quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

A história da Bossa Nova - Parte XIX


O Carnegie Hall aplaudiu de pé, e cravos vermelhos foram atirados ao palco. Nos dias seguintes, alguns inimigos da Bossa Nova na imprensa brasileira noticiaram com fartura o “fracasso histórico” do show, A mentira e o exagero causaram uma repercussão tão negativa que Mário Dias Costa foi chamado pelo ministro das Relações Exteriores para explicar o que havia se passado. No entanto, o show havia sido filmado por uma equipe de TV americana. Dora Vasconcellos comprou o filme por 450 dólares e mandou-o para o Brasil na bagagem do radialista Walter Silva, o famoso Pica-pau. As TVs Continental e Tupi encarregaram-se de exibi-lo e a verdade veio à tona: o que se via era algo bem diferente do que a imprensa noticiara. Mostrava, por exemplo, a platéia aplaudindo entusiasticamente Tom, João, Bonfá, Agostinho dos Santos e os demais participantes do show. Logo Depois do concerto no Carnegie Hall, vários brasileiros fecharam contratos para continuar por lá. João Gilberto assinou um contrato de três semanas com a Blue Angel e outro com a gravadora Verve para gravar um disco. Tom Jobim foi contratado como arranjador pela Leeds Corporation. O conjunto de Oscar Castro Neves foi para o Empire Room do Waldorf Astoria. Chico Feitosa foi convidado por Mel Tormé para assistir ao seu espetáculo em Nova Jersey. Após a apresentação, no camarim, Chico ficou tocando suas músicas durante uma hora para Mel Tormé enquanto ele tirava a maquiagem. Tormé resolveu: “Quero gravar todas. Vamos nos encontrar na casa de Nesuhi Ertegun em Nova York depois de amanhã para acertar tudo”. Chico voltou para Nova York, caiu no redemoinho das festas para a Bossa Nova, esqueceu de Mel Tormé e voltou para o Brasil sem voltar a ligar para o grande cantor. Duas semanas depois do Carnegie Hall, aconteceu um novo show de Bossa Nova nos Estados Unidos — que muita gente, como o próprio Carlos Lyra, garante ter sido o “verdadeiro” — no George Washington Auditorium, em Washington. Dele participaram Tom Jobim, João Gilberto, Carlos Lyra, Roberto Menescal, o Sexteto Sérgio Mendes, Sérgio Ricardo, o quarteto de Oscar Castro Neves, Luiz Bonfá, Agostinho dos Santos e Milton Banana. O grupo fechou sua apresentação em Washington, sendo recebido na Casa Branca. Tom Jobim ficou em Nova York por nove meses, período em que foi considerado o melhor arranjador musical . pela National Academy of Recording Arts and Sciences, da qual recebeu seu primeiro troféu internacional. O prêmio foi concedido por causa dos arranjos do disco de João Gilberto que a Odeon havia enviado para os Estados Unidos. Em maio de 1963 Tom gravou Antonio Carlos Jobim — The Composer of Desafinado Plays, com doze músicas suas, entre elas Garota de Ipanema, que em breve seria o maior sucesso da Bossa Nova e da música brasileira no Exterior. No final daquele ano também chegaria às lojas o disco Getz/Gilberto – Featuring Antonio Carlos Jobim, que em menos de um ano vendeu mais de dois milhões de exemplares. O principal êxito do disco foi The Girl from Ipanema, interpretada por Astrud Gilberto. Getz e Gilberto conheceram-se poucos dias depois do concerto no Carnegie Hall, num encontro do qual também participaram Tom Jobim e o produtor Creed Taylor, dono da Verve. A gravação do disco foi uma novela: João e Getz brigavam feitos cão e gato, o primeiro criticando a altura do sax do segundo, que por sua vez brigava com a voz sussurrada de João. Mesmo assim as oito faixas foram gravadas em apenas dois dias e o LP estourou nas paradas, conquistando vários prêmios Grammy. Carlos Lyra também ficou algum tempo nos Estados Unidos, acompanhando o grupo de Stan Getz.“Ajudou muito o fato do Getz ser um músico ligado à Bossa Nova. Ele queria um elemento brasileiro que cantasse acompanhado pelo conjunto dele”, conta. Lyra cantava somente suas canções e era acompanhado por músicos da melhor qualidade: Getz no sax, Gary Burton no vibrafone e Chick Corea no piano. Juntos, apresentaram-se nos Estados Unidos, Japão, Europa, México, Canadá e até no Brasil. Quando se separou do grupo, Lyra continuou sua carreira no Exterior por conta própria. O Carnegie Hall havia enfim provado que o evento tinha sido um sucesso na vida dos compositores e na vida da própria Bossa Nova. Apesar das críticas negativas ao show no Carnegie Hall, a Bossa Nova no Brasil estava mais forte do que nunca no início dos anos 60. Incansáveis, os músicos não paravam de compor e novas parcerias surgiam da noite para o dia. Foi assim com Baden Powell e Vinícius de Moraes. Apresentado a Baden pelo empresário Nilo Queiroz, aluno do violonista, os dois acabaram passando três meses trancados na casa de Vinicius, onde beberam dezenas de garrafas de uísque e criaram 25 canções, entre elas Berimbau e Canto de Ossanha. Em 1962, mesmo ano do Carnegie Hall, Tom Jobim, Vinicius de Moraes e João Gilberto finalmente se reuniram para um espetáculo juntos. O antológico O encontro teve lugar na boate Au Bon Gourmet, em Copacabana. A temporada, prevista para um mês, acabou sendo prorrogada por mais duas semanas, tal foi o sucesso. Aquela foi a primeira vez que “o poetinha” cantou em público, e também foi a primeira vez que Garota de Ipanema foi apresentada num espetáculo. A música, que se tornaria um dos hinos da Bossa Nova em todo o mundo, foi composta por Tom alguns meses antes do espetáculo no Carnegie Hall, e Vinicius colocou a letra mais tarde, inspirado pela famosa garota que eles viram passar da varanda do Veloso, em Ipanema. Helô Pinheiro tinha apenas quinze anos na época. e costumava passar pela Rua Montenegro, atual Rua Vinícius de Moraes, a caminho do mar. Na mesma época, João Gilberto lançou seu terceiro disco, que levava apenas seu nome, viajando em seguida para os Estados Unidos, onde passaria alguns anos sem gravar e até mesmo sem voltar ao Brasil. Entre 1963 e 1969, João Gilberto apresentou-se em várias cidades dos Estados Unidos, Canadá e Europa, conquistando para sempre suas platéias. Em 1965, já separado de Astrud, conheceria em Paris sua segunda mulher, Miúcha Buarque de Holanda. Aloysio de Oliveira resolveu sair da Odeon e, em 1963, criou sua própria gravadora, a Elenco, que se tornou reduto da Bossa Nova. As capas dos discos, sempre brancas e com fotos de Chico Pereira, tornaram-se uma marca registrada da gravadora. Um personagem que marcou época na Bossa Nova foi o bailarino Lennie Dale, Ele chegou ao Brasil trazido por Carlos Machado para coreografar o show Elas Atacam pelo Telefone. Encantado com o Rio, Lennie foi ficando e se enturmou com os músicos do Beco das Garrafas, conseguindo convencê-los da importância dos ensaios para uma melhor performance profissional. Antes disso a improvisação costumava comandar os espetáculos. Lennie chegou inclusive a estrelar um espetáculo antológico, em que cantava O Pato com seu forte sotaque, segurando uma fruteira com um pato de verdade dentro. E foi Lennie também que resolveu inventar passos de dança para a Bossa Nova, já que na época qualquer novo ritmo musical sempre era associado a uma dança específica. Neste início dos anos 60, já começava a se formar a segunda geração dos compositores da Bossa Nova, da qual fizeram parte, entre outros, Marcos Valle, Edu Lobo, Francis Hime, Pingarilho, e Antonio Adolfo. Mais tarde, ainda sob a influência do primeiro grupo, apareceram Milton Nascimento, Chico Buarque e Toquinho.A cantora Elis Regina chegou ao Rio, vinda de Porto Alegre, em março de 1964. Ela já havia gravado três LPs na capital gaúcha: Viva a Brotolândia (1961), Poema (1962) e O Bem do Amor (1963), nos quais demonstrava a influência de sua maior admiração, Ângela Maria. Miéle e Bôscoli criaram para ela um pocket show no Little Club, do qual também participavam o conjunto Copa Trio, do baterista Dom Um, a bailarina Marly Tavares e o pandeirista Gaguinho. Lennie Dale encarregou-se de ensaiar a “baixinha”: foi dele a idéia de rodopiar os braços feito moinhos de vento, o que valeu a Elis o bem-humorado apelido de “Hélice” Regina. Marcos Valle conta que a música sempre esteve presente em sua vida. “Estudei música clássica durante treze anos e meu interesse por música brasileira começou muito cedo, ainda criança”. Lembra ele, que, em 1958, quando surgiu Chega de Saudade, ainda era um adolescente de quinze anos e só tocava nas festinhas dos amigos. Através da cantora Tita, Marcos foi apresentado a Johnny Alf, “Ele achou que eu tinha talento e começou a freqüentar a minha casa e me estimulava muito”, lembra Marcos. Mas sua atividade musical começou a crescer quando reencontrou Edu Lobo, amigo de infância do Colégio Santo Inácio, dentro de um ônibus. Edu comentou que estava tocando violão e que sempre se reunia com Dori Caymmi, filho de Dorival. Entusiasmado, Marcos resolveu se juntar aos dois e em breve eles formariam um trio vocal, com Edu e Dori nos violões e Marcos no piano. Edu Lobo frisa que, nesta época, nenhum deles pensava em música como uma profissão. “Eu já estava programado para estudar Direito e seguir carreira diplomática”, conta Edu, filho do jornalista e compositor Fernando Lobo. Mesmo assim, começaram a freqüentar as reuniões da Bossa Nova. Marcos Valle da primeira vez em que esteve na casa de Ary Barroso: “Estava todo mundo lá, Vinicius, Carlos Lyra, Baden Powell. Eles eram meus ídolos e de repente eu estava ali, no meio deles”. Numa outra reunião, esta na casa de Vinicius, Marcos reencontrou Lula Freire, amigo de infância de seu irmão Paulo Sérgio. Quando, já no fim da noite, Marcos pegou o violão, Lula imediatamente o convidou para ir no dia seguinte á sua casa para apresentá-lo aos músicos do Tamba Trio de Luizinho Eça. Marcos foi, mostrou algumas de suas primeiras composições, Sonho de Maria, Razão do Amor e Vem o Sol, e Luizinho, que já estava com disco praticamente pronto, resolveu voltar ao estúdio para gravar uma das canções de Marcos que mais o havia encantado: Sonho de Maria. Nesse mesmo dia Marcos foi apresentado a Carlos Lyra, Roberto Menescal, Luís Carlos Vinhas e Chico Feitosa. Menescal acabou levando-o aos Cariocas, que gravaram Vamos Amar, parceria com Edu Lobo, e Amor de Nada. No ano seguinte Marcos foi chamado para um teste na Odeon, gravadora na qual acabou ficando por doze anos. Seu primeiro disco, Marcos Valle Samba Demais, foi lançado em 1964. Edu Lobo lembra que aquela época foi muito especial, e que talvez nunca mais se repita em nenhum lugar do mundo. “Bastava você trabalhar muito para que as coisas acontecessem”, conta Edu. A história de sua parceria com Vinicius é um exemplo. Edu Lobo conheceu Vinicius de Moraes numa festa na casa de Olívia Hime, em Petrópolis. “Ela me ligou no final da tarde e disse para eu ir ate lá, porque o Vinicius também estava indo. Eu nunca tinha visto o Vinicius antes, a não ser em shows, e fui correndo”, lembra. (...) Continua na próxima postagem. Fonte: Revista Caras - Edição Especial de Julho de 1996.
Boa leitura - Namastê

