Pouco depois da apresentação no Apollo, sua ligação com Bobby Henderson termina brutalmente. Billie descobre que o jovem tão bem educado já é casado. Ela perdeu um amante, mas encontrará nesse mesmo ano aquele que a irá acompanhar musical e efetivamente até o fim de sua vida. Um jovem saxofonista recém-chegado do Mississipi: LesterYoung(1909-1959). Ele vinha de Kansas City, onde tocava com a orquestra de Count Basie e fora contratado por Fletcher Henderson para substituir Coleman Hawkins, o saxofonista que todos adoravam na época. Ele começou noCotton Club. Não foi fácil para o jovem Lester na época com 27 anos, substituir uma personalidade tão forte como Hawkins. Enquanto o som de Hawkins é pujante e musculoso o de Lester é leve e gracioso. Os músicos da orquestra estão desapontados. Eles preferem Chu Berry (Leon “Chu” Berry, 1908-1941), um saxofonista cujo estilo é mais próximo do de Hawkins. Eles lhe dão claramente a entender que não gostam dele e não param de conversar baixinho enquanto ele toca. Fletcher, todavia, impôs Lester e lhe deu todo o apoio. Chegou até mesmo a hospedá-lo em sua casa durante algum tempo, a até sua mulher, Leora (Leora Meoux Henderson, 1919-1941, esposa, agente e empresária de sua orquestra, às vezes tocava instrumento de sopro) começou a reclamar. Billie o escutou pela primeira vez em um jan sessions. Foi no final de uma noite ou começo de uma manhã, ninguém lembra mais direito. Ali se encontrava a fina flor dos músicos de jazz entre eles o pianista Benny Carter(Benjamim Bennett “Benny” Carter, 1907-2005); Lester se juntou a turma com sua velha gaita reformada tanta vez, que as chaves estão com elásticos. Ainda que ao contrário de Billie, Lester se tenha beneficiado de uma solida formação musical, sua abordagem da musica é muito parecida - Simplicidade, intuição, sentimento. Nenhum efeito nos tempos fortes dos compassos, um Vibrato (efeito ligeiramente tremulante na melodia acrescentado ao tom vocal ou instrumental para maior expressividade e volume, obtendo por variação de altura rápida e leve) discreto, uma variação em torno de uma nota bem escolhida em vez de uma serie de ornamentos cintilantes. Um som ao mesmo tempo melancólico e langoroso e além disso, outra curiosidade: ele tocava seu saxofone tenor como se fosse contralto (mudando a afinação, mas não o timbre). Uma cumplicidade se estabeleceu de imediato entre Billie e ele. Um amor musical à primeira vista. Quando o saxofonista Chu Berry aparece, Benny Carter lhe faz um desafio. Uma justa musical com Lester. Do mesmo modo que Hawkins, Chu Berry é um astro do jazz.Quando ele toca, o publico batem o pés, assobiam e bate palmas em cadencia. Chu disse não ter trazido seu saxofone mais isso não é obstáculo para Bem Carter, que se ofereceu para busca-lo. Ele tinha plena confiança em Lester e esse concurso informal era uma forma de promovê-lo. Com qual peça eles vão começar? Chu Berry escolhe “I Got Rhythm” (Composição do musico clássico/popular judeu-americano George Gershwin, sobre texto de seu irmão Ira). Foi uma péssima escolha. É justamente o cavalo de batalha de Lester que já desenvolveu quinze variações diferentes sobre o mesmo tema. Chu levou uma sova de interpretação. Billie acompanha Lester ate seu hotel por nome Tereza. Enquanto caminham pelas calçadas desertas, de manhã bem cedo, descobre uma serie de gostos comuns entre eles ate marijuana. Tem o mesmo senso de humor. Eles tagarelam e riem bastante, os dois levemente chapados. Ao chegarem diante do hotel, Lester se inclina e beija-lhe a mão.
- Boa noite, Lady ou quem sabe, bom dia, Lady Day....
_ O dia esta claro.
_ Você sabe, o dono da casa esta me esperando, acrescentou ele.
_É um rato grande e gordo que se instalou sobre sua pilha de camisa e que volta sempre, por mais vassouradas que leva...
Billie, horrorizada lhe propõe imediatamente que venha se instalar em sua casa. Sade, que sempre prepara uma pequena ceia para os que deitam de madrugada, o recebeu de braços abertos. O apartamento é uma enfiada de pequenas peças ao comprido, como em um vagão de estrada de ferro, com uma entrada em cada porta. Uma dessas, pomposamente chamada de “sala de musica” é mobiliada com um velho piano desengonçado e as pilhas de disco de Billie.
_Você fica instalado aqui – diz-lhe Sadie, que logo é tomada de afeição por este homenzarrão desajeitado e de olhar reservado, com cabelos avermelhados que levam todos a chama-lo prontamente de Red.
Lester esta encantado. O pequeno apartamento nunca esta vazio, sempre tem frango frito e feijão vermelho para os músicos famintos, os conhecidos do bairro e as putas fugindo da policia, que se esconde o tempo suficiente para serem esquecidas. Os amigos de Billie costumam chamar sua mãe de Mama Holiday. Mas Sadie foi tão regaladamente generosa para com ele que Lester lhe presta outra homenagem. Passa a chama-la de Duquesa. Ele também escolhe para Billie um novo nome que permanecerá com ela mesma depois de sua morte. Muitos já chamavam de Lady. Foi ele quem encontrou Lady Day, acrescentando-lhe uma misteriosa poesia. Por que não Lady Night? Talvez porque ele a considerasse tão bela e luminosa à luz do dia como à noite em um lisonjeiro vestido de cetim, sob o feixe prateado de um refletor. Em resposta, Billie começou a lhe procurar um apelido carinhoso, algo que pudesse lhe qualificar a excelência, tanto como musico de primeiro plano como em sua condição de homem. O homem mais importante dos e Estados Unidos era o presidente Franklin D. Roosevelt (Franklin Delano Roosevelt, 1882-1945, o 32º presidente) . Leste era o melhor musico e merecia se chamado de Prez. O presidente, a duquesa e Lady Day passam juntos momentos deliciosos. Com seu maravilhoso senso de humor, sua benevolência e a elegância de seu caráter, ninguém duvida que a presença de Lester tenha contribuído para adoçar o relacionamento entre Billie e Sadie. Ela compreendeu logo que Lester é inofensivo e que entre eles não se passa nada