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terça-feira, 3 de maio de 2011

O Presidente, a Duquesa e Lady Day

Pouco depois da apresentação no Apollo, sua ligação com Bobby Henderson termina brutalmente. Billie descobre que o jovem tão bem educado já é casado. Ela perdeu um amante, mas encontrará nesse mesmo ano aquele que a irá acompanhar musical e efetivamente até o fim de sua vida. Um jovem saxofonista recém-chegado do Mississipi: Lester Young (1909-1959). Ele vinha de Kansas City, onde tocava com a orquestra de Count Basie e fora contratado por Fletcher Henderson para substituir Coleman Hawkins, o saxofonista que todos adoravam na época. Ele começou no Cotton Club. Não foi fácil para o jovem Lester na época com 27 anos, substituir uma personalidade tão forte como Hawkins. Enquanto o som de Hawkins é pujante e musculoso o de Lester é leve e gracioso. Os músicos da orquestra estão desapontados. Eles preferem Chu Berry (Leon “Chu” Berry, 1908-1941), um saxofonista cujo estilo é mais próximo do de Hawkins. Eles lhe dão claramente a entender que não gostam dele e não param de conversar baixinho enquanto ele toca. Fletcher, todavia, impôs Lester e lhe deu todo o apoio. Chegou até mesmo a hospedá-lo em sua casa durante algum tempo, a até sua mulher, Leora (Leora Meoux Henderson, 1919-1941, esposa, agente e empresária de sua orquestra, às vezes tocava instrumento de sopro) começou a reclamar. Billie o escutou pela primeira vez em um jan sessions. Foi no final de uma noite ou começo de uma manhã, ninguém lembra mais direito. Ali se encontrava a fina flor dos músicos de jazz entre eles o pianista Benny Carter (Benjamim Bennett “Benny” Carter, 1907-2005); Lester se juntou a turma com sua velha gaita reformada tanta vez, que as chaves estão com elásticos. Ainda que ao contrário de Billie, Lester se tenha beneficiado de uma solida formação musical, sua abordagem da musica é muito parecida - Simplicidade, intuição, sentimento. Nenhum efeito nos tempos fortes dos compassos, um Vibrato (efeito ligeiramente tremulante na melodia acrescentado ao tom vocal ou instrumental para maior expressividade e volume, obtendo por variação de altura rápida e leve) discreto, uma variação em torno de uma nota bem escolhida em vez de uma serie de ornamentos cintilantes. Um som ao mesmo tempo melancólico e langoroso e além disso, outra curiosidade: ele tocava seu saxofone tenor como se fosse contralto (mudando a afinação, mas não o timbre). Uma cumplicidade se estabeleceu de imediato entre Billie e ele. Um amor musical à primeira vista. Quando o saxofonista Chu Berry aparece, Benny Carter lhe faz um desafio. Uma justa musical com Lester. Do mesmo modo que Hawkins, Chu Berry é um astro do jazz. Quando ele toca, o publico batem o pés, assobiam e bate palmas em cadencia. Chu disse não ter trazido seu saxofone mais isso não é obstáculo para Bem Carter, que se ofereceu para busca-lo. Ele tinha plena confiança em Lester e esse concurso informal era uma forma de promovê-lo. Com qual peça eles vão começar? Chu Berry escolhe “I Got Rhythm” (Composição do musico clássico/popular judeu-americano George Gershwin, sobre texto de seu irmão Ira). Foi uma péssima escolha. É justamente o cavalo de batalha de Lester que já desenvolveu quinze variações diferentes sobre o mesmo tema. Chu levou uma sova de interpretação. Billie acompanha Lester ate seu hotel por nome Tereza. Enquanto caminham pelas calçadas desertas, de manhã bem cedo, descobre uma serie de gostos comuns entre eles ate marijuana. Tem o mesmo senso de humor. Eles tagarelam e riem bastante, os dois levemente chapados. Ao chegarem diante do hotel, Lester se inclina e beija-lhe a mão.

- Boa noite, Lady ou quem sabe, bom dia, Lady Day....

_ O dia esta claro.

_ Você sabe, o dono da casa esta me esperando, acrescentou ele.

_É um rato grande e gordo que se instalou sobre sua pilha de camisa e que volta sempre, por mais vassouradas que leva...

Billie, horrorizada lhe propõe imediatamente que venha se instalar em sua casa. Sade, que sempre prepara uma pequena ceia para os que deitam de madrugada, o recebeu de braços abertos. O apartamento é uma enfiada de pequenas peças ao comprido, como em um vagão de estrada de ferro, com uma entrada em cada porta. Uma dessas, pomposamente chamada de “sala de musica” é mobiliada com um velho piano desengonçado e as pilhas de disco de Billie.

_Você fica instalado aqui – diz-lhe Sadie, que logo é tomada de afeição por este homenzarrão desajeitado e de olhar reservado, com cabelos avermelhados que levam todos a chama-lo prontamente de Red.