domingo, 9 de dezembro de 2018

2014 - The Brazil connection - VA

Artista: VA
Álbum: The Brazil Connection
Lançamento: 2014
Selo: Sony Music
Gênero: Bossa Nova, Brazilian Songs, Latino Jazz
Se a excelente ideia dos produtores Christian e Frank Berman (conhecidos como The Berman Brothers no mercado musical norte-americano) tivesse dado errado, o CD The Brazil Connection talvez soasse com macumba para turista. Mas a ideia - de desossar gravações de ícones do jazz e do soul dos Estados Unidos para aproveitar somente a voz original e, a partir dessa voz, criar arranjos calcados na cadência do samba e da bossa nova (a rigor, já uma espécie de samba) - deu muito certo e resultou num dos discos mais elegantes do primeiro semestre de 2014. Lançado neste mês de junho, o CD The Brazil Connection se escora no talento do time de arranjadores arregimentados para o projeto. Na medida certa, Marcos Valle, Mario Adnet, Roberto Menescal e Torcuato Mariano - que assina alguns arranjos com os próprios The Berman Brothers - fazem essas lendárias vozes caírem no suingue brasileiro com espantosa naturalidade. O maior exemplo do acerto do disco é Sexual healing (Marvin Gaye e Odell Brown, 1982). O canto soul e sensual de Marvin Gaye (1939 - 1984) se ambienta com perfeição no clima de gafieira e na cadência bonita do samba em arranjo assinado por Torcuato Mariano com The Berman Brothers. No mesmo estilo, o mesmo time de arranjadores cria a levada de Lovely day (Bill Withers e Skip Scarborough, 1977), sucesso do cantor norte-americano de soul e r & b Bill Withers. Sem evocar os clichês dos arranjos da música da qual é um dos mestres, Menescal também acerta o tom bossa-novista da orquestração que envolve a gravação de Walk on by (Burt Bacharach e Hal David, 1964) na voz da cantora norte-americana Aretha Franklin. O mesmo sutil clima de bossa nova ambienta - em arranjo de Torcuato Mariano - a gravação de You've Changed (Bill Carey e Carl Fischer, 1941) na voz de Billie Holiday (1915 - 1959), icônica cantora de jazz. Com igual inspiração, Mario Adnet consegue trazer o funk-soul Family affair (Sly Stone, 1971) para a cadência do sambossa sem fazer a gravação de Sly & The Family Stone sair do tom. The Brazil connection se perde apenas na praia do reggae. O arranjo de Torcuato Mariano nada acrescenta ao reggae I Can See Clearly Now (Johhny Nash, 1974). Dá saudade da levada da gravação original lançada em 1972 pelo cantor norte-americano Johnny Nash. No mais, as conexões Brasil-Estados Unidos resultam refinadas e bem-sucedidas. O projeto The Brazil connection nada fica a dever aos discos da série Verve remixed, coleção iniciada em 2002 que inseriu gravações da gravadora Verve no mundo da música eletrônica. Conectados ao samba e à bossa nativa, quase todas as vozes do jazz e soul caem no suingue brasileiro sem perder o rebolado. Parece fácil, mas não é.

Boa audição - Namastê

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

A história da Bossa Nova - Parte XVIII



A esta altura, Sidney Frey já havia convocada a imprensa para uma entrevista coletiva, em que anunciou que alugara o Carnegie Hall para um show de Bossa Nova, e que o Itamaraty financiaria as passagens. Isto bastou para que dezenas de pessoas batessem à porta de Dias Costa, garantindo serem integrantes genuínos do movimento. Em São Paulo, um grupo se reuniu e resolveu participar também, conseguindo suas passagens através da gravadora RGE. Entre eles, os cantores Agostinho dos Santos, Caetano Zama e Ana Lúcia. Aloysio de Oliveira ficou preocupadíssimo com a quantidade de músicos inexperientes (alguns sem terem mesmo nada a ver com a Bossa Nova) que estavam prestes a embarcar para a apresentação. Ele acreditava que a proposta inicial de Frey era melhor: um show apenas com João Gilberto e Tom Jobim seria mais do que suficiente para mostrar todo valor da música brasileira, sem correr o risco de um eventual fracasso na principal casa de espetáculos que poderia comprometer a intenção de apresentar a Bossa Nova como o que de melhor se fazia em música fora dos Estados Unidos. Com esta preocupação martelando sua cabeça, A1oysio tentou suspender a ida do grupo: convocou uma reunião na casa de Tom Jobim, à qual compareceram Carlos Lyra, João Gilberto e Vinicius de Moraes e sugeriu que seria melhor que todos desistissem do espetáculo uma vez que o show poderia transformar-se em uma grande bagunça. Aloysio foi tão convincente em seus argumentos que todos saíram dali acreditando que seria mesmo melhor desistir da empreitada. Mas Vinícius chamou Lyra num canto e disse: “Parceirinho, não deixa de ir não, porque Tonzinho e João vão". "Na verdade o Aloysio preferia que todo mundo desistisse para só irem ele, o Tom e o João Gilberto”, conta Carlos Lyra, que imediatamente avisou Menescal e os outros que resolveram enfrentar o desafio. Dias depois, embarcaram para Nova York, onde já estava o violonista Luiz Bonfá, que já desfrutava de grande prestígio junto ao público e aos músicos americanos. No dia do embarque, criou-se um certo constrangimento quando Aloysio entrou no avião: todos fizeram um silêncio mortal. O produtor acabou sentando-se sozinho num canto, onde passou toda o viagem. Na última hora, Tom Jobim, que detestava avião, não quis embarcar naquele vôo, alegando que o motor do avião estava sujo, e deixou para viajar no dia seguinte. Mas ele não perdeu muita coisa: Caetano Zama não esquece o tormento que foi ouvir o cantor Charles Aznavour, que também estava no avião, tocar cavaquinho durante toda a viagem. A chegada aos Estados Unidos foi uma espécie de sonho. Era outono em Nova York, com dias belíssimos e vários tons de amarelo colorindo a cidade, coberta de folhas secas. Tom Jobim deu um susto em Mário Dias Costa: desapareceu no dia seguinte ao de sua chegada em Nova York. Todos ficaram preocupadíssimos, até que alguém se lembrou de que ele tinha dito alguma coisa sobre ir à casa do saxofonista Gerry Mulligan em Nova Jersey. Foram atrás dele e encontraram “Tom e Gerry”, ao lado de uma pilha de latas de cerveja. Tinham passado a tarde toda bebericando e tocando juntos. Finalmente a grande noite chegou: no dia 21 de novembro de 1962, a Bossa Nova subiu ao palco do Carnegie HalI. Compareceram ao histórico espetáculo Luiz Bonfá, o conjunto de Oscar Castro Neves, Agostinho dos Santos, Carlos Lyra, Sérgio Mendes, Roberto Menescal, Chico Feitosa, Normando Santos, Caetano Zama, Ana Lúcia, Cláudio Miranda, Milton Banana, Sérgio Ricardo, Antonio Carlos Jobim e João Gilberto, além do violonista Bola Sete, a cantora Carmen Costa, o ritmista José Paulo e o pianista argentino Lalo Schiffrin. Ninguém, nem mesmo o próprio Itamaraty, imaginaria que aquele concerto pudesse superar o sucesso do samba de Carmen Miranda, que chegara as telas de Hollywood nos anos 40. Cerca de três mil pessoas lotaram o Carnegie Hall e outras mil ficaram do lado de fora. Na platéia estavam nomes como Tony Bennett, Peggy Lee, Dizzy Gillespie (este na primeira fila), Miles Davis, Gerry Mulligan, Erroll Garner e Herbie Mann, entre muitos outros ilustres representantes da música americana. O master of ceremonies, o famoso crítico de jazz Leonard Feather, fez uma introdução explicando o que era a Bossa Nova. O sexteto de Sérgio Mendes, por sugestão de Lula Freire batizado como Bossa Rio (o nome original do grupo era Samba Rio), abriu o espetáculo e sua interpretação foi aplaudidíssima. Anos depois, Mário Dias Costa confessou que chegou a chorar quando o grupo tocou Samba de Uma Nota Só, com arranjo de Paulo Moura. Alguns jornais publicaram a notícia de que o concerto havia sido um fracasso. Realmente, o sistema de amplificação não era dos melhores, chegando a pifar quando Normando cantava sua música. Boa parte do público que estava nos balcões e galerias não ouviu direito o concerto, o que prejudicou a qualidade de audição do espetáculo, mas sem dúvida foi a partir dali que João Gilberto, Tom Jobim e Carlos Lyra entre outros, deslancharam suas carreiras internacionais, e foi também a partir dali que a Bossa Nova conquistou definitivamente o mundo. Carlinhos Lyra quase apanhou de um guarda americano porque estava fumando bem embaixo de um aviso de No Smoking, quando foi alertado por Tom Jobim, que o fez apagar o cigarro alegando que nos Estados Unidos Lyra poderia ir parar na cadeira elétrica por infringir a lei. No meio do espetáculo, que durou quase três horas, o Sindicato dos Trabalhadores em Teatro de Nova York ameaçou apagar todas as luzes, pois já tinham estourado sua carga horária de trabalho. A consulesa Dora Vasconcellos teve de usar de toda a sua diplomacia para conseguir que eles continuassem a trabalhar. Apesar de todos estes contratempos, quem estava pôde presenciar momentos inesquecíveis. Tom Jobim foi muito aplaudido em Samba de Uma Nota Só, mesmo tendo errado a letra. Apesar do nervosismo, ele teve grande presença de espírito ao parar de tocar para recomeçar. “Just a second”, disse Tom para então recomeçar com brilhantismo. Depois cantou Corcovado, Sob aplausos, Tom Jobim saiu do palco e logo depois voltou paro dizer: “It’s my first time in New York and I’m ver very, very glad to be here.I’m loving the people, the town everything. I’m very happy to be with you”. Já o Gilberto, na última hora, implicou com o vinco de sua calça. Chamou o conselheiro Mário Dias Costa e explicou-lhe que o vinco não estava paralelo à costura, o que prejudicaria sua apresentação e conseqüentemente poderia comprometer a imagem da música brasileira no Exterior. Apavorado, Mário Dias Costa pediu socorro à consulesa Dora Vasconcellos, que localizou a costureira do teatro para conseguir um ferro de passar. Até hoje algumas pessoas garantem que a própria Dora passou a calça de João, enquanto ele esperava tranqüilamente, de meias e cueca. João entrou no palco com um violão emprestado por Billy Blanco. Ele aguardou o silêncio e cantou Samba da Minha Terra com Milton Banana na bateria e emendou com Corcovado e Desafinado, com Tom Jobim ao piano. Levou o Carnegie Hall ao delírio. Os aplausos não eram à toa: somente naquele ano, Desafinado tivera onze gravações nos Estados Unidos, uma delas a de um milhão de discos vendidos, com Stan Getz e Charlie Byrd. Outro ponto alto do espetáculo foi a apresentação de Luiz Bonfá ao violão e Agostinho dos Santos cantando Manhã de Carnaval. Bonfá lembra que Agostinho, muito nervoso, abordou-o pouco antes do show começar: “Bonfá, você vai tocar Manhã de Carnaval”? Bonfá confirmou. “Posso cantar com você?”, pediu Agostinho. Bonfá, muito sem jeito, disse que não, já que o que estava combinado era que ele faria apenas um solo com o violão, e não queria se indispor com Sidney Frey. Agostinho não desistiu: “Não tem importância, você modula que depois eu entro...”. Depois de muita insistência, Bonfá cedeu: combinaram que ele faria primeiro uma introdução instrumental e depois anunciaria Agostinho. Mas quando o violonista começou a tocar, os aplausos abafaram o som. Agostinho, achando que já era sua hora, entrou. E acabou cantando desde o início, exatamente como queria. (...) Continua na próxima postagem. Fonte: Revista Caras - Edição Especial de Julho de 1996.
Boa leitura - Namastê

