hime, Pingarilho, e Antonio Adolfo. Mais tarde, ainda sob a influência do primeiro grupo, apareceram Milton Nascimento, Chico Buarque e Toquinho.A cantora Elis Regina chegou ao Rio, vinda de Porto Alegre, em março de 1964. Ela já havia gravado três LPs na capital gaúcha: Viva a Brotolândia (1961), Poema (1962) e O Bem do Amor (1963), nos quais demonstrava a influência de sua maior admiração, Ângela Maria. Miéle e Bôscoli criaram para ela um pocket show no Little Club, do qual também participavam o conjunto Copa Trio, do baterista Dom Um, a bailarina Marly Tavares e o pandeirista Gaguinho. Lennie Dale encarregou-se de ensaiar a “baixinha”: foi dele a idéia de rodopiar os braços feito moinhos de vento, o que valeu a Elis o bem-humorado apelido de “Hélice” Regina. Marcos Valle conta que a música sempre esteve presente em sua vida. “Estudei música clássica durante treze anos e meu interesse por música brasileira começou muito cedo, ainda criança”. Lembra ele, que, em 1958, quando surgiu Chega de Saudade, ainda era um adolescente de quinze anos e só tocava nas festinhas dos amigos. Através da cantora Tita, Marcos foi apresentado a Johnny Alf, “Ele achou que eu tinha talento e começou a freqüentar a minha casa e me estimulava muito”, lembra Marcos. Mas sua atividade musical começou a crescer quando reencontrou Edu Lobo, amigo de infância do Colégio Santo Inácio, dentro de um ônibus. Edu comentou que estava tocando violão e que sempre se reunia com Dori Caymmi, filho de Dorival. Entusiasmado, Marcos resolveu se juntar aos dois e em breve eles formariam um trio vocal, com Edu e Dori nos violões e Marcos no piano. Edu Lobo frisa que, nesta época, nenhum deles pensava em música como uma profissão. “Eu já estava programado para estudar Direito e seguir carreira diplomática”, conta Edu, filho do jornalista e compositor Fernando Lobo. Mesmo assim, começaram a freqüentar as reuniões da Bossa Nova. Marcos Valle da primeira vez em que esteve na casa de Ary Barroso: “Estava todo mundo lá, Vinicius, Carlos Lyra, Baden Powell. Eles eram meus ídolos e de repente eu estava ali, no meio deles”. Numa outra reunião, esta na casa de Vinicius, Marcos reencontrou Lula Freire, amigo de infância de seu irmão Paulo Sérgio. Quando, já no fim da noite, Marcos pegou o violão, Lula imediatamente o convidou para ir no dia seguinte á sua casa para apresentá-lo aos músicos do Tamba Trio de Luizinho Eça. Marcos foi, mostrou algumas de suas primeiras composições, Sonho de Maria, Razão do Amor e Vem o Sol, e Luizinho, que já estava com disco praticamente pronto, resolveu voltar ao estúdio para gravar uma das canções de Marcos que mais o havia encantado: Sonho de Maria. Nesse mesmo dia Marcos foi apresentado a Carlos Lyra, Roberto Menescal, Luís Carlos Vinhas e Chico Feitosa. Menescal acabou levando-o aos Cariocas, que gravaram Vamos Amar, parceria com Edu Lobo, e Amor de Nada. No ano seguinte Marcos foi chamado para um teste na Odeon, gravadora na qual acabou ficando por doze anos. Seu primeiro disco, Marcos Valle Samba Demais, foi lançado em 1964. Edu Lobo lembra que aquela época foi muito especial, e que talvez nunca mais se repita em nenhum lugar do mundo. “Bastava você trabalhar muito para que as coisas acontecessem”, conta Edu. A história de sua parceria com Vinicius é um exemplo. Edu Lobo conheceu Vinicius de Moraes numa festa na casa de Olívia Hime, em Petrópolis. “Ela me ligou no final da tarde e disse para eu ir ate lá, porque o Vinicius também estava indo. Eu nunca tinha visto o Vinicius antes, a não ser em shows, e fui correndo”, lembra. (...) Continua na próxima postagem. Fonte: Revista Caras - Edição Especial de Julho de 1996.
