Artista: VA
Álbum: Piano-Guitar Duets CD11
Lançamento: 2001/02/03
Selo: Habana
Gênero: Chicago Blues, Country Blues, Delta Blues, Harmonica Blues, Jump Blues, Louisiana Blues, Piano Blues, Rhythm & Blues, Texas Blues, East Coast Blues, Vaudeville Blues
O décimo primeiro volume da magistral coleção Les Triomphes du Blues (Habana) debruça-se sobre uma das revoluções acústicas mais sofisticadas da música norte-americana: o casamento simbiótico entre as teclas e as cordas. Intitulado Piano-Guitar Duets, este disco examina o exato momento histórico em que o blues deixou de ser o lamento solitário de um andarilho no Delta do Mississippi para se tornar uma conversa musical arranjada, urbana e estruturalmente complexa. A tese central deste tomo postula que o formato de duo (piano e violão) foi o grande laboratório de arranjos que pavimentou o caminho para as bandas modernas de Chicago. Longe de ser uma mera sobreposição de instrumentos, o repertório revela um jogo de xadrez harmônico: o piano abandona a obrigação de tocar todas as notas melódicas para assumir o papel de "cozinha" (baixo e ritmo na mão esquerda, acordes de sustentação na direita), enquanto o violão é libertado da marcação rítmica bruta, passando a explorar solos de corda única, contrapontos intrincados e texturas melódicas que dialogavam com a voz do cantor. Gravadas majoritariamente entre o final dos anos 1920 e a década de 1930, estas faixas ilustram o apogeu da migração afro-americana para capitais industriais como Indianápolis e Chicago. Sob a ótica da engenharia de som, o volume é um testamento aos desafios da captação acústica primitiva: os produtores da época precisavam posicionar fisicamente os músicos ao redor de um único microfone omnidirecional para equilibrar a projeção avassaladora e percussiva do piano de armário com o volume naturalmente mais baixo e cortante do violão acústico. O resultado é uma gravação onde a dinâmica sonora dependia inteiramente do controle de força dos próprios executantes. Análise de destaques e narrativa dos músicos (três eixos-chave), o arquétipo da melancolia urbana (Leroy Carr & Scrapper Blackwell): esta dupla definiu o padrão ouro do formato. Carr fornecia vocais suaves, quase sussurrados, e um piano de compasso regular e contemplativo. Em contraponto absoluto, o violão de Blackwell atacava com frases de nota única (single-string picking) que soavam como navalhas cortando a fumaça de um cabaré. A tensão entre a calma do piano e a acidez do violão criou uma estética de "blues sofisticado" que dominou a era pré-guerra. O nascimento do Hokum e a malícia sincopada (Tampa Red & Georgia Tom): uma abordagem diametralmente oposta, focada na dança, no humor e no duplo sentido lírico. O violão de Tampa Red (frequentemente usando a técnica de slide com um gargalo de garrafa em um instrumento de corpo metálico) funciona quase como uma segunda voz humana, chorando e rindo em resposta ao piano rítmico, rápido e com inflexões de ragtime de Georgia Tom. O polimento para o som de banda (Big Bill Broonzy e pianistas parceiros): as faixas que trazem Broonzy ao violão mostram a transição final do formato. O violão assume acordes encorpados e linhas de baixo propulsoras que, somadas à energia do piano, criam um volume sonoro tão massivo que a ausência de uma bateria ou de um contrabaixo passa completamente despercebida. A dupla identidade e a invenção da música gospel: um dos fatos mais extraordinários documentados neste volume envolve a figura de Georgia Tom (Thomas A. Dorsey). Ao lado de Tampa Red, Dorsey foi o arquiteto do chamado Hokum Blues em Chicago, gravando dezenas de sucessos abarrotados de insinuações sexuais e temas boêmios para o mercado negro. No entanto, no início dos anos 1930, após uma tragédia familiar devastadora que culminou na perda de sua esposa e filho durante o parto, Dorsey abandonou os bares, renegou o blues secular e aplicou exatamente a mesma técnica de piano blues em letras de devoção espiritual. Ele compôs o hino histórico "Take My Hand, Precious Lord", sendo hoje reverenciado mundialmente como o "Pai da Música Gospel Moderna". As mãos que tocavam nos submundos da máfia de Chicago foram as mesmas que redefiniram a música sacra no século XX. Conexão evolutiva dentro da grandiosidade da coleção, o Volume 11 age como a ponte estrutural definitiva. Se os volumes iniciais mostraram o blues rural e os anteriores a força isolada do piano, este disco prova que a colaboração e o arranjo foram os motores da sobrevivência comercial do gênero. O dueto piano-violão ensinou os músicos a ouvirem uns aos outros e a dividirem o espectro sonoro, criando o manual de instruções que figuras como Muddy Waters e Howlin' Wolf usariam, duas décadas depois, para plugar seus instrumentos na tomada e eletrificar o mundo. “O Volume 11 de Les Triomphes du Blues revela que antes do caos elétrico das grandes bandas de Chicago, o futuro da música moderna foi desenhado a lápis, em um diálogo íntimo e genial entre os martelos de um piano e o aço de um violão.”
Boa audição - Namastê



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