domingo, 2 de dezembro de 2018

2003 - O Universo Musical de Baden Powell - Baden Powell

Artista: Baden Powell
Álbum: O Universo Musical de Baden Powell
Lançamento: 2003
Selo: Sunny Side (Universal)
Gênero: Bossa Nova, Brazilian Songs, Latino Jazz
                                                          Curiosidades 'Bossa Nova'
O primeiro show profissional da turma inicial da Bossa Nova foi no Clube Universitário Hebraico do Brasil, no Flamengo, no Rio de Janeiro. No palco, Menescal, Lyra, Sylvinha Telles, Normando Santos, Luizinho Eça, Bebeto e Bôscoli. Na entrada, num quadro negro, lia-se: "Hoje, Sylvinha Telles e um grupo bossa nova". A secretária do clube colocou o termo "bossa nova" porque não sabia o nome do conjunto que iria tocar. Até então a expressão "bossa" já havia sido utilizada por outros músicos, como Noel Rosa, em 1932, para designar aquilo que era novo, diferente. E assim ficou. Trêmulos, aqueles moços e moças, exceto Sylvinha Telles, subiam a um palco pela primeira vez na vida, apresentando uma estranha combinação de jazz e samba.
Boa audição - Namastê

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

A história da Bossa Nova - Parte XVII

O flautista americano Herbie Mann foi realmente o primeiro músico estrangeiro a adotar a bossa nova como fonte musical. Em Nova York convenceu o dono da gravadora Atlantic, Nesuhi Ertegun, a vir com ele ao Brasil para ouvir a nova música que, segundo Herbie, iria “incendiar o mundo”. Ertegun já conhecia Vinícius de Moraes do tempo em que este servira no Consulado do Brasil em Los Angeles. Ao saber que o poeta era um dos participantes do movimento, e depois de ouvir Herbie Mann contar o que ouvira no Brasil, não teve dúvidas, desceu no Rio e logo na segunda noite Lula Freire promoveu, a pedido de Herbie Mann, de quem já era amigo, um jantar em sua casa com a presença da nata da Bossa Nova. Chico Feitosa, Durval Ferreira, Menescal, Vinícius, Luizinho Eça, Baden Powell, Tom e Sérgio Mendes tocaram para Nesuhi e Herbie, que sacou da flauta e entrou direto no ritmo e no som da Bossa Nova. Lá mesmo combinaram que antes de retornar para Nova York deveriam gravar um disco do flautista com os músicos brasileiros. O resultado foi a gravação do disco Do the Bossa Nova com o americano e os músicos brasileiros Baden Powell, Gabriel, Papão, Juquinha, Paulo Moura, Pedro Paulo, Sérgio Mendes, Durval Ferreira, Otávio Bailly, Dom Um Romão e Luiz Carlos Vinhas. No estúdio, Nesuhi Ertegun comandava a parte técnica e Tom Jobim coordenava e dava sugestões sobre os arranjos. Não demorou muito e começou uma migração de músicos americanos para o Brasil em busca das composições de Bossa Nova. Paul Winter, Bud Shank e Cannonball Adderley colocaram o Rio em seu roteiro. Nos Estados Unidos o novo som do Brasil era o novo filão para as gravadoras e editores de música. Tudo era Bossa Nova. Até o que não era. O violonista brasileiro Laurindo de Almeida, que residia há anos na América e que não tinha rigorosamente nada a ver com a Bossa Nova, gravou um disco chamado Laurindo Almeida and the Bossa Nova all Stars. Os músicos eram excelentes jazzistas como Howard Roberts, Al Viola, Shelly Mane, Milt Holland, Chico Guerrero, Jimmy Rowles, Max Bennett, Bob Cooper, Don Fagerquist e Justin Gordon, mas quanto à Bossa Nova eram mais inocentes do que o próprio Laurindo de Almeida. O músico David Pike, mais esperto, gravou com os músicos Clark Terry e Kenny Burrell um disco com as músicas do pianista e grande compositor João Donato, que também morava na América. Donato voltou para o Brasil e foi imediatamente agregado ao movimento, até porque havia sido um dos primeiros a mudar o toque e as harmonias da música brasileira ainda no começo dos anos 50. A música de Tom Jobim rapidamente estourava na América: Charlie Byrd e Dizzy Gillespie gravaram composições suas e Stan Getz fez a famosa gravação de Desafinado, da qual vendeu mais de um milhão de exemplares. Mas Tom Jobim só foi conhecer os Estados Unidos quando embarcou junto com outros brasileiros para o famoso concerto no Carnegie Hall, onde a Bossa Nova foi oficialmente apresentada ao mundo. Em setembro de 1962, a Bossa Nova conquistou definitivamente seu lugar no mundo da música, no histórico espetáculo apresentado no tradicional Carnegie Hall de Nova York. Tudo começou quando Sidney Frey, presidente da gravadora americana Audio Fidelity, resolveu convidar Tom Jobim e João Gilberto para um show em Nova York Frey, que já havia estado no Brasil algumas vezes, passou um telegrama para a Divisão de Difusão Cultural do Itamaraty — cujo chefe era o conselheiro Mário Dias Costa — demonstrando seu interesse e pedindo o apoio do governo brasileiro. Na época a política cultural do Itamaraty estava mais ligada à promoção de músicos, como Nelson Freire e Jacques Klein, e acontecimentos como a Bienal de Veneza. Apesar disso, Mário Dias da Costa, amante da música brasileira e cultura nacional achou que deveria conhecer a bossa nova mais de perto. Arnaldo Carrilho, então terceiro-secretário da Divisão de Difusão Cultural, encarregou-se de fazer o contato entre ele e Chico Feitosa, que por sua vez levou o diplomata a uma reunião na casa de Nara Leão. Dias Costa, encantado com o que viu e ouviu naquela noite, resolveu que o grupo deveria participar do espetáculo em Nova York, com eventual ajuda do governo brasileiro através do Ministério das Relações Exteriores. Com a autorização de seu chefe, o ministro das Relações Exteriores, Hermes Lima, e de seu superior imediato, ministro Lauro Escorel, Mário Dias Costa resolveu usar a verba disponível para eventos de difusão cultural e financiar as passagens do grupo para Nova York. A hospedagem ficaria por conta do Consulado do Brasil em Nova York, o que foi providenciado pela consulesa-geral do Brasil Dora Vasconcellos, uma das mais encantadoras e eficientes personalidades da diplomacia brasileira. Chico Feitosa encarregou-se de elaborar a lista dos músicos que iriam participar. A lista inicial, com dezessete nomes, incluía Ronaldo Bôscoli como apresentador do espetáculo No entanto, Tom Jobim sugeriu que, no lugar de Bôscoli, embarcasse Aloysio de Oliveira, que já tinha morado nos Estados Unidos e tinha bons contatos e ótimas relações por lá. Bôscoli acabou ficando no Rio. (...) Continua na próxima postagem. Fonte: Revista Caras - Edição Especial de Julho de 1996. 
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domingo, 25 de novembro de 2018

2013 - New Beat Bossa Nova Vol.1 & 2 - Zoot Sims

Artista: Zoot Sims
Álbum: New Beat Bossa Nova Vol. I & II
Lançamento: 2013
Selo: White (American Jazz Classi)
Gênero: Bossa Nova, Brazilian Songs, Latino Jazz
Por volta de  1932, o compositor Noel Rosa ouviu a expressão "bossa" em sala de aula, na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Na época, a palavra significava - no jargão médico - "protuberância arredondada na superfície óssea do crânio", que, de acordo com uma ciência chamada frenologia, determinava a vocação e capacidade das pessoas.  Ele acabou usando a palavra no samba "São Coisas Nossas", empregando "bossa" com o sentido de aptidão, vocação. Um grupo de sambistas formado por Mário Reis, Luiz Barbosa e Ciro Monteiro adotou o termo e passou a se auto-denominar "cantores de bossa". Na década de 1950, a gíria já tinha se espalhado pela cidade e qualquer coisa original ou extravagante era chamada de "bossa". Em 1958, o show de um grupo de música moderna foi anunciado como "Show com Sílvia Teles e um conjunto de bossa nova" pelo Grupo Universitário Hebraico. Participante do evento, o compositor e produtor musical Ronaldo Bôscoli passou a usar "bossa" para definir aquele tipo de música - uma mistura de samba, bolero e jazz. A música "Desafinado", composta por Tom Jobim e Newton Mendonça, é considerada a primeira música de bossa nova. O termo aparece na letra, no trecho "Se você insiste em classificar / Meu comportamento de anti-musical / Eu mesmo mentindo devo argumentar / Que isto é Bossa Nova, isto é muito natural".

