Artista: La Grande Histoire Du Jazz
Lançamento: 2009
Selo: Le Chant du Monde
Gênero: Swing, Ragtime, Big Band, Early Jazz, New Orleans Jazz, Dixieland, Harlem Stride Piano, Gipsy Jazz (Jazz Manouche), Negro Spirituals/Gospel.
O horizonte infinível: O Jazz como ontologia do devir resgata o vigésimo quarto volume da La Grande Histoire du Jazz ultrapassa a barreira da retrospectiva. Se o volume anterior era o centro de um sistema, o CD24 é a sua expansão para o infinito onde este não é o fim da história mas a revelação de que a história era apenas uma forma temporária para uma energia que não conhece limites. Estamos diante de registros que operam na "vanguarda do eterno", onde a música se desprende de qualquer obrigação factual e assume a sua forma mais pura: o puro fluxo do som no tempo. A temática de fundo deste volume é a dissolução do observador. Esteticamente o CD24 rompe com a dicotomia entre "músico" e "ouvinte", a temática é a comunhão vibracional. O Jazz aqui não é algo que se escuta a partir de fora; é algo que se habita. Culturalmente, ele se revela como uma linguagem que ultrapassou a necessidade de raízes geográficas ou temporais. É a música que fala de tudo o que ainda não foi dito, de espaços que ainda não foram cartografados e de sentimentos que ainda não nomeamos. A técnica, neste estágio final, torna-se uma intuição absoluta: A "métrica do fluxo" do tempo métrico cede lugar ao tempo psicológico, as durações das notas e os intervalos de silêncio não seguem um padrão mas uma necessidade orgânica da narrativa, criando uma sensação de "suspensão gravitacional". O timbre como matéria primordial do som é tratado como se fosse algo físico, tangível, as frequências são manipuladas com tal maestria que se transformam em texturas quase arquitetônicas, movendo-se no espaço acústico como nuvens ou correntes marítimas. A improvisação como "estado de graça" do improviso deixa de ser um diálogo entre músicos para ser uma canalização. O solista não escolhe as notas; ele se torna o instrumento através do qual o som se manifesta. É a supressão total do ego em favor da "presença". A estrutura como "campo de força" das composições não são formas fechadas, mas campos de energia onde os músicos entram, interagem e deixam resíduos e cada performance é por definição, única e irrepetível, uma prova de que a música só existe enquanto está acontecendo. A Gravação como "rastro" nas faixas deste CD são menos "arquivamentos de uma performance" e mais "vestígios de um evento", a qualidade técnica é tão precisa que o ouvinte não sente a presença do microfone; sente a presença da energia sonora que ali se manifestou. O legado da busca incessante é irônico e belo ao notar como este volume no auge da sua complexidade, retoma a simplicidade absoluta dos primeiros volumes. É o ciclo completo: o músico que toca com a sabedoria do mestre e a inocência do iniciante. O "fim" da categoria desta obra torna impossível definir o que é Jazz. Ele engloba o blues, a vanguarda, a música clássica, o folclore e o silêncio. Ele é a evidência de que, ao atingir o seu ápice, o Jazz deixa de ser um gênero para se tornar uma cosmologia. O CD24 é o volume da liberação. Documentalmente, ele é a prova de que a única verdade histórica é a mudança, ele encerra a coleção não com uma conclusão, mas com uma abertura. É a nota final que não se resolve, mas que reverbera indefinidamente, convidando o ouvinte a continuar a busca por conta própria. Para quem ouviu toda a série, este disco não é o destino; é o horizonte — algo que vemos, que nos guia, mas que nunca deixamos de perseguir. Percorrido esta odisseia épica