Lester esta encantado. O pequeno apartamento nunca esta vazio, sempre tem frango frito e feijão vermelho para os músicos famintos, os conhecidos do bairro e as putas fugindo da policia, que se esconde o tempo suficiente para serem esquecidas. Os amigos de Billie costumam chamar sua mãe de Mama Holiday. Mas Sadie foi tão regaladamente generosa para com ele que Lester lhe presta outra homenagem. Passa a chama-la de Duquesa. Ele também escolhe para Billie um novo nome que permanecerá com ela mesma depois de sua morte. Muitos já chamavam de Lady. Foi ele quem encontrou Lady Day, acrescentando-lhe uma misteriosa poesia. Por que não Lady Night? Talvez porque ele a considerasse tão bela e luminosa à luz do dia como à noite em um lisonjeiro vestido de cetim, sob o feixe prateado de um refletor. Em resposta, Billie começou a lhe procurar um apelido carinhoso, algo que pudesse lhe qualificar a excelência, tanto como musico de primeiro plano como em sua condição de homem. O homem mais importante dos e Estados Unidos era o presidente Franklin D. Roosevelt (Franklin Delano Roosevelt, 1882-1945, o 32º presidente) . Leste era o melhor musico e merecia se chamado de Prez. O presidente, a duquesa e Lady Day passam juntos momentos deliciosos. Com seu maravilhoso senso de humor, sua benevolência e a elegância de seu caráter, ninguém duvida que a presença de Lester tenha contribuído para adoçar o relacionamento entre Billie e Sadie. Ela compreendeu logo que Lester é inofensivo e que entre eles não se passa nada de caráter sexual. Portanto, ela não tem nada a temer. Ele não vai lhe tirar a filha. Os dois jovens partilham de uma terna cumplicidade, não chegam a ser amantes, são muito mais que amigos. Uma espécie de ato amoroso que encontra seu clímax na fusão musical, ao passo que em casa são como irmãos, paparicados de pequenas atenções por sua mãe. Protetora em demasia, presente, se acreditamos em Billie, que afirma ficar agastada com os conselhos, reprovações e angustias de sua mãe. Ainda que ela demonstre um afeto caloroso e esteja sempre pronta a lhe prestar toda espécie de serviços, também faz marcação cerrada e enfia o nariz por toda parte, como se quisesse se imiscuir em cada aspecto da vida de sua filha e viver, através dela. Se ele vem as vezes escuta-la cantar é também para supervisiona-la, saber com quem ela se encontra, quem anda à volta dela, quanto é que ela ganha. Ela nunca esconde que tem medo de que sua filha vá embora e a deixe abandonada em uma solidão. Como ela mesma fez nos tempos de Baltimore.... Assim ela se gruda em Billie, ocupa o terreno inteiro com sua presença e sua lamúrias constante. Sadie exige demais e Billie precisa mantê-la a distancia. Mas ela não pode passar sem sua mãe. Sente-se responsável por ela. A cada noite lhe telefona para dizer aonde vai e com quem. Ela não diz necessariamente a verdade, mas sua mãe pode dormir tranqüila. A partir do momento em que terminou seu trabalho, Lester acompanha Billie aos restaurantes ou aos clubes. Ela adora escuta-lo iniciando um de seus fantásticos solos às suas costas, mas sem jamais atrapalhar seu canto, sem nunca se meter em seu caminho. Seu saxofone soa como uma segunda voz fazendo eco á sua. E a voz de Lady, sua maneira de moldar e dar às notas uma cor diferente, soa como um saxofone. Só vendo para crer o jeito que ele toca, balançando o saxofone da direita para a esquerda, levantando o instrumento bem alto para um dos lados, ao mesmo tempo em que modula as pernas, enquanto marca a cadencia com a ponta do pé. Além disso, Lester é elegante, com suas roupas bem talhadas. Usa um chapéu negro de copa dura, sem estilo espanhol. É um cara original. Sua maneira de falar é única. É um Jive (gíria dos negros do Harlem) deslocado, cheio de figuras poéticas de comparações, de metáforas invertidas. É preciso se acostumar com ele antes de conseguir compreender tudo. Seu saxofone foi batizado por ele de Lady Violet e arranja apelido para todos os músicos com quem se dá. E divide tudo com Billie, menos a cama. É Billie que o orienta através de Nova York, que o leva a conhecer todos os bons lugares, ensina a reconhecer os odores da grande cidade. As noites passam depressa – música, álcool e maconha. Nem é preciso sair a procura pela droga, há em toda parte. Nessa época a venda da marijuana ainda não era proibida. De fato a proibição perdeu fôlego. A partir de 05 de dezembro de 1933, o consumo de álcool se tornou legal novamente. Os sindicatos do crime se adaptam para o trafico ainda mais suculento dos estupefacientes. As drogas inundam mercado. Os bares, as boates noturnas e os músicos são seus primeiros alvos. Ainda que já tenha começado a falar por toda parte que Lester é tão bom, sob todos os aspectos, quando a mestre Coleman Hawkins, ele sai da orquestra de Fletcher Henderson, Leora, a mulher de Fletcher e o manager da orquestra, insistem com ele vezes sem contar que deve tocar de um jeito diferente, mais forte e mais viril, o mesmo tipo de sonoridade produzida por Coleman Hawkins. Lester prefere sair do conjunto. Ele não consegui de jeito nenhum imitar o “grande som” de Hawkins. Já experimentou toda a sua serie de truques para aumentar seu volume, já tentou tocar de uma porção de maneiras diferenciadas e nada. Mais não adianta. Ele se queixa a Billie que morre de rir. Ela também correu durante algum tempo atrás do “grande som”, o magnífico volume da voz de Bessie Smith. Até que renunciou as tentativas inúteis de cantar “St. Louis Blues "como ela”.