Boa audição - Namastê

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

A história da Bossa Nova - Parte XVI

Paulinho Nogueira foi um dos primeiros a despontar. Em São Paulo desde 1952, pensava ser desenhista publicitário, até que descobriu seu verdadeiro caminho e foi trabalhar como violonista na boate ltapoã. Segundo diz, “a gente estava sempre tocando nas casas noturnas, e só curtia mesmo a música quando acabava a função; aí é que a coisa esquentava...”. Professor de violão, não apenas se apresentava nos espetáculos do circuito universitário, como fazia “escada” para os artistas mais jovens, quando necessário. Theo de Barros começou tocando jazz na boate de jovem-guarda Lancaster, na Rua Augusta, alternando com um conjunto de rock. Tocou em várias casas noturnas, como Cambridge, Baiúca, João Sebastião e Ela, Cravo e Canela, Participou do grupo, das reuniões e das noites de Bossa Nova, e dirigiu Historinha, já na fase do Teatro Paramount, tendo preparado, para este espetáculo, arranjos que incluíam trompetes e violinos para o conjunto de Erlon Chaves. O cantor, violonista e compositor Sérgio Augusto estudava Química Industrial e trabalhava na noite para ajudar a custear os estudos. Freqüentador da turma carioca da qual nasceu a Bossa Nova, seu estilo de tocar violão chamava a atenção, assim como suas primeiras composições, dentre as quais Barquinho Diferente, gravada por Claudete Soares, Milton Banana Trio, Zimbo e outros. Fez parte do conjunto de Pedrinho Mattar quando este se apresentava com Claudete, no Ela Cravo e Canela e no João Sebastião Bar, tendo inclusive ali substituído Vera Brasil, Sérgio Augusto participava do circuito universitário e se apresentava no Le Barbare e no Estão Voltando as Flores. Segundo seu depoimento, “inesquecíveis eram os fins de noite na boate Bon Soir, quando todos os músicos deixavam seu trabalho e iam ouvir o violão e as canções de Walter Santos, ídolo de todos nós naquela época, sob cujo samba o sol nascia lá para os lados da antiga Praça Roosevelt”. Walter Santos, também baiano e também de Juazeiro, fez parte do back vocal do disco pioneiro de Elizeth Cardoso, ao lado de Tom Jobim e de João Gilberto, e foi presença do maior destaque nos primeiros anos da Bossa Nova em São Paulo, assim como outro conterrâneo, Geraldo Cunha, igualmente violonista, compositor e cantor, que participou do show O Fino da Bossa, e chamava público em inúmeras casas noturnas entre as quais o Le Barbare, o Jogral e, anos depois, o III Whisky. Entre tantos outros, Edgard Gianullo sempre teve pendores para os arranjos vocais, tendo liderado vários conjuntos com clara influência do jazz e da Bossa Nova, o mais recente dos quais o Quatro por Quatro. Participou da orquestra de Simonetti e acompanhou inúmeros cantores da moderna música popular brasileira. Apaixonado por música desde os catorze anos, em particular dos Anjos do Inferno, a maior diversão de sua turma era fazer novos arranjos para músicas antigas. “Aparecia até a Carmen, de Bizet, em ritmo de Bossa Nova”, comenta, citando inclusive que Vinícius e Tom costumavam freqüentar as reuniões desse grupo em São Paulo. Mesmo polarizada pela velha Praça Roosevelt, a Bossa Nova paulista a partir de 1961 passou a ter fora dela, não longe, porém em duas direções opostas, as casas noturnas mais marcantes em matéria de música popular brasileira, e de Bossa Nova em particular. Para os lados da Vila Buarque, próximo ao Mackenzie e à Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, a FAU: uma série de bares como o Le Barbare, o Manolo, o Ela, Cravo e Canela e particularmente o João Sebastião Bar, na Major Sertório, dirigido por Paulo Cotrim. Na Avenida Nove de Julho, não longe do Anhangabaú, o bar do Hotel Claridge, que depois virou Cambridge para aproveitar o maior número de letras quando teve de mudar o nome. Cotrim havia sido diretor artístico da boate Cave, numa época, entre 1959 e 1960, com música de qualidade e shows de bolso que tiveram grande sucesso. Era ligado aos movimentos de juventude católica e dono de uma pensão de estudantes na Rua Sabará, que era ponto de encontro de jovens lideranças intelectuais e artísticas. Anos mais tarde transformou-se em prestigiado cronista de assuntos gastronômicos. Sua proposta era a criação de um novo espaço, especialmente projetado para ser uma casa de música, de shows e de reunião, objetivo que alcançou, tornando-a no mínimo o local mais badalado da cidade. Foram suas atrações, entre muitas outras, Claudete Soares acompanhada por Pedrinho Mattar, com Sérgio Augusto (violão), Azeitona (baixo) e Hamilton (bateria); o Sambalanço Trio, do pianista César Camargo Mariano, Kleiber (baixo) e Airto Moreira (bateria) Pery Ribeiro; o Sexteto Brasileiro de Bossa Nova, liderado por Theo de Barros; e o Quarteto de Eli Arcoverde. Foi lá, por exemplo, a primeira apresentação pública de Gilberto Gil, então funcionário em São Paulo da Cia. Gessy-Lever. Entre os locais eleitos pela Bossa Nova, o João Sebastião Bar era, segundo a cantora Ana Lúcia, “uma Ipanema para os paulistas. Lá, na mesma noite, podia-se encontrar Lennie Date, Tônia Carrero, Tarcísio Meira e Glória Menezes ou a Condessa Pereira Carneiro”. Segundo ela, a maior atração da casa eram as “canjas”, além dos dois ou três conjuntos contratados e uns quatro cantores. “O Jô Soares, por exemplo, sempre aparecia para tocar bongô ..“. Já a história do Cambridge relataria principalmente as diferenças na composição dos conjuntos que ali se apresentavam, num clima mais calmo, para um público mais voltado à qualidade musical. Entre outros, deve-se lembrar o conjunto de Manfredo Fest, com Matias (baixo) e Heitor (bateria); o de Pedrinho Mattar, com Azeitona (baixo), Toninho Pinheiro (bateria) e Papudinho (pistom) acompanhando Claudete, e o da própria, acompanhada por Walter Wanderley, no quarteto vocal que formaram com a participação de Alaíde Costa. Logo a Bossa Nova começou a ser exportada. A Odeon lançou João Gilberto nos Estados Unidos através de uma montagem de gravações intitulada BraziI’s Brilliant. Em 1961, houve no Teatro Municipal do Rio um espetáculo de jazz com os músicos americanos Coleman Hawkins, Curfis Fuiler, Zoot Sims e Herbie Mann, entre outros. Fascinados com as possibilidades infinitas de improviso da Bossa Nova, eles voltaram para os Estados Unidos com algumas músicas para serem gravadas. O trompetista Alberto Castilho lembra que, em 1961, foi um dos músicos convidados a tocar no primeiro festival de jazz da América Latina, em Punta del Este, no Uruguai. O conjunto era formado por ele, Juarez Araújo (sax tenor), Paulinho Ferreira (sax barítono), Bill Horne (trompete) Pedro Paulo (contrabaixo), Sérgio Mendes (piano), Tião Neto (contrabaixo) e Oswaldinho Oliveira Castro (bateria). Participavam Argentina, Brasil, Uruguai e Chile. “Até o conjunto argentino já tocava Bossa Nova”, lembra Alberto, contando também que durante as apresentações do festival só se tocava jazz, mas nas jam sessions que aconteciam depois, nos bares de Punta del Este, a Bossa Nova era o grande acontecimento. (...) Continua na próxima postagem. Fonte: Revista Caras - Edição Especial de Julho de 1996. 
Boa leitura - Namastê

domingo, 18 de novembro de 2018

2004 - Bossa Nova York - Sergio Mendes Trio


Artista: Sergio Mendes Trio
Álbum: Bossa Nova York
Lançamento: 1964 (2004)
Selo: Elenco ' Universal Music'
Gênero: Bossa Nova, Brazilian Songs, Latino Jazz
 “Olha, bicho, não dá pra você. Você quer cantar igualzinho a João Gilberto – e nós já temos o João Gilberto!” 
Roberto Menescal ao tentar convencer Roberto 
Carlos a não fazer bossa nova.
Boa audição - Namastê

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

A história da Bossa Nova - Parte XV

Na Cave, por exemplo, eram anunciados, além de um cantor de rock, Ana Lúcia, Johnny Alf e trio e a participação especial de Booker Pittman, que compunha à época, com Hector Costita e Enrico Simonetti, um trio de ouro de músicos estrangeiros radicados em São Paulo e que tiveram participação no movimento. Em setembro de 1959, Vinícius de Moraes teve um encontro com os alunos da Politécnica, superlotando o maior dos auditórios da faculdade e resultando numa crônica que tem sido incluída em suas antologias. Mais até do que poesia, mulher e política, temas da divulgação do evento entre os universitários, foi o novo movimento musical que motivou maior número de perguntas e debates. O modo diferente de João cantar e de tocar violão, o futuro da Bossa Nova sendo perene ou um mero modismo, a possibilidade de Norma Bengell ser enquadrada como cantora ou não, tudo sinalizava por uma grande valorização do tema pela juventude de então. O evento foi encerrado com o poeta tirando do bolso o manuscrito da letra de uma música nova que ele ainda não decorara e que cantou, acompanhado por Caetano Zama, em dueto com Mariana Pôrto de Aragão, uma “cantorinha promissora”, para quem ele previa uma bela carreira na Bossa Nova. A canção era Samba em Prelúdio, e Mariana abandonou pouco depois a carreira, para casar-se com seu empresário e dono da boate Cave, Jordão de Magalhães. São Paulo sempre se caracterizou pelo alto nível de seus instrumentistas, e o movimento da Bossa Nova trouxe no mínimo o resgate do violão e a revalorização do trio piano/baixo/bateria. Para não retroceder demais no tempo, pelo menos desde os áureos tempos do Teatro Brasileiro de Comédia e da Cinematográfica Vera Cruz, criados por Franco Zampari, São Paulo passou a ter um local onde se praticava permanentemente o jazz e a música nacional por ele influenciada. Essa base era o Nick Bar, de Joe Kantor, vizinho ao TBC e ao qual havia acesso direto através da sala de espera do teatro. Ponto de encontro de artistas, intelectuais e socialites, ali se apresentaram os principais pianistas da década de 50 — basta citar, por exemplo, Dick Farney, que inclusive gravou, em homenagem a ele, uma depois célebre canção, de autoria de Garoto e J, Vasconcelos. Vários foram os instrumentistas que se destacaram durante o período de apogeu da Bossa Nova - digamos, de 1959 a 1964 -, a começar por Johnny Alf, que passara a viver em São Paulo quatro anos antes e que trabalhou em pelo menos uma dezena de casas noturnas, entre as quais Cave, Baiúca, Michel e Stardust. Em 1961, quando voltou para o Rio de Janeiro, acabara de gravar seu primeiro disco, que incluía Rapaz de Bem, Ilusão à Toa e O que É Amar. Naquela época despontava no Rio de Janeiro uma das mais importantes figuras da música brasileira: o violonista Baden Powell. Antes mesmo de o movimento da Bossa Nova existir, Baden já era um conceituadíssimo e exímio instrumentista. Seu violão transcende a qualquer movimento musical, mas o advento da Bossa Nova trouxe a Baden Powell a possibilidade de compor e tocar com e para músicos de alta qualidade. Foi um dos grandes parceiros de Vinícius de Moraes, com quem escreveu clássicos como Samba da Bênção, Pra que Chorar, Formosa, Berimbau, Canto de Ossanha e Apelo. Entre inúmeras outras canções, o grande violonista também compôs Samba Triste, com Nilo Queiroz, Lapinha e Aviso aos Navegantes, com Paulo César Pinheiro, Cidade Vazia e Feitinha pro Poeta com Lula Freire. Na gravação de um disco do compositor francês Michel Legrand, uma certa faixa do disco Sérénades du XXême Síècle, a difícil peça He Antonio não era tocada pelos violonistas espanhóis presentes à gravação, como Legrand queria. “Chamem Baden Powell”, sugeriu um músico da orquestra. Assim foi feito e, uma vez no estúdio, Baden, de primeira, executou o tema exatamente como havia sido escrito, superando mesmo as expectativas do genial Michel Legrand. Depois de alguns anos morando em Paris, Baden voltou para o Brasil. Retornando para mais uma temporada na Europa, escolheu viver uns tempos na Alemanha, Curiosamente, na cidade de Baden-Baden! Em l964 dois instrumentistas de grande prestígio e vivência na música popular, particularmente em São Paulo, o baixista Luiz Chaves e o baterista Rubens Barsotti, o Rubinho, uniram-se ao pianista Hamilton Godoy para constituir o Zimbo Trio, que chegou a completar trinta anos com a mesma formação, dedicando-se a um repertório coerente, mantendo fidelidade a um padrão musical que mostrou possuir público permanente e chegando inclusive a criar uma escola (o Clam) para a formação musical e aperfeiçoamento de instrumentistas. Luiz Chaves, nascido e criado em Belém do Pará, acredita que, antes do surgimento da Bossa Nova, já existia um movimento nacional que buscava explorar o bom gosto dentro da música brasileira. Filho de um violinista e uma pianista, Luiz lembra que sua mãe, apesar da formação erudita, mandava buscar álbuns de Fats Waller nos Estados Unidos. “Por minha casa passaram os maiores nomes da música do Rio de Janeiro”, conta. Ele cita, entre outros, Orlando Silva, Os Anjos do Inferno e Lúcio Alves. Enquanto as estrelas ensaiavam dentro de sua casa, as pessoas se acotovelavam do lado de fora para ouvir. “E nós íamos aprendendo...”, confessa. O compositor Custódio Mesquita foi, durante algum tempo, diretor artístico da PRC5, Radioclube do Pará. Aos treze anos, Luiz Chaves fundou com o irmão Sebastião, conhecido também como o contrabaixista Sabá - outro nome indispensável em qualquer relação de músicos importantes na história da Bossa Nova - o conjunto Gaviões do Samba, inspirado nos Cariocas. Mais tarde, na época do auge da Bossa Nova, Sabá formou com o percussionista Toninho Pinheiro e com o pianista Cido Bianchi o Jongo Trio, de grande êxito inclusive pelos arranjos vocais, posteriormente sucedido pelo Som Três, então com César Mariano ao piano. O baterista do Zimbo, Rubinho, também cresceu ouvindo música norte-americana, fez parte de vários conjuntos e tocou em inúmeras casas noturnas. Participava intensamente de gravações, na época em que surgiu a Bossa Nova — e ele cita, como exemplo, os discos de Maysa e de Agostinho dos Santos —, graças às quais sustentava o curso de Direito na Universidade Mackenzie. Segundo Rubinho, a Bossa Nova surgiu no Rio, “mas quando chegou a São Paulo, todo mundo estava pronto para participar e participou. Foi tudo muito natural e espontâneo”. Quanto ao pianista do trio, Hamilton, músico de formação preponderantemente erudita, conta que ele e seus irmãos, nascidos e criados em Bauru, no interior de São Paulo, ouviam muita música em casa, já que seu pai adorava orquestras americanas, como as de Glenn Milier e Tommy Dorsey. Dos artistas brasileiros preferiam como exemplo Carlos Galhardo, Orlando Silva, Dick Farney e Agostinho dos Santos, O programa da Rádio Eldorado Um Piano ao Cair da Tarde era algo obrigatório para eles. Seus irmãos Adylson e Hamilson vêm desenvolvendo suas carreiras profissionais, inclusive como pianistas, confirmando e deixando claras as influências reveladas por Hamilton. No que se refere à Bossa Nova propriamente dita. o pianista do Zimbo comenta que “a gente estava preparado para ouvir um tipo de música e, quando o disco do João Gilberto apareceu lá em casa, causou reações diferentes. Meu pai se irritava com aquilo, enquanto a gente adorava”. (...) Continua na próxima postagem. Fonte: Revista Caras - Edição Especial de Julho de 1996.
Boa leitura - Namastê

