O limiar da ruptura na tensão criativa do jazz pré-moderno flerta o nono volume da coleção La Grande Histoire du Jazz captura um momento histórico de singular fragilidade e audácia: o final dos anos 30 e o início da década de 40. Estamos diante de um documento que registra a "estabilização" do Swing, mas, sob a superfície polida das grandes orquestras, já se ouve a inquietação harmônica de solistas que começam a questionar a rigidez dos arranjos. É o CD que registra a calma que precede a tempestade, o instante em que o jazz, por excelência uma música de baile, começa a se transformar em uma música de concerto e intelecto. Com pano de fundo deste volume é a sombra da Segunda Guerra Mundial e a transformação do jazz em um símbolo de resistência cultural e identidade americana. Esteticamente, o contraste é fascinante: de um lado, temos o escapismo glamoroso e perfeitamente ritmado das big bands que dominavam as paradas de sucesso; do outro, uma crescente valorização da individualidade virtuosística. É um período em que a música precisa ser, ao mesmo tempo, comercialmente viável para o público das pistas de dança e artisticamente desafiadora para os músicos que, exaustos da repetição mecânica, buscam novas rotas de exploração sonora. A evolução técnica aqui documentada revela a transição entre a "forma" e o "conteúdo" a expansão da paleta harmônica no papel dos instrumentos de sopro que começa a mudar. Se antes a função era marcar o ritmo ou responder ao solista, aqui o uso de extensões harmônicas (notas nonas, décimas primeiras e décimas terceiras) começa a aparecer de forma mais ousada nas harmonizações de naipes, antecipando a riqueza tonal do jazz moderno. A rítmica como moto-contínuo na seção rítmica atinge um grau de fluidez exemplar. A bateria abandona definitivamente o estilo "marcha" para adotar uma condução mais leve e elástica, permitindo que o baixo e o piano criem texturas que sustentam o solista de maneira menos invasiva e mais inspiradora. O Arranjo como dramaturgia, os arranjadores deste período começam a tratar a peça musical como uma narrativa cinematográfica, com contrastes dinâmicos (piano/forte) e passagens solistas que se integram organicamente à estrutura da orquestra, deixando de ser apenas um "intervalo" entre os temas. O registro da "Guerra e Paz", muitas dessas gravações foram feitas em um ambiente de incerteza global. Curiosamente, a precisão e a elegância sonora deste CD9 contrastam fortemente com a turbulência social da época. O estúdio de gravação funcionava como uma ilha de estabilidade, onde a busca pela perfeição musical era o único norte. A Microfonação como instrumento é perceptível neste volume o avanço das técnicas de captação. O som dos metais ganha um "brilho" que define a era, e o uso de microfones direcionais permitiu captar o sopro dos saxofones com uma intimidade que, anteriormente, era abafada pelo volume dos metais. A "escola" das jam sessions documenta a migração do talento dos grandes palcos para as jam sessions noturnas em lugares como o Minton’s Playhouse. O que ouvimos aqui é a ponte entre a performance pública e o laboratório privado onde a música estava sendo reinventada. Este volume é fundamentalmente o testemunho da maturidade. Documentalmente, ele é crucial por ser o "último suspiro" da unidade plena do jazz antes da grande divisão entre a vertente comercial e a de vanguarda. Para o ouvinte, o CD 9 oferece a satisfação de uma música que atingiu o seu equilíbrio ideal: o poder coletivo da orquestra em harmonia perfeita com a criatividade ilimitada do indivíduo. É a coleção de um gênero que, tendo conquistado o mundo, preparava-se, agora, para conquistar a eternidade através da arte pura. Observando este volume que equilibra tão bem a tradição com as sementes da modernidade, como você interpretaria a "fome" de mudança que levava esses solistas a buscar, após os shows, novas complexidades harmônicas nas jam sessions? Seria, na sua visão, um tédio criativo diante da previsibilidade do Swing ou uma ambição intelectual de elevar o jazz ao patamar das formas eruditas?
Boa audição - Namastê



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