quarta-feira, 27 de maio de 2026

Boxset: The Art Of The Piano, Trio, Quartet, Quintet And Beyond - VA (10xCDs)

Artista: Ramsey Lewis (1956)  &  Nat King Cole
Lançamento: 2020
Selo: The Intense Media/(Milestones of Jazz Legends)
Gênero: Bebop, Hard Bop, Cool Jazz

O Charme Sofisticado de Nat King Cole e o Balanço Inconfundível de Ramsey Lewis:
O quarto volume (CD4) desta abrangente antologia documental da gravadora, lançada em 2020, joga uma luz cirúrgica sobre o piano de jazz atuando como um veículo primordial de comunicação popular, requinte harmônico e sofisticação rítmica. Ao agrupar e contrastar gravações seminais que se estendem da década de 1940 até meados dos anos 1960, o disco ilustra com precisão a transição estética do estilo aristocrático e acústico de Chamber Jazz (jazz de câmara) do King Cole Trio para o groove magnético, percussivo e visceralmente urbano do Ramsey Lewis Trio. Ambas as vertentes provam que o virtuosismo instrumental nunca precisou abdicar do apelo popular para cravar seu nome na vanguarda da história da música. As Performances, Cronologia e Contexto Geográfico do repertório do CD4 reconstrói de maneira impecável duas eras de ouro do formato de trio instrumental, mapeando sessões analógicas capturadas em grandes centros urbanos americanos que respiravam a efervescência musical da época: As Sessões de Nat King Cole (Anos 1940), é antes de ser imortalizado como o cantor de baladas mais aveludado e célebre do planeta, Nat King Cole estruturou-se como um dos pianistas de jazz mais inovadores e imitados de sua geração, exercendo influência direta sobre pilares do calibre de Oscar Peterson e Bill Evans. Suas performances resgatadas neste volume destacam um toque incrivelmente limpo, preciso e econômico, com foco no fraseado linear de notas simples conduzidas com maestria pela mão direita. Cole utilizava o piano para tecer diálogos contrapontísticos ágeis, renunciando ao peso do preenchimento orquestral em prol de uma leveza rítmica flutuante. Anos e Locais são meados da década de 1940, concentrando-se com vigor entre os anos de 1943 e 1949. As gravações ocorreram majoritariamente em Los Angeles, Califórnia (EUA), nos estúdios da recém-fundada Capitol Records — selo cuja fundação financeira e mercadológica deveu-se em grande parte ao sucesso comercial do próprio pianista —, com sessões complementares registradas em Nova York. Os músicos de Apoio que o lendário The King Cole Trio celebrizou-se por uma instrumentação revolucionária e audaciosa para o período, prescindindo inteiramente do uso de bateria. Cole dividia os holofotes com o virtuoso guitarrista Oscar Moore (um dos pais fundadores da guitarra elétrica no jazz) e com o contrabaixista de pulso milimétrico Johnny Miller. A simbiose técnica entre os três músicos erguia uma tapeçaria harmônica tão densa, oscilante e perfeitamente azeitada que a ausência de um percussionista passava totalmente predomínio despercebida. As Sessões de Ramsey Lewis (Anos 1960) acelera duas décadas na linha do tempo, oode a performance de Ramsey Lewis emerge como a tradução definitiva do Soul-Jazz e do Jazz-Funk dos anos 60. Lewis funde com maestria as progressões harmônicas e a urgência do gospel que aprendeu nos altares das igrejas negras de Chicago com a linguagem visceral do blues de rua e a sofisticação estrutural do jazz clássico. Seu toque é intensamente percussivo, festivo e caracterizado pelo uso recorrente de acordes em bloco (block chords) sincopados e repetitivos, projetados para inflamar e capturar a resposta imediata das plateias. Anos e Locais é plena década de 1960 com foco agudo nos registros capturados entre 1962 e 1966. O núcleo de estúdio concentrou-se em Chicago, Illinois (EUA), no icônico templo do blues elétrico, a Chess Records (lançado por sua subsidiária Argo/Cadet). O volume adquire valor documental