de caráter sexual. Portanto, ela não tem nada a temer. Ele não vai lhe tirar a filha. Os dois jovens partilham de uma terna cumplicidade, não chegam a ser amantes, são muito mais que amigos. Uma espécie de ato amoroso que encontra seu clímax na fusão musical, ao passo que em casa são como irmãos, paparicados de pequenas atenções por sua mãe. Protetora em demasia, presente, se acreditamos em Billie, que afirma ficar agastada com os conselhos, reprovações e angustias de sua mãe. Ainda que ela demonstre um afeto caloroso e esteja sempre pronta a lhe prestar toda espécie de serviços, também faz marcação cerrada e enfia o nariz por toda parte, como se quisesse se imiscuir em cada aspecto da vida de sua filha e viver, através dela. Se ele vem as vezes escuta-la cantar é também para supervisiona-la, saber com quem ela se encontra, quem anda à volta dela, quanto é que ela ganha. Ela nunca esconde que tem medo de que sua filha vá embora e a deixe abandonada em uma solidão. Como ela mesma fez nos tempos de Baltimore.... Assim ela se gruda em Billie, ocupa o terreno inteiro com sua presença e sua lamúrias constante. Sadie exige demais e Billie precisa mantê-la a distancia. Mas ela não pode passar sem sua mãe. Sente-se responsável por ela. A cada noite lhe telefona para dizer aonde vai e com quem. Ela não diz necessariamente a verdade, mas sua mãe pode dormir tranqüila. A partir do momento em que terminou seu trabalho, Lester acompanha Billie aos restaurantes ou aos clubes. Ela adora escuta-lo iniciando um de seus fantásticos solos às suas costas, mas sem jamais atrapalhar seu canto, sem nunca se meter em seu caminho. Seu saxofone soa como uma segunda voz fazendo eco á sua. E a voz de Lady, sua maneira de moldar e dar às notas uma cor diferente, soa como um saxofone. Só vendo para crer o jeito que ele toca, balançando o saxofone da direita para a esquerda, levantando o instrumento bem alto para um dos lados, ao mesmo tempo em que modula as pernas, enquanto marca a cadencia com a ponta do pé. Além disso, Lester é elegante, com suas roupas bem talhadas. Usa um chapéu negro de copa dura, sem estilo espanhol. É um cara original. Sua maneira de falar é única. É um Jive (gíria dos negros do Harlem) deslocado, cheio de figuras poéticas de comparações, de metáforas invertidas. É preciso se acostumar com ele antes de conseguir compreender tudo. Seu saxofone foi batizado por ele de Lady Violet e arranja apelido para todos os músicos com quem se dá. E divide tudo com Billie, menos a cama. É Billie que o orienta através de Nova York, que o leva a conhecer todos os bons lugares, ensina a reconhecer os odores da grande cidade. As noites passam depressa – música, álcool e maconha. Nem é preciso sair a procura pela droga, há em toda parte. Nessa época a venda da marijuana ainda não era proibida. De fato a proibição perdeu fôlego. A partir de 05 de dezembro de 1933, o consumo de álcool se tornou legal novamente. Os sindicatos do crime se adaptam para o trafico ainda mais suculento dos estupefacientes. As drogas inundam mercado. Os bares, as boatesnoturnas e os músicos são seus primeiros alvos. Ainda que já tenha começado a falar por toda parte que Lester é tão bom, sob todos os aspectos, quando a mestre Coleman Hawkins, ele sai da orquestra de Fletcher Henderson, Leora, a mulher de Fletcher e o manager da orquestra, insistem com ele vezes sem contar que deve tocar de um jeito diferente, mais forte e mais viril, o mesmo tipo de sonoridade produzida por Coleman Hawkins. Lester prefere sair do conjunto. Ele não consegui de jeito nenhum imitar o “grande som” de Hawkins. Já experimentou toda a sua serie de truques para aumentar seu volume, já tentou tocar de uma porção de maneiras diferenciadas e nada. Mais não adianta. Ele se queixa a Billie que morre de rir. Ela também correu durante algum tempo atrás do “grande som”, o magnífico volume da voz de Bessie Smith. Até que renunciou as tentativas inúteis de cantar “St. Louis Blues "como ela”.
_Esqueça disso – é o que ela lhe aconselha – Nós não temos essa caixa de som e depois imitar qualquer um faz com que a gente perca o próprio “feeling” . Sem ele, você pode fazer o que quiser, não vai passar nunca da estaca zero.
Lester aprende a lição. Então passa a improvisar, marcar os tempos fracos em vez de marcar os fortes, evita o vibrato e inventa uma sonoridade sem timbre, muito peculiar dele, que dança acima dasnotas. Dessa insuficiência de fôlego nascerá um novo estilo, o precursor do sucesso do bebop, que influenciara de forma permanentetodos os saxofonistas de jazz. Lady Day já lhe havia predito:
- Espere só que você vai ver. Daqui a uns tempos, todo mundo vai esta copiando seu estilo.
Mesmo que Fletcher Henderson lhe dê todo o apoio e firme a todos seus músicos que nenhum deles não lhe chega aos pés de Lester que vai embora e ingressa na orquestra de Andy Kirk (Andrew Kirk, 1898-1992), em Kansas City. A orquestra e a mulher de Fletcher acabaram ganhando dele. Fonte:Billie Holiday - Biografia, Sylvia Fol.
Rehearsal for God Bless the Child
Escrita por Billie Holiday e Arthur Herzog Jr. em 1939 com gravação em 09 maio de 1941 pelo SELO Okeh, 799 Seventh Avenue, New York City. Em sua autobiografia - Lady Sings the Blues, ela faz referencia a uma possível briga com sua mãe por causa de dinheiro a levando a compor a musica em conjunto com Herzog. Durante a discussão, Billie teria dito a frase: "God bless the child that's got his own..." (Deus abençoe a criança que tem o seu próprio...) e não completa a frase. A indignação com o incidente a levou a transformar em um ponto de partida para uma das mais belas interpretação de sua carreira. Outras fonte sugerem que a melodia foi tirada da bíblia, onde o sagrado e o profano teria inspirado essa melodia, embora a religião não ter muita importância em sua vida, com referencia em Mateus 25:29 "Porque a todo o que tem se lhe dará, e terá em abundância; mas ao que não tem, até o que tem lhe será tirado."
