Lançamento: 2020
Selo: The Intense Media/(Milestones of Jazz Legends)
Gênero: Bebop, Hard Bop, Cool Jazz
O CD3 desta prestigiada antologia funciona como uma linha de transmissão direta da própria evolução mecânica do piano de jazz. Concentrando-se em registros cruciais realizados entre as décadas de 1950 e 1960, o disco traça um paralelo fascinante entre o homem que traduziu a revolução de Charlie Parker para as 88 teclas — Bud Powell e o fraseado ágil, elegante e suingado de Kenny Drew. A curadoria deste terceiro volume se debruça sobre sessões em trio que demonstram como o piano se libertou definitivamente de seu papel meramente harmônico herdado da era do Swing para se tornar um elemento de vanguarda linear. As Sessões de Bud Powell (Anos 1950) é o pilar central do piano moderno. Nas faixas selecionadas (gravadas majoritariamente ao longo dos anos 50, abrangendo seu período de ouro na Blue Note e na Verve), a performance de Powell é de uma intensidade febril. Ele exibe sua característica técnica de emular o fraseado veloz dos saxofones com a mão direita, enquanto a mão esquerda pontua acordes secos e dissonantes. É um toque nervoso, de brilhantismo técnico incontestável, mas carregado de uma urgência emocional cortante. Os Músicos de Apoio para ancorar a mente turbulenta e genial de Powell, no CD3 resgata sessões com gigantes que definiram o ritmo do bebop. Entre os músicos de apoio destacam-se contrabaixistas do calibre de Ray Brown ou George Duvivier, e os lendários bateristas Max Roach ou Art Taylor. Essas seções rítmicas providenciam um suporte dinâmico veloz, respondendo aos ataques imprevisíveis de Bud com precisão cirúrgica. A Performance: Se Powell é o fogo da criação, Kenny Drew é a sofisticação da lapidação. As faixas de Drew presentes no CD3 (focadas no final da década de 50 e início de 60, período de álbuns clássicos como Pal Joey ou suas sessões em trio no Riverside) revelam um pianista de toque cristalino e articulação impecável. Drew absorveu a velocidade bebop de Powell, mas adicionou-lhe um calor profundamente melódico, influenciado pelo blues e por um senso de swing mais relaxado e fluído, característico do Hard Bop. As performances de Kenny Drew no disco são coroadas por parcerias de alto nível criativo. Ele é impulsionado por colossos como o mestre do contrabaixo Paul Chambers (famoso por seu trabalho com Miles Davis) e pelo dinâmico baterista Philly Joe Jones. Essa icônica seção rítmica transforma as faixas de Drew em verdadeiros tratados de balanço e entrosamento estrito, onde o trio respira como um único organismo. A Conexão Parisiense e a Expansão Europeia: Tanto Bud Powell quanto Kenny Drew compartilham uma curiosidade biográfica e geográfica marcante que ecoa na maturidade de seus estilos: ambos se mudaram para a Europa na virada dos anos 50 para os 60 buscando refúgio do racismo e das pressões da cena de Nova York. Powell viveu anos produtivos em Paris, enquanto Drew radicou-se definitivamente em Copenhague. A inclusão de ambos no CD3 permite notar como o distanciamento geográfico conferiu uma aura de liberdade artística e sofisticação europeia às suas trajetórias. O Legado de um Professor Involuntário, Kenny Drew cresceu ouvindo e estudando obsessivamente as gravações de Bud Powell nos anos 40. Ouvir as faixas deste CD em sequência cria um efeito de espelhamento histórico emocionante: percebe-se claramente onde Drew utiliza os mesmos caminhos de escala criados por Powell, e onde ele escolhe desviar para um som mais macio e lírico, ilustrando perfeitamente o conceito de evolução de mestre para discípulo. O nível curatorial do CD3 é soberbo, pois evita o mero apanhado cronológico e foca na transição estilística do Bebop para o Hard Bop através do formato de Trio. Fuga do Óbvio: Em vez de focar apenas nas faixas ultra-conhecidas de Powell que já foram exaustivamente relançadas, a curadoria teve o cuidado de selecionar takes que priorizam a clareza de sua mão direita, permitindo que estudantes do instrumento compreendam sua revolucionária arquitetura de improvisação. Equilíbrio de Cores: O encadeamento das faixas foi estruturado de forma inteligente. O disco alterna a tensão vibrante e por vezes dramática das linhas de Powell com a elegância luminosa e o balanço contagiante de Drew. A restauração de áudio realizada para a edição de 2020 merece menção honrosa: ela equilibra perfeitamente o timbre percussivo do piano com o peso acústico do contrabaixo de Paul Chambers, mantendo a dinâmica original das fitas master da época. Anos das Gravações: Década de 1950 (foco concentrado entre 1951 e 1958). Bud Powell foi gravado predominantemente em Nova York (EUA), nos famosos estúdios da Blue Note Records (como o estúdio de Rudy Van Gelder em Hackensack, Nova Jersey) e nos estúdios da Verve. Algumas faixas tardias dessa era refletem suas primeiras sessões em Paris (França). Já Kenny Drew, as Gravações: Final da década de 1950 e início dos anos 1960 (período principal entre 1956 e 1961) sendo Gravado inicialmente em Nova York (EUA) para os selos Riverside e Blue Note (também capturado pela engenharia de som de Rudy Van Gelder). O repertório estende-se até suas célebres gravações europeias feitas em Copenhague (Dinamarca), no início dos anos 60. O CD3 é uma peça fundamental para compreender a espinha dorsal do jazz moderno. Ele documenta o momento exato em que o piano se consolidou como um instrumento de vanguarda linear e velocidade melódica. Através do gênio vulcânico de Bud Powell e do requinte balançado de Kenny Drew, a curadoria entrega uma lição definitiva de história, técnica e paixão musical.
Boa audição - Namastê



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