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domingo, 5 de fevereiro de 2012

1958 - Sings Bessie Smith - Dinah Washington

Dotada de uma voz forte, bonita e fraseado muito preciso, o espírito irreprimível de Dinah Washington traduz a imperatriz do Blues, Bessie Smith, em um talento incomum se comparado por varias outras divas que prestaram semelhante homenagem. Washington parece simplesmente gloriosa, com foco em alternando frases que lembra a própria Smith, enfatizando suas raízes próprias do velho Blues as margens do Mississipi, berço da criação. Acompanhada por Eddie Chamblee e Sua Orquestra, enfatiza o vaudeville e som Dixieland do início do século com direito a trombone, trompete e percussão no ritmo da época. Reeditado várias vezes (ocasionalmente sob o título A Bessie Smith Songbook), Dinah Washington "Sings Bessie Smith" traça um equilíbrio perfeito entre tributo e declaração artística genuína de uma artista consagrada a um mito perpetuado na lenda. A Verve em sua reedição acrescentou as faixas alternativas "Trombone Blues (AKA Trombone Cholly)" e "Careless Love", além de três músicas tiradas de um desempenho no festival Newport. Gravado no Universal Studio, Chicago, Illinois, 30 de dezembro de 1957, 07 e 20 de janeiro 1958 e ao vivo no Jazz Festival, Newport, Rhode Island em 06 de julho de 1958.


Album: Dinah Sings Bessie Smith
Artista: Dinah Washington
Lançamento: 1958
Selo: UMG Recordings, Inc.
Genero: Jazz, Vocal Jazz, Blues

01. After You've Gone
02. Send Me To The 'Lectric Chair
03. Jailhouse Blues
04. Trombone Blues (AKA Trombone Cholly)
05. You've Been A Good Ole Wagon
06. Careless Love
07. Backwater Blues
08. If I Could Be With You One Hour Tonight
09. Me And My Gin
10. Fine Fat Daddy
11. Trombone Butter (Alternative Take)
12. Carless Love (Master Take In Mono)
13. Send Me To The 'Lectric Char (Live Version)
14. Me And My Gin (Live Version)
15. Backwater Blues (Live Version)

Boa audição - Namaste.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

1960 - Back at the Chicken Shack - Jimmy Smith

Era uma vez um rapaz chamado Jimmy Smith que resolveu comprar um órgão Hammond B-3, que era um instrumento muito característico das igrejas nos Estados Unidos. Jimmy alugou um galpão, e lá ficou por cerca de um ano, somente com seu órgão e sua música. Quando ele finalmente saiu de lá, havia criado um som novo, que revolucionou totalmente a maneira como o tal órgão Hammond B-3 era tocado. Foi assim que nasceu o Soul Jazz, que fez com que Smith fosse chamado de "O Incrível" pela indústria musical nos anos 60. Back At The Chicken Shack é, sem dúvida, o melhor álbum de Smith, com um balanço incansável, harmonicamente sofisticado e autêntico. Gravado em 25 de abril de 1960, o disco revelou o saxofonista Stanley Turrentine, mas também foram cruciais as contribuições da guitarra elegante e econômica de Kenny Burrell e da bateria irresistível de Donald Bailey. O curioso é que embora se chame Back At The Chicken Shack (De Volta Ao Galinheiro), o som que Jimmy Smith mostra algo totalmente sofisticado. Existe um certo minimalismo nas músicas, nada é exagerado demais, alto demais, enfim, nada é demais. O único exagero é o talento de Smith no órgão e de Turrentine no saxofone. Back On The Chicken Shack é um disco gostoso de se ouvir justamente pela falta de exageros, solos longos ou altos demais. Smith já ganharia pontos de qualquer forma, pois pegar um instrumento que era usado apenas nas igrejas, subverter totalmente a forma como ele é tocado e ainda criar um novo estilo musical em cima disso não é pra qualquer um. IN-PER-DI-VEL.

Album: Back at the Chicken Shack
Musico: Jimmy Smith
Lançamento: 1960
Selo: Blue Note


01 - Back At The Chicken Shack
02 - When I Grow Too Old To Dream
03 - Minor Chant
04 - Messy Bessie
05 - On The Sunny Side Of The Street


Donald Bailey - Bateria
Kenny Burrell - Guitarra
Jimmy Smith - Orgão
Stanley Turrentine - Sax. Tenor

Gravado em 25 de Abril de 1960, Van Gelder Studio, Englewood Cliffs, New Jersey. Boa audição - Namaste.