"...Hoje a lenda e a verdade vieram juntas cronologicamente. O Teatro Apollo no Harlem tinha uma política de reservar uma noite para os amadores para exibição de novos talentos: depois que o verdadeiro show acabasse era a vez da competição dos novatos. A idéia deste tipo de programa começou no Teatro Lafayette no Harlem, Rua 132 em 1933. O vencedor recebia um prêmio em troféu, dinheiro ou talvez se iniciasse numa carreira profissional. Os amadores eram chamados depois de tirados os cartões da caixa e convocados a exibirem. Mais da metade dos duzentos mil afro-americanos morando Harlem vivia encostado (expressa da Depressão para Previdência Social) e estes shows eram de grande incentivo moral. Embora tenha dito sempre que fora convidada pelas amigas (“um dia duas ou três amigas e eu fizemos uma aposta: teria eu coragem?”), Ella e algumas de suas companheiras de rua colocaram seus nomes nos cartões e o poder do universo que faz com que as coisas aconteçam empurrou Ella para a sua estreia em janeiro de 1934. Acompanhada da turma encorajadora, aguardava a hora de entrar enquanto repassava a rotina dos passos de dança na cabeça. O show profissional do Apollo com as Edward Sisters terminou deixando no ar uma incrível quantidade de energia e dança. Conforme Ella descreveu “Elas eram as mais dançantes irmãs do pedaço!” Ela percebeu que não conseguiria acompanha-las no palco. “Minhas pernas viraram água e milhões de borboletas brincavam de pegar dentro do meu estômago”, diria ela anos depois. Suas amigas tiveram de empurrá-la para o palco, “e quando eu olhei para onde o publico deveria estar, tudo o que vi foi um grande borrão”. Alguém da audiência gritou: “O que ela vai fazer?”. O Teatro Apollo era conhecido por sua freqüência barra-pesada que fazia da impertinência uma forma de arte. O público assistindo os melhores artistas do pedaço e quando via um talento de verdade reagiam com um entusiasmo selvagem e desmedido. No entanto quando se encontrava diante de alguma coisa menos do que ótima, sua ruidosa desaprovação podia transformar a pedra de Gibraltar em areia. O mestre-de-cerimônia percebeu o pânico de Ella e perguntou se preferia cantar em vez de dançar. Com o incentivo do público, ela perguntou se a orquestra da casa sabia uma canção de Hoagy Carmichael chamada “Judy”. Mais tarde ela diria que conhecia a letra porque sua mãe costumava ouvir e reouvir a mesma canção no disco de Conne Boswell. Por estranho que pareça o historiador musical Will Friedwald afirma que não há hoje vestígios deste disco. Ella cantou apoiando-se no estilo Boswell para chegar ao fim da musica. A resposta do público foi tão positiva que exigia outra música. A única canção que Ella sabia era o que chamava de o lado-de-lá de “Judy”. “Believer It Beloved”. Desnecessário dizer que Ella ganhou o prêmio de 25 dólares. Não tivesse ganhado o concurso, Ella nunca teria seguido a carreira de vocalista. Ela chamava aquela noite de “o turning point da minha vida. Uma vez lá, senti aceitação e o amor por parte do publico – sabia que eu queria cantar diante das pessoas para o resto de minha vida”. A grande coincidência também foi a presença naquela noite do jovem saxofonista e arranjador Benny Carter. Carter percebeu logo o potencial da jovem cantora e se apresentou a ela depois do show. “Não tenho certeza se eu fui o mestre-de-cerimônia naquela noite”. (não fui) recorda Carter, “mas imediatamente pude ver não só seu talento, mas a reação que ela provocava na audiência. Embora nervosa, como até hoje ela fica antes de se apresentar, ela adorou o publico e o publico adorou-a de volta. Foi óbvio desde início o que ela tinha dentro de si naquela noite no Apollo, e meu Deus, o que ela fez com sua estreia”. Não deixa de ser surpreendente que Ella e Carter ainda fossem amigos próximos e bons companheiros mais de cinqüenta e cinco anos depois. O que tornou Ella tão especial naquela noite foi a incrível reação que ela e o publico tiveram um do outro. Não a foi a sua voz, ainda fina e não definida e seu estilo era Conne Boswell. Ela era uma adolescente desengonçada e não estava bem vestida nem parecia elegante – ela nunca se julgou sua mulher bela. No entanto foi como duas pessoas que se encontram e se tornam na hora grandes amigos. Foi uma reação química, dois elemento individual que combinados, causaram uma enorme explosão. Carter apresentou Ella a Fletcher Henderson dias depois de sua estreia, mas Fletcher não se mostrou particularmente impressionado (podemos imaginar quantas vezes na vida ela não se arrependeu desta mancada), dizendo: “Simplesmente não vejo nada demais nela”. Ella começou então uma rotina de concorrer e ganhar todos os concursos amadores do Harlem, acrescentando “The Object of My Affection” a seu repertório. O único tropeço deu-se numa noite no Lafayette quando tentou cantar “Lost in a Fog” toda vestida de preto para parecer sofisticada. “O pianista não sabia as mudanças de escalas e eu realmente me perdi”, recordaria anos depois. Foi vaiada até sair de cena. No entanto seu fracasso total rapidamente se tornou uma vitória à medida que ela continuava com seu repertório de três músicas, ganhando todos os concursos de novos em que entrasse. Finalmente a talentosa adolescente ganhou como prêmio um contrato profissional: Uma semana no Harlem Opera House com a orquestra de Tiny Bradshaw, ganhando 50 dólares. Por esta época, teve seu nome citado na imprensa pela primeira vez. O New York Time referiu-se assim a ela quando de sua estreia no Harlem Opera House em janeiro de 1935:...” e Ella Frizgerald, o último nome premiado nos recentes concursos de auditório..” Há uma historia a respeito de Ella que teria acontecido nesta época que surge e ressurge de vez em quando. É apócrifo. Supostamente a rede de rádio CBS ficou sabendo das vitórias de Ella no Harlem e quis escalá-la para um show estrelado por Arthur Tracy, “The Street Singer” cujo grande sucesso era “Here Lies Love”. Prossegue esta lista de historia contando que assim que o contrato estava para ser assinado, a mãe de Ella faleceu, deixando-a sem uma pessoa responsável que assinasse o contrato por ela. Embora seja impossível fixar a data exata da morte de sua mãe, uma garota menor de idade teria a tutela de alguém apontado pela corte. Nova York tinha um sistema de direito de família muito eficiente, já nesta época. Se tal contrato existisse, CBS teria requerido que fosse designado alguém para tutelá-la. William S. Paley, presidente da CBS, não era homem de temer obstáculos. A tia de Ella, Virginia Williams, poderia ter assinado por ela. Por último o próprio Mr. Tracy recentemente declarou que não teve intenção de contrata-la e que de fato só ouviria falar dela mais tarde na época de suas gravações na Decca. Muita coisa sobre o inicio da carreira de Ella foi igualmente embaralhado pela imaginação dos publicitários. Foi no final daquela semana no Opera House que Ella cruzou pela primeira vez com Chick Webb, o baterista bandleader. Recorda Ella: “A orquestra deTiny Bradshawparticipava do show, eles me colocaram à direita bem no final, quando todo mundo já vestia os cossacos e preparava-se para sair. Tinydesse: ‘Senhoras e senhores, com vocês a garota que tem vencido todos os concursos’ e eles voltaram e tiraram seus casacos e sentaram-se novamente”. Chick se apresentou na noite seguinte com a orquestra e como costumava dizer, ele “sacou-a no ato”. Embora Chick tivesse ficado impressionado, não pensava em acrescentar uma vocalista ao seu grupo musical. A intervenção a favor dela veio através de Bardu Ali, homem de frente da orquestra de Webb. Chick (nascido William Henry Webb Jr. Em 1909) estava indefeso como uma criança com tuberculose óssea na espinha. Uma queda devido à falha de degraus numa escada paralisou parcialmente suas pernas. Seu tamanho diminuto (menos de um metro e meio) deu-lhe o apelido de “Chick”. Devido a suas limitações físicas, Ali regia a orquestra enquanto Webb tocava bateria (e tocava-a extremamente bem, de um dinamismo que faria dele uma lenda, não fosse sua morte prematura). Ali levou Ella aos bastidores no camarim de Chick (houve boato de que ela ficou escondida lá, mais os minúsculos cubículos de teatro desmente a dramatização desta versão) e fez com que bandleader escutasse-a cantar alguma canção. Webb sabia que não precisava de uma cantora uma vez que já tinha um cantor, Charle Linton e não via necessidade de aumentar sua folha de pagamento. Finalmente cedeu e permitiu uma chance a Ella quando a orquestra fosse à Universidade de Yale, observou ele com um ponto de interrogação na voz. “Embarque no nosso ônibus e se eles gostarem de você lá o lugar é seu”. Se os bacanas de Yale aceitassem a nova cantora, ela poderia funcionar por uns tempos. Chick e Ella nunca tiveram razão para se arrepender e a cantora recebia a fria quantia de U$12,50 por semana nos primeiros cinco meses com a orquestra, subindo para 15 dólares quando eles começaram como atração fixa e se apresentar no Savoy Ballroom".