histórico ao incorporar registros em concerto diretamente de clubes lendários, como o Bohemian Caverns em Washington, D.C., e o The Lighthouse em Hermosa Beach, Califórnia. Músicos de Apoio nestes monumentais fonogramas, Lewis comanda sua formação clássica e de maior entrosamento orgânico, ladeado pelo contrabaixista Eldee Young e pelo baterista Isaac "Red" Holt. Essa seção rítmica operava como um dínamo de alta voltagem: Young sustentava linhas pulsantes de baixo (frequentemente executadas com arco e adornadas por seus tradicionais murmúrios e gritos exclamativos de incentivo), enquanto Holt ditava um pulso percussivo estalado, suado e altamente dançante, dialogando intimamente com as mutações pop e de R&B da época. Curiosidades Históricas e Conexões Ocultas da principal curiosidade curatorial que o CD4 resgata para as novas gerações é a reabilitação da estatura instrumental de Nat King Cole. Diante do fato de que a indústria cultural acabou por cristalizar a imagem de Cole em função de sua incomparável voz de barítono em standards comerciais, sua monumental importância técnica como pianista de vanguarda acabou frequentemente relegada a um segundo plano. Isolar suas gravações instrumentais da década de 1940 nesta caixa faz justiça à história do jazz, redefinindo-o como um arquiteto mecânico de primeira grandeza. Por sua vez, as sessões de Ramsey Lewis guardam uma das conexões mais fascinantes do ecossistema da música pop americana. Embora as faixas mais famosas tragam o balanço de Young e Holt, o estágio final de transição do trio em meados dos anos 60 serviu como incubadora profissional para um jovem baterista de Chicago chamado Maurice White. Foi precisamente sob a tutela de Ramsey Lewis, absorvendo as dinâmicas de fusão e comunicação de massas do trio, que Maurice White refinou os conceitos de polirritmia e groove que, anos mais tarde, utilizaria para fundar e reger a lendária banda de funk e pop sinfônico Earth, Wind & Fire. Nível de Escolha das Faixas: Equilíbrio entre Pop e Virtuosismo da inteligência curatorial por trás do CD4 mostra-se impecável por resolver com sucesso um dilema estético complexo: demonstrar a faceta mais acessível, comercial e radiofônica do piano de jazz sem deprimir em um único milímetro o rigor e a densidade técnica dos registros. A seleção de Nat King Cole esquivou-se inteligentemente de suas posteriores gravações com grandes orquestras de cordas, focando no esqueleto acústico de seu trio inicial, onde o som limpo da guitarra de Oscar Moore e o dedilhar ágil de Cole brilham em sua plenitude crua. No segmento reservado a Ramsey Lewis, a engenharia de repertório calibrou com precisão os petardos que assaltaram as paradas de sucesso (como as antológicas versões ao vivo de The 'In' Crowd e Wade in the Water, povoadas por palmas orgânicas e gritos de aclamação do público) com gravações de estúdio mais densas e ortodoxas sob a ótica do jazz tradicional. O trabalho de restauração de áudio da edição de 2020 preserva de forma magnífica o contraste espacial: a transição do som monofônico intimista e aveludado da Capitol dos anos 40 para a estereofonia expansiva, esfumaçada e calorosa dos clubes de jazz da década de 1960 é uma verdadeira viagem no tempo auditiva. Veredito Curatorial: O CD4 de The Art Of The Piano... estabelece-se como um dos volumes mais prazerosos, balançados e historicamente informativos de toda a coleção. Ele funciona como uma evidência irrefutável de que a genialidade no jazz nunca dependeu do hermetismo para ser profunda. Ao alinhar o charme aristocrático de Nat King Cole ao groove visceral e eclesiástico de Ramsey Lewis, a antologia entrega um documento que satisfaz tanto o rigor analítico do musicólogo quanto a paixão imediata do ouvinte comum pelo ritmo.



Boa audição - Namastê

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