domingo, 11 de novembro de 2018

2000 - Bossa Nova - VA (OST)

Artista: VA
Álbum: Bossa Nova (OST)
Lançamento: 2000
Selo: Verve (USA)
Gênero: Bossa Nova, Brazilian Songs, Latino Jazz
NARA LEÃO: Em determinado momento ela rompeu com a Bossa Nova. “Chega de Bossa Nova”, “de cantar para dois ou três intelectuais uma musiquinha de apartamento. Quero o samba puro, que tem muito mais a dizer, que é expressão do povo, e não uma coisa feita de um grupinho para outro grupinho”. “E essa história de dizer que a Bossa Nova nasceu na minha casa é uma grande mentira. Se a turma se reunia aqui, fazia-o em mais de mil lugares. Eu não tenho nada, mas nada mesmo, com um gênero musical que não é o meu e nem é verdadeiro”. - Trecho do livro 'Chega de Saudade, Ruy Castro - Cia das letras'
Boa audição - Namastê

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

A história da Bossa Nova - Parte XIV

Seu filho mais velho, Caetano Zama, estudava na Faculdade de Direito do Largo São Francisco e também na Escola de Arte Dramática (EAD), de Alfredo Mesquita, além de compor, cantar e tocar violão, tendo constituído com Agostinho dos Santos e Ana Lúcia o trio de paulistas que participou do recital do Carnegie Hall. Sempre havia disponível um quarto de hóspedes para albergar o pessoal bossa-novista que vinha do Rio, como Sergio Ricardo ou Oscar Castro Neves. João Gilberto era hóspede freqüente, mas preferia dormir na sala. Foi lá que João mostrou, pela primeira vez em São Paulo, sua interpretação de Insensatez. São muito lembradas até hoje as reuniões de sábado à tarde e os reveillons dos Zama, onde conviviam Agostinho dos Santos, Maysa, Flavio Rangel, Gianfrancesco Guarnieri, Alaíde Costa e Maria Lima, Aracy Balabanian, Juca de Oliveira, Vandré, Roberto Freire e muitos outros. Psicanalista e professor da EAD, Freire foi o primeiro parceiro de Caetano Zama (Mulher Passarinho, de 1958) e, anos depois, mentor do grupo teatral da PUC que montou Morte e Vida Severina, ganhando o Festival de Nancy de Teatro Universitário (1966). Ana Lúcia gravou seu primeiro disco nos primórdios do movimento. Com composições de Tom Jobim e arranjos de Guerra peixe. Lembra que seu primeiro contato com a Bossa Nova foi através do disco Amor de Gente Moça, de Sylvinha Telles. Encantada, resolveu tentar a carreira participando dos programas da TV Tupi Almoço com as Estrelas e Clube dos Artistas, onde foi vista por Agostinho dos Santos, que a estimulou a continuar cantando. Seu apartamento na Rua Piauí, em Higienópolis, era outro ponto de encontro da turma. Foi lá que aconteceu uma famosa história de João Gilberto, quando ele, irritado com o relógio de parede que cantava a toda hora, parou de tocar e só voltou ao violão depois que pararam o funcionamento do cuco. Quanto à casa do professor Sérgio e de Maria Amélia Buarque de Holanda, na Rua Buri, perto do Estádio do Pacaembu, sempre foi local de encontro de intelectuais. Quando começou o movimento da Bossa Nova, Heloísa (Miúcha), sua filha mais velha, tocava violão e cantava, com repertório que ia desde Noel Rosa até Vinícius de Moraes e Paulo Vanzolini, estes últimos freqüentadores assíduos da casa. Os sucessos das músicas de Orfeu e de Canção do Amor Demais haviam aumentado consideravelmente o prestígio de Vinícius junto à turma de Miúcha, que já tinha o privilégio de conhecer de primeira mão as composições de Vanzolini, professor da USP diretor do Museu de Zoologia, grande contador de casos e autor de excelentes sambas, na linha mais tradicional. Em 1960, Miúcha participou, cantando e acompanhando-se ao violão um espetáculo do Grupo Teatral Politécnico homenagem a Manuel Bandeira amigo da família Buarque, que havia quarenta anos não voltava a São Paulo, onde estudara na Poli e fora sócio fundador do Centro Acadêmico. Por Causa disso, foi entrevistada na televisão, provocando forte reação de dona Maria Amélia, que preferia ter os talentos dos filhos limitados às reuniões da Rua Buri. Em outubro de 1964 aconteceu a gravação, no colégio Rio Branco, do piloto do programa Primeira Audição, apresentado por Elis Regina e Luiz Chaves, produzido para a TV Record por Horácio Berlinck Neto, João Evangelista Leão e Eduardo Muylaert. Deste espetáculo participaram vários jovens artistas pouco conhecidos, como Chico Buarque, Yvette, Toquinho, Tuca, Nelson Ayres, Taiguara, Luz Roberto Oliveira, Adylson Godoy, Zelão, Hamilson Godoy e outros. A partir do show original, foram editados os três programas de uma série que durou seis meses e serviu de embrião para o programo O Fino da Bossa, com Elis Regina, Zimbo Trio e Jair Rodrigues. O surgimento dessa nova fornada de músicos foi saudado por alguns críticos, entre eles Moracy do Val e Thomás Souto Correa, como a “nova Bossa Nova”, e por outros como uma primeira geração pós-bossa, por ela muito influenciada, porém sem fortes compromissos com a mesma. A cantora Yvette foi talvez quem permaneceu mais fiel à Bossa Nova, embora não se tornasse suficientemente conhecida fora de São Paulo. Revelada nos shows universitários, participou de vários espetáculos do Paramount e das reuniões do grupo de Theo, César e Maricene. Trabalhou com Edu Lobo, tanto em noitadas no Teatro Arena como em seu programa Edu Bem Acompanhado, na TV Tupi, produzido por Goulart de Andrade. Foi a primeira intérprete de Preciso Aprender a Ser Só, com arranjo de Oscar Castro Neves, num show do Arena, assim como de várias outras composições de Marcos e Paulo César Valle. Era presença permanente, ainda, em dois programas de TV também na Tupi, importantes não só por seu padrão musical mas também pela pesquisa de novos formatos para o musical de televisão: Móbile e Poder Jovem, ambos de responsabilidade de Fernando Faro. Aliás, a essa altura não faltavam programas de televisão nos qual a Bossa Nova predominasse como o Gessy às Nove e Meia, de Eduardo Moreira, o Musical Três Leões, de Walter Arruda e Cecil Thiré, que chegou a apresentar várias vezes o próprio João Gilberto como figura central, ou o Julio Rosemberg Show, no qual a parte “um-banquinho-e-um-violão”, cabia ao compositor e violonista Sérgio Augusto. Maricene Costa cantava na noite, acompanhada pelos conjuntos mais modernos da época; participou dos circuitos e espetáculos universitários e mais tarde foi para os Estados Unidos, sob contrato com uma gravadora especializada em jazz. Foi parceira de Vera Brasil, com quem chegou a ganhar o segundo prêmio num festival da TV Excelsior. Sua casa foi uma das bases do grupo de Bossa Nova de São Paulo que se rebelou após a célebre frase de Vinícius. Não dá para falar da Bossa Nova paulista sem citar três cantoras cariocas que marcaram o período com participações importantes, em boates, teatros e discos: Alaíde Costa, Claudete Soares e Marisa Gata Mansa. Claudete cantava no início de carreira no Rio, no Hotel Plaza, dividindo as atenções com Sylvinha Telles. Quando esta se casou com Candinho, deixou Claudete sozinha no Plaza. “Ali foi o berço da Bossa Nova”, garante ela, que participou de vários shows no Rio, inclusive na Faculdade de Arquitetura. “Ficava enlouquecida, porque adorava esse tipo de música, mas tinha que voltar para o estúdio da Rádio Nacional para gravar baião. Eu dizia para mim mesma : não é isso o que eu quero.” Quando Agostinho dos Santos a viu cantando no Plaza, convenceu-a a ajudá-lo a “levar esse movimento para São Paulo”. Começou na Baiúca, mas logo se indispôs com o proprietário por motivos de repertório e passou a cantar no Cambridge, de onde diz ter as melhores lembranças, “porque lá o pessoal ia por causa da música, os freqüentadores eram os próprios artistas”, segundo ela. Mas foi também musa do João Sebastião Bar, onde era considerada a pocket singer dos pocket shows. Foi no bar do Cambridge que formaram um quarteto vocal — ela, Alaíde, Pedrinho Mattar e o contra baixista Matias Matos — a que denominaram Os Bossais, de início por brincadeira, e mais tarde resultando num disco que se tornou uma raridade para os colecionadores. Já Alaíde Costa, que havia sido revelação do ano no Rio, em 1957, e cooptada por João Gilberto para incluir três músicas de Bossa Nova em seu primeiro LP em 1959, conquistou o público paulista a partir do show Festival Nacional da Bossa Nova, um ano depois, no Teatro Record. Em 1962 casou-se com o radialista Mário Lima e foi morar de vez em São Paulo, onde teve grandes sucessos em boates, festivais e teatros, com alguns pontos altos como o show O Fino da Bossa, do Paramount, e o recital Alaíde Alaúde, no Teatro Municipal, sob a direção do maestro Diogo Pacheco. Como compositora Alaíde fez músicas e letras, inclusive em parceria, entre outros, com Tom Jobim e Vinícius. Quanto a Marisa, ou Gata Mansa, de origem no jazz, no Rio de Janeiro, foi crooner do Copacabana Palace, intérprete destacada do repertório de Dolores Duran, e estrela de shows do Beco das Garrafas, Tendo casado com o pianista e arranjador César Camargo Mariano, mudou-se para São Paulo, onde viveu durante sete anos. No período teve algumas experiências teatrais, entre as quais um musical com Lennie Dale e um espetáculo no Arena, com Caetano Veloso e Taiguara. Impõe-se pelo menos a citação de outras personalidades femininas que tiveram passagem marcante naquela época, em São Paulo, como a violonista e compositora Vera Brasil, autora de O Menino Desce o Morro, gravação de sucesso de Geraldo Cunha, e Tema do Boneco de Palha, e que participou de espetáculos com Claudete, Pedrinho Mattar e conjunto no João Sebastião, ou a cantora Márcia, que alcançava grande êxito no Estão Voltando as Flores, inclusive apresentando interpretações novas de músicas de Johnny Alf. No segundo semestre de 1959, ano do primeiro LP de João Gilberto, Tom Jobim apresentava, na TV Paulista, o programa O Bom Tom, no qual apresentava os principais nomes do movimento carioca e abria oportunidades para autores e intérpretes da Paulicéia. Na mesma época, boates como Michel, Oásis e Baiúca anunciavam novas programações baseadas no repertório e no estilo da Bossa Nova. (...) Continua na próxima postagem. Fonte: Revista Caras - Edição Especial de Julho de 1996.
Boa leitura - Namastê

