Artista: Eddie Davis
Na década de 1940, o lendário produtor e empresário Norman Granz revolucionou o ecossistema do jazz ao criar a franquia Jazz at the Philharmonic (JATP). O conceito era ousado: tirar os músicos das fumaças dos pequenos clubes e colocá-los nos palcos das grandes salas de concerto, promovendo jam sessions de alta voltagem rítmica. Embora o auge das turnês globais da JATP tenha ocorrido entre os anos 40 e 60, Granz manteve o espírito aceso em estúdio através de seu selo, a Pablo Records. Gravado em 15 de dezembro de 1982 e lançado no ano seguinte, o álbum Jazz At The Philharmonic, 1983 não é um registro em uma filarmônica europeia, mas sim uma espetacular sessão em estúdio capitaneada pelo saxofonista tenor Eddie "Lockjaw" Davis, resgatando com precisão cirúrgica a energia indomável e o formato de "combate" musical que consagraram a marca de Granz. A espinha dorsal deste registro é o contraste estilístico e a sinergia absoluta entre três solistas de fôlego histórico, amparados por uma seção rítmica impecável de Los Angeles: Eddie "Lockjaw" Davis: Fiel ao seu apelido, o som de "Lockjaw" é agressivo, assertivo e de uma crueza emocionante. Seu ataque de palheta é cortante, e ele exibe aquele timbre encorpado e visceral característico da escola de sax-tenor do Texas e do Kansas City swing. Em faixas longas como "I'm Just a Lucky So and So" e "Slow Drag", ele conduz o grupo com uma autoridade rítmica avassaladora. O Frontline de Sopros: Ao lado de Davis, o trompetista Harry "Sweets" Edison (ex-Count Basie) entrega o contraponto perfeito com suas notas econômicas, uso característico da surdina e senso de humor melódico. Fechando o trio de frente, o trombone de Al Grey adiciona texturas ricas através do uso magistral do plunger (surdina de ventosa), criando um ambiente de conversa informal e cheia de blues. A Seção Rítmica: Art Hillery alterna entre o piano e o órgão de forma fluida, fornecendo uma fundação harmônica e um molho soulful indispensável. O contrabaixista John Heard e o baterista Roy McCurdy (famoso por seu trabalho com Cannonball Adderley) formam uma cozinha de balanço inabalável, garantindo que o álbum pulse do primeiro ao último segundo. O repertório foca em standards do cancioneiro americano e clássicos do jazz, como "Smoke Gets In Your Eyes" e "Stompin' At The Savoy", onde a banda desconstrói as melodias em favor de solos extensos e repletos de groove. Diferente das encarnações clássicas da JATP gravadas ao vivo em auditórios lotados, este álbum carrega uma peculiaridade de bastidor como o Estúdio Mars: O disco foi inteiramente gravado no Mars Studios, localizado em Hollywood, Califórnia. Norman Granz utilizou o ambiente controlado do estúdio hollywoodiano para emular a dinâmica de palco da JATP. O engenheiro de som Arne Frager optou por uma captação direta e orgânica, posicionando os músicos próximos uns dos outros para estimular o contato visual e a resposta imediata aos improvisos. O resultado é uma gravação em estúdio que possui toda a eletricidade, espontaneidade e calor de um show ao vivo, mas sem os ruídos de plateia ou as imperfeições acústicas comuns das turnês de anfiteatro. O lançamento de Jazz At The Philharmonic, 1983 aconteceu em um momento de transição no mercado fonográfico, onde o jazz fusion e o início do movimento dos "Young Lions" (liderado por Wynton Marsalis, focado no resgate do bebop acústico) dividiam as atenções. A crítica especializada da época (como as revistas DownBeat e JazzTimes) recebeu o álbum como uma celebração nostálgica e necessária. Enquanto muitos veteranos suavizavam o som na década de 1980, o sexteto de Lockjaw Davis entregou um jazz direto, acústico e sem concessões comerciais. Críticos fonográficos elogiaram a curadoria de Norman Granz por manter vivo o conceito do "Mainstream Jazz". O álbum foi visto como uma aula de história viva, mostrando que a linguagem desenvolvida nos anos 1940 continuava afiada e relevante quarenta anos depois. Hoje, catálogos como o AllMusic avaliam o registro como um item obrigatório para os fãs do saxofone de Lockjaw e do trompete de Sweets Edison. O relançamento digital e em CD pela série Original Jazz Classics (OJC) na década de 1990 consolidou o álbum como um dos tesouros tardios do catálogo da Pablo Records. Este trabalho permanece na história fonográfica como um testamento de resiliência musical. Eddie "Lockjaw" Davis prova que, independentemente da época ou do local, o verdadeiro segredo do jazz reside na intensidade da entrega e na verdade de cada nota soprada. Para compreender melhor o som robusto e a energia que o saxofonista trazia para suas gravações desse período, o álbum Eddie "Lockjaw" Davis - Goin' to the Meeting exemplifica perfeitamente seu ataque percussivo e o balanço característico que ele mais tarde refinou nas sessões da Pablo Records.
Baixo – John Heard
Bateria – Roy McCurdy
Piano, Órgão – Art Hillery
Saxofone tenor – Eddie "Lockjaw" Davis
Trombone – Al Grey
Trompete – Harry Edison
Gravado em 15 de dezembro de 1982 em Hollywood, Califórnia.
Boa audição - Namastê



Nenhum comentário:
Postar um comentário