Fonte: Ella Frizgerald: A Primeira Dama do Jazz - Geoffrey Mark Fidelman, Francisco Alves - 2001. Boa Leitura - Namastê.
Quando o crítico da revista Downbeat, Don McMichael classificou "Out To Lunch" com cinco estrelas, escreveu: "Este musico será o jazzman mais premiado da próxima década", estava assinando um dejavu de estrea do saxofonista, flautista e clarinetista, Eric Allan Dolphy ou mais conhecido Eric Dolphy, musico predestinado a ser uns dos criadores e fundamentalista de estilo da chamada corrente dominante do jazz com forte estética ao free. O album em questão era "Outward Bound" com forte raiz no estilo do bop, gravado em 1960, pelo selo Prestige, onde Eric fazia sua estreia nos rool dos lideres de jazz. Don McMichael esta certo e so um item ficou de fora desta visão futurista: Dolphy foi além disto. Apesar do seu estilo ter sido criticado como anti-jazz, a modernidade da sua obra é unica e indiscutível. As inovações por ele introduzida no jazz é tão fundamental como as de Charlie Parker ou John Coltrane. O lirismo da sua flauta no contraste do radicalismo de sua clarinete, o seu discurso no sax. alto era impetuoso, suas composições dissonantes e bizarras, formando estruturas para o desenvolvimento do jazz até aos dias conteporanios. Passava grande parte da sua vida nos estúdios de gravação, onde participou em muitas sessões lideradas pelos grandes músicos, como: Max Roach, Ted Curson, Ron Carter, Mal Waldron, Pony Poindexter, Benny Golson, Gary McFarland,Andrew Hill, Gil Evans, Ken McIntyre e é claro, John Coltrane. Foi em seu apartamento que Dolphy começa a tocar e a partilhar ideias com o seu então amigo Coltrane, que havia convida a trabalhar na sua primeira gravação para a então recém criada editora Impulse, tendo a seu cargo a orquestração e a direção de orquestra. O resultado tem significativa no paralelo discografico de Coltrane, chamado: "Africa/ Brass Sessions" apresenta com o célebre quarteto mais 14 músicos, transmitindo a experiência única de sentir o modalismo livre do quarteto, invadido por sutis arranjos orquestrais. Coltrane decide convidar Eric para as gravações de Olé Coltrane, que, em certa medida, segue os passos musicais já experimentados no album interior, mas desta feita sem orquestra. Dolphy passa a integrar o grupo de Trane e sua colaboração entre ambos tem o seu ponto alto nas gravações feitas em 1961 no mítico e lendario album: "Village Vanguard" em Nova Iorque. Apesar das frequentes colaborações, Dolphy continuava a gravar como líder. Para a história ,ficam as gravações feitas no Five Spot, editadas em dois volumes, onde a banda de Dolphy tinha alguns dos músicos mais criativos desta época, Booker Little, o trompetista de forte tendencias, Mal Waldron, pianista jurassico na historia do jazz, Richard Davis, contrabaixista e o baterista Ed Blackwell, que arquitetou a transição do futuro do jazz sem esquecer a tradição. A preocupação melódica, o fraseado e a estrutura interna dos solos são uma constancia na carreira de Dolphy, isto sem deixar a complexidade criativa das suas composições. É durante este processo criativo que nasce a obran prima "Out To Lunch", inteiramente preenchida com composições soberbas e originais, tocadas de forma espontânea e livre. Se a perfeição existe, ela está presente neste registro, obra inquietante, arriscada e demasiada inovação para a época. Hoje Dolphy é considerado pelo conhecedores de jazz um marco em relação às suas distintas performa-se instrumentais: vibrações líricas da flauta, vôos do sax-alto e os rompantes do clarinete. A sua propensão por buscar adiante novas idéias harmônicas o colocaram numa linha virtuosa entre consonância e dissonância. Enquanto Dolphy caminhava para ser uma figura decisiva nesse começo dos anos 60, o bebop passava por inovações e se desenvolvia para formas mais livres. Sua morte prematura aos 36 anos, devido às complicações causadas pela diabetes em 29 de Junho de 1964, poê fim a uma carreira brilhante e promissora. "Where?" surgiu em 20 de Junho de 1961, na companhia de baixista Ron Carter (04-05-1937) e do pianista Mal Waldron (Malcolm Earl Waldron - 16-08-1925 # 02-12-2002 ) em uma sessão prostraumatica dos musicos em suas carreiras como sidemam. Carter, dono de uma vasta cultura musical, trabalhou dentro de variados estilos musicais: jazz-rock, experimentos em música erudita de câmara, jazz mainstream, música de influência brasileira. Já Mal Waldron é conciderado um inovador pianista, compositor de jazz e world music, tocando com feras como: John Coltrane, Eric Dolphy, Clifford Jordânia, Booker Little, Steve Lacy e Jackie McLean. Habilidoso em suas composições, criou musica pra cinema, teatro e dança com forte tematica de jazz e inovação de estilo e harmonia. Faleceu com 77 anos, vitima de câncer no intestino. Waldron foi o último pianista a tocacou com a cantora Billie Holiday, no final dos anos 50. Item de coleção, Where? traduz uma dinamica de fazer jazz. Relançado em 01 de Abril de 2008.Produção de Rudy Van Gelder(1960, New Jazz, NJLP 8236).