sábado, 28 de julho de 2018

Billie Holiday, uma cantora à frente do tempo

Billie Holiday é reconhecida como a maior intérprete que o jazz já produziu. Com interpretações intensas e com sentimento encantou o público e mudou a arte dos vocais para sempre. Mais de meio século depois de sua morte é difícil acreditar que as vocalistas de jazz antes de seu surgimento raramente personalizavam suas canções; na verdade, apenas as cantoras de blues como Bessie Smith e Ma Rainey davam a impressão de que tinham vivido o que estavam cantando. Billie Holiday fez a leitura desta tradição do blues e revolucionou o jazz e o pop tradicional, rasgando a tradição de décadas se recusou a comprometer sua arte. Em sua autobiografia, ela admitiu que sempre quis ser uma cantora como Bessie Smith e ter o sentimento de Louis Armstrong, e que muitas vezes tentou cantar como um trompete. mas, na verdade, seu estilo era praticamente ela própria. A tragédia pessoal e as drogas marcaram a sua vida. Mas todo o lixo que ela viveu era transformado pelo seu canto. Surras, prisões, droga pesada, mais o drama de uma cantora negra naquele tempo, quando muitas vezes nos hotéis onde se hospedava, no auge da carreira, era ‘convidada’ a subir pelo elevador de serviço para que não se misturasse com os brancos. Tudo isso foi transformado em interpretações históricas. Quando se ouve Billie cantar, sente-se que ela está contando sua história. Era linda, louca, sexy e livre. Billie é a minha deusa. Com seu estilo brilhando em cada gravação, a sua perícia técnica também se destacou em comparação à grande maioria de seus contemporâneos. Muitas vezes entediada e cansada das velhas canções que ela era forçada a gravar no início de sua carreira, Billie brincava com a melodia e rejuvenescia as canções com harmonias emprestadas de seus instrumentistas favoritos, Louis Armstrong e Lester Young. A sua notória vida privada com uma série de relações abusivas, dependência de substâncias químicas e períodos de depressão, sem dúvida, ajudaram seu status lendário. ‘Lover Man’, ‘Don't Explain’, ‘Strange Fruit’ e sua própria composição ‘God Bless the Child’, que versa sobre a pobreza, estão entre os seus melhores desempenhos e permanecem entre as apresentações mais sensíveis já registradas. Mais do que a capacidade técnica, mais do que a pureza da voz, o que fez Billie Holiday uma das melhores vocalistas do século foi o seu temperamento implacavelmente individualista. A vida caótica de Billie Holiday, supostamente, começou em Baltimore quando ela nasceu como Eleanora Fagan Gough. Seu pai, Clarence Holiday, foi um adolescente guitarrista de jazz que mais tarde tocou na Orquestra de Fletcher Henderson. Sua mãe também foi uma jovem adolescente, e se por causa de inexperiência ou negligência, muitas vezes deixava a filha com parentes indiferentes. Billie foi expulsa da escola católica com 10 anos, depois que admitiu ter sido estuprada, e condenada a ficar presa até a idade adulta foi liberada depois de dois anos por um amigo da família. Com a mãe, ela se mudou em 1927, primeiro para New Jersey e, logo depois para o Brooklyn. Em New York, Billie ajudava a mãe como empregada doméstica, mas logo começou a se prostituir para ter uma renda adicional. E já cantava em clubes do Harlem desde 1930. Teve um pouco de publicidade no início de 1933, quando o produtor e caçador de talentos John Hammond, também no início de uma carreira legendária, escreveu sobre ela em uma coluna para o mais antigo jornal sobre música já existente, o ‘Melody Maker’, do Reino Unido, e trouxe Benny Goodman a uma de suas apresentações. Depois de gravar uma demo na Columbia Studios, Billie se juntou ao pequeno grupo de Goodman para fazer sua estreia comercial com a música ‘Your Mother's Son-In-Law’. Apesar de não voltar ao estúdio por mais de um ano, Billie passou 1934 galgando os degraus da competitiva cena dos bares de New York. No início de 1935, ela fez sua estreia no Teatro Apollo, e apareceu em um filme com Duke Ellington. Durante a última metade de 1935, finalmente entrou em um estúdio novamente e gravou quatro sessões. Com uma banda supervisionada pelo pianista Teddy Wilson, ela gravou uma série de canções obscuras e esquecíveis da Tin Pan Alley, nome dado à editora de música de New York e seus compositores que dominaram a música popular dos Estados Unidos no final do século 19 e início do século 20. Em outras palavras, músicas disponíveis apenas para uma banda obscura de afroamericanos dos anos 30. Durante a era do swing, as editoras de música mantinham as melhores músicas estritamente nas mãos de orquestras populares e cantores brancos. Apesar da qualidade pobre das canções, Billie energizou essas canções. No final de 1937, gravou vários números com um pequeno grupo, mais uma descoberta de John Hammond, a orquestra de Count Basie. O saxofonista tenor Lester Young, que tinha conhecido brevemente Billie alguns anos antes, e o trompetista Buck Clayton se tornaram seus parceiros. E juntos gravaram o seu melhor trabalho e Billie deu o apelido de ‘Pres’ a Young, enquanto ele a apelidou de ‘Lady Day’ por sua elegância. Na primavera de 1937, ela começou a excursionar com Basie como o complemento feminino de seu vocalista masculino, Jimmy Rushing. A associação durou menos de um ano. Embora oficialmente ela tenha sido despedida da banda por ser temperamental e pouco confiável, a verdade é que o alto escalão do mundo editorial ordenou a ação depois que ela se recusou a cantar clássicos de blues dos anos 20. Menos de um mês depois de deixar Basie, ela foi contratada por Artie Shaw, um dos primeiros exemplos de uma mulher negra que apareceu com um grupo branco. Apesar do apoio contínuo de toda a banda, no entanto, promotores e patrocinadores de rádio logo começaram a contestar Billie, com base em seu estilo de cantar pouco ortodoxa, e também por ser negra. Após uma série de indignidades Billie deixou a banda com desgosto. Mais uma vez, a sua percepção foi valiosa, a maior liberdade lhe permitiu dar um show em um novo clube chamado ‘Café Society’, a primeira boate popular com um público inter-racial. Lá, Billie Holiday aprendeu a canção que iria catapultar sua carreira para um novo nível: ‘Strange Fruit’. ‘Strange Fruit’ é uma canção que condena o racismo americano, especialmente o linchamento de afro-americanos que ocorreu principalmente no sul dos Estados Unidos, mas também em outras regiões do país. ‘Strange Fruit’ foi composta como um poema, escrito por Abel Meeropol, um professor judeu de colégio do Bronx, sobre o linchamento de dois homens negros. Ele a publicou sob o pseudônimo de Lewis Allan. Abel Meeropol e sua esposa adotaram, em 1957, Robert e Michael, filhos de Julius e Ethel Rosenberg, acusados e condenados por espionagem e executados pelo governo dos Estados Unidos. Embora Billie inicialmente manifestasse dúvidas sobre a inclusão de tal música em seu repertório, ela o fez confiando em seus poderes de sutileza. E ‘Strange Fruit’ logo se tornou o destaque em suas apresentações e foi gravada. Uma vez liberada, ‘Strange Fruit’ foi proibida por muitas estações de rádio. Billie continuou a gravar e atingiu novamente grande sucesso com a sua mais famosa composição de 1941, ‘God Bless the Child’ e em 1944 com ‘Lover Man’, uma canção escrita especialmente para ela e seu terceiro grande hit. Billie logo se tornou prioridade para a ‘Decca Records’, ganhando o direito de material musical de alta qualidade e seções de cordas de luxo para suas gravações. Apesar de estar no alto da popularidade, a vida emocional de Billie começou um período turbulento. Já fortemente viciada em álcool e maconha, começou com o ópio com seu primeiro marido, Johnnie Monroe. O casamento não durou, e o vício na heroína veio com o segundo casamento com o trompetista Joe Guy. A morte de sua mãe a afetou profundamente, e em 1947 ela foi presa por posse de heroína e condenada a oito meses de prisão. Infelizmente, os problemas continuaram depois de sua libertação. As drogas tornaram impossíveis as suas apresentações. Atormentada ela seguiu em frente. Embora os estragos de uma vida dura estivessem refletidos em sua voz, muitas das gravações de Billie doa anos 50 são tão intensas e belas quanto sua obra clássica. Em 1954, Billie excursionou pela Europa com grande sucesso, e sua autobiografia de 1956 trouxe ainda mais notoriedade. Ela fez sua última grande aparição, em 1957, na televisão em um especial com Ben Webster, Lester Young e Coleman Hawkins dando-lhe apoio. Durante seu último ano, ela fez mais duas apresentações na Europa antes de cair doente do coração e doença hepática em 1959. E foi presa por posse de heroína em seu leito de morte. Morreu no mesmo ano. O filme ‘Lady Sings the Blues’ de 1972 interpretado por Diana Ross ilumina a sua vida trágica e lhe deu muitos fãs de novas gerações. - Fonte: Pintando Musica