_Esqueça disso – é o que ela lhe aconselha – Nós não temos essa caixa de som e depois imitar qualquer um faz com que a gente perca o próprio “feeling” . Sem ele, você pode fazer o que quiser, não vai passar nunca da estaca zero.

Lester aprende a lição. Então passa a improvisar, marcar os tempos fracos em vez de marcar os fortes, evita o vibrato e inventa uma sonoridade sem timbre, muito peculiar dele, que dança acima das notas. Dessa insuficiência de fôlego nascerá um novo estilo, o precursor do sucesso do bebop, que influenciara de forma permanente todos os saxofonistas de jazz. Lady Day já lhe havia predito:

- Espere só que você vai ver. Daqui a uns tempos, todo mundo vai esta copiando seu estilo.

Mesmo que Fletcher Henderson lhe dê todo o apoio e firme a todos seus músicos que nenhum deles não lhe chega aos pés de Lester que vai embora e ingressa na orquestra de Andy Kirk (Andrew Kirk, 1898-1992), em Kansas City. A orquestra e a mulher de Fletcher acabaram ganhando dele. Fonte:Billie Holiday - Biografia, Sylvia Fol.


Rehearsal for God Bless the Child


Escrita por Billie Holiday e Arthur Herzog Jr. em 1939 com gravação em 09 maio de 1941 pelo SELO Okeh, 799 Seventh Avenue, New York City. Em sua autobiografia - Lady Sings the Blues, ela faz referencia a uma possível briga com sua mãe por causa de dinheiro a levando a compor a musica em conjunto com Herzog. Durante a discussão, Billie teria dito a frase: "God bless the child that's got his own..." (Deus abençoe a criança que tem o seu próprio...) e não completa a frase. A indignação com o incidente a levou a transformar em um ponto de partida para uma das mais belas interpretação de sua carreira. Outras fonte sugerem que a melodia foi tirada da bíblia, onde o sagrado e o profano teria inspirado essa melodia, embora a religião não ter muita importância em sua vida, com referencia em Mateus 25:29 "Porque a todo o que tem se lhe dará, e terá em abundância; mas ao que não tem, até o que tem lhe será tirado."

quarta-feira, 30 de março de 2011

Grandes Big Band - Parte I

The Fletcher Henderson Orchestra - 1924
Howard Scott , Coleman Hawkins, Louis Armstrong, Charlie Dixon,
Fletcher Henderson, Kaiser Marshall, Buster Bailey, Elmer Chambers,
Charlie Green, Bob Escudero & Don Redman


The Washingtonians - 1924
Sonny Greer, Charlie Irvis, Bubber Miley, Elmer Snowden,
Otto Hardwick, and Duke Ellington

Buddy Bolden and his Orchestra - 1905
William Warner, Willie Cornish, Buddy Bolden, James Johnson,
Frank Lewis & Jefferson Mumford.


The Count Basie Band - 1938
Walter Page, Jo Jones, Freddie Green, Benny Morton, Count Basie, Herschel Evans,
Buck Clayton, Dicky Wells, Earle Warren, Edison Harry , Washington

King Oliver's Creole Jazz Band - 1923
Baby Dodds, Honore' Dutrey, Joe Oliver, Bill Johnson,
Louis Armstrong, Johnny Dodds, and Lil Hardin

St. Louis Cotton Club Band. Fotografado por Studio Bloco Brothers, ca. 1925.
Missouri Museu de História fotograficas e gravuras .
Coleções Brothers Studio Collection.



sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Os anos dourado de Lady Day na vanguarda do jazz