Faixas: 01 - Rally 02 - Bass Duet 03 - Softly, As In a Morning Sunrise Lyrics 04 - Where? 05 - Yes, Indeed 06 - Saucer Eyes
Musicos: Ron Carter - Violoncelo & Baixo Acustico Eric Dolphy - Sax. Alto, Flauta & Clarenete Mal Waldron - Piano George Duvivier - Baixo Acustico
Muitas
cantoras de Jazz são reconhecidas apenas pelo primeiro nome. Ella é
reconhecida como a melhor de todas. Abençoada com uma amplitude
vocal ímpar, entonação clara, dicção perfeita e dona de um
delicioso improviso vocal – seus famosos SCATS –, Ella Fitzgerald
se transformou em uma das cantoras de Jazz mais amadas de todos os
tempos, adorada por músicos, críticos e públicos. Um dínamo
musical capaz de absorve tudo o que ouvia e de transformar esse
aprendizado em desempenhos memoráveis no palco e no estúdio. Foi
assim desde as primeiras gravações ao lado de Louis Armstrong,
passando pelos registros do Scat-singing de Leo Watson, até a
mimetização do estilo de vários instrumentistas. Não por acaso o
nome de Ella invariavelmente é acompanhado do epíteto “a
primeira-dama do Jazz”. Ella Jane Fitzgerald nasceu em 25 de Abril
de 1917 em Newport News, Virgínia, Estados Unidos, filha de
Temperance e William Fitzgerald. A mãe, conhecida como Tempie, logo
encontrou um novo amor: Joseph da Silva, um imigrante português. A
família se mudou para Yonkers, no estado de Nova York e em 1923,
Frances, meia irmã de Ella nasceu. Garotinha, Ella já gostava de
cantar e dançar. A igreja teve um papel fundamental em seu apreço
pela música. Ella adorava a voz da cantora Connee Boswell, do grupo
The Boswell Sisters, que ouvia incessantemente em um disco que a mãe
comprara. Logo demonstrou talento para a imitação, descobrindo como
soar como as Boswells e também cantar no estilo do grupo canções
que nem se quer haviam gravado. Antes de chegar á adolescência,
Ella já apresentava hits para os colegas como forma de conquistar
amigos, considerando que era “sem graça” e grandona para a
idade. Ella queria ser dançaria e conseguiu para Nova York como um
amigo, Charles Gulliver, a fim de se apresentar em pequenos clubes em
troca de qualquer dinheiro. Seu mundo sofreu um abalo com a morte
repentina da mãe, vitima de um ataque cardíaco aos 38 anos. Ella
continuou dançando em clubes e acabou se afastando do padrasto, que
tentava mantê-la em casa. Finalmente, a irmã de Tempie, que morava
no Harlem, insistiu em levar Ella para sua casa. A morte do padrasto
também vítima de um ataque cardíaco não muito tempo de Tempie,
fez com que Virgínia adotasse Frances. A vida em família não era
fácil. Ella competia com a meia-irmã e a prima, Georgina pela
atenção da tia. Nessa época abandonou a escola. Ganhava dinheiro
com apontadora de jogos ilegais e trabalhava como vigia de
prostíbulos. Presa, foi enviada para um reformatório de onde fugiu
em 1934. Impedida de voltar pra casa da tia, pois seria presa
novamente, acabou morando na rua. Mas nunca desistiu de entrar para o
show business. Resolveu tentar a sorte como dançaria numa seleção
para o Wednesday Amateur Night, no Apollo, evento que garantia aos
escolhidos uma semana de apresentações. No ensaio, intimidada pela
habilidade dos concorrentes, decidiu trocar a dança pela música.
Cantou duas canções: The Object of My Affection e Judy, aplaudidas
pela audiência e lhe garantiu o primeiro lugar no concurso, ao mesmo
tempo que causaram boa impressão ao bandleader Benny Carter, cuja
orquestra se apresentava naquela mesma noite. Apesar disso suas
roupas surradas espantaram muitas oportunidades de trabalho. Ella por
exemplo, nunca recebeu o prêmio do Wednesday Amateur Night. O
encontro com o bandleader Fletcher Hendersoon, promovido por Carter,
também não deu em nada. (inserto: Ella Fitzgerald, Ken Dryden, - jornalista e critico musical)
Billie Holiday & Her Orchestra - Prelude To A Kiss (Clef Records 1955)
Billie's Holiday - Vocals, Benny Carter - Sax alto, Barney Kessel - Guitar, Harry Edison - Trumpet, Jimmy Rowles - Piano, John Simmons - Bass & Larry Bunker- Drums. Recorded August 23, 1955 at Radio Recorders Studio in Los Angeles (Original Velver Moods Clef)
Nova York, manhã de 17 de julho de 1959. Aos 44 anos, com o organismo debilitado pelo uso contínuo e descontrolado de drogas e álcool, morre no Metropolitan Hospital, no Harlem, a cantora Billie Holiday, a mais pungente e emocionante intérprete da história do jazz. Internada mais uma vez para se tratar do vício em heroína, do qual nunca conseguiu se livrar, Billie morreu sob vigilância policial e segundo alguns biógrafos, algemada na cama depois de denunciada à polícia por uma enfermeira que a teria surpreendido consumindo entorpecentes no hospital. Durante a necropsia os médicos encontraram US$ 750 escondidos dentro de uma meia de seda que ela usava, o último dinheiro de Billie. As condições degradantes em que a intérprete morreu são o último capítulo de uma biografia singular do show business. Negra, pobre, nascida numa América preconceituosa e repressora, Billie passou fome, foi estrupada, se prostituiu ainda adolescente, descobriu na música o caminho para superar as dificuldades, tornou-se uma estrela e, depois, mergulhou no desespero do vício que a destruiu. Uma vida sem regras, forjada no desequilíbrio entre talento e sofrimento, ambos em doses nada homeopáticas, ingredientes mais que suficientes para transformar a cantora em um mito. E é como mito que Lady Day (apelido carinhoso que recebeu do saxofonista Lester Young) permanece, passados do fim melancólico naquele hospital do Harlem. Não apenas como a dona de uma voz única, que misturava melancolia, rouquidão e sensualidade, mas também como a artista que influenciou os rumos do jazz, despertou admiração e se tornou um símbolo impossível de ser substituído. No palco, era uma diva, que aprendeu a fazer da voz um requintado instrumento, que nunca cantava uma música da mesma forma duas vezes.