Boa leitura - Namastê

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Bessie Smith (1894-1937)

Bessie Smith, 03 de Fevereiro de 1936.
Fotografado por: Carl Van Vechten.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Os anos dourado de Lady Day na vanguarda do jazz


Aos treze anos, Billie Holiday encontra Nova York. Com a paciência da esgotada, vovó Martha exige que Sade pegue a menina de volta. A garota só faz o que lhe dá vontade. Uma vergonha para uma família respeitável. Tal mãe, tal filha, resmunga pelas costas a jovem Billie. Dizem que ela passa a noite em casas de tolerância e só volta de manhã, nas piores condições, algumas vezes com marcas no rosto. A garota deixa Baltimore no começo de 1929. Para a viagem usava um vestido de algodão branco com enfeite de tule e um cinto de verniz vermelho. Sade, que mora no Harlem, vai recebê-la na estação de trem de Long Branch. No começo do século, o Harlem tinha sido um bairro principalmente residencial, cheio de verde e tranqüilo, em que habitavam imigrantes judeus, irlandeses, alemães ou italianos. Mas a partir da década de 20, a migração dos negros do sul em busca de trabalho nas grandes cidades do norte foi transformando aos poucos o Harlem em uma concentração de negros de todas as partes. Os brancos esvaziavam o bairro e de acordo com as regras da especulação imobiliária, ele foi deixado ao abandono. Os imóveis antigamente ocupados por brancos foram subdividido em pequenos alojamentos que sofreram uma progressiva decadência. Pouco a pouco, o Harlem se transforma em um gueto. No final dos anos 20, relata-se que os negros sempre encontravam alojamentos por ali e que havia trabalho para todos. Fala-se de sua vida noturna trepidante, e de seu fervilhamento cultural, daquela Renascença Black de que o livro de Alain Locke (1886-1954) – The New Negro (1925) se tornou em estandarte. O Harlem está na crista da onda e dita a moda em matéria de arte, musica e literatura. A música é tocada pelos negros e negros são os atores das peças de teatros. Poetas, romancistas, dramaturgos, todos celebram sua negritude e dão a conhecer talentos como Langston Hughes (1902-1967), Paul Laurence Dunbar (1872-1906), James Weldon Johnson (1871-1936), Claude McKay (1889-1948), Countee Cullen (1903- 1946). Finalmente os negros têm sua própria referência de primeiro plano. O escritor Willian Edwards Burghardt DuBois, militante da NAACP (Associação Nacional Para o Progresso dos Negros), na melhoria das condições sociais das pessoas “de cor”, que luta contra a discriminação racial e os linchamentos, exorta o povo a reivindicar seus direitos. Musicalmente são os blues que atingem o auge. Em 1920 o disco de Mamie SmithCrazy Blues, vende mais de um milhão de exemplares e lança moda. Mais de cinco mil discos diferentes de blues são produzidos no decurso dos dois decênios seguintes. As comédias musicais e as “revistas negras” ocupam completamente os palcos da Broadway. Duke Ellington estreia no Cotton Club, Louis Armstrong e Bessie Smith no Alhambra. Os burgueses brancos vêm “acanalhar-se” nos clubes negros do Harlem, onde se dança black botton. Ragtime ou charleton. Durante os anos 20 e 30, o estilo pianistico Harlem Stride, Do qual Art Tatum (1909-1956) foi mais tarde campeão incontestado, faz furor em toda parte. A mão esquerda, vigorosa, garante o suporte rítmico, enquanto a mão direita opera sutis variações. No Harlem. Luckey Roberts (1893-1968), Willie “the Lion” Smith (1897-1973), Fats Waller (1904-1968) ou James P. Johnson (1904-1943) disputam uns com outros o título de “reis do Stride”. Nas casas dilapidadas do Harlem, a moda agora são as rent parties. Entrada paga. Servem soul food (miúdos e patas de porco e ensopado de couve), os pratos da cozinha negra do sul dos Estados Unidos. Pianistas animam esses saraus musicais, em que os locatários de um mesmo imóvel se cotizam para ajudar aqueles que não podem pagar seu aluguel. Nos clubes que brotam em toda parte ocorrem torneios intermináveis entre os virtuosos do piano. Os executantes individuais e as big bands se enfrentam em desfiles musicais, enquanto um público tomado de entusiasmo deve escolher os melhores aplaudindo freneticamente. Sobre os pódios de Savoy Ballroom, duas grandes orquestras se alternam para acompanhar continuamente as centenas de bailarinos que se deslocam sobre uma pista de setenta metros de comprimento por quinze de largura. Apelidaram o Savoy de “a casados pés felizes”. A clientela e mista. Chama a atenção o espetáculo dos dançarinos que executam figuras acrobáticas de lindy-hop e jitterbug (dança e passos velozes). As garotas de sais plissadas e meias soquete brancas, são jogadas por cima do ombro, passam pelo meio das pernas de seu cavalheiro e se ergue de imediato, como se alguém lhe puxasse as rédeas e continuam a dançar, sem perder o ritmo por um único minuto. Em 1923, abre as portas o luxuoso Cotton Club. “Um bar de luxo exótico que explora a mesma formula das grandes “revistas negras” da Broadway: brancos na sala, negros no palco”. Uma segregação estritamente aplicada. As melhores orquestras negras, de Duke Ellington, Cab Calloway
(1907-1994) , Jimmie Lunceford (1902-1947), sucedem-se intercaladas com números de garotas quase nuas, moças de cor ou mestiças de pele clara. Se fossem muito escuras espantariam os fregueses. Corre o boato de que certas brancas se fazem passar por negras, por que o Cotton Club paga melhor do que os outros. Duke permanece tocando na casa durante cinco anos, entre 1924-1932, com um conjunto de onze músicos e faz tremerem as damas ao som de bongôs selvagens. Seu estilo jungle que evoca a floresta virgem e as danças primitivas, sacodem as paredes do clube, enquanto as girl, arregalando olhos assustados, dançam pelo meio de cipós. Na rua 125, o Apollo Theater, cinema e music hall, apresenta um filme novo a cada semana e atrações de palco. Números cômicos, matracas, cantores e sempre uma excelente orquestra de jazz. Os músicos começam a tocar às dez horas da manhã e garantem cinco a seis shows por noite, em troca de salários irrisórios. Seu trabalho só acaba pelas onze da noite e o midnight show dos sábados dura até as duas horas da manhã. A partir de 1934, a cada noite de quarta-feira são organizados concursos de canto para amadores. O veredicto do publico, particularmente turbulento e exigente, é muito respeitado pela imprensa musical. Grande número de estralas e astros Como Ella Frizgerald (1917-1996), Thelonious Monk (1917-1982) e Sarah Vaugham (1924-1990) fizeram ali suas estreias. A parte dos anos 30, a Rua 52 transformou-se no “Swing Street”, a partir do novo ritmo musical, o swing. Na “rua que nunca dorme” pulula uma grande quantidade de pequenos clubes e de speakeasies, bares clandestinos, em que se bebe álcool contrabandeado. Ainda estamos na época da proibição e os reis do crime investiram em night clubs. Alguns cabarés abriram nos subsolos bares proibidos ou pequenos salões que os bootleggers (recipiente de bebida) mantêm sempre bem surtido de bebidas fortes. Como o álcool, o dinheiro líquido corre aos borbotões; os músicos fazem bons negócios e as grandes orquestras, como as Fletcher Henderson (1897-1952), tendo como guitarrista e banjista Clarence Holiday – seu pai, no Roseland ou de Chick Webb (1905-1939) no Savoy Ballroom, tocam para as multidões de bailarinos. Junto a esses grandes conjuntos instrumentais, o papel dos solistas assume um caráter cada vez mais preponderante. Postados de costas para a orquestra, na beira do proscênio, têm o lugar de honra, arrastando a orquestra atrás de si, enquanto seus solos muito concorridos desencadeiam o entusiasmo do publico. Coleman Hawkins (1904-1969) toca com Fletcher Henderson; o trompetista Cootie Williams (19101985) e o saxofonista Johnny Hodges (1906-1970) se exibem com Duke Ellington, enquanto Lester Young (1909-1959) se apresenta com a orquestra de Count Bassie (1904-1984) em Kansas City.