domingo, 4 de novembro de 2018

2013 The Sound Of Bossa Nova - VA

Artista: VA
Álbum: The Sound Of Bossa Nova
Lançamento: 2013
Selo: Delta
Gênero: Bossa Nova, Brazilian Songs, Latino Jazz
A bossa nova também ficou conhecida como "voz e violão", justamente porque não era preciso mais do que isso para tocá-la. Nara Leão encantava as platéias vestindo sua minissaia (ela era famosa por ter pernas bonitas), sentada num banquinho, tocando violão e cantando com sua voz muito doce. Essa é outra característica importante da bossa nova: a voz não precisava ser muito alta, nem muito forte. João Gilberto, por exemplo, tem uma voz muito suave e baixinha, quase como um sussuro...mas mesmo assim ele consegue encher um ambiente de melodia! Nada parecido com os cantores de samba, ou chorinho, ou mesmo de bolero, com aquele vozeirão melodioso... Mas a bossa nova tinha mais do que só voz, violão e um banquinho. Vários outros instrumentos ajudavam a compor seu ritmo e melodia, como flauta, piano, trompete, pandeiro, saxofone entre outros instrumentos.
Boa audição - Namastê

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

A história da Bossa Nova - Parte XIII

Alguns destes últimos, a partir de janeiro de 1963, passaram a produzir “noites de Bossa”, às segundas-feiras no Teatro de Arena, porque não dava mais para reunir em residências particulares todo o público interessado em participar desses encontros. Mais tarde ainda, os mesmos produtores promoveram espetáculos musicais no Teatro Maria Della Costa, inclusive uma releitura de Orfeu do Carnaval, que havia vencido em 1954 o concurso de textos teatrais inéditos, por ocasião dos festejos do IV Centenário de São Paulo. O papel principal coube a Agostinho dos Santos. Paralelamente aos shows, de palco e de arena, e também aos espetáculos em faculdades, que continuavam a mobilizar a geração mais jovem em torno da nova música brasileira, um outro grupo, liderado por Márcio Martins Moreira, mais tarde prestigiado publicitário nos Estados Unidos, se apresentava na rede de teatros de bairro mantida pela Prefeitura. Eram shows à luz de velas, que reuniam, entre outros, os compositores, cantores e violonistas Sérgio Augusto e Zelão, o pianista Nelson Ayres e a cantora Sonia. Entre essa fase, de shows na escala da casa noturna, do auditório de universidade, dos teatros pequenos e médios, e a era dos grandes espetáculos no Teatro Paramount e na TV Record, merece citação especial O Fino da Bossa, que causou uma mudança de rumo na forma e talvez no conteúdo desses eventos. Este foi realizado em maio de 1964 e teve seu título utilizado posteriormente para um programa semanal de televisão, na Record, estrelado por Elis Regina. O teatro, com capacidade da ordem de 1.800 espectadores sentados, ficava na contramão da convencionada região musical da cidade, isto é, estava localizado do lado contrário ao da Praça Roosevelt, no fim da Brigadeiro Luiz Antonio, próximo à Praça da Sé e ao Largo de São Francisco, Era proposta de seus organizadores — um grupo do Centro Acadêmico XI de Agosto, liderado por Horácio Berlinck Neto e Eduardo Muylaert e reunindo universitários de diferentes formações — realizá-lo em padrões o mais que possível profissionais. Todos os artistas seriam formalmente contratados, pois os organizadores eram todos estudantes de Direito — canções inéditas seriam incluídas, com arranjos especiais, e o evento seria registrado em disco LP a ser comercializado imediatamente após sua realização. A direção musical coube a Oscar Castro Neves, também autor de Onde Está Você?, em parceria com Luvercy Fiorini, que foi interpretada por Alaíde Costa, acompanhada por um noneto, constituindo-se na faixa principal do referido disco. As circunstâncias, inclusive o elenco, o local e a expectativa criada levaram o grande teatro a ficar superlotado, com o público excedente chegando a quebrar as portas na tentativa de assistir o espetáculo. Participaram ainda o recém-criado Zimbo Trio, Rosinha de Valença, Nara Leão, Jorge (então) Ben, os trios de Sérgio Mendes e de Edson Machado, Wanda, Ana Lúcia (estas duas, também acompanhadas pelo noneto de Oscar), Paulinho Nogueira, Claudete Soares, Marcos Valle, Os Cariocas, Geraldo Cunha, Luiz Henrique e Walter Wanderley, tendo o disco encabeçado por alguns meses as listas de vendagem no País. A partir dali, aquele espaço foi assumido como novo “templo da Bossa em São Paulo”, mudada a escala desses eventos, alteradas as relações entre artistas e promotores, e aberto novo mercado — o dos shows ao vivo — para o grande mercado fonográfico. Toda uma série de espetáculos seguiu-se ao Fino, comandados por Walter Silva, o Pica-pau, responsável, entre outros, pelo Samba Novo, Mens Sana in Corpore Samba, Bo-65, O Remédio é Bossa, Historinha, Primeira Denti-Samba e outros, alguns registrados em disco com grande sucesso, como o Dois na Bossa, que manteve por algum tempo o recorde de vendagem de disco nacional. Ampliava-se o sucesso da música popular do Brasil. Porém essa nova escala tenderia a levar ao afastamento de alguns traços e características fundamentais do movimento da Bossa Nova, entre os quais o intimismo. Como no Rio, as novidades da Bossa Nova eram freqüentemente geradas e difundidas em casas e apartamentos de universitários, gente da classe média, como Horácio Berlinck Neto e João Evangelista Leão, nos Jardins; Caetano Zama, que morava na região da Paulista, ou Ana Lúcia e Miúcha Buarque de Holanda, no Pacaembu. A mansão dos Berlinck, na Rua Itália, contava com todos os itens necessários a reuniões deste tipo — piano, bateria, contrabaixo, violão. “Minha mãe, tia Helena, era um barato. Recebia todo mundo, dava casa, comida e roupa lavada. Passei momentos inesquecíveis ali”, recorda Horácio. Primo da cantora Wanda Sá, volta e meia ele ia para o Rio, onde também participou de várias reuniões nas casas de Nara Leão e de Chico Feitosa e Ronaldo Bôscoli. Por volta de 1960, Horácio foi trabalhar como programador musical na Rádio Eldorado, “Ali, a gente tinha um gosto musical muito apurado”, afirma ele, que mais tarde coordenou o espetáculo O Fino da Bossa, no Teatro Paramount. Foi um dos produtores de Primeira Audição, no teatro do Colégio Rio Branco e na TV Record, onde também participou da produção do programa de Elizeth Cardoso (Bossaudade) e do de Elis Regina, Zimbo Trio e Jair Rodrigues, com o mesmo título daquele show do Paramount. Quando Horácio deixou a emissora, o programa passou a chamar-se simplesmente O Fino, onde foi diretor cultural numa época em que lá era freqüente a presença de artistas como Dick Farney, Isaurinha Garcia, Vinícius, Paulinho Nogueira, Johnny Alf, Geraldo Vandré ou Ana Lúcia. Foi durante cinco anos produtor do talk show de Silveira Sampaio, o mais importante da época, programa que “batia papo com gente desde cangaceiro até astronauta, de travesti a presidente, e com muitas personalidades da música. Naquele tempo, a turma da Bossa era uma fonte inesgotável...”. A casa de Evangelista, na Rua Cuba, assim como seu sítio em Jundiaí eram pontos de encontro de longas e animadas reuniões musicais, principalmente durante a época dos musicais da Record, dos quais participou, assim como Horácio Berlinck, da produção, ao lado da Equipe A (Tuta Carvalho, Nilton Travesso, Raul Duarte e Manoel Carlos) e de Zuza Homem de Mello, que aliás era contrabaixista de jazz durante os anos de início da Bossa Nova. Pesquisas de repertório, ensaios, montagem de números especiais ou garimpagem de novas músicas e músicos, tudo era pretexto para que as casas de Leão e de Horácio estivessem sempre cheias de gente, como os músicos do Zimbo, Elis, Cyro Monteiro, Alaíde, Fernando Faro, Arley Pereira, Chico, Toquinho, os baianos e os militantes da política universitária. Já a mansão da família Zammataro, na Alameda Joaquim Eugênio de Lima, perto da Avenida Paulista, era base paro encontros do pessoal da música e também do teatro paulista. (...) Continua na próxima postagem. Fonte: Revista Caras - Edição Especial de Julho de 1996.
Boa leitura - Namastê

domingo, 28 de outubro de 2018

2011 - Bossa Jazz The Birth Of Hard Bossa, Samba Jazz And The Evolution Of Brazilian Fusion 1962-73 - VA

