Artista: La Grande Histoire Du Jazz
Lançamento: 2009
Selo: Le Chant du Monde
Gênero: Swing, Ragtime, Big Band, Early Jazz, New Orleans Jazz, Dixieland, Harlem Stride Piano, Gipsy Jazz (Jazz Manouche), Negro Spirituals / Gospel
O primeiro CD da monumental caixa La Grande Histoire Du Jazz: From Ragtime To Swing 1898-1952 não é apenas uma coletânea; é uma certidão de nascimento musical. Este volume inicial cumpre um papel crítico fundamental: mapear a exata transição da síncopa mecânica do Ragtime para a liberdade improvisada do Jazz primordial de New Orleans e Chicago. Para quem busca entender a espinha dorsal da música ocidental moderna, este disco possui um valor histórico e estético inestimável. A estrutura e a jornada estética e o grande trunfo deste CD é sua narrativa cronológica e geográfica linear jogando o ouvinte no turbilhão da virada do século XIX para o século XX, organizando a evolução do gênero em três pilares claros: A era do ragtime (A Síncopa Escrita): o CD abre com as composições milimetricamente calculadas de Scott Joplin, aqui, o valor da obra está em mostrar que o jazz não nasceu do caos mas sim de uma complexa fusão da harmonia clássica europeia com o ritmo sincopado africano, originalmente pensado para o piano. O coletivo de New Orleans (A Polifonia das Ruas): a transição para as gravações da Original Dixieland Jass Band (1917) e posteriormente do gênio King Oliver, demonstra o momento em que a música sai das partituras rígidas e ganha as ruas. O foco muda para a improvisação coletiva, onde trompete, clarinete e trombone dialogam simultaneamente. A emergência do solista (O legado de Chicago): o terço final do disco prepara o terreno para a revolução de Louis Armstrong onde a música deixa de ser um esforço puramente coletivo para se tornar a plataforma de expressão de um gênio individual. O valor real desta obra reside na sua curadoria cirúrgica. Não se trata de um apanhado de "grandes sucessos", mas de um documentário sonoro. O resgate da textura original, embora a fidelidade sonora das faixas mais antigas (gravações acústicas pré-1925) soe datada ou "arranhada" para ouvidos contemporâneos, a masterização do box optou por preservar a dinâmica original em vez de abafar a música com filtros digitais excessivos. Isso mantém o peso e a crueza da época. Outro ponto crucial é a inclusão de pioneiros frequentemente esquecidos pelo grande público, como Jelly Roll Morton — que audaciosamente se autointitulava o "inventor do jazz" —, mostrando como ele trouxe o "tempero espanhol" (ritmos caribenhos e latinos) para a fundação do estilo. Análise crítica, onde o CD desafia o ouvinte ganha uma abordagem direta onde se exige notar que o CD 01 não é uma audição casual. Ele exige contextualização. Para o ouvinte moderno, a repetição das estruturas de marcha e os ritmos estacados do início do Ragtime podem parecer monótonos se escutados em sequência sem a devida atenção à sutil evolução técnica entre as faixas. Além disso, a transição abrupta da rigidez do piano solo de Joplin para a estridência das primeiras gravações de bandas de metais pode chocar quem espera a sofisticação suave do jazz moderno (como o Cool Jazz ou o Bebop). Este volume é, essencialmente, arqueologia musical viva. Seu valor não está no conforto acústico, mas na eletricidade de se testemunhar um gênero descobrindo sua própria identidade. O CD 01 de La Grande Histoire Du Jazz é imprescindível. Ele estabelece com precisão matemática e paixão histórica que o Jazz não surgiu do nada; foi uma evolução técnica, social e racial perfeitamente documentada. Para estudantes, colecionadores e entusiastas, este disco é a fundação de pedra sobre a qual todo o resto da música popular do século XX foi construída.
Boa audição - Namastê



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