Fonte: Billie Holiday, Biografia - Sylvia Fol.


Your Mother´s Son -In- Law - Billie Holiday & Benny Goodman

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Billie Holiday: um breve relato de blues

Falar de Billie Holiday é exaltar o nome de uma das maiores cantoras do século XX, considerada a primeira grande dama do jazz de todos os tempos, dona de uma voz única e sublime, que arrastava notas e dava à música uma nova roupagem em suas interpretações, influenciando uma legião de cantoras no mundo todo e perdurando seu legado por mais de cinco décadas após sua morte. Nasceu em 07 de abril de 1915, na Filadélfia, nos Estados Unidos. Teve uma infância humilde e conturbada, fomentada pelo desamparo materno, pelas dificuldades financeiras, pelo abuso sexual, passagens a reformatórios e iniciação à prostituição na adolescência. Sua mãe, Sarah Harris, muito pobre, separada do marido, não tinha condições de cuidar da filha, deixando Billie, que era até então apenas Eleonora Harris, seu nome de batismo, sob os cuidados da meia-irmã que, por sua vez, passou a menina para a responsabilidade de sua sogra. A pequena futura grande diva da música também passaria pela experiência de viver num reformatório. Posteriormente, ao voltar para os cuidados da mãe, onde passou a ajudá-la no restaurante construído, em Baltimore, seria abusada sexualmente por um vizinho. Mas, no lugar do homem que a abusou, a própria vítima foi quem sofreu as consequências, sendo levada novamente para um reformatório. Sim, a história de Billie é um dramático relato de blues, e não termina por aí. Na condição de pobre e negra, num país segregado pela discriminação racial, passou a oferecer serviços domésticos a um bordel local e, consequentemente, a se prostituir como forma de sobrevivência. E foi num dos quartinhos do bordel onde Billie trabalhava que ela, supostamente, ouviu na vitrola um disco de Louis Amstrong e Bessie Smith, apaixonando-se profundamente pelo som de ambos, que seriam as suas maiores influências musicais. A partir daí o espírito jazzístico passara a nutrir sob a alma blue da jovem, que começou a cantar no mesmo bordel de Baltimore. Em 1929, foi detida ao lado da mãe e de outras prostitutas, passando cem dias num reformatório. Logo depois, vai morar no Brooklyn com a mãe, atuando como cantora em bordeis e boates da cidade, como também nos Queens de Nova Iorque. Em 1933, a carreira de Billie tomaria o primeiro grande impulso quando foi ouvida pelo produtor John Hammond, num pequeno clube nova iorquino. Hammond teria ficado impactado com a sensibilidade vocal da jovem cantora, na época, ainda com 17 anos. Em novembro, vai para o estúdio pela primeira vez, acompanhada pela orquestra clarinetista de Benny Goodman. O nome Billie Holiday surgira por conta do pai da cantora, Clarence Holiday, um guitarrista de Baltimore, de quem Eleonora passou a usar artisticamente o sobrenome. Já para o “Billie”, há duas versões: a primeira, de que o pai da jovem costumava chama-la de Bill, e daí fez o salto; e a segunda, porque a cantora, quando menina, adorava ir ao cinema para assistir a atriz Billie Dove, grande estrela do cinema mudo. Pode-se dizer que os anos 30 e 40 foram o grande apogeu da cantora, que deixou em vida mais de 130 gravações, ao lado de grandes orquestras jazzísticas como as de Duke Ellington, Cout Basie e Teddy Wilson, assim como parcerias, posteriores, com o pianista Oscar Peterson e o baixista Ray Brown, na década de 50. Viveu uma vida turbulenta, cercada por altos e baixos, impulsionados por seus conturbados relacionamentos amorosos, que resultaram em três casamentos com homens oportunistas e violentos, e pelo vício degradante de drogas e bebida, o que afetaria, pouco a pouco, sua saúde física e a jovialidade de sua voz, que já na década de 40 mostrava sinais de declínio. Mesmo tornando-se uma grande estrela reconhecida internacionalmente, Lady Day, apelido concedido pelo amigo e saxofonista Lester Young, sofreu constantes discriminações em passagens por hotéis e restaurantes, por sua condição de mulher negra, revelados pela própria em entrevistas. “Strange fruit”, composição de Lewis Allan, pseudônimo do escritor Abel Meeropol, judeu comunista de Nova Iorque, e eternizada na voz de Billie, em 1939, relata como nenhuma outra a grande violência regida contra os negros, e tornou-se um símbolo da luta contra a discriminação racial. O fruto estranho citado na música fazia alusão aos linchamentos ocorridos principalmente no sul dos Estados Unidos, onde os corpos dos negros linchados ficavam expostos pendurados numa árvore. O mais assustador é deparar com as fotografias antigas da época e ver a naturalidade das pessoas frente aos cadáveres. O mesmo impacto fez com que Lewis Allan se inspirasse na letra de “Strange fruit”. Em 2012, foi lançado no Brasil o livro Strange fruit: Billie Holiday e a biografia de uma canção, escrito pelo jornalista David Margolick, com tradução de José Rubens Siqueira, editado pela Cosaic Naify, que reflete sobre a emblemática canção no momento de seu lançamento e todo o seu contexto histórico ligado à violência contra os negros nos Estados Unidos e a sua influência com o passar das décadas. Nos anos 50, quase esquecida pelo público, pelos empresários e pelas gravadoras, embora na Europa seu nome ainda cativasse as plateias, após sua volta aos Estados Unidos Billie decide escrever sua autobiografia como estratégia de marketing para que seu nome fosse novamente impulsionado na grande imprensa norte-americana de forma positiva, já que os últimos anos, agravados pelos excessos relacionados ao consumo de drogas e bebida e passagens pela prisão, tinham desfavorecido sua popularidade. O que seria a autobiografia intitulada Lady sings the blues, nem sequer foi, de fato, escrita. O jornalista Willian Dufty, o escritor fantasma contratado pelo terceiro marido de Billie, supostamente interessado em faturar em cima do nome da esposa, apresentou um trabalho biográfico um tanto quanto falseado e apelativo, beirando a comiseração, sabendo que tais ingredientes estimulariam as vendas. Contudo, a autobiografia romanceada de Lady Day ao menos devolveu um pouco da fama à cantora, que se mostrava cada vez mais vulnerável e com a saúde debilitada. Embora os últimos anos de Billie tenham sido depressivamente instáveis, com passagens mal sucedidas em clínicas de reabilitação e experiências nada agradáveis com a justiça, é possível encontrar belos achados daqueles anos na internet, em apresentações na Europa e nos Estados Unidos, como em 8 de dezembro de 1957, no The sound of jazz, programa estadunidense de grande audiência na época, nos estúdios da CBS, onde foi convidada para cantar, ao lado do saxofonista Lester Young, a canção “Fine and mellow”. Considerado um dos melhores registros da última década de sua vida. Na manhã do dia 17 de julho de 1959, morria, aos 44 anos, a primeira grande dama do jazz. E, como no caso de outros artistas que partiram cedo, a morte de Billie apenas alavancou ainda mais sua popularidade e fez de Lady Day uma das maiores lendas do jazz de todos os tempos. Onde quer que se fale sobre o gênero, é quase inevitável que seu nome seja citado. (Fonte: Márwio Câmara,10/05/2013)
Boa leitura - Namastê