Boa leitura - Namastê

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

A história da Bossa Nova - Parte XVIII



A esta altura, Sidney Frey já havia convocada a imprensa para uma entrevista coletiva, em que anunciou que alugara o Carnegie Hall para um show de Bossa Nova, e que o Itamaraty financiaria as passagens. Isto bastou para que dezenas de pessoas batessem à porta de Dias Costa, garantindo serem integrantes genuínos do movimento. Em São Paulo, um grupo se reuniu e resolveu participar também, conseguindo suas passagens através da gravadora RGE. Entre eles, os cantores Agostinho dos Santos, Caetano Zama e Ana Lúcia. Aloysio de Oliveira ficou preocupadíssimo com a quantidade de músicos inexperientes (alguns sem terem mesmo nada a ver com a Bossa Nova) que estavam prestes a embarcar para a apresentação. Ele acreditava que a proposta inicial de Frey era melhor: um show apenas com João Gilberto e Tom Jobim seria mais do que suficiente para mostrar todo valor da música brasileira, sem correr o risco de um eventual fracasso na principal casa de espetáculos que poderia comprometer a intenção de apresentar a Bossa Nova como o que de melhor se fazia em música fora dos Estados Unidos. Com esta preocupação martelando sua cabeça, A1oysio tentou suspender a ida do grupo: convocou uma reunião na casa de Tom Jobim, à qual compareceram Carlos Lyra, João Gilberto e Vinicius de Moraes e sugeriu que seria melhor que todos desistissem do espetáculo uma vez que o show poderia transformar-se em uma grande bagunça. Aloysio foi tão convincente em seus argumentos que todos saíram dali acreditando que seria mesmo melhor desistir da empreitada. Mas Vinícius chamou Lyra num canto e disse: “Parceirinho, não deixa de ir não, porque Tonzinho e João vão". "Na verdade o Aloysio preferia que todo mundo desistisse para só irem ele, o Tom e o João Gilberto”, conta Carlos Lyra, que imediatamente avisou Menescal e os outros que resolveram enfrentar o desafio. Dias depois, embarcaram para Nova York, onde já estava o violonista Luiz Bonfá, que já desfrutava de grande prestígio junto ao público e aos músicos americanos. No dia do embarque, criou-se um certo constrangimento quando Aloysio entrou no avião: todos fizeram um silêncio mortal. O produtor acabou sentando-se sozinho num canto, onde passou toda o viagem. Na última hora, Tom Jobim, que detestava avião, não quis embarcar naquele vôo, alegando que o motor do avião estava sujo, e deixou para viajar no dia seguinte. Mas ele não perdeu muita coisa: Caetano Zama não esquece o tormento que foi ouvir o cantor Charles Aznavour, que também estava no avião, tocar cavaquinho durante toda a viagem. A chegada aos Estados Unidos foi uma espécie de sonho. Era outono em Nova York, com dias belíssimos e vários tons de amarelo colorindo a cidade, coberta de folhas secas. Tom Jobim deu um susto em Mário Dias Costa: desapareceu no dia seguinte ao de sua chegada em Nova York. Todos ficaram preocupadíssimos, até que alguém se lembrou de que ele tinha dito alguma coisa sobre ir à casa do saxofonista Gerry Mulligan em Nova Jersey. Foram atrás dele e encontraram “Tom e Gerry”, ao lado de uma pilha de latas de cerveja. Tinham passado a tarde toda bebericando e tocando juntos. Finalmente a grande noite chegou: no dia 21 de novembro de 1962, a Bossa Nova subiu ao palco do Carnegie HalI. Compareceram ao histórico espetáculo Luiz Bonfá, o conjunto de Oscar Castro Neves, Agostinho dos Santos, Carlos Lyra, Sérgio Mendes, Roberto Menescal, Chico Feitosa, Normando Santos, Caetano Zama, Ana Lúcia, Cláudio Miranda, Milton Banana, Sérgio Ricardo, Antonio Carlos Jobim e João Gilberto, além do violonista Bola Sete, a cantora Carmen Costa, o ritmista José Paulo e o pianista argentino Lalo Schiffrin. Ninguém, nem mesmo o próprio Itamaraty, imaginaria que aquele concerto pudesse superar o sucesso do samba de Carmen Miranda, que chegara as telas de Hollywood nos anos 40. Cerca de três mil pessoas lotaram o Carnegie Hall e outras mil ficaram do lado de fora. Na platéia estavam nomes como Tony Bennett, Peggy Lee, Dizzy Gillespie (este na primeira fila), Miles Davis, Gerry Mulligan, Erroll Garner e