sexta-feira, 22 de maio de 2026

Boxset: The Art Of The Piano, Trio, Quartet, Quintet And Beyond - VA (10xCDs)

Artista: Duke Ellington (1953) & Erroll Garner (1954)
Lançamento: 2020
Selo: The Intense Media/(Milestones of Jazz Legends)
Gênero: Bebop, Hard Bop, Cool Jazz


Análise Crítica e Curatorial do CD2: A Realeza de Duke Ellington (1953) e a Pulsação de Erroll Garner (1954)
Se o primeiro volume desta prestigiosa coleção se dedicou a contrastar o lirismo introspectivo e o virtuosismo técnico contemporâneos, o segundo volume (CD2) recua cirurgicamente no tempo para mapear as fundações estruturais e as raízes rítmicas do instrumento. Focado em sessões históricas registradas entre os anos de 1953 e 1954, o disco isola o gênio de dois titãs da música americana: Duke Ellington — despido do suntuoso aparato de sua lendária big band — e Erroll Garner, o homem que transformou o teclado do piano em uma usina de alegria orquestral e percussiva pura. O resultado é um panorama fascinante sobre a versatilidade de liderança mecânica e conceitual no formato de trio. As Performances e os Músicos de Apoio: O alinhamento do CD2 divide seu espaço cronológico e estético de forma milimétrica, permitindo ao ouvinte atento notar como a arquitetura da seção rítmica foi desenhada para moldar e amparar a personalidade de cada um dos protagonistas: As Sessões de Duke Ellington (1953): Raras e valiosas são as oportunidades de apreciar o toque de Ellington fora do contexto de suas monumentais suítes para grandes orquestras. Neste formato estrito de trio, seu estilo revela-se surpreendentemente minimalista, moderno, percussivo e repleto de silêncios intencionais. Duke não utiliza o piano para preencher espaços, mas sim para pontuar ideias estruturais audaciosas. Suas dissonâncias melódicas e acentos rítmicos angulares antecipam de forma clara as transformações que Thelonious Monk consolidaria anos mais tarde no cenário do jazz. Seção Rítmica: Para sustentar essa abordagem precisa e madura, Ellington contou com uma cozinha de peso histórico referencial: o contrabaixista Wendell Marshall, mestre em prover um pulso firme e equilibrado, e o icônico baterista Butch Ballard. Juntos, os músicos criam uma tapeçaria flexível, porém sob absoluto controle dinâmico, permitindo que as linhas pianísticas de Duke flutuem com sobriedade aristocrática. As Sessões de Erroll Garner (1954): Em contrapartida à economia geométrica de Ellington, Erroll Garner manifesta-se como a mais pura expressão da espontaneidade e da energia física. As faixas de 1954 capturam o pianista no auge absoluto de sua técnica e vitalidade criativa. Suas execuções são caracterizadas por introduções longas, deliberadamente misteriosas e quase sinfônicas, que subitamente desaguam em um swing arrebatador. Sua marca registrada — a mão direita operando milissegundos atrás da pulsação rígida mantida pela mão esquerda (efeito conhecido como lay-back) — estabelece uma tensão rítmica hipnotizante e contagiosa. Seção Rítmica: Escoltando a intensidade vibrante de Garner, figuram o contrabaixista Wyatt Ruther (com participações de Eddie Calhoun nas sessões subsequentes daquele ano) e o baterista Eugene "Fats" Heard. A atuação da dupla assume um caráter crucial de "âncora": ao manterem um tempo rigorosamente estrito por meio da pulsação contínua (estilo four-on-the-floor), forneciam a blindagem necessária para que Garner desconstruísse e brincasse livremente com as métricas temporais no teclado. Curiosidades Históricas e Técnicas: O maior paradoxo estético documentado neste disco reside no confronto entre a erudição teórica e a intuição genial. Enquanto Duke Ellington ostentava uma sólida formação musical e dominava os meandros da composição escrita com maestria acadêmica, Erroll Garner era inteiramente autodidata e nunca aprendeu a ler ou escrever partituras. Garner tocava guiado exclusivamente por seu ouvido absoluto e memória muscular prodigiosa. A audição sequencial de ambos no CD2 é um testemunho irrefutável de que o jazz é uma linguagem de caminhos múltiplos, onde a sofisticação intelectual e a intuição pura atingem o mesmo patamar de imortalidade artística. Outro detalhe técnico fascinante é observar como ambos os mestres buscavam emular o peso de uma big band no teclado através de vetores opostos. Ellington, acostumado a comandar dezenas de instrumentistas de sopro, reduzia a densidade das massas orquestrais às notas mais essenciais, extraindo a essência do arranjo. Garner, por sua vez, operava no sentido inverso: utilizando acordes em bloco (block chords) encorpados e dedilhados em velocidade vertiginosa, fazia com que o piano solo soasse tão massivo quanto um naipe inteiro de metais em pleno ápice dinâmico. Nível de Escolha das Faixas: O Resgate do Piano Essencial: A curadoria do CD2 demonstra um nível de discernimento histórico louvável. O grande mérito da seleção reside no resgate de gravações focadas puramente no formato clássico de trio, capturando o período imediatamente anterior ao antológico álbum ao vivo Concert by the Sea (no caso de Garner) e os históricos registros de Ellington para a Capitol Records no início da década de 1950, celebrizados nas sessões de Piano Reflections. A seleção priorizou obras em que os líderes atuam como solistas definitivos do início ao fim, evitando faixas em que o piano servia meramente como introdução para solistas de sopro. O processo de remasterização realizado para esta edição de 2020 é impecável, restituindo o calor acústico do contrabaixo de madeira e a clareza percussiva dos ataques de bateria, promovendo uma transição fluida, elegante e dinâmica entre os anos de 1953 e 1954. Veredito Curatorial: O CD2 consolida-se como um verdadeiro monumento à versatilidade expressiva do piano de jazz. Ele atesta, de forma definitiva, que o instrumento pode atuar tanto como um bisturi cirúrgico de harmonias cerebrais nas mãos de Duke Ellington, quanto como uma usina geradora de balanço, ritmo e felicidade nas mãos de Erroll Garner. Uma curadoria obrigatória de dois anos fundamentais para a transição estilística da música do século XX.




Boa audição - Namastê

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