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Ela é Uma Torch-Singer - Uma Cantora que Queima de Paixão

Ben Webster, Billie Holiday, guitarrista desconhecido e Johnny Russell
pose no Harlem em 1935, em Nova York.
(Foto Arquivo Jazz JP Redferns)

John Hammond, o eterno promotor de Billie convence Irving Mills (1894-1985), o empresário de Duke Ellington (Edward Kennedy "Duke" Ellington 1899-1974) de que ela e a cantora ideal para Simphonny in Black, um curta-metragem de nove minutos de duração que "Duque" está preparando e cuja produção é garantida por Fred Waller (1886-1954) promotor e posteriormente o inventor do Cinerama em 1950. O cenário é simplista. Um triângulo amoroso, duas mulheres e um homem. No papel da mulher desprezada entra Billie, que canta uma peça escolhida por Duke especialmente para ela, “Saddest Tale”, uma soberba canção de blues em que seu fraseado recorda o estilo vocal de Bessie Smith (1894-1937) . Ela se agarra ao homem que a deixou por outra. Ele a joga ao assoalho com um empurrão. Ela continua a cantar no chão, mesmo vencida e machucada. São as queixas de uma amante desprezada, mas também a paixão de uma mulher por seu homem. Duke Ellington demonstrou grande discernimento, ele viu em Billie aquela que não tinha qualquer chance, uma mulher a quem se mente e a quem se nega amor. Perfeitamente normal que ele tenha escolhido para o papel de vitima. Quanto ao ator, o dançarino EarlSnakehipsTucker (1905-1937), chamado de boa constrictor (jibóia) por seu contorcionismo por inventar o estilo de dança “Snakehips” (quadril de cobra) em 1930. De uma elegância arrastadora, faz o tipo perfeito do cafetão. Ela só tinha dezoito anos. Seu corpo desabrocha, seu rosto é encantador sobe os cabelos curtos. Suas bochechas arredondadas lhe dão certo aspecto de ingenuidade e candura. O timbre rouco de sua voz comunica perceptivelmente a mágoa pungente. É como se fosse à primeira ferida causada à inocência. Desde seu primeiro aparecimento no cinema, Billie alcança total sucesso em criar um personagem cuja vida e canções se confundem. Essa osmose imediata acrescenta a seu desempenho uma força singular, a sensação de que ela revela ao cantar uma verdade que se encontra a ponto de aflorar. Mas aquela de quem se fala muito então é uma nova cantora de dezoito anos, que faz dançarem as multidões que acorrem ao Savoy Ballroom, uma garota que saiu do nada e que se produziu com uma das melhores orquestras do momento, do percursionista Chick Webb (William Henry Webb 1905-1939). Essa garota sem a menor experiência hipnotiza as multidões que vão ao Savoy. Billie precisa ver por si mesmo. Ao chegar ao grande salão de baile, ela sobe a majestosa escadaria de pilares de mármore, iluminada por lustres de vidro laminado. Imensa sala de dança está abarrotada de gente. Ela se enfia discretamente em um canto sem sequer tirar o casaco. Mas essa Ella Fitzgerald de fato é excelente... Que energia! Ela estala os dedos enquanto canta, martela o chão com os pés para marcar o ritmo. Tem um embalo dos infernos, essa peste. Como ela gostaria de estar em seu lugar, a estrela do Savoy, cantando com a grande orquestra de Chick Webb, em vez de estar escondida em um restaurante, cantando no meio de barulho dos talheres contra os pratos, meio abafada pelas conversas! Ela não imaginava que dois anos mais tarde em 1937 iria enfrentar Ella Fitzgerald nesse mesmo Savoy Ballroom, acompanhada por Count Basie (William "Count" Basie 1904-1984) e sua orquestra, e seus admiradores respectivos discutindo durante anos qual duplas, Holiday/Basie ou Frizgerald/Webb, estivesse conseguido superar a outras. Mas por agora essa concorrente expansiva, de dinamismo irresistível a deixou inquieta. A carreira de Ella esta deslanchando como impulsionada pela roda da fortuna. É um reconhecimento imediato, enquanto Billie tem o sentimento de que sua está patinando. Todavia em abril de 1925, Billie é beneficiada por um golpe de sorte na pessoa de Ralph Cooper (1908- 1992), apresentador famoso e estrela no Apollo Theater e uma celebridade no Harlem. Acaba de montar sua orquestra. Um dia em que está jantando no Hot-Cha, uma jovem cantora sobe à pequena plataforma no canto do restaurante. Não lhe chama nenhuma atenção em particular, está habituado com todo tipo de gente envolvida no show business. Entretanto, no momento em que escuta sua voz, ele esquece seu espaguete. (“Foi nesse momento que eu observei que ela era linda, que tinha um sorriso encantador e sobretudo que cantava de um jeito como jamais escutara antes. Dava a impressão de que chorava ao cantar...Eu nunca havia escutado uma voz assim, descansada, tranqüila, ao mesmo tempo lânguida e sensual. Aquilo não era blues, eu nem sequer sabia do que se tratava”). Depois de haver