quarta-feira, 3 de junho de 2026

Boxset: The Art Of The Piano, Trio, Quartet, Quintet And Beyond - VA (10xCDs)

Lançamento: 2020
Selo: The Intense Media/(Milestones of Jazz Legends)
Gênero: Bebop, Hard Bop, Cool Jazz.

Análise Crítica e Curatorial do CD7: A Explosão Rítmica de Tatum, Hampton, Rich e Horace Silver: O sétimo volume (CD7) da aclamada caixa antológica The Art Of The Piano..., editada em 2020, estabelece-se como o capítulo mais eletrizante, febril e percussivo de toda a coleção. Se os volumes anteriores mapearam o lirismo e a economia do espaço, o CD7 é um monumento dedicado à velocidade propulsiva, à síncopa de alta voltagem e ao puro dinamismo físico dos instrumentos. A curadoria deste volume atinge o status de obra de arte ao justapor duas forças gravitacionais do jazz: o encontro de titãs da Era do Swing liderado pela velocidade cegante de Art Tatum com Lionel Hampton e Buddy Rich, e, no polo de transição, a urgência rítmica e o groove impregnado de blues do pai do Hard Bop, Horace Silver. Para o amante sincopado, este volume é um banquete de acentuações fora do tempo, polirritmias de tirar o fôlego e virtuosismo técnico inabalável. As Performances, datas absolutas e a geografia das sessões traz um repertório documental do CD7 preserva o som cru de duas eras de ouro do jazz, resgatando matrizes analógicas cujos registros históricos são detalhados com rigor cronológico a seguir: O Encontro de Titãs: Tatum, Hampton e Buddy Rich (A Era do Swing Extremo). Quando o pianista quase cego Art Tatum — cuja técnica orquestral assombrou até mestres eruditos como Vladimir Horowitz — uniu forças ao vibrafonista elétrico Lionel Hampton e ao vulcão percussivo de Buddy Rich, o resultado foi um terremoto rítmico. As performances resgatadas no CD7 mostram um Tatum operando com cascatas de notas, arpejos de velocidade sobre-humana e substituições harmônicas décadas à frente de seu tempo. Hampton responde com improvisos cheios de síncopas ruidosas e balanço cortante, enquanto Buddy Rich dita um pulso implacável na caixa e nos pratos, gerando um duelo de velocidade técnica que desafiava os limites do formato de trio. Data e local da gravação: Registrado nos estúdios da Clef/Verve Records, em Los Angeles, Califórnia (CA), no dia 01 de agosto de 1955. Esta memorável sessão de estúdio reuniu esses três gigantes sob a supervisão do produtor Norman Granz, capturando o ápice da pirotecnia instrumental americana antes do fechamento definitivo daquela era de ouro do Swing de vanguarda. Horace Silver: A arquitetura do groove e do Hard Bop sincopado em completo contraponto à densidade de notas de Tatum, a performance de Horace Silver no CD7 introduz o ouvinte à espinha dorsal do Hard Bop. Silver joga fora o exibicionismo e introduz o piano "percussivo-gospel", onde a mão esquerda ataca o teclado com acordes pesados e cheios de suingue, enquanto a mão direita desenha linhas melódicas curtas, repetitivas e intensamente balançadas. Silver usava o piano como se fosse uma seção de metais inteira. Seu senso de tempo era rigorosamente sincopado, quebrando a linearidade do bop tradicional com pausas dramáticas e ataques agressivos nos tempos fracos que faziam a plateia balançar o corpo instantaneamente. Data e local da gravação: Gravado nos estúdios da Blue Note Records por Rudy Van Gelder, em Hackensack, Nova Jersey (NJ), no dia 23 de novembro de 1956. Trata-se de uma sessão seminal que capturou as fundações do Horace Silver Quintet, logo após sua histórica separação dos Jazz Messengers de Art Blakey, documentando o nascimento do jazz moderno de raiz urbana. Curiosidades de bastidores e a física do ritmo, a principal curiosidade que o CD7 revela aos amantes sincopados é a surpreendente dinâmica de estúdio ocorrida na lendária sessão de Los Angeles de 1955. Buddy Rich, conhecido por seu temperamento explosivo e por engolir outros músicos com seus solos torrenciais, confessou anos mais tarde ter sentido um respeito quase reverencial por Art Tatum. Para não obstruir as intrincadas linhas harmônicas e os arpejos velozes da mão esquerda de Tatum, Rich abdicou de seus tradicionais bumbos pesados e focou de maneira obsessiva na condução milimétrica do chimbal e nas escovinhas na caixa. Essa contenção genial gerou um dos balanços mais limpos, rápidos e ricamente sincopados de toda a sua vasta discografia. No plano técnico da engenharia de som, o contraste entre as duas sessões do CD7 é uma aula de história da captação de áudio. A gravação da Costa Oeste de 1955 capta o piano de Tatum com uma reverberação de sala natural e acústica aveludada típica dos estúdios de Los Angeles. Já a sessão de Horace Silver de 1956, processada no icônico estúdio de Hackensack por Rudy Van Gelder, traz a clássica assinatura do selo Blue Note: um som de piano cru, incisivo, seco e frontal, onde o ataque mecânico dos dedos de Silver nas teclas de marfim possui uma presença física quase agressiva, perfeita para evidenciar as síncopas cortantes do Hard Bop. Nível de escolha das faixas: Um tratado sobre o Ataque Percussivo, o desenho curatorial implementado no CD7 da edição de 2020 mostra-se impecável por evitar o óbvio e concentrar-se na evolução da percussividade no jazz. Em vez de isolar Tatum em seus tradicionais e solitários discos de solo, a curadoria inseriu-o no epicentro de uma usina rítmica ao lado de Hampton e Rich, provando que seu piano conseguia duelar com os maiores percussionistas do planeta sem perder a elegância harmônica. A transição sequencial para as faixas de Horace Silver é de uma inteligência pedagógica brilhante. O ouvinte experimenta o fio condutor do ritmo: a síncopa que nasceu nas corridas de dedos de Art Tatum na Califórnia transforma-se e condensa-se no groove minimalista, funkeado e cheio de suor de Horace Silver em Nova Jersey. A restauração digital de 2020 realizou um trabalho cirúrgico nas fitas originais, limpando as distorções das frequências médias do vibrafone de Hampton e dando um peso monumental ao contrabaixo acústico que ancora as síncopas de Silver, entregando uma experiência auditiva texturizada e visceral para os puristas do gênero. Veredito Curatorial: O CD7 de The Art Of The Piano... é um documento histórico indispensável e avassalador. Ao costurar a velocidade astronômica do trio de Art Tatum, Lionel Hampton e Buddy Rich em Los Angeles com o groove seminal de Horace Silver em Hackensack, o volume oferece uma radiografia definitiva de como o piano de jazz se afirmou como um instrumento percussivo de vanguarda. Um disco obrigatório para os ouvidos que vibram na tensão do tempo quebrado.


Boa audição - Namastê

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