Faixas: 1. Same Old Story 2. Nice Work If You Can Get It 3. Night And Day 4. Georgia On My Mind 5. Body & Soul 6. Am I Blue 7. St Louis Blues 8. Easy To Love 9. I Can't Give You Anything But Lov 10. All Of Me 11. I've Got My Love TO Keep Me Warm 12. Let's Call The Whole Thing Off 13. The Man I Love 14. Pennies From Heaven 15. Can't Help Lovin' Dat Man 16. They Can't Take That Away From Me 17. The Very Thought Of You 18. Summertime
Teddy Wilson & His Orchestra (01, 02, 03, 05, 06, 07, 15) Billie Holiday & Her Orchestra (04, 08, 09, 13, 14) Benny Carter & His All-Star Orchestra (10) Eddie Heywood & His Orchestra (11, 12)
No ano de 1939, Jimmy Monroe, irmão de Clark Monroe acaba de voltar da Europa. Depois de ter vivido em Londres, retorna de Paris onde dirigiu um clube na Praça Pigalle. Dotado de um rosto com traços finos e de um sorriso irresistível, ele se apresenta, ora como empresário, ora como antigo atleta. Ele esta casado com uma vedete da canção popular, NinaMae McKinney (1913-1967) e retorna enfeitado todo de pena de pavão ao lado de uma magnífica londrina, que exibe por toda parte, como um sinal de sua classe européia. Suprema sofisticação, ele fuma ópio, um habito que trouxe de Paris onde se tornou a ultima moda. Bille sente uma paixão avalassadora. Quando um homem lhe agrada, ela não fica lançando olhares dengosos, ela fala diretamente. Billie hesita em saborear de imediato o que a vida lhe oferece. Get Higt em um homem, uma mulher, um copo de bebida, um joint. Quem poderia crer queBillie buscava uma relação durável, um homem que dissipasse sua amarguras de menininha abandonada, que a amasse e protegesse? Um sonho de comerciaria bem escondido sobre uma mascara de valentona. Porque não é esse tipo de homem que convém à sua natureza mais profunda. Jimmy Monroe e mais um belo homem que ela conheceu. Lembra vagamente de seu pai, Clarence Holiday. Ela adora o seu lado brilhante e charmoso, seu refinamento, sua silhueta esbelta. Monroe enviou na cabeça que vai ser seu agente musical. Ele conhece bem as Star ou pelo menos é o que ele diz, porque já se casou com uma. _Para ser uma Star, vai ter que se comportar como uma. Cuidar mais de sua aparência, usar vestidos magníficos, jóias lindas, cobrir-se de peles. Tem de parecer uma. Ele aconselhava a usar uma peruca, com um coque longo acima da testa ou então no alto da nuca. Há muitas fotos que a mostra nessa época, muito elegante, com vestido de noite, fiadas de pérolas no pescoço, chapéu de festa ou gardênia, sapatos de palmilhas duplas com saltos altos. Freqüentemente um magnífico casaco de vison. Ela vai adquirindo uma paixão por peles de vison. Serão o ambiente de seu sucesso. Naturalmente ela vai precisar de um amante a sua altura. Jimmy Monroe é o homem ideal, o príncipe consorte de Lady Day, muito elegante em seus casacos justos. Ao redor dele gravita uma corte de novos amigos, em busca de pequenos favores que ela satisfaz generosamente. Jantares regados a bebidas, mesas fartas, noitadas alegres, café-concertos, aplauso, conhaque. E droga. No final dos anos 30, para se hip é preciso fumar ópio. É a época de festas elegantes e muito privadas em que artistas, escritores, músicos e ícones do jet-set se encontram ao redor de um ritual fascinante e se entregam a uma cerimônia exclusiva para o iniciados. O cachimbo de ópio circula de boca em boca, as longas horas da noite se estiram ainda mais na fumaça opiácea. Billie esta apaixonada. Ela experimenta por Jimmy a mesma atração que pelos cafetões de Baltimore, com seus sapatos bicolores, seus dedos cobertos de anéis, os olhos brilhando sob a aba caída dos chapéus. Esses homens que a haviam posto debaixo de suas asas protetoras desde que tinha 13 anos, esses homens cruéis mas capazes de ternura, que a cobriam de presentes cm o dinheiro que ela mesmo ganhava, mas que mais tarde a sabiam recompensar muito bem na cama. Se ela se atrevesse a resistir em qualquer coisa, dito e feito, Jimmy tem mão pesada. Isso ficou claro. Billie nem se quer protestou, só protegeu seu rosto. Os amigos viraram os próprios rostos para outro lado. Para Sadie, ela disse que tinha sido agredida por algum vagabundo. O ano de 1940 é frutífero em contratos, viagens, transmissões em rádios e gravadoras. Acompanhada pelo pianista Roy Eldridge, apelidado de Little Jazz por se muito baixinho, ela canta por dezoito semanas no Kelly´s Stable. O Swing Team de 1940 programa o cartaz na entrada do clube. Eles alcançam um sucesso estrondoso. Ela possuía ao mesmo tempo o poder de fazê-lo chorar e logo depois deixa-lo muito feliz, tinha um contato fabuloso com o publico . Percebi que, efetivamente, que ela já havia se tornado uma estrela – diria mais tarde Roy. Billie se apresenta igualmente fora de Nova York . Depois de cantar em Washington, ela permanece durante um mês no Hotel Sherman, Chicago. Suas apresentações de canto são retransmitidas pelas rádios. Numerosas estações a solicitam para emissões diretas. Uma única vez, ela recusa o convite, por ficar sabendo que Ella Frizgerald também foi incluída no programa. Lady Day não dividia sua posição de vedete com ninguém. Ainda haverá muitas sessões de gravações com Roy Eldridge dentro de uma serie Billie Holiday and Her Orchestra. Serão doze títulos. Entre eles Body and Soul, Ghost of Yesterday, Falling in Love Again. Ela ira gravar igualmente com a orquestra de Teddy Wilson e com Benny Carter. Billie, que fica de pé quando se trata de defender seus interesses, ganha agora trezentos dólares por semana e os gasta elegantemente com toda a banda de Jimmy Monroe. Em setembro, Billie retorna ao Apolo. Pela primeira vez, seu nome figura no topo do cartaz. O reconhecimento chegou precisamente nesta sala que a desprezou em sua estreia. Não é absolutamente uma pequena revanche. No mês de outubro, o Café Society a contata de novo. Pagando seu preço. Na noite da abertura, Billie não vem. Barney Josephson decide anular seu contrato, afirmando em altas vozes que pode perfeitamente passar sem ela. Mas ele logo muda de ideia. Embriagado pelo sucesso de sua formula, Josephson decidiu abrir um segundo Café Society na Rua 58, na Uptown. Billie, o pianista Art Tatum e toda orquestra de Joe Sullivan (1906-1971) são as garantias de seu sucesso. Desta vez, Billie se alterna entre os dois Café Society e circula de uma ponta da cidade à outra. O tempo exato de fumar um Joint dentro do taxi. Entretanto a colaboração com Art Tatum está longe de lhe ser conveniente. Um brilhante pianista, Art não é um acompanhante. Sua virtuosidade, a prolixidade de seus acompanhamentos não convém às respirações sutis de Billie, sua simplicidade e seus deslocamentos de compasso.Billie sai do Café Society no final de novembro e volta ao Kelly´s Stable e depois vai para a Uptown House de Clark Monroe. Nos domingos à tarde, ela volta a participar das jam sessions que Milt Gabler organiza no Jimmy Ryan´s Club. Ela não pode recusar coisa alguma àquele que lhe permitiu gravarStranger Fruit. Ela encontra ai mais uma vez o querido Eddie Condon e os outros músicos de quem mais gosta: Joe Sullivan (1906-1971) , Bobby Hackett (1915-1976) Hot Lips Page (1908-1954) e Lester Young. Billie conta que assim que iniciaram seu relacionamento, a londrina telefona para Sadie, a fim de preveni-la contra Jimmy Monroe. Foi desnecessário. Sadie já encarava aquela ligação com os piores olhos possíveis. Billie, enamorada, tem a cabeça em outro lugar e se afasta de sua mãe. Isso não agrada nem um pouco a Sadie. Ela alerta Joe Glaser, o agente de Billie para que tome cuidado. Prevenido, ele logo começa a observar o gigolô de casaco de seda, as pequenas marcas no rosto dela e seu jeito de mulherengo. Um drogado ainda por cima. Para observar sua filha, Sadie lança mão de todos os argumentos. Será que bem lá no fundo ela acha que Billie não tem o direito a uma vida melhor que o dela? - Ela nunca vai casar com você – repete-lhe com freqüência. Todo homem representa um concorrente potencial que vai controlar Billie e tirar o dinheiro dela. De fato, ela contata que Billie, que ganha a vida tão bem, esta sempre dura. Sadie tem que reclamar muito para conseguir um punhado de dólares. Ela esta convencida de que sua filha não quer saber dela, mas isso é só por causa do Monroe que a mantem sob seu domínio através do poder da droga. Como se fosse para lhe dar razão, certa manhã ela surpreende Billie no momento em que misturava uma pasta suspeita em seu café. Irene Wilson, que a pouco se separara de seu marido, estava morando com elas. - O que é isso que você esta pondo no café, Billie? - Ah, não é nada. Só um negócio que não faz mal nenhum.