organizado numerosas “noites” de calouros no Apollo, Ralph Cooper sabia perfeitamente detectar um talento quando cruzava com um. Pede logo para falar com o gerente do Hot-Cha. Ele promete citar seu restaurante durante a transmissão de rádio difundida diretamente do palco do Apolo, se ele concordar em emprestar-lhe Billie. Tão logo acabou de apresentar seus números, ele já lhe propôs ser a cantora de sua orquestra. Billie esta no céu. Ralph Cooper é conhecido por seu bom gosto em matéria de artista e é, além disso, um personagem muito influente. Sua grande orquestra vai alcançar o maior sucesso. Com o coração batendo forte no peito, Billie chega ao Apolo para seu primeiro ensaio com a orquestra. Na hora mandam que volte pra casa a fim de escolher um vestido adequado para o palco. De fato, ela não tem nada à altura, e Cooper lhe compra um vestido e um par de sapatos. O ensaio não chega a um resultado definitivo. A orquestra não tem muita fé em sua futura apresentação. Mas Cooper tem confiança em sua intuição. Billie canta algumas canções de amor que não comovem muito o difícil publico do Apolo, mas é notada pela imprensa que a menciona como ”uma cantora fértil de encanto”, e também a chama de Torch Singer, “uma cantora que queima de paixão”. Seja com for Cooper propõe que fique uma segunda semana. Por precaução também contrata um cantor de Chicago, Herb Jeffries (Herbert "Herb" Jeffries 1911-), o primeiro cowboy negro a desempenhar o papel de um filme de faroeste. Ele pede a Billie que cante algumas peças mais arrojadas. A idéia é boa. Billie interpreta “Them There Eyes” e “If the Moon Turns Green”. Essas canções estão mais de acordo com o gosto do público do Apollo que aplaude e pede bis muitas vezes. Infelizmente, Ralph Cooper desiste de sua experiência com a grande orquestra e se torna em vez disso um dos mais famosos disc Jockeys. Billie retorna decepcionada para o Hot-Cha. Mais uma oportunidade que se perdeu. Existe uma fotografia dela com os músicos, nos fundos do Apollo Theater, usando seu vestido quadriculado de meninazinha. Bem ao lado dela esta Bem Webster (Benjamin Francis Webster 1909-1973) como sax debaixo do braço, mas virando os grandes olhos para o outro lado. Ela era vista sempre em sua companhia. Bem é um saxofonista da orquestra de Fletcher Henderson (James Fletcher Hamilton Henderson, Jr. 1897-1952), um homem bem do jeito que ela gosta um rapaz bonito com caráter explosivo. Tem igualmente uma boa inclinação para a garrafa e a partir do momento em que bebe um copo ou dois a mais, se torna violento. Billie esconde as manchas roxas no rosto sob uma espessa maquiagem. A impressão que se tem é a de que Billie gosta de ser desenferrujada a pancada. Será essa a única forma de se sentir prazer físico depois que foi estuprada? Recria circunstancial similar e paradoxal, até mesmo incompreensível. Todavia, é assim com Billie. Com seus homens ela nunca para de produzir metaforicamente a violação de sua infância. Exorcizar o medo, negar a violência do acontecimento revivendo suas circunstâncias vezes sem contas? Ou então quer ser castigar a força de golpes para ser perdoada pela imundície de seu corpo? Esforça-se para ser espancada, provoca uma briga após outra, dar pancada para que o adversário retribua e depois se entregar ao lavar um ultimo soco ou bofetada, sem ter mais força sequer as coxas. Era assim que ela sentia prazer? Sadie (Sadie Fagan) fica profundamente inquieta por esse amor de cadela. É difícil esconder da mãe os olhos roxos ou a cara inchada. Mas difícil ainda é lhe confessar até que ponto ela gosta disso. E voltam de novos as mesmas queixas da mãe sobre os homens, são todos uns salafrários, não prestam para nada, são uns exploradores. Os queixumes da mãe a exasperam. Sadie, que foi deixada por todos os homens de sua vida, sente por eles um ressentimento violento. Cada homem que aparece diante dela é um perigo em potencial e ela se esforça ao máximo para denegri-los. O único que jamais caiu em sua graças foi Lester Young (Lester Willis Young 1909-1959). Infelizmente, ainda que Billie amasse Lester, ele são lhe agrada. É doce demais, frágil demais. Não é viril o bastante perante seus olhos. Jamais teria sido capaz de levantar a mão para ela. E depois, ele sabia fazê-la sorrir, ele a deixava feliz, despertava nela o entusiasmo por seu próprio talento. Billie jamais poderia escolher um homem assim. Seria bonito demais. Sadie resolve fechar sua porta a Bem Webster. Uma noite em que ele vem de carro buscar Billie, ela se atira sobre a filha, armada de um guarda-chuva. E chega mesmo a ataca-lo. Billie lhe agarra os braços e chega até a empurrá-la para um lado. Se fosse preciso, teria até mesmo passado por cima do corpo dela. Fonte: Billie Holiday - Biografia, Sylvia Fol.

