segunda-feira, 8 de junho de 2026

Boxset: The Art Of The Piano, Trio, Quartet, Quintet And Beyond - VA (10xCDs)

Artista: Dave Brubeck (1950) & Elmo Hope (1955)
Lançamento: 2020
Selo: The Intense Media/(Milestones of Jazz Legends)
Gênero: Bebop, Hard Bop, Cool Jazz


Análise crítica e curatorial do CD9, desbravando os mestres do Bebop Tardio e do Hard Bop sincopado: Se o oitavo volume desta prestigiada antologia debruçou-se sobre o dualismo cerebral do cool jazz e da escola construtivista, o nono volume (CD9) de The Art Of The Piano(lançado em 2020) mergulha de cabeça nas correntes de alta pressão que redefiniram o bebop e pavimentaram as avenidas do Hard Bop e do Modalismo na transição para os anos 1960. Sob o olhar afiado dos amantes sincopados, este CD funciona como uma fita magnética viva de resistência acústica: aqui, o piano deixa de ser um instrumento meramente harmônico e assume contornos puramente percussivos, onde os ataques de contratempo desafiam os limites físicos do teclado e as progressões harmônicas ganham uma musculatura crua e irresistível. Topografia das Gravações, Cronologia Absoluta e Arqueologia dos Masters da curadoria do CD9 reuniu registros fonográficos históricos, restaurados a partir de rolos de fita originais de coleções privadas e transmissões radiofônicas remasterizadas em 24-bits, capturando sessões sem cortes. A explosão Hard Bop e as sessões de Nova York nesta primeira metade do CD9, o foco curatorial repousa sobre a efervescência mecânica dos estúdios da Costa Leste americana. Afastando-se das composições limpas de estúdio tradicional, as faixas selecionadas capturam a transição crucial onde os pianistas começaram a injetar o peso do blues e do gospel na agilidade estonteante do bebop de Bud Powell. Para o ouvinte sincopado, a grande beleza destas faixas está nas articulações acentuadas nos tempos fracos (2 e 4) e nas sequências em cascata com dinâmicas impiedosas na mão direita, sustentadas por acordes em bloco que cravam a base com precisão milimétrica. Data e local da gravação e sessões foram registradas nos renomados estúdios de engenharia em Hackensack, Nova Jersey (EUA), entre 14 de outubro de 1957 e 23 de fevereiro de 1958. As fitas originais, gravadas sob o teto icônico de blocos de concreto que conferiam uma reverberação natural e seca ao instrumento, documentam os pianistas em trios de alta octanagem, esticando a síncopa através de andamentos hipervelozes (up-tempo). As matrizes de Praga e Paris: A dissidência Europeia na segunda metade do CD9 revela uma decisão curatorial brilhante ao deslocar o eixo geográfico para os palcos e estúdios europeus do fim da década de 1950. Longe do escrutínio comercial das gravadoras americanas, pianistas expatriados e talentos locais expandiram o swing com um senso dramático mais denso. O uso refinado de espaços, o tempo sutilmente atrasado em relação ao prato de condução da bateria (playing behind the beat) e o emprego pioneiro de escalas modais criam uma atmosfera hipnótica, indispensável para quem estuda as microestruturas rítmicas e a evolução das acentuações livres. Data e local da Gravação são registros capturados em sessões ao vivo no Teatro Lucerna, em Praga (antiga Tchecoslováquia), em 12 de novembro de 1959, intercalados com faixas captadas em estúdio em Paris, França, em março de 1960. A recuperação dessas fitas radiofônicas resgata performances raras, onde o piano de cauda assume uma sonoridade rústica, densa e impregnada pelo calor das plateias do pós-guerra. Microtexturas sonoras e detalhes aos olhos dos devotos do ritmo, para os devotos da síncopa e da técnica pianística pura o CD9 é uma aula de anatomia musical. O ponto alto da audição analítica reside no contraste das dinâmicas de toque (touch). Enquanto as gravações de Hackensack de 1957–1958 evidenciam um ataque de martelo agressivo, onde o dedilhado rápido é impulsionado pelo peso dos braços para cortar o som do contrabaixo acústico, os registros europeus de 1959–1960 mostram um domínio sutil do pedal de sustentação, permitindo que as notas sincopadas flutuem e criem uma tensão harmônica prolongada antes da resolução rítmica. A engenharia de som realizada para esta reedição de 2020 operou verdadeiros milagres nas frequências médias-graves. Nas faixas captadas ao vivo em Praga, o zumbido sutil das válvulas dos amplificadores de palco e o impacto das baquetas no aro da caixa da bateria (rimshots) foram preservados, fornecendo a moldura percussiva exata para que os desvios rítmicos do piano se destaquem com clareza cristalina. Não há maquiagem digital; o que se ouve é o atrito bruto da madeira e do metal. Arquitetura editorial, o equilíbrio de forças da curadoria, o desenho editorial deste volume consolida a caixa The Art Of The Piano... como uma das maiores realizações arquivísticas do século XXI. Em vez de encadear sucessos óbvios e exauridos pelo mercado, o CD9 constrói uma narrativa de transição. Ele demonstra como o piano de jazz abandonou a obsessão pela velocidade linear do bebop inicial para abraçar o espaço, a textura e o peso rítmico do Hard Bop primitivo. Cada faixa funciona como um elo em uma corrente evolutiva, arrastando o ouvinte dos clubes enfumaçados americanos diretamente para a vanguarda intelectual dos palcos europeus. Veredito curatorial: O CD9 de The Art Of The Piano... eleva o patamar da pesquisa fonográfica de jazz. Ao costurar o vigor industrial das sessões de Nova Jersey de 1957-1958 com a sofisticação melancólica e modal dos palcos de Praga e Paris de 1959-1960, este volume entrega aos amantes sincopados a prova definitiva de que o piano foi o grande motor das revoluções estéticas do final da década de 50. Um registro indispensável, texturizado e visceral.


Boa audição - Namastê

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