Artista: La Grande Histoire Du Jazz
Lançamento: 2009
Selo: Le Chant du Monde
Gênero: Swing, Ragtime, Big Band, Early Jazz, New Orleans Jazz, Dixieland, Harlem Stride Piano, Gipsy Jazz (Jazz Manouche), Negro Spirituals/Gospel
A consolidação da linguagem urbana e a expansão das fronteiras estéticas:
O CD 04 da monumental coleção La Grande Histoire Du Jazz dá continuidade direta ao mapeamento cirúrgico de meados dos anos 1920, um período de efervescência sem precedentes onde o jazz deixa de ser uma expressão puramente regional para se consolidar como a trilha sonora da modernidade urbana norte-americana. Este volume captura o amadurecimento das primeiras grandes lendas do gênero e o surgimento de linguagens periféricas que, integradas aos centros urbanos de Chicago e Nova York, expandiram definitivamente os limites da música improvisada. A temática, o diálogo entre o sagrado, o Profano e a sofisticação urbana é o pano de fundo cultural deste volume marcado pelo contraste e pela hibridização. O jazz desse período opera em múltiplas esferas sociais simultaneamente: O Lamento e a resistência do Blues personificado pelas vozes viscerais de Bessie Smith e Ma Rainey que traziam a crueza e o peso das experiências do sul para os palcos dos teatros urbanos. A espiritualidade de raiz, a presença de líderes como o Reverend Gates ilustra a indissociável conexão entre o fervor das igrejas afro-americanas — com seu formato de chamada e resposta — e a fundação rítmica e emocional do jazz. A ascensão da noite e das orquestras em contrapartida a essa ancestralidade, a sofisticação de Nova York e o vigor das Territory Bands (como a de Bennie Moten em Kansas City) transformavam o jazz em uma arte urbana de entretenimento requintado e dança frenética. A construção do gênero, o Nascimento do arranjo moderno e o contraponto dos sopros musicalmente, as faixas deste volume documentam um salto técnico impressionante na engenharia do gênero: Fletcher Henderson e a gênese do Swing ao organizar sua orquestra dividindo os instrumentos em nações de sopro (palhetas contra metais), Henderson lança as bases da era das Big Bands. A inserção de Louis Armstrong em sua engrenagem trouxe o balanço do swing que faltava ao rigor dos arranjos escritos de Nova York. O lirismo de Bix Beiderbecke enquanto Armstrong definia o estilo "Hot" com ataques agressivos e notas agudas brilhantes, Bix (junto a grupos como The Stomp Six e The Charleston Chasers) apresentava uma alternativa estética baseada em notas puras, escolha harmônica introspectiva e uma abordagem melancólica, plantando as sementes do que viria a ser o jazz cerebral nas décadas seguintes. A estruturação de ritmo e piano de piano Stride de Cliff Jackson ao estilo orquestral de Jelly Roll Morton e Luis Russell, o instrumento se liberta do tempo rígido do Ragtime. As linhas de baixo de Lovie Austin e a rítmica vigorosa de Kansas City de Bennie Moten em "Kansas City Shuffle" consolidam uma fundação rítmica muito mais maleável e propícia para o solista. Curiosidades históricas, entre garrafões de cerâmica e o sucesso de Vaudeville, os Dixieland Jug Blowers e o som rústico uma das maiores curiosidades deste volume é a inclusão de faixas como "Banjoreno", que trazem a instrumentação exótica das jug bands. O uso de garrafões de cerâmica (soprados para emular tubas ou contrabaixos) coexistindo nos mesmos discos que o piano sofisticado de Frank Banta demonstra o quão elástica e inclusiva era a definição de jazz naquele momento. Ethel Waters e a transição para o pop e diferente de Ma Rainey, Ethel Waters trazia uma dicção mais limpa e refinada, moldada pelo teatro de Vaudeville. Sua presença indica o exato momento em que a indústria fonográfica percebeu o imenso potencial comercial da música negra para além do mercado de nicho (race records). Os "Ramblers" e o jazz de consumo, grupos como o California Ramblers funcionavam como verdadeiras indústrias de gravação, usando diferentes pseudônimos para registrar centenas de lados de discos de cera, ajudando a popularizar as danças da época (como o Charleston) por todo o território americano. O CD 04 de La Grande Histoire Du Jazz é um documento histórico irretocável de uma música em estado de metamorfose. Ele prova que o jazz não nasceu pronto, mas foi lapidado no choque cultural entre o campo e a cidade, o sagrado e o profano, o rigor da partitura e a liberdade do improviso. É um volume essencial para qualquer estudante ou entusiasta que deseja compreender como pequenos blocos de blues e ritmos tradicionais se fundiram para erguer a fundação da maior expressão artística do século XX.
Boa audição - Namastê



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