segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Boxset: Triumphs Of The Blues (20xCD's) CD03

Lançamento: 2001/02/03
Selo: Habana 
Gênero: Chicago Blues, Country Blues, Delta Blues, Harmonica Blues, Jump Blues, Louisiana Blues, Piano Blues, Rhythm & Blues, Texas Blues, East Coast Blues, Vaudeville Blues.

O terceiro volume da aclamada coleção europeia Les Triomphes du Blues (Habana) direciona sua lente arqueológica para o estado do Texas, uma das regiões mais férteis e estilisticamente distintas do mapa fonográfico afro-americano. Intitulado estruturalmente como Texas Blues, este disco desvenda a transição monumental que vai do violão folk campestre, altamente sincopado e improvisacional da década de 1920, até a sofisticação urbana, elegante e eletrificada do pós-guerra na década de 1940. Enquanto o Delta do Mississippi priorizava a urgência telúrica e o desespero existencial calcado em acordes densos, a escola texana moldou-se sob a influência de uma sonoridade mais arejada, marcada por arpejos complexos inspirados no ragtime, balanço rítmico fluído e uma abordagem quase aristocrática ao instrumento. Este volume defende a tese de que o blues texano não era apenas um subgênero regional, mas o laboratório onde a guitarra se transformou de simples acompanhamento rítmico em uma voz solista autônoma. A primeira metade do CD mergulha na era dos "cantores de calçada" e trovadores itinerantes dos anos 1920, liderados pela figura monumental de Blind Lemon Jefferson. As gravações originais de 78 RPM aqui resgatadas — muitas licenciadas de matrizes raras da Paramount — exibem uma clareza instrumental impressionante, onde a mão direita de Jefferson executa linhas de baixo independentes e improvisações melódicas ágeis sem seguir uma contagem rígida de compassos. Na segunda metade, o eixo histórico salta para o pós-guerra, fixando-se na revolução estética protagonizada por T-Bone Walker. Aqui, a acústica primitiva dá lugar à revolução da guitarra elétrica de corpo oco (hollow-body), amplificada com saturação limpa e enriquecida por acordes de nona emprestados diretamente do jazz de vanguarda. Análise de destaques (Três faixas-chave), "Match Box Blues" (Blind Lemon Jefferson): Uma aula magna de compasso maleável. Jefferson estica e encolhe o tempo das doze barras de acordo com o fluxo dramático de sua letra. O uso de notas cortantes nas cordas agudas serve como um eco melancólico que pontua cada frase cantada com sua voz anasalada e imperativa. "Piney Brown Blues de T-Bone Walker: O nascimento oficial do jazz-blues sofisticado. Walker abandona a crueza rural e introduz acordes abertos, notas de passagem cromáticas e um vibrato de cordas longo e sustentado, elevando o blues a um patamar de requinte de cabaré e "Call It Stormy Monday (But Tuesday Is Just as Bad)" de T-Bone Walker: Uma obra-prima melódica absoluta. O solo de introdução utiliza curvas de corda (string bends) que mimetizam com precisão assustadora o pranto da voz humana, estabelecendo o vocabulário emocional que todo guitarrista elétrico de blues replicaria nas décadas seguintes. Curiosidade de dastidor (fato raro), o pioneirismo acrobático de T-Bone Walker: curiosamente, T-Bone Walker não inovou apenas na harmonia e na introdução da guitarra elétrica na Costa Oeste e no Texas; ele foi o primeiro verdadeiro showman da história da guitarra moderna. Décadas antes de Jimi Hendrix queimar guitarras ou de Chuck Berry inventar seu famoso passo de pato, Walker já realizava números acrobáticos impressionantes nos palcos dos anos 1940 — tocando o instrumento inteiramente nas costas e fazendo espacatos verticais sem errar uma única nota de seus complexos acordes de jazz. A conexão evolutiva deste terceiro volume é a raiz genética direta de toda a vertente elegante e melódica da guitarra moderna. O vocabulário de T-Bone Walker moldou diretamente a carreira de B.B. King (que declarou ter comprado sua primeira guitarra após ouvi-lo) e estabeleceu a fundação técnica que mais tarde geraria o estilo fulminante de Stevie Ray Vaughan na mesma escola texana. “O Volume 3 de Les Triomphes du Blues prova que o sol do Texas não apenas aquecia a terra, mas queimava as velhas regras da música popular, transformando o violão em um instrumento de alta conversação aristocrática.”


Boa audição - Namastê

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