Um momento depois ela corre pro banheiro, quase morrendo de vomitar.
- Tudo que eu sei – acrescenta Irene - é queJimmy Monroea ensinou a fumar ópio. Mas em seguida ele começou a enchê-la de cocaína, também. A personalidade de Billie se transforma. Perde boa parte de sua alegria, torna-se mais grosseira com os amigos e com Sadie, que confidencia sua preocupação a Joe Glaser. Ela atribui seu comportamento ora ao homem, ora as drogas. Billie esta correndo perigo e tem de ser vigiada. Billie se encerra. Fica descansando em casa quanto escuta Rhapsody in Blue e Porgy and Bess. Mas também escuta Debussy (1862-1918). Ela gosta em especial do Prélunde à I´apresmidi d´um faune (bale de curta duração de autoria do compositor francês Achille-Claude Debussy). Provavelmente porque ele agrada tanto Billie. Sadie odeia Jimmy. Proíbe que ele entre em sua casa. Se ele pretende continuar se encontrando com sua filha, então que seja em outro lugar, não vai ser na casa dela. Billie, que ainda lhe guarda um certo rancor por causa de Sonny White, decide dar-lhe uma lição. Uma noite, ela não telefona para Sadie para lhe dar noticias. A noite inteira passa e nem sequer uma chamada. Sadie, esta apavorada. Finalmente Billie chega com um ar de insolente. Com as moas na cintura, Sadie já esta pronta pra passar-lhe um carão, mas Billie joga um sobre a mesa da cozinha. Uma certidão de casamento. Eles se casaram na véspera em Elkton, Maryland.
- E agora, ele pode vem aqui em casa? Billie tinha 26 anos. Deixou Sadie deslocada e banhada em lágrimas, ela se instala com Jimmy Monroe em um quarto na Rua 110. Billie pode ter-se cobrado de sua mãe, mas se destaca bem depressa. A bela londrina não saiu da vida de marido. Quando ela trabalha, não faz a menor ideia de onde o marido esta passando a noite. Numa delas, Jimmy chega em casa com marcas de batom no colarinho da camisa. Pego em flagrante, ele a afoga em uma torneira de desculpas. - Vou lhe pedir uma coisa. Não me venha com mentiras – exclama ela – Vá tomar um banho e me faça o favor de não me explicar mais nada. Essa cena lamentável lhe dá uma idéia para um tema. Ela iria escrever com auxilio de Arthur Herzog a letra do clássico Don´t Explain , uma de sua mais belas canção.
"Quando rolava o ano de 1935 - Ella Jane Fitzgerald já estava na estrada rumo à imortalidade musical. Fruto de um lar desfeito, de pais pobres, ela nasceu em Newport News, estado da Virgínia, supostamente no dia 25 de abril de 1918. No entanto, de acordo com a certidão de nascimento e com os documentos escolares. Na verdade ela nasceu um ano antes. Esta data se tornou um ponto importante na sua vida, especialmente quando faram comemorados com muito barulho seus aniversários de 14 e 17 anos. Ella tornou-se um ano mais jovem para manter sua imagem de garotinha da banda de Chick Webb, mais tarde, a mudança de data ajudou-a “diminuir” a diferença de idade entre ela e seu futuro marido, mais novo que ela, Ray Brown. Como Ella nunca se deu ao trabalho de substituir a data de seu nascimento, ainda mais que isso não fazia diferença para ninguém. Seu pai Willian e sua mãe Tempe (abreviatura de Temperance, um nome bastante improvável) não se casaram legalmente. Viveram na Madsom Avenue, nº 2050, sendo William nove anos mais velho do que a independente Tempe. Depois da primeira grande guerra, o casal se separou, e Tempe mudou com a família para Nova York. Mãe e filha se mudaram com o amante português, Joseph Da Silva, geralmente tido como o padrasto de Ella, tentativa, tentativa dos assessores de imprensa de “limpar” sua infância. Joseph indubitavelmente exerceu uma rica influência na percepção cultural e musical de Ella, que iria se referir a este lado se seu relacionamento com grande carinho pelo resto de sua vida. No entanto, o que resolveu não lembrar foram os abusos a que submetida na adolescência. A nova família Da Silva vivia numa área eticamente mista de italianos, espanhóis e afro-americanos na Clinton Street, nº 27. Foi nesta vizinhança que Ella cresceu e se tornou uma jovem mulher. Em 1923, seus pais lhe presentearam com uma irmã, Frances. Dois anos depois se mudaram para a School Street, nº 72. “Crescemos numa vizinhança mista”, evocaria, certa vez, “a maioria dos meus amigos era italianos. A primeira vez que entrei em contato com o preconceito racial foi quando um garoto que vinha de outra escola me chamou de “negra”. Bem, eu o empurrei, ele caiu e os outros garotos acharam que eu tinha batido nele e foi assim que me tornei uma heroína na escola. O garoto foi obrigado a pedir desculpas e depois disso todo mundo olhava pra mim como se eu fosse realmente má. Eu tinha uns onze anos”. Na verdade esta briga provavelmente aconteceu com uma garota chamada Josephine Attanasio. E se Ella tirou sangue do nariz dela, a briga foi por Ella ter implicado com a irmã menor de Josephine e não por razões raciais. Enquanto Tempe trabalhava para um comerciante e numa lavanderia, o dinheiro adicional vinha de Joseph como lavador de pratos e motorista. Ella precisava colaborar com o cofre da família. Para ganhar dinheiro próprio, Ella trabalhava com numbers (trabalho de rua como pagar cotas e outros). Ella também cuidava de uma casa de esporte. “Há sim, Eu tive uma vida muito interessante na juventude”. Recordando seu padrasto, Ella diria, rindo mais tarde, “Se eu tivesse a mínima idéia de que um dia iria gravar uma música em português, eu teria prestado mais atenção quando ele tentava me ensinar a língua”. Com uma dificuldade de falar intimidades publicamente – característica sua – Ella nunca se referiu ao fato de ter crescido numa vizinhança multirracial em Yonkers e especialmente o que isso significava no final dos anos 20 e começo dos anos 30. Muitas áreas urbanas eram divididas por raças, religião, renda ou origem nacional, como ainda acontece nos supostos tempos iluminados de hoje. As pessoas raramente visitavam outras vizinhanças a menos que de passagem. Muitos viviam toda a vida sem mesmo atravessar os limites de sua área. A única coisa em comum era a depressão econômica; europeus, africanos, cristãos ou judeus, todos foram atingidos. Hoje Ter pais de etnias diferentes, se não chaga a ser totalmente aceito é com certeza rotineira. Nos dias sombrios do inicio dos anos 30, ter uma mãe afro-americana e um padrasto português, um homem com quem sua mãe nem casada era, deixava a sensível adolescente afundada na menor das subculturas ou menos do que isso. Pode-se imaginar uma