Aos treze anos, Billie Holiday encontra Nova York. Com a paciência da esgotada, vovó Martha exige que Sade pegue a menina de volta. A garota só faz o que lhe dá vontade. Uma vergonha para uma família respeitável. Tal mãe, tal filha, resmunga pelas costas a jovem Billie. Dizem que ela passa a noite em casas de tolerância e só volta de manhã, nas piores condições, algumas vezes com marcas no rosto. A garota deixa Baltimore no começo de 1929. Para a viagem usava um vestido de algodão branco com enfeite de tule e um cinto de verniz vermelho. Sade, que mora no Harlem, vai recebê-la na estação de trem de Long Branch. No começo do século, o Harlem tinha sido um bairro principalmente residencial, cheio de verde e tranqüilo, em que habitavam imigrantes judeus, irlandeses, alemães ou italianos. Mas a partir da década de 20, a migração dos negros do sul em busca de trabalho nas grandes cidades do norte foi transformando aos poucos o Harlem em uma concentração de negros de todas as partes. Os brancos esvaziavam o bairro e de acordo com as regras da especulação imobiliária, ele foi deixado ao abandono. Os imóveis antigamente ocupados por brancos foram subdividido em pequenos alojamentos que sofreram uma progressiva decadência. Pouco a pouco, o Harlem se transforma em um gueto. No final dos anos 20, relata-se que os negros sempre encontravam alojamentos por ali e que havia trabalho para todos. Fala-se de sua vida noturna trepidante, e de seu fervilhamento cultural, daquela Renascença Black de que o livro de Alain Locke (1886-1954) – The New Negro (1925) se tornou em estandarte. O Harlem está na crista da onda e dita a moda em matéria de arte, musica e literatura. A música é tocada pelos negros e negros são os atores das peças de teatros. Poetas, romancistas, dramaturgos, todos celebram sua negritude e dão a conhecer talentos como Langston Hughes (1902-1967), Paul Laurence Dunbar (1872-1906), James Weldon Johnson (1871-1936), Claude McKay (1889-1948), Countee Cullen (1903- 1946). Finalmente os negros têm sua própria referência de primeiro plano. O escritor Willian Edwards Burghardt DuBois, militante da NAACP (Associação Nacional Para o Progresso dos Negros), na melhoria das condições sociais das pessoas “de cor”, que luta contra a discriminação racial e os linchamentos, exorta o povo a reivindicar seus direitos. Musicalmente são os blues que atingem o auge. Em 1920 o disco de Mamie SmithCrazy Blues, vende mais de um milhão de exemplares e lança moda. Mais de cinco mil discos diferentes de blues são produzidos no decurso dos dois decênios seguintes. As comédias musicais e as “revistas negras” ocupam completamente os palcos da Broadway. Duke Ellington estreia no Cotton Club, Louis Armstrong e Bessie Smith no Alhambra. Os burgueses brancos vêm “acanalhar-se” nos clubes negros do Harlem, onde se dança black botton. Ragtime ou charleton. Durante os anos 20 e 30, o estilo pianistico Harlem Stride, Do qual Art Tatum (1909-1956) foi mais tarde campeão incontestado, faz furor em toda parte. A mão esquerda, vigorosa, garante o suporte rítmico, enquanto a mão direita opera sutis variações. No Harlem. Luckey Roberts (1893-1968), Willie “the Lion” Smith (1897-1973), Fats Waller (1904-1968) ou James P. Johnson (1904-1943) disputam uns com outros o título de “reis do Stride”. Nas casas dilapidadas do Harlem, a moda agora são as rent parties. Entrada paga. Servem soul food (miúdos e patas de porco e ensopado de couve), os pratos da cozinha negra do sul dos Estados Unidos. Pianistas animam esses saraus musicais, em que os locatários de um mesmo imóvel se cotizam para ajudar aqueles que não podem pagar seu aluguel. Nos clubes que brotam em toda parte ocorrem torneios intermináveis entre os virtuosos do piano. Os executantes individuais e as big bands se enfrentam em desfiles musicais, enquanto um público tomado de entusiasmo deve escolher os melhores aplaudindo freneticamente. Sobre os pódios de Savoy Ballroom, duas grandes orquestras se alternam para acompanhar continuamente as centenas de bailarinos que se deslocam sobre uma pista de setenta metros de comprimento por quinze de largura. Apelidaram o Savoy de “a casados pés felizes”. A clientela e mista. Chama a atenção o espetáculo dos dançarinos que executam figuras acrobáticas de lindy-hop e jitterbug (dança e passos velozes). As garotas de sais plissadas e meias soquete brancas, são jogadas por cima do ombro, passam pelo meio das pernas de seu cavalheiro e se ergue de imediato, como se alguém lhe puxasse as rédeas e continuam a dançar, sem perder o ritmo por um único minuto. Em 1923, abre as portas o luxuoso Cotton Club. “Um bar de luxo exótico que explora a mesma formula das grandes “revistas negras” da Broadway: brancos na sala, negros no palco”. Uma segregação estritamente aplicada. As melhores orquestras negras, de Duke Ellington, Cab Calloway
(1907-1994) , Jimmie Lunceford (1902-1947), sucedem-se intercaladas com números de garotas quase nuas, moças de cor ou mestiças de pele clara. Se fossem muito escuras espantariam os fregueses. Corre o boato de que certas brancas se fazem passar por negras, por que o Cotton Club paga melhor do que os outros. Duke permanece tocando na casa durante cinco anos, entre 1924-1932, com um conjunto de onze músicos e faz tremerem as damas ao som de bongôs selvagens. Seu estilo jungle que evoca a floresta virgem e as danças primitivas, sacodem as paredes do clube, enquanto as girl, arregalando olhos assustados, dançam pelo meio de cipós. Na rua 125, o Apollo Theater, cinema e music hall, apresenta um filme novo a cada semana e atrações de palco. Números cômicos, matracas, cantores e sempre uma excelente orquestra de jazz. Os músicos começam a tocar às dez horas da manhã e garantem cinco a seis shows por noite, em troca de salários irrisórios. Seu trabalho só acaba pelas onze da noite e o midnight show dos sábados dura até as duas horas da manhã. A partir de 1934, a cada noite de quarta-feira são organizados concursos de canto para amadores. O veredicto do publico, particularmente turbulento e exigente, é muito respeitado pela imprensa musical. Grande número de estralas e astros Como Ella Frizgerald (1917-1996), Thelonious Monk (1917-1982) e Sarah Vaugham (1924-1990) fizeram ali suas estreias. A parte dos anos 30, a Rua 52 transformou-se no “Swing Street”, a partir do novo ritmo musical, o swing. Na “rua que nunca dorme” pulula uma grande quantidade de pequenos clubes e de speakeasies, bares clandestinos, em que se bebe álcool contrabandeado. Ainda estamos na época da proibição e os reis do crime investiram em night clubs. Alguns cabarés abriram nos subsolos bares proibidos ou pequenos salões que os bootleggers (recipiente de bebida) mantêm sempre bem surtido de bebidas fortes. Como o álcool, o dinheiro líquido corre aos borbotões; os músicos fazem bons negócios e as grandes orquestras, como as Fletcher Henderson (1897-1952), tendo como guitarrista e banjista Clarence Holiday – seu pai, no Roseland ou de Chick Webb (1905-1939) no Savoy Ballroom, tocam para as multidões de bailarinos. Junto a esses grandes conjuntos instrumentais, o papel dos solistas assume um caráter cada vez mais preponderante. Postados de costas para a orquestra, na beira do proscênio, têm o lugar de honra, arrastando a orquestra atrás de si, enquanto seus solos muito concorridos desencadeiam o entusiasmo do publico. Coleman Hawkins (1904-1969) toca com Fletcher Henderson; o trompetista Cootie Williams (19101985) e o saxofonista Johnny Hodges (1906-1970) se exibem com Duke Ellington, enquanto Lester Young (1909-1959) se apresenta com a orquestra de Count Bassie (1904-1984) em Kansas City.

