sexta-feira, 29 de maio de 2026

Boxset: The Art Of The Piano, Trio, Quartet, Quintet And Beyond - VA (10xCDs)

Artista: Red Garland (1958) & Ahmad Jamal (1960)
Lançamento: 2020
Selo: The Intense Media/(Milestones of Jazz Legends)
Gênero: Bebop, Hard Bop, Cool Jazz

O Bloco Elegante de Red Garland e a Estética do Espaço de Ahmad Jamal:
O quinto volume (CD5) desta prestigiada coleção documental, lançada em 2020, celebra um dos momentos mais férteis e revolucionários do formato de trio de jazz no final da década de 1950. Este disco joga luz sobre a transição do Bebop ortodoxo para uma abordagem marcadamente lírica, minimalista e dotada de um balanço magnético e irresistível. Ao colocar em paralelo as sessões históricas de Red Garland e Ahmad Jamal, a curadoria imortaliza as duas mentes estéticas que ditaram as novas regras de dinâmica, silêncio e arranjo que mudaram os rumos do jazz moderno, servindo inclusive como as fundações conceituais que inspiraram o gênio criativo de Miles Davis. As Performances, Cronologia e Contexto dos Estúdios alinhamento do CD5, reconstrói as lendárias sessões analógicas gravadas no ápice criativo de ambos os instrumentistas, evidenciando o entrosamento milimétrico de seus trios definitivos: As Sessões de Red Garland (Final dos Anos 1950) egressa nos ringues de boxe profissional, o pianista moreno Red Garland transportou para as oitenta e oito teclas do piano uma leveza, um jogo de cintura e uma elegância percussiva ímpares. Sua performance resgatada no CD5 sintetiza a própria definição do "som do trio de jazz clássico". Garland celebrizou-se na história da música por introduzir e dominar a técnica de acordes em bloco (block chords), nos quais a mão esquerda executa uma densa estrutura harmônica de três notas duplicando com precisão a melodia flutuante conduzida pela mão direita. O resultado é um som robusto, porém dotado de um swing sutil, cristalino e profundamente enraizado no blues urbano. Anos e Locais concentradas de forma cirúrgica no final da década, cobrindo o período áureo entre os anos de 1956 e 1958. As faixas foram documentadas na quase totalidade dentro do lendário estúdio do engenheiro de som Rudy Van Gelder em Hackensack, Nova Jersey (EUA), capturando a famosa acústica calorosa e intimista da fita magnética da Prestige Records. Músicos de Apoio nestes fonogramas, Garland atua amparado pela cozinha rítmica mais famosa e requisitada da era do hard bop: o contra baixista Paul Chambers e o baterista Arthur Taylor (com inserções históricas de Philly Joe Jones em sessões alternadas). A conexão entre o trio opera em nível telepático. Chambers desenha linhas de baixo caminhante (walking bass) encorpadas e vigorosas, enquanto Philly Joe ou Art Taylor estabelecem a condução rítmica perfeita na cúpula do prato, gerando um balanço contagiante. As Sessões de Ahmad Jamal (1958) traz abordagem pianística de Ahmad Jamal, estabeleceu-se como um marco divisório porque introduziu a premissa revolucionária de que o silêncio, a economia e o espaço acústico possuem o mesmo valor artístico que as notas tocadas. Enquanto os pianistas contemporâneos do bebop competiam pelo maior número de notas executadas por compasso, Jamal abraçou o minimalismo conceitual. Ele permitia que a seção rítmica assumisse a propulsão do tempo, intervindo no arranjo por meio de pontuações cirúrgicas no registro agudo e manipulações sutis de dinâmica, convertendo temas populares em sofisticadas suítes dramáticas. Anos e Locais foca absoluto no ano crucial de 1958. O topo do mérito curatorial reside na inclusão dos registros ao vivo capturados no interior do Pershing Lounge, no Hotel Pershing em Chicago, Illinois (EUA), uma das apresentações em concerto mais aclamadas e influentes de toda a história da música gravada. Músicos de Apoio de Ahmad Jamal Trio de 1958 operava com uma formação de precisão matemática, alinhando o contrabaixista Israel Crosby e o baterista Vernel Fournier. A condução percussiva de Fournier (especialmente na antológica faixa Poinciana) permanece até hoje como objeto de estudo acadêmico mundial pela introdução revolucionária das escovinhas e ataques sincopados de aro (rim-shots), tecendo uma base hipnótica sobre a qual Jamal exercia sua liberdade métrica. Curiosidades Históricas e o Elo com Miles Davis o grande fascínio documental revelado pelo CD5 é o mapeamento do elo conceitual que une ambos os pianistas à mente de Miles Davis. Miles era declaradamente obcecado pela assinatura estética de Ahmad Jamal, a quem apontava como sua principal fonte de inspiração em virtude do uso inovador do espaço e do despojamento melódico. Como não lograsse recrutar Jamal para seu próprio grupo, Davis contratou Red Garland para assumir a banqueta de seu quinteto definitivo, impondo-lhe uma diretriz artística estrita: a de emular os blocos harmônicos e a leveza estrutural de Jamal. Ouvir as faixas deste disco de forma sequencial equivale a testemunhar o nascimento da matriz sonora que pavimentou o caminho para a criação do álbum mais vendido da história do jazz, Kind of Blue. Do ponto de vista mercadológico, as gravações de Jamal no Pershing em 1958, isoladas neste volume, quebraram paradigmas industriais. Numa época em que o jazz modernizava-se de forma hermética e progressivamente complexa para o grande público, o registro de Jamal alcançou um sucesso comercial avassalador, superando a marca de um milhão de cópias vendidas e figurando nas Jukeboxes de todo o território norte-americano, comprovando que o refinamento do silêncio e do arranjo de câmara possuía um imenso poder de comunicação de massas. Nível de Escolha das Faixas é um Tratado sobre a Textura e o Arranjo da engenharia curatorial por trás do CD5 destaca-se como um dos ápices da caixa de 2020, pois rejeita deliberadamente a armadilha comum do exibicionismo mecânico veloz, preferindo concentrar o repertório na valorização da textura e do desenho inteligente do arranjo. O disco edifica um contraste dinâmico impecável: abre com o swing robusto, telúrico e caloroso de Red Garland, onde o piano dialoga diretamente com o sotaque urbano do blues, e desliza com fluidez para as linhas geométricas, arejadas e quase arquitetônicas de Ahmad Jamal. Trata-se de uma lição histórica sobre como dois instrumentistas negros partilharam a mesma raiz técnica para cindir a evolução do jazz em duas avenidas conceituais brilhantes. No plano técnico, o trabalho de engenharia e restauração das matrizes analógicas de 1958 do Pershing Lounge é soberbo. O tratamento de áudio da edição de 2020 logrou êxito em purificar os excessos acústicos e ruídos de fundo da plateia do clube de Chicago, mantendo, contudo, a vibração orgânica, o calor magnético do contrabaixo acústico de Israel Crosby e o estalar nítido das escovinhas de Vernel Fournier, restituindo ao ouvinte a atmosfera mágica daquela noite histórica. Veredito Curatorial: O CD5 de The Art Of The Piano... consolida-se como um compêndio obrigatório para a compreensão das estruturas dinâmicas da música do século XX. O volume isola com precisão o momento em que o piano em trio transcendeu a mera função de acompanhamento rítmico para instituir-se como um autêntico laboratório de arranjos conceituais. Entre o swing aristocrático de Red Garland e o minimalismo espacial de Ahmad Jamal, a antologia entrega uma audição sofisticada e imortal.


Boa audição - Namastê

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