Saddest Tale

Them There Eyes

If The Moon Turns Green

Boa Leitura - Namastê.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Ladies of Jazz - As Novas e Belas Faces do Jazz

O jazz, assim como a ópera, sempre teve suas divas. Foi ao microfone que as mulheres deram sua principal contribuição a esse gênero musical. O exército das grandes cantoras supera em muito o dos cantores que se destacaram. Para cada Frank Sinatra há uma Billie Holliday, uma Ella Fitzgerald, uma Sarah Vaughan. Presença constante no jazz, a diva foi mudando de perfil ao longo do tempo . A sua mais nova encarnação surgiu no fim da década passada. Seus principais atributos: a sensualidade (devidamente ressaltada pelas gravadoras, que sabem que homens de meia-idade compõem uma fatia respeitável do público interessado nesse tipo de música) e o fato de emprestarem um tratamento pop ao jazz – em vez de dar um tratamento jazzístico ao popular. É essa receita que tem garantido o sucesso de intérpretes como Diana Krall, Norah Jones e Jane Monheit. O caso da americana Norah Jones é emblemático. Ela é filha do citarista indiano Ravi Shankar e de uma enfermeira americana. Só ficou sabendo que tinha pai famoso na adolescência. Recusa-se a falar sobre ele e diz que seu interesse por música jamais esteve relacionado à profissão paterna. Seus estudos de piano e saxofone deram-se por indicação de um psicólogo: ela era uma criança hiperativa e a música fazia parte de uma terapia. Foi tiete do roqueiro Bon Jovi antes de se interessar por Louis Armstrong ou Miles Davis. Mas foi um selo de jazz que resolveu lançá-la: o Blue Note, que gravou vários grandes nomes do gênero e resolveu dar tratamento de grande estrela à novata. Compensou. Gravado em 2002, seu primeiro CD - Come Away with Me, vendeu 3 milhões de cópias nos Estados Unidos. No Brasil, foram cerca de 30.000 unidades, valor significativo para um artista internacional. A crítica também gostou. Norah é uma das principais figuras ao Grammy, o Oscar da indústria fonográfica. "O jazz é essencial no meu trabalho, mas tenho muitas outras influências, como o country", explica . A pioneira nessa seara foi a canadense Diana Krall. No início da carreira, ela preferia tocar piano a cantar. No fim dos anos 90, resolveu fazer algumas experiências para ver se ampliava seu público. Aprendeu alguns standards da Bossa Nova, uma ou outra balada célebre e deu-se um banho de loja. A loiríssima sempre foi uma mulher bonita, mas quem a viu tocar antes da metamorfose diz que seu visual era mais relaxado. Atualmente, ela não sobe ao palco sem estar impecavelmente produzida. Seus três últimos discos venderam juntos mais de 3 milhões de cópias. When I Look in Your Eyes, que ela lançou em 1999, tornou-se o primeiro álbum de jazz a concorrer ao Grammy na categoria principal em 25 anos. Seu álbum seguinte, The Look of Love (2001), entrou na nona colocação da parada americana. Até veteranas do jazz mudaram seu comportamento por causa do fenômeno Diana Krall. Por exemplo, a pianista brasileira Eliane Elias. Ela se notabilizou pela destreza ao instrumento. Vez ou outra adicionava vocais a seus álbuns. No entanto, seu CD - Kissed by Nature, traz canto em nove das treze faixas. "Fiz um disco para o fã de jazz que anseia por ouvir canções suaves após um dia de trabalho", afirma Eliane. O ecletismo e o flerte com gêneros mais populares não são uma novidade no jazz. Nos anos 50 e 60, Sarah Vaughan e Ella Fitzgerald já subiam ao palco para cantar um sucesso dos Beatles ou uma versão da Bossa-Nova Águas de Março. Ao fazerem isso, freqüentemente reinventavam a música, seja pelo virtuosismo técnico, que as levava a quebrar um fraseado, seja pela pura força de sua interpretação. Diana Krall e companhia não vão tão longe. Elas dão um verniz refinado ao pop – ao mesmo tempo que revisitam clássicos da tradição do jazz. Talvez lhes falte algo da profundidade emocional de suas antecessoras. Mas ninguém vai negar que é gostoso ouvi-las. Graças a elas o jazz está saindo do nicho em que se encontrava, para tornar-se novamente um gênero grande e rentável. Entre os fãs das novas divas, há tanto senhores de meia-idade que conhecem as interpretações de Bessie Smith de trás para a frente quanto uma garotada que até pouco tempo atrás estava feliz com Alanis Morissette.

Font: Sérgio Martins, Veja On-Line Ed. 1789 (12/02/2003)