Of Brazilian Fusion 1962-73
Lançamento: 2011
Selo: Elenco 'Soul Jazz Records'
Gênero: Bossa Nova, Brazilian Songs, Latino Jazz
Inegavelmente, nenhum outro movimento foi tão revolucionário na música quanto a Bossa Nova. Surgido por volta de 1958, renovou as harmonias e arranjos, dando à musica popular brasileira um cunho nacionalista, um dos tipos de música mais conhecidos do Brasil é com certeza a Bossa Nova. Uma parte da história do nosso país se desenrolou em paralelo com o surgimento dessa música. A palavra bossa apareceu pela primeira vez na década de 1930 numa música de Noel Rosa chamada de “Coisas Novas”. Confira abaixo um trechinho dessa música: “O samba, a prontidão/e outras bossas,/são nossas coisas(…)”. Essa expressão Bossa Nova começou a ser utilizada na década de 40 para designar os sambas em breque, aqueles em que era comum improvisar paradas súbitas durante as músicas para encaixar falas. Para alguns críticos musicais a bossa nova tem uma boa influência do impressionismo erudito de Debussy e Ravel. Além da música clássica a Bossa Nova também foi influenciado pelo cool jazz e o bebop. Podemos dizer inclusive que a bossa nova tem alguns toques de jazz como os elementos de samba sincopado embora não tenha tido uma influência tão forte da música estrangeira Alguns artistas da chamada bossa nova contam que a ideia de chamar esse novo estilo dessa forma surgiu no final de uma apresentação no Colégio Israelita-Brasileiro no ano de 1957. Até então o ritmo era chamado apenas de samba sessions, uma alusão à fusão feita entre o samba e o jazz. Porém, nesse dia os artistas viram um recado escrito por uma secretária do colégio chamando as pessoas para conferir concertos de samba-sessions com uma turma “bossa-nova”. Nesse evento estavam presentes Ronaldo Bôscoli, Roberto Menescal, Luiz Eça, Carlos Lyra e Sylvia Telles.
Boa audição - Namastê

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

A história da Bossa Nova - Parte XII

Também de Minas, veio a voz romântica do cantor Luiz Cláudio. No Rio, locais como o Beco das Garrafas, na Rua Duvivier, em Copacabana, tornaram-se pontos de encontro dos músicos e amantes do jazz e da Bossa Nova, O nome do local surgiu do hábito pouco educado que os moradores dos prédios tinham, de jogar garrafas sobre os boêmios que perturbavam a paz noturna, o que era freqüente. Ali, nas boates Bottle’s, Bacarat e Little Club, os amantes do jazz, da Bossa Nova e das garrafas promoviam memoráveis encontros musicais. O Little Club e o Bottle’s pertenciam aos mesmos donos, Giovanni e Alberico Campana, que estimulavam as apresentações de grupos de jazz e Bossa Nova. Muita gente passou por lá neste início dos anos 60: Paulo Moura, Juarez Araújo, Cipó, Aurino, Maciel, Luizinho Eça, Luiz Carlos Vinhas, Sérgio Mendes, Baden Powell, Tião Neto e Chico Batera, entre muitos outros. O Zum-Zum, boate do compositor Paulinho Soledade, e o Manhattan também abriram seus espaços para a Bossa Nova. O homem de televisão Geraldo Casé, responsável pelo que de melhor se fazia em shows de IV abriu uma casa noturna dedicada quase que exclusivamente aos intérpretes da Bossa Nova. O local tinha o sugestivo nome de Rui Bar Bossa. Quando o disco de João Gilberto chegou a São Paulo, a maior concentração de pontos de encontro do pessoal que curtia jazz, MPB e música instrumental estava na Praça Roosevelt e seus arredores. Com ramificações, por exemplo, para os lados da Consolação, onde a boate Cave lançava cantores novos redescobria Aracy de Almeida ou Cyro Monteiro, e mais tarde apresentaria pocket shows, alguns importados do Beco das Garrafas. Neste mesmo rumo, chegava-se até a Rua Sete de Abril, onde a Oásis ainda era ponto de referência nas colunas sociais, e onde tocaram muitos dos músicos que viriam a se engajar na Bossa Nova. Nas boates Cave e Oásis, em São Paulo, foi lançada, com grande sucesso, a cantora e compositora Maysa Monjardim. A Praça Roosevelt, hoje urbanizada com estacionamentos subterrâneos, túneis, supermercado e outras construções, era então um espaço asfaltado, onde durante o dia estacionava um mar de automóveis, à exceção daqueles reservados à feira livre, ou dos fins de semana, quando lá aconteciam simultaneamente vários jogos de futebol do tipo “pelada”. Neste terreno atrás da igreja da Consolação funcionava uma espécie de praia dos paulistas em pleno centro da cidade. À noite, o pessoal a atravessava, com saudosas condições de segurança, para se deslocar da Baiúca, onde tocavam, por exemplo, os conjuntos de Pachá, Moacyr Peixoto, Luiz Loy ou do vibrafonista Garoto, até o outro lado da praça, onde funcionou o Delval de Caco Velho, o primeiro Stardust, onde Alan e Hugo tiveram como crooner, por exemplo, Jane Moraes, e como tecladistas Hermeto Paschoal ou Eli Arcoverde. Neste mesmo “outro lado da praça”, fizeram sucesso o Bon Soir, onde pontificava Walter Santos, ou o Farney’s, que depois virou Djalma, que depois se tornou Zum-Zum e que também entrou na onda dos shows de bolso. Também já faziam a noite paulista Agostinho dos Santos, Maysa e Juca Chaves, que mais tarde participariam dos primeiros espetáculos do gênero realizados na cidade, como o denominado “Festival Nacional da Bossa Nova”, promovido pelo então colunista social Ricardo Amaral, em abril de 1960, no Teatro Record. Como no Rio, entre as gravações mais curtidas por certo tipo de público que viria a se encantar com a nova Bossa Nova estavam a versão cantada por Chet Baker, de My Funny Valentine, e Cry Me a River, com Julie London acompanhada pelo guitarrista Barney Kessel. Na imprensa e nas rádios, a repercussão dos primeiros discos de Bossa Nova, particularmente o de João, foi evidentemente de perplexidade, entusiasmo, e em alguns casos até de indignação No meio dessas polêmicas, pode-se discutir precedências ou premonições, mas a verdade é que tiveram imediata e entusiástica repercussão em colunas como as de Armando Aflalo ou Adones Oliveira, assim como em programas de disc-jóqueis como Fausto Canova. Henrique Lobo, Fausto Macedo ou Walter Silva. São desta época duas frases infelizes, não definitivamente esclarecidas ou superadas, mesmo decorridos 35 anos, e que são inevitavelmente lembradas por quem pretenda estender ao campo da Bossa Nova o espírito de rivalidade entre paulistas e cariocas. Uma delas, em sua versão mais suave, foi proferida logo após quebrarem o disco 78 rpm de João Gilberto, e teria a forma de uma pergunta: “Por que gravam cantores resfriados?”. Sua autoria permanece em dúvida, variando do próprio diretor de vendas da gravadora Odeon em São Paulo até o gerente comercial das Lojas Assunção, então a maior cadeia de eletrodomésticos e de discos do país. A outra, de Vinícius de Moraes, chamava a cidade de “túmulo do samba”, gerando enormes reações a ponto de, em janeiro de 1965, o poetinha ter escrito quatro crônicas para o Diário Carioca, preocupado em esclarecer as circunstâncias nas quais teria sido pronunciada. Segundo ele, o comentário fora endereçado a Johnny Alf, para fazer desaforo a um grupo de grã-finos que estavam bêbados, na boate Cave, e comentaram em voz alta que aquele “cara” desafinava e “não tocava coisa com coisa”. Curiosamente, foi nestes artigos, sob o título de “SP não é mais o túmulo do samba”, que pela primeira vez ele fez referência a certo futuro parceiro, “Chico (..) (filho de meu querido amigo o historiador e sociólogo Sérgio Buarque de Holanda) cujos sambinhas são muito bons”. Entre as respostas à ofensa do poeta, a de um grupo de artistas e jornalistas paulistas, ou lá radicados, foi promover “reuniões de bossa”, que aconteciam em residências como as do maestro Souza Lima, de Renato Mendes ou de Maricene Costa, sempre aos sábados à tarde. Faziam parte desta turma, entre outros, Theo de Barros, Alaíde Costa, Claudete Soares, César Mariano, Walter Wanderley, Yvette, Adones Oliveira, Alberto Helena Jr., Franco Paulino, Luiz Vergueiro, Solano Ribeiro e Moracy do Val.  (...) Continua na próxima postagem. Fonte: Revista Caras - Edição Especial de Julho de 1996.
Boa leitura - Namastê

domingo, 21 de outubro de 2018

2011 - Brazil Bossa Beat! Bossa Nova And The Story Of Elenco Records - VA

Artista: VA
Álbum: Brazil Bossa Beat!
Lançamento: 2011
Selo: Elenco 'Soul Jazz Records'
Gênero: Bossa Nova, Brazilian Songs, Latino Jazz
 “Eu acho que as palavras devem ser pronunciadas da forma mais natural possível. Qualquer mudança acaba alterando o que o letrista quis dizer com seus versos.”
João Gilberto
Boa audição - Namastê