infância em que para ser aceito e poder sobreviver, era necessário conviver com jogadores e prostitutas, e era óbvio que Ella quase nunca conseguia se integrar no meio. Sua falta de aceitação consciente levou-a ser dolorosamente magra (“tiveram de me dar leite na escola para recuperar meu peso”) e tímida. No entanto, não devemos confundir sua timidez com falta de perspicácia. Ella sempre se apresentava como sem saber exatamente o que estava acontecendo a sua volta e como extrair melhor proveito daquilo tudo. Como muitos jovem descendente de europeus e africanos, Ella foi cativada pela cultura dos anos 30. Antes disso a musica popular vinha da Broadway, do teatro de Vaudeville ou daquela nova invenção – o rádio sem fio. As pessoas se reuniam em volta de um piano para cantar a partitura da musica do dia, ou tocavam no fonógrafo primitivo os discos disponíveis. Os adultos controlavam o que era considerado apropriado e os jovens tinham de esperar crescer para conhecer as musicas. De repente surge um nova musica que pegava os jovens pelos ouvidos e pela primeira vez na historia os adolescentes tinham sua voz musical própria: o som das grandes bands de jazz. A nova musica era uma conseqüência do Ragtime, do Dixieland e do jazz pioneiro da era do Charleston. A Meca deste novo tipo de diversão era o Teatro Apollo no Harlem. Peregrinos do Apollo trazem flashes de legendas como Chick Webb, Fletcher Henderson, Billie Holiday, Benny Carter e muitos outros. Ella e suas amigas pegavam o trem ate o Harlem e passavam boa parte das horas no Apollo fazendo contato com novos talentos. Seu ídolo era o Snakehips Tucker e Ella brincou com a idéia de passar a se chamar “Snakehips” Frizgerald. Ella, mutável como os adolescentes, fantasiava que iria ser dançarina e pensou seriamente em seguir a carreira base do sapateado. “Todo mundo em Yonkers achava que eu era boa dançarina” - disse ela certa vez. “Eu realmente queria ser dançarina e não uma cantora”. Esta era uma pretensão incomum entre os jovens negros da época, mesmo entre os de boa família e religiosos como o seu caso. As oportunidades eram poucas para os jovens negros. Muitos afro-americanos tinham sua sobrevivência no show business. Tocavam em teatros de Vaudeville no circuito “Chitlin”, dançavam em espetáculos de negros, em bares clandestinos e se tivesse sorte, deslocavam um papel pequeno num show da Broadway, numa revista musical em programas de rádio ou filme. Por mais duro que fosse este tipo de vida, era sempre preferível a trabalhar numa lavoura, lavanderia, engraxate ou fazendo faxina nos banheiros dos brancos. Ella tinha mais sorte do que a maioria, pois vivera sua adolescência num lar razoavelmente estável. No entanto estes performers de fato trouxeram à tona o talento que havia nela, que constantemente falava em dançar. Para os adolescentes do inicio dos anos 30 as grandes orquestras de jazz eram a dança. Em uma entrevista de 1991, o seu amigo de infância Charles Gulliver recordava: “De fato ela não cantava muito, mas adorava dançar; Era uma dançarina e tanto! Costumávamos ir até o Savoy. Aprendíamos todas as danças da moda. Pegávamos o trole até a estação de metro para Manhattan e descíamos na Rua 125”. Ella e Gulliver ensaiavam bastante e queriam tentar a sorte como dançarinos profissionais. O par começou a ensaiar em Yonkers. Mas é neste ponto que os detalhes da vida adolescente de Ella torna-se pouco claros. Muito do que foi publicado ao longo dos anos situa Ella em Yonkers até sua aparição como artista. No entanto a verdade sobre a sua vida antes de se tornar famosa não é tão simples assim. Por outro lado, reservou-se que pouco depois de Ella ter estreado no Apollo, sua mãe Tempe morria ao tentar salvar a vida de uma criança. Eis como a própria Ella recordava o episódio nos anos 80: “Havia um garotinho italiano que simplesmente adorava minha mãe. A mãe dele não conseguia fazer com que comece e ela então chamava minha mãe e dizia: ‘Por favor, venha até aqui em casa e faça com que ele coma’. E ele sempre disposto a ir para qualquer lugar que minha mãe fosse. Um dia eles estavam num automóvel. Ela segurava o garotinho. Meu primo que guiava o carro, provocou uma parada brusca. Para impedir que o garotinho batesse com a cabeça no vidro da frente, minha mãe apertou-o com força e ai foi ela que bateu com a cabeça. Levou cinqüenta e quatro pontos. Não havia os recursos que existem hoje e os cortes não cicatrizaram”. A intenção de Ella de fazer sucesso em Yonkers terminou com a morte se sua mãe. Joe Da Silva passou a beber cada vez mais e com insistência procurava a jovem Ella para consolar. Ele simplesmente canalizava sua raiva na jovem ou começou a vê-la como objeto sexual – bem se sabe que logo Ella saiu de casa pelas mãos da tia Virginia. Em seguida, Frances juntou se a elas na casa da Rua 145, no Harlem, onde Joe morreu de ataque cardíaco. Embora Ella se aproximasse da sua prima Georgina (em anos posteriores, companhia de viagens e encarregada do seu guarda-roupa), ela não se adaptou à casa de sua tia. Visitava Yonkers sempre que possível para rever os companheiros, mas com o tempo as visitas foram se espaçando. Detestando a nova vida, tornou-se cada vez mais infeliz e seu comportamento, irascível e hostil. Ela começou a largar a escola e foi mandada para a Associação Infantil de Riverdale, uma instituição não tão liberal quanto uma escola secundaria nem tão restritiva quanto um reformatório. Pouco depois abandonava a escola e a casa da tia para viver na rua. A vida de Ella nas ruas obstruiu em muito sua capacidade de ir para onde quisesse ou fazer qualquer coisa para melhorar seu destino. Ela vivia da mão para a boca, quase sempre sem tomar banho, faminta e sem endereço certo. Embora alguns dos entrevistados para esse livro sugerisse que Ella tenha trocado seu corpo por um bom lugar para dormir, não existe evidência substancial de que tenha se prostituído. Por estranha que parece é possível à pessoas se ligarem a certos valores morais ao mesmo tempo que ignoram outros. Tempo ao que parece, imprimiu a marca da religião em Ella. Havia certas coisas que Ella fazia porque tinha que fazer; havia certas coisas que ela fazia por que queria; havia certas coisas que ela nunca fazia porque não conseguia...". Fonte: Ella Frizgerald: A Primeira Dama do Jazz - Geoffrey Mark Fidelman, Francisco Alves - 2001. Boa Leitura - Namastê.
(I Love You) For Sentimental Reasons Ella Fitzgerald With The Delta Rhythm Boys - 1946