Fonte: Billie Holiday, Biografia - Sylvia Fol.


Your Mother´s Son -In- Law - Billie Holiday & Benny Goodman

sábado, 6 de novembro de 2010

Ella e Um mergulho no Passado Nostálgico de Uma Diva Nos Anos da Gravadora DECCA – 1917-1935 - Parte II

"...Hoje a lenda e a verdade vieram juntas cronologicamente. O Teatro Apollo no Harlem tinha uma política de reservar uma noite para os amadores para exibição de novos talentos: depois que o verdadeiro show acabasse era a vez da competição dos novatos. A idéia deste tipo de programa começou no Teatro Lafayette no Harlem, Rua 132 em 1933. O vencedor recebia um prêmio em troféu, dinheiro ou talvez se iniciasse numa carreira profissional. Os amadores eram chamados depois de tirados os cartões da caixa e convocados a exibirem. Mais da metade dos duzentos mil afro-americanos morando Harlem vivia encostado (expressa da Depressão para Previdência Social) e estes shows eram de grande incentivo moral. Embora tenha dito sempre que fora convidada pelas amigas (“um dia duas ou três amigas e eu fizemos uma aposta: teria eu coragem?”), Ella e algumas de suas companheiras de rua colocaram seus nomes nos cartões e o poder do universo que faz com que as coisas aconteçam empurrou Ella para a sua estreia em janeiro de 1934. Acompanhada da turma encorajadora, aguardava a hora de entrar enquanto repassava a rotina dos passos de dança na cabeça. O show profissional do Apollo com as Edward Sisters terminou deixando no ar uma incrível quantidade de energia e dança. Conforme Ella descreveu “Elas eram as mais dançantes irmãs do pedaço!” Ela percebeu que não conseguiria acompanha-las no palco. “Minhas pernas viraram água e milhões de borboletas brincavam de pegar dentro do meu estômago”, diria ela anos depois. Suas amigas tiveram de empurrá-la para o palco, “e quando eu olhei para onde o publico deveria estar, tudo o que vi foi um grande borrão”. Alguém da audiência gritou: “O que ela vai fazer?”. O Teatro Apollo era conhecido por sua freqüência barra-pesada que fazia da impertinência uma forma de arte. O público assistindo os melhores artistas do pedaço e quando via um talento de verdade reagiam com um entusiasmo selvagem e desmedido. No entanto quando se encontrava diante de alguma coisa menos do que ótima, sua ruidosa desaprovação podia transformar a pedra de Gibraltar em areia. O mestre-de-cerimônia percebeu o pânico de Ella e perguntou se preferia cantar em vez de dançar. Com o incentivo do público, ela perguntou se a orquestra da casa sabia uma canção de Hoagy Carmichael chamada “Judy”. Mais tarde ela diria que conhecia a letra porque sua mãe costumava ouvir e reouvir a mesma canção no disco de Conne Boswell. Por estranho que pareça o historiador musical Will Friedwald afirma que não há hoje vestígios deste disco. Ella cantou apoiando-se no estilo Boswell para chegar ao fim da musica. A resposta do público foi tão positiva que exigia outra música. A única canção que Ella sabia era o que chamava de o lado-de-lá de “Judy”. “Believer It Beloved”. Desnecessário dizer que Ella ganhou o prêmio de 25 dólares. Não tivesse ganhado o concurso, Ella nunca teria seguido a carreira de vocalista. Ela chamava aquela noite de “o turning point da minha vida. Uma vez lá, senti aceitação e o amor por parte do publico – sabia que eu queria cantar diante das pessoas para o resto de minha vida”. A grande coincidência também foi a presença naquela noite do jovem saxofonista e arranjador Benny Carter. Carter percebeu logo o potencial da jovem cantora e se apresentou a ela depois do show. “Não tenho certeza se eu fui o mestre-de-cerimônia naquela noite”. (não fui) recorda Carter, “mas imediatamente pude ver não só seu talento, mas a reação que ela provocava na audiência. Embora nervosa, como até hoje ela fica antes de se apresentar, ela adorou o publico e o publico adorou-a de volta. Foi óbvio desde início o que ela tinha dentro de si naquela noite no Apollo, e meu Deus, o que ela fez com sua estreia”. Não deixa de ser surpreendente que Ella e Carter ainda fossem amigos próximos e bons companheiros mais de cinqüenta e cinco anos depois. O que tornou Ella tão especial naquela noite foi a incrível reação que ela e o publico tiveram um do outro. Não a foi a sua voz, ainda fina e não definida e seu estilo era Conne Boswell. Ela era uma adolescente desengonçada e não estava bem vestida nem parecia elegante – ela nunca se julgou sua mulher bela. No entanto foi como duas pessoas que se encontram e se tornam na hora grandes amigos. Foi uma reação química, dois elemento individual que combinados, causaram uma enorme explosão. Carter apresentou Ella a Fletcher Henderson dias depois de sua estreia, mas Fletcher