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

A história da Bossa Nova - Parte XI

Na mesma hora, o tão esperado show começou, e cada um tocou suas músicas, distraindo os animados convivas. Chico Feitosa e Bôscoli ficaram observando discretamente a sala de jantar. A certa altura um dos garçons foi até lá e levou aquele susto. Chamou um colega, ficaram os dois gesticulando e olhando para todos os lados em busca do leitão. Sem outra opção, levaram o problema ao dono da casa. “A gente não ouvia o que eles diziam, só via os gestos, o movimento dos lábios. Ele dizia ‘Como? Como sumiu?”, lembra Chico. Muito nervoso, o diplomata perguntou aos presentes se por acaso não haviam visto um leitão por ali. Obviamente, ninguém tinha visto leitão algum. Bôscoli, preocupado com a possível confusão, resolveu sumir de vez com o bicho. Numa operação complicadíssima, ele e Chico Fim de Noite embrulharam o leitão num jornal, depois numa toalha, deixaram a bandeja atrás da cortina e conseguiram contrabandeá-lo para o velho fusquinha de Bôscoli, estacionado nas imediações. O jantar acabou em clima de mistério, e no dia seguinte o prato foi devidamente degustado com “vivas” à Argentina, na alegre pescaria de Cabo Frio. Outro episódio que traduz o espírito irreverente da turma aconteceu na casa de uma condessa na Rua Dona Mariana, em Botafogo. A nobre senhora, anunciando uma noite de Bossa Nova, convidou o grupo e inúmeros socialites da época. Preparou um belo jantar, em que se comeu e bebeu à vontade. No fim da festa, na despedida à dona da casa, era preciso entrar numa fila para beijar a mão, que a condessa cerimoniosamente esticava a quem saía. O primeiro a entrar na fila foi Luiz Carlos Vinhas, num monumental pileque. Sem saber o que devia fazer, Vinhas simplesmente empurrou a mão da condessa para baixo e saiu. Mas este não foi o único insulto da noite. O pior ainda estava por vir. Chegou a vez de Zé Henrique Bello, artista plástico, freqüentador da Bossa Nova, que tentava se manter em pé na fila. A condessa esticou o braço. Zé Henrique segurou sua mão, parou para pensar em alguma coisa e acabou babando na mão da condessa. Percebendo a gafe, ainda tentou consertar: delicadamente limpou a mão da condessa na própria camisa e saiu, cambaleando. O pianista Luiz Carlos Vinhas sempre foi uma das mais divertidas figuras da Bossa Nova. Conta casos e inventa situações que já fazem parte da história do movimento. Numa noite, junto com Lula Freire e Chico Toselli, um amigo boêmio, foram para uma reunião de Bossa Nova no apartamento de uma bela morena carioca que morava na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, e era conhecida muito especialmente pelos seus belos atributos físicos. Como já era tarde, por volta das 11 h da noite, e a portaria já estava fechada, ficaram os três por ali, olhando para cima e escutando o som da reunião no 3º andar, esperando que aparecesse alguém para abrir a porta. Não demorou muito, chegou um sujeito enorme, uma verdadeira ilha, que ao abrir a porta perguntou a Vinhas para onde eles iam. O pianista, que quando fica nervoso dá uma gaguejada, quis se fazer de engraçado e disse para o cara: “É ne-negócio de Bossa Nova. Va-vamos na casa da fulana. Aquela da-da bunda grande”. “O grandalhão, sem mover um músculo, respondeu: “É minha irmã”. Luiz Carlos Vinhas ficou lívido, e segurando imediatamente no braço do sujeito, muito sério arrematou: “Bu-bunda maravilhosa!”. O grandão acabou rindo e abriu a porto para os três. Já a salvo, no apartamento, Vinhas comentava que o pescoço do irmão era maior do que a bunda da dona da reunião. A mania de todo mundo querer se mostrar íntimo da Bossa Nova irritava de verdade os compositores. Uma das principais características de quem queria se mostrar “da Bossa Nova” era dizer que tinha intimidade com os compositores e que sabia cantar todas as músicas do grupo. Um dia Chico Feitosa resolveu pregar uma peça numa senhora da sociedade que adorava se fazer de íntima: no meio de uma reunião começou a cantar uma música inventada na hora: Volma. “Eu cantava: ‘Voooolma, veja só que lalalalá... veeeeenha...’. Eram apenas algumas palavras desconexas, e o resto eram sons sem sentido”, conta ele. E não é que a mulher fingiu conhecer a música, chegando a acompanhar Chico nos vocais? Em pouco tempo, o termo Bossa Nova começou a servir para dar nome a qualquer tipo de coisa, desde geladeiras a lançamentos imobiliários. Mas muita gente também começou a implicar com o movimento: alguns críticos sem nenhuma importância e algumas pessoas conhecidas que pertenciam a uma outra geração de músicos e compositores e preferiam os antigos estilos da música brasileira. O jornalista Antonio Maria, cuja música Ninguém me Ama era usada como exemplo do que absolutamente não era Bossa Nova, era um deles. O próprio Antonio Maria, inteligente, ótimo cronista e homem da noite carioca, brincava com sua própria letra, cantando: “Ninguém me ama, ninguém me quer ninguém me chama de Baudelaire”. Maria mantinha uma coluna diária no O Jornal, onde sempre encontrava uma maneira de criticar o movimento. Ele e Bôscoli quase saíram no tapa na porta do Little CIub, mas Aloysio de Oliveira chegou a tempo de apartar a briga. Os dois, no entanto, ficaram sem se falar para sempre. Outro ferrenho inimigo da Bossa Nova era Sílvio Caldas. O cantor afirmava, para quem quisesse ouvir, que a Bossa Nova nada mais era que um movimento passageiro e sem categoria, e que rapidamente acabaria. Lamentável engano do seresteiro. Em contrapartida, os jornalistas Moysés Fuks, João Luiz Albuquerque e Sylvio Túlio Cardoso formavam o trio de ouro na defesa e na divulgação do movimento. Muita gente de peso acabou aderindo, como os maestros Radamés Gnatalli, Léo Peracchi, Rogério Duprat, Julio Medaglia e Guerra Peixe. Ary Barroso (este menos) e Dorival Caymmi também se chegaram, prestigiando várias reuniões do grupo. João Gilberto foi apresentado a Astrud Weinert na casa de Nara Leão, Em pouco tempo eles começaram a namorar e se casaram, tendo Jorge Amado como padrinho. Alguns anos mais tarde, ela gravaria a versão em inglês de Garota de Ipanema no lendário disco Getz/Gilberto. Ainda em 1960, João gravou seu segundo disco, O Amor, O Sorriso e a Flor, que consolidaria definitivamente a Bossa Nova. Do repertório constavam Meditação (Tom Jobim e Newton Mendonça), Só em Teus Braços (Tom Jobim), Se É Tarde Me Perdoa (Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli), Corcovado (Tom Jobim), Discussão (Tom Jobim e Newton Mendonça), Um Abraço no Bonfá (um instrumental de João Gilberto), Doralice (Dorival Caymmi), Amor Certinho, Samba de Uma Nota Só (Tom Jobim e Newton Mendonça), O Pato, Outra Vez e Trevo de Quatro Folhas. Tanto Samba de Uma Nota Só quanto Desafinado tornaram-se clássicos do movimento. Também no início de 1960, houve o primeiro rompimento sério na Bossa Nova. Carlos Lyra resolveu não esperar que André Midani, amigo dos compositores da Bossa Nova, diretor da Odeon, cumprisse sua promessa de gravar um disco com toda a turma e acabou assinando um contrato para um disco solo com a Philips, através de João Araújo. A notícia explodiu como uma bomba. Ronaldo Bôscoli não gostou nada da história e acabou rompendo com seu parceiro. O disco de Carlinhos, Bossa Nova Carlos Lyra, saiu com arranjos do maestro Carlos Monteiro de Souza contracapa com texto de Ary Barroso e canções como Rapaz de Bem (Johnny Alf), Chora Tua Tristeza, Ciúme, Barquinho de Papel, Gosto de Você, Quando Chegares e Maria Ninguém. Bôscoli já havia marcado um segundo show para a Faculdade de Arquitetura, no mesmo local onde acontecera o primeiro. O nome do espetáculo seria A Noite do Amor do Sorriso e da Flor, com a prometida presença de João Gilberto, Vinícius de Moraes, Os Cariocas, Johnny Alf e Norma Bengell. Por causa do desentendimento com Bôscoli, a turma de Carlos Lyra resolveu organizar outro show na mesma data, na PUC, contando também naquela noite com as presenças de Juca Chaves e Alaíde Costa. O show da Arquitetura foi infinitamente melhor: Johnny Alf compareceu e tocou seus dois grandes sucessos da epoca, Rapaz de Bem e Céu e Mar. Nervoso, o cantor e pianista precisou tomar um banho gelado antes de entrar no palco. O sempre irreverente Luiz Carlos Vinhas entrou no palco de velocípede. Outros que se apresentaram na mesma noite foram Nara Leão, Chico Feitosa, Claudete Soares, Sérgio Ricardo, o conjunto de Roberto Menescal, Luizinho Eça e os paulistas Pedrinho Mattar e Caetano Zama. Mas as duas grandes atrações da noite foram João e Astrud Gilberto, que fecharam o espetáculo. Outros cantores americanos também começaram a descobrir a Bossa Nova. Entre eles Sarah Vaughan, que viera ao Brasil pela primeira vez no ano anterior, e Nat King Cole, que gravara duas das faixas de seu disco latino com Sylvinha Telles. King Cole, inclusive, foi das poucas pessoas que fizeram João Gilberto aguardar algumas horas no corredor da Odeon esperando para ver o ídolo. Nat saiu e passou por ele sem saber de quem se tratava. Mais tarde, na casa de Tom Jobim, João comentaria: “Nat não é preto, é azul”. João Gilberto tornava-se cada vez mais perfeccionista. Certa ocasião foi convidado a fazer uma apresentação no programa Noite de Gala, que seria transmitido ao vivo do Tijuca Tênis Clube. O estádio estava apinhado de gente, e quando João começou a cantar “O pato... saiu cantando alegremente....”, todo o público respondeu em coro: “Qüém, qüém”, o que foi uma forma simpática de participação no show. Insultadíssimo, João simplesmente se calou, parou de tocar, disse baixinho ao microfone “eu não sou Miltinho” e retirou-se. Até hoje ninguém sabe muito bem o motivo da referência ao ex-crooner e pandeirista dos Anjos do Inferno, que estava nas paradas de sucesso com o samba Mulher de 30. A Bossa Nova logo se profissionalizou. O movimento deixara de ser um episódio carioca e tomava conta das rádios e televisões de todo o Brasil. Por todo o país violões passaram a ser vendidos como nunca. Músicos e compositores começaram a aparecer nas grandes e pequenas cidades, alegrando a música brasileira com a mensagem do amor, do sorriso e da flor. Em Belo Horizonte um grupo de rapazes e moças se encontrava para um bate-papo nas horas de folga, entre um estudo de Química e Física. Um violão ou piano quase sempre fazia parte da conversa. A explosão da Bossa Nova estimulou o grupo, que passou a cantar e tocar o novo som que vinha do Rio de Janeiro. De vez em quando alguém aparecia assobiando música nova de sua autoria. De repente surgiu a idéia de formar um conjunto próprio para tocar suas composições. A coisa era fácil: todos tocavam um ou mais instrumentos. O grupo, daí em diante, passou a reunir-se no sítio do pai de Pacífico Mascarenhas, nas proximidades de Belo Horizonte. Vai dia, vem noite, surgiu Sambacana, uma reunião musical na base de samba e cana, na qual eram apresentadas para os amigos as novas músicas. Os compositores e músicos do grupo eram Pacífico Mascarenhas (Pouca Duração, Começou de Brincadeira, Amor é Ilusão, Ônibus Colegial, Olhos Feiticeiros, Se Eu Tivesse Coragem, Mandrake), Roberto Guimarães (Amor Certinho, Serenata Branca, Menina da Blusa Vermelha), Alceu Nunes (Quantas Noites Ainda?, Estrada da Solidão), Gilberto Mascarenhas (Rosinha, Explicação), Marcos de Castro, violonista e arranjador do grupo, e Ubirajara Cabral, pianista e maestro do Coral de Ouro Preto, apontado pelo jornal O Globo como o melhor conjunto vocal do Brasil em 1962. Durante as madrugadas, saíam eles de piano e violão, em cima de um caminhão, com o Coral de Ouro Preto, fazendo serenatas pelas casas das namoradas até o dia clarear. Nos antigos cenários mineiros, o som da Bossa Nova encantava a todos. Na Bahia, terra de João Gilberto, Carlos Coqueijo e Alcivando Luz, também amigos do cantor, apresentavam o novo som em suas casas e na casa de Nilde Almeida. Entusiásticos shows ocorreram no Teatro Castro Alves e na boate do Hotel da Bahia. Os músicos Perna Fróes, Tutti Moreno, Moacyr Albuquerque, Gecildo Caribé, Bira da Silva e Lula Nascimento esquentavam as noites de Salvador. Não menos importante para o movimento, em épocas diversas, foram os instrumentistas Genivaldo da Conceição, Lindenberg Cardoso, Fernando Lona e Djalma Correa. A semente plantada por João Gilberto mais tarde traria Gal Costa, Maria Bethânia, Caetano Veloso e Gilberto Gil para a cena maior da música brasileira. Euler Vidigal, no Maranhão, despontava como compositor e reunia grupos de intelectuais, músicos e apreciadores para ouvir a novidade. (...) Continua na próxima postagem. Fonte: Revista Caras - Edição Especial de Julho de 1996. 
Boa leitura - Namastê