sábado, 12 de junho de 2010

Lady Day: The Complete Billie Holiday on Columbia (1933-1944)Vol 02

Gardênia no cabelo

Um manda-chuva do showbiz da época, impressionado com uma jovem cantora queria que ela fosse contratada pelo Lafayette Theatre, uma grande casa noturna de Nova York animada pelas big bands em dias de depressão e lei seca. Tentando convencer o dono do teatro, ele ouviu a pergunta sobre o estilo da moça. Não conseguiu responder e depois de algumas tentativas de definição, desistiu: “Não sei o que é mas você tem de ouvi-la”. A cantora que já no começo de carreira escapava a rótulos e magnetizava os ouvintes era a única e maravilhosa Billie Holiday. Depois de ser ouvida pelo figurão, ela foi contratada para um programa badalado da casa, um dos muitos que fez. Billie pavimentou uma carreira de estrela com canções inesquecíveis e registros inigualáveis de standards. Para muitos a maior cantora de jazz de todos os tempos. Mas, passados 50 anos depois sua morte e certamente uma das maiores influencias vocais entre as cantoras americanas, não é de se admirar se alguém repetir a mesma sentença. “Não sei o que é, mas você tem de ouvi-la”. É preciso ouvir clássicos como Strange Fruit, Body and Soul, The Very Though of You, Yesterdays, My Old Flame e tantos, tantos outros na sua voz ligeiramente rouca, ao mesmo tempo sensual e emotiva, suave e marcante, além de um fraseado único, que nem as outras cantoras da orquestra conseguiam imitar. E os músicos continuavam pedindo para Billie ensinar-lhes... Lady Day, como seria apelidada, era realmente inclassificável. Com Ella Fitzgerald e Sarah Vaughan, formou a tríade das grandes cantoras de jazz. Ella e Sarah tinham extensão e recursos vocais formidáveis, além de terem redimensionado o swing, o bebop e o cool jazz. Billie que aprendeu a cantar de ouvido, principalmente na infância pobre em Baltimore, tinha o dom de revestir as músicas que interpretava com uma atmosfera bluesy – embora não fosse uma cantora de blues –, essencialmente triste e comovente. Por isso apreciava tanto o trompetista Lester Young, que conhecera em jam sessions com o instrumento “todo remendado com fitas adesivas e elásticos”. Lester era tão surpreendente quanto Billie, seus solos tão melancólicos que quando estavam juntos, pareciam dois instrumentos correspondentes: voz e sax . Foi Lester, inclusive, quem lhe deu o famoso apelido. O “duo” é um dos exemplos das boas parcerias que a cantora fez. Afinal não é qualquer um que tem no currículo gravações e apresentações com as orquestras de mestres como Count Basie, Benny Goodman (com quem fez sua primeira gravação, em 1933) e Artie Shaw. Foi longe a menina pobre que nasceu Eleanora Fagan, na Filadélfia. Era filha de um guitarrista e banjista, que se separou da mãe quando Billie ainda era bebê. Ela e a mãe sobreviveram de subemprego em Baltimore, ate decidirem mudar para Nova York, e se instalaram no Harlem. Foi lá que se envolveu com prostituição, segundo ela. Um dia, pra evitar o despejo saiu de casa e acabou fazendo um teste para dançarina de casa noturna. Um desastre. Mas o pianista com pena certamente do seu desespero perguntou se ela sabia cantar. A garota cantava por prazer mas não sabia que sabia. Saiu de lá com dinheiro para pagar o aluguel – e seu primeiro “contrato”. Daí, trilhou uma carreira de shows em clubes e fez suas primeiras gravações. Participou do filme New Orleans (em 1947), interpretando uma doméstica – e odiou! Em 1956, publicou a autobiografia Lady Sings the Blues. A ideia foi do marido, o mafioso Louis McKay. O objetivo era que a história chegasse aos cinemas, numa época de algumas cinebiografias de sucesso. Assim, o mercenário e violento McKay – mas que, justiça seja feita, tentou livrar Billie do vício da heroína – descolaria alguma grana. Mas o filme caso de uma Estrela só saiu em 1972. O papel principal foi para Diana Ross. Fome e amor – Nem Billie mesma sabia de onde vinha seu estilo. Dos discos de Bessie Smith e Louis Armstrong que, ainda garota, pagava para ouvir num dos bordéis de Baltimore, reduto do jazz, onde limpava escadarias das casas. “O que posso dizer? Cantar, no meu caso, nada tem a ver com elaborar, arranjar, ensaiar. É só me dar uma canção que posso sentir. Existem algumas canções que sinto tão intensamente que não aguento cantá-las, mas isso é uma outra história. Interpretar canções como The Man I Love ou Porgy não é mais do que sentar no chinês e comer pato assado (prato que ela adorava). Eu vivi canções como estas. Quando as canto, vivo-as de novo”, disse. Não à toa, várias músicas do seu repertório poderiam muito bem fazer parte da trilha sonora de sua vida. Don’t Explain foi feita depois que ela achou marcas de batom na camisa do primeiro marido, Jimmy Monroe. “Já me disseram que ninguém canta a palavra ‘fome’ como eu. Ou a palavra ‘amor’”, declarou Billie, cuja influência se espalhou pela música americana. Sua música vem carregada de experiências de uma vida trágica, que inclui violência sexual aos dez anos, amores conturbados, internações hospitalares e passagens pela cadeia. Morreu jovem, aos 44 anos, no dia 17 de julho de 1959, envelhecida pelo excesso de drogas e álcool, com saúde precária, voz prejudicada, pobre. Tinha menos de um dólar no banco. As enfermeiras acharam outros 750 dólares presos a sua vagina com fita durex que ela antes do último sacramento mandou entregar ao jornalista William Dufty, seu ghost writer (Escritor-fantasma, pessoa que tendo escrito uma obra ou texto, não recebe os créditos de autoria). O funeral, com 2,5 mil pessoas, foi pago por um fã rico, bem como um lugar para a sepultura. Talvez, descontente com a própria decadência, se pudesse escolher a música para cantar aquele momento, seria Please, Don’t Talk About Me When I’m Gone, uma canção de despedida amorosa que pode ser traduzida como “por favor, não fale de mim quando eu tiver partido”. Mas isso é impossível. ___________
Fonte: Joceval Santana - A Tarde Online.

Sentimental and Melancholy


If My Heart Could Only Talk


Sidemen:
Lester Young - Sax Tenor
Ben Webster - Sax Tenor
Johnny Hodges - Sax AltoArtie Shaw - Clarinete
Benny Goodman - Clarinete
Roy Eldridge - Trompete
Teddy Wilson - Piano

Faixas:
01. A Fine Romance
02. I Can't Pretend
03. One, Two, Button Your Shoe
04. Let's Call A Heart To Heart
05. Easy To Love
06. With Thee I Swing
07. The Way You Look Tonight
08. Who Loves You?
09. Pennies From Heaven
10. That's Life I Guess
11. I Can't Give You Anything But Lo...
12. One Never Knows, Does One?
13. I've Got My Love To Keep Me Warm
14. If My Heart Could Only Talk
15. Please Keep Me In Your Dreams
16. He Ain't Got Rhythm
17. This Year's Kisses
18. Why Was I Born?
19. I Must Have That Man
20. The Mood That I'm In
21. You Showed Me The Way
22. Sentimental And Melancholy
23. My Lost Affair

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Boa audição - Namastê.