não se mostrou particularmente impressionado (podemos imaginar quantas vezes na vida ela não se arrependeu desta mancada), dizendo: “Simplesmente não vejo nada demais nela”. Ella começou então uma rotina de concorrer e ganhar todos os concursos amadores do Harlem, acrescentando “The Object of My Affection” a seu repertório. O único tropeço deu-se numa noite no Lafayette quando tentou cantar “Lost in a Fog” toda vestida de preto para parecer sofisticada. “O pianista não sabia as mudanças de escalas e eu realmente me perdi”, recordaria anos depois. Foi vaiada até sair de cena. No entanto seu fracasso total rapidamente se tornou uma vitória à medida que ela continuava com seu repertório de três músicas, ganhando todos os concursos de novos em que entrasse. Finalmente a talentosa adolescente ganhou como prêmio um contrato profissional: Uma semana no Harlem Opera House com a orquestra de Tiny Bradshaw, ganhando 50 dólares. Por esta época, teve seu nome citado na imprensa pela primeira vez. O New York Time referiu-se assim a ela quando de sua estreia no Harlem Opera House em janeiro de 1935:...” e Ella Frizgerald, o último nome premiado nos recentes concursos de auditório..” Há uma historia a respeito de Ella que teria acontecido nesta época que surge e ressurge de vez em quando. É apócrifo. Supostamente a rede de rádio CBS ficou sabendo das vitórias de Ella no Harlem e quis escalá-la para um show estrelado por Arthur Tracy, “The Street Singer” cujo grande sucesso era “Here Lies Love”. Prossegue esta lista de historia contando que assim que o contrato estava para ser assinado, a mãe de Ella faleceu, deixando-a sem uma pessoa responsável que assinasse o contrato por ela. Embora seja impossível fixar a data exata da morte de sua mãe, uma garota menor de idade teria a tutela de alguém apontado pela corte. Nova York tinha um sistema de direito de família muito eficiente, já nesta época. Se tal contrato existisse, CBS teria requerido que fosse designado alguém para tutelá-la. William S. Paley, presidente da CBS, não era homem de temer obstáculos. A tia de Ella, Virginia Williams, poderia ter assinado por ela. Por último o próprio Mr. Tracy recentemente declarou que não teve intenção de contrata-la e que de fato só ouviria falar dela mais tarde na época de suas gravações na Decca. Muita coisa sobre o inicio da carreira de Ella foi igualmente embaralhado pela imaginação dos publicitários. Foi no final daquela semana no Opera House que Ella cruzou pela primeira vez com Chick Webb, o baterista bandleader. Recorda Ella: “A orquestra de Tiny Bradshaw participava do show, eles me colocaram à direita bem no final, quando todo mundo já vestia os cossacos e preparava-se para sair. Tiny desse: ‘Senhoras e senhores, com vocês a garota que tem vencido todos os concursose eles voltaram e tiraram seus casacos e sentaram-se novamente”. Chick se apresentou na noite seguinte com a orquestra e como costumava dizer, ele “sacou-a no ato”. Embora Chick tivesse ficado impressionado, não pensava em acrescentar uma vocalista ao seu grupo musical. A intervenção a favor dela veio através de Bardu Ali, homem de frente da orquestra de Webb. Chick (nascido William Henry Webb Jr. Em 1909) estava indefeso como uma criança com tuberculose óssea na espinha. Uma queda devido à falha de degraus numa escada paralisou parcialmente suas pernas. Seu tamanho diminuto (menos de um metro e meio) deu-lhe o apelido de “Chick”. Devido a suas limitações físicas, Ali regia a orquestra enquanto Webb tocava bateria (e tocava-a extremamente bem, de um dinamismo que faria dele uma lenda, não fosse sua morte prematura). Ali levou Ella aos bastidores no camarim de Chick (houve boato de que ela ficou escondida lá, mais os minúsculos cubículos de teatro desmente a dramatização desta versão) e fez com que bandleader escutasse-a cantar alguma canção. Webb sabia que não precisava de uma cantora uma vez que já tinha um cantor, Charle Linton e não via necessidade de aumentar sua folha de pagamento. Finalmente cedeu e permitiu uma chance a Ella quando a orquestra fosse à Universidade de Yale, observou ele com um ponto de interrogação na voz. “Embarque no nosso ônibus e se eles gostarem de você lá o lugar é seu”. Se os bacanas de Yale aceitassem a nova cantora, ela poderia funcionar por uns tempos. Chick e Ella nunca tiveram razão para se arrepender e a cantora recebia a fria quantia de U$12,50 por semana nos primeiros cinco meses com a orquestra, subindo para 15 dólares quando eles começaram como atração fixa e se apresentar no Savoy Ballroom".
Fonte: Ella Frizgerald: A Primeira Dama do Jazz - Geoffrey Mark Fidelman, Francisco Alves - 2001.
Boa Leitura - Namastê.