Herbie Mann, entre muitos outros ilustres representantes da música americana. O master of ceremonies, o famoso crítico de jazz Leonard Feather, fez uma introdução explicando o que era a Bossa Nova. O sexteto de Sérgio Mendes, por sugestão de Lula Freire batizado como Bossa Rio (o nome original do grupo era Samba Rio), abriu o espetáculo e sua interpretação foi aplaudidíssima. Anos depois, Mário Dias Costa confessou que chegou a chorar quando o grupo tocou Samba de Uma Nota Só, com arranjo de Paulo Moura. Alguns jornais publicaram a notícia de que o concerto havia sido um fracasso. Realmente, o sistema de amplificação não era dos melhores, chegando a pifar quando Normando cantava sua música. Boa parte do público que estava nos balcões e galerias não ouviu direito o concerto, o que prejudicou a qualidade de audição do espetáculo, mas sem dúvida foi a partir dali que João Gilberto, Tom Jobim e Carlos Lyra entre outros, deslancharam suas carreiras internacionais, e foi também a partir dali que a Bossa Nova conquistou definitivamente o mundo. Carlinhos Lyra quase apanhou de um guarda americano porque estava fumando bem embaixo de um aviso de No Smoking, quando foi alertado por Tom Jobim, que o fez apagar o cigarro alegando que nos Estados Unidos Lyra poderia ir parar na cadeira elétrica por infringir a lei. No meio do espetáculo, que durou quase três horas, o Sindicato dos Trabalhadores em Teatro de Nova York ameaçou apagar todas as luzes, pois já tinham estourado sua carga horária de trabalho. A consulesa Dora Vasconcellos teve de usar de toda a sua diplomacia para conseguir que eles continuassem a trabalhar. Apesar de todos estes contratempos, quem estava pôde presenciar momentos inesquecíveis. Tom Jobim foi muito aplaudido em Samba de Uma Nota Só, mesmo tendo errado a letra. Apesar do nervosismo, ele teve grande presença de espírito ao parar de tocar para recomeçar. “Just a second”, disse Tom para então recomeçar com brilhantismo. Depois cantou Corcovado, Sob aplausos, Tom Jobim saiu do palco e logo depois voltou paro dizer: “It’s my first time in New York and I’m ver very, very glad to be here.I’m loving the people, the town everything. I’m very happy to be with you”. Já o Gilberto, na última hora, implicou com o vinco de sua calça. Chamou o conselheiro Mário Dias Costa e explicou-lhe que o vinco não estava paralelo à costura, o que prejudicaria sua apresentação e conseqüentemente poderia comprometer a imagem da música brasileira no Exterior. Apavorado, Mário Dias Costa pediu socorro à consulesa Dora Vasconcellos, que localizou a costureira do teatro para conseguir um ferro de passar. Até hoje algumas pessoas garantem que a própria Dora passou a calça de João, enquanto ele esperava tranqüilamente, de meias e cueca. João entrou no palco com um violão emprestado por Billy Blanco. Ele aguardou o silêncio e cantou Samba da Minha Terra com Milton Banana na bateria e emendou com Corcovado e Desafinado, com Tom Jobim ao piano. Levou o Carnegie Hall ao delírio. Os aplausos não eram à toa: somente naquele ano, Desafinado tivera onze gravações nos Estados Unidos, uma delas a de um milhão de discos vendidos, com Stan Getz e Charlie Byrd. Outro ponto alto do espetáculo foi a apresentação de Luiz Bonfá ao violão e Agostinho dos Santos cantando Manhã de Carnaval. Bonfá lembra que Agostinho, muito nervoso, abordou-o pouco antes do show começar: “Bonfá, você vai tocar Manhã de Carnaval”? Bonfá confirmou. “Posso cantar com você?”, pediu Agostinho. Bonfá, muito sem jeito, disse que não, já que o que estava combinado era que ele faria apenas um solo com o violão, e não queria se indispor com Sidney Frey. Agostinho não desistiu: “Não tem importância, você modula que depois eu entro...”. Depois de muita insistência, Bonfá cedeu: combinaram que ele faria primeiro uma introdução instrumental e depois anunciaria Agostinho. Mas quando o violonista começou a tocar, os aplausos abafaram o som. Agostinho, achando que já era sua hora, entrou. E acabou cantando desde o início, exatamente como queria. (...) Continua na próxima postagem. Fonte: Revista Caras - Edição Especial de Julho de 1996.
Boa leitura - Namastê