Ella Fitzgerald - Lost in a Fog
1960

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Ela é Uma Torch-Singer - Uma Cantora que Queima de Paixão

Ben Webster, Billie Holiday, guitarrista desconhecido e Johnny Russell
pose no Harlem em 1935, em Nova York.
(Foto Arquivo Jazz JP Redferns)

John Hammond, o eterno promotor de Billie convence Irving Mills (1894-1985), o empresário de Duke Ellington (Edward Kennedy "Duke" Ellington 1899-1974) de que ela e a cantora ideal para Simphonny in Black, um curta-metragem de nove minutos de duração que "Duque" está preparando e cuja produção é garantida por Fred Waller (1886-1954) promotor e posteriormente o inventor do Cinerama em 1950. O cenário é simplista. Um triângulo amoroso, duas mulheres e um homem. No papel da mulher desprezada entra Billie, que canta uma peça escolhida por Duke especialmente para ela, “Saddest Tale”, uma soberba canção de blues em que seu fraseado recorda o estilo vocal de Bessie Smith (1894-1937) . Ela se agarra ao homem que a deixou por outra. Ele a joga ao assoalho com um empurrão. Ela continua a cantar no chão, mesmo vencida e machucada. São as queixas de uma amante desprezada, mas também a paixão de uma mulher por seu homem. Duke Ellington demonstrou grande discernimento, ele viu em Billie aquela que não tinha qualquer chance, uma mulher a quem se mente e a quem se nega amor. Perfeitamente normal que ele tenha escolhido para o papel de vitima. Quanto ao ator, o dançarino EarlSnakehipsTucker (1905-1937), chamado de boa constrictor (jibóia) por seu contorcionismo por inventar o estilo de dança “Snakehips” (quadril de cobra) em 1930. De uma elegância arrastadora, faz o tipo perfeito do cafetão. Ela só tinha dezoito anos. Seu corpo desabrocha, seu rosto é encantador sobe os cabelos curtos. Suas bochechas arredondadas lhe dão certo aspecto de ingenuidade e candura. O timbre rouco de sua voz comunica perceptivelmente a mágoa pungente. É como se fosse à primeira ferida causada à inocência. Desde seu primeiro aparecimento no cinema, Billie alcança total sucesso em criar um personagem cuja vida e canções se confundem. Essa osmose imediata acrescenta a seu desempenho uma força singular, a sensação de que ela revela ao cantar uma verdade que se encontra a ponto de aflorar. Mas aquela de quem se fala muito então é uma nova cantora de dezoito anos, que faz dançarem as multidões que acorrem ao Savoy Ballroom, uma garota que saiu do nada e que se produziu com uma das melhores orquestras do momento, do percursionista Chick Webb (William Henry Webb 1905-1939). Essa garota sem a menor experiência hipnotiza as multidões que vão ao Savoy. Billie precisa ver por si mesmo. Ao chegar ao grande salão de baile, ela sobe a majestosa escadaria de pilares de mármore, iluminada por lustres de vidro laminado. Imensa sala de dança está abarrotada de gente. Ela se enfia discretamente em um canto sem sequer tirar o casaco. Mas essa Ella Fitzgerald de fato é excelente... Que energia! Ela estala os dedos enquanto canta, martela o chão com os pés para marcar o ritmo. Tem um embalo dos infernos, essa peste. Como ela gostaria de estar em seu lugar, a estrela do Savoy, cantando com a grande orquestra de Chick Webb, em vez de estar escondida em um restaurante, cantando no meio de barulho dos talheres contra os pratos, meio abafada pelas conversas! Ela não imaginava que dois anos mais tarde em 1937 iria enfrentar Ella Fitzgerald nesse mesmo Savoy Ballroom, acompanhada por Count Basie (William "Count" Basie 1904-1984) e sua orquestra, e seus admiradores respectivos discutindo durante anos qual duplas, Holiday/Basie ou Frizgerald/Webb, estivesse conseguido superar a outras. Mas por agora essa concorrente expansiva, de dinamismo irresistível a deixou inquieta. A carreira de Ella esta deslanchando como impulsionada pela roda da fortuna. É um reconhecimento imediato, enquanto Billie tem o sentimento de que sua está patinando. Todavia em abril de 1925, Billie é beneficiada por um golpe de sorte na pessoa de Ralph Cooper (1908- 1992), apresentador famoso e estrela no Apollo Theater e uma celebridade no Harlem. Acaba de montar sua orquestra. Um dia em que está jantando no Hot-Cha, uma jovem cantora sobe à pequena plataforma no canto do restaurante. Não lhe chama nenhuma atenção em particular, está habituado com todo tipo de gente envolvida no show business. Entretanto, no momento em que escuta sua voz, ele esquece seu espaguete. (“Foi nesse momento que eu observei que ela era linda, que tinha um sorriso encantador e sobretudo que cantava de um jeito como jamais escutara antes. Dava a impressão de que chorava ao cantar...Eu nunca havia escutado uma voz assim, descansada, tranqüila, ao mesmo tempo lânguida e sensual. Aquilo não era blues, eu nem sequer sabia do que se tratava”). Depois de haver organizado numerosas “noites” de calouros no Apollo, Ralph Cooper sabia perfeitamente detectar um talento quando cruzava com um. Pede logo para falar com o gerente do Hot-Cha. Ele promete citar seu restaurante durante a transmissão de rádio difundida diretamente do palco do Apolo, se ele concordar em emprestar-lhe Billie. Tão logo acabou de apresentar seus números, ele já lhe propôs ser a cantora de sua orquestra. Billie esta no céu. Ralph Cooper é conhecido por seu bom gosto em matéria de artista e é, além disso, um personagem muito influente. Sua grande orquestra vai alcançar o maior sucesso. Com o coração batendo forte no peito, Billie chega ao Apolo para seu primeiro ensaio com a orquestra. Na hora mandam que volte pra casa a fim de escolher um vestido adequado para o palco. De fato, ela não tem nada à altura, e Cooper lhe compra um vestido e um par de sapatos. O ensaio não chega a um resultado definitivo. A orquestra não tem muita fé em sua futura apresentação. Mas Cooper tem confiança em sua intuição. Billie canta algumas canções de amor que não comovem muito o difícil publico do Apolo, mas é notada pela imprensa que a menciona como ”uma cantora fértil de encanto”, e também a chama de Torch Singer, “uma cantora que queima de paixão”. Seja com for Cooper propõe que fique uma segunda semana. Por precaução também contrata um cantor de Chicago, Herb Jeffries (Herbert "Herb" Jeffries 1911-), o primeiro cowboy negro a desempenhar o papel de um filme de faroeste. Ele pede a Billie que cante algumas peças mais arrojadas. A idéia é boa. Billie interpreta “Them There Eyes” e “If the Moon Turns Green”. Essas canções estão mais de acordo com o gosto do público do Apollo que aplaude e pede bis muitas vezes. Infelizmente, Ralph Cooper desiste de sua experiência com a grande orquestra e se torna em vez disso um dos mais famosos disc Jockeys. Billie retorna decepcionada para o Hot-Cha. Mais uma oportunidade que se perdeu. Existe uma fotografia dela com os músicos, nos fundos do Apollo Theater, usando seu vestido quadriculado de meninazinha. Bem ao lado dela esta Bem Webster (Benjamin Francis Webster 1909-1973) como sax debaixo do braço, mas virando os grandes olhos para o outro lado. Ela era vista sempre em sua companhia. Bem é um saxofonista da orquestra de Fletcher Henderson (James Fletcher Hamilton Henderson, Jr. 1897-1952), um homem bem do jeito que ela gosta um rapaz bonito com caráter explosivo. Tem igualmente uma boa inclinação para a garrafa e a partir do momento em que bebe um copo ou dois a mais, se torna violento. Billie esconde as manchas roxas no rosto sob uma espessa maquiagem. A impressão que se tem é a de que Billie gosta de ser desenferrujada a pancada. Será essa a única forma de se sentir prazer físico depois que foi estuprada? Recria circunstancial similar e paradoxal, até mesmo incompreensível. Todavia, é assim com Billie. Com seus homens ela nunca para de produzir metaforicamente a violação de sua infância. Exorcizar o medo, negar a violência do acontecimento revivendo suas circunstâncias vezes sem contas? Ou então quer ser castigar a força de golpes para ser perdoada pela imundície de seu corpo? Esforça-se para ser espancada, provoca uma briga após outra, dar pancada para que o adversário retribua e depois se entregar ao lavar um ultimo soco ou bofetada, sem ter mais força sequer as coxas. Era assim que ela sentia prazer? Sadie (Sadie Fagan) fica profundamente inquieta por esse amor de cadela. É difícil esconder da mãe os olhos roxos ou a cara inchada. Mas difícil ainda é lhe confessar até que ponto ela gosta disso. E voltam de novos as mesmas queixas da mãe sobre os homens, são todos uns salafrários, não prestam para nada, são uns exploradores. Os queixumes da mãe a exasperam. Sadie, que foi deixada por todos os homens de sua vida, sente por eles um ressentimento violento. Cada homem que aparece diante dela é um perigo em potencial e ela se esforça ao máximo para denegri-los. O único que jamais caiu em sua graças foi Lester Young (Lester Willis Young 1909-1959). Infelizmente, ainda que Billie amasse Lester, ele são lhe agrada. É doce demais, frágil demais. Não é viril o bastante perante seus olhos. Jamais teria sido capaz de levantar a mão para ela. E depois, ele sabia fazê-la sorrir, ele a deixava feliz, despertava nela o entusiasmo por seu próprio talento. Billie jamais poderia escolher um homem assim. Seria bonito demais. Sadie resolve fechar sua porta a Bem Webster. Uma noite em que ele vem de carro buscar Billie, ela se atira sobre a filha, armada de um guarda-chuva. E chega mesmo a ataca-lo. Billie lhe agarra os braços e chega até a empurrá-la para um lado. Se fosse preciso, teria até mesmo passado por cima do corpo dela. Fonte: Billie Holiday - Biografia, Sylvia Fol.

Saddest Tale

Them There Eyes

If The Moon Turns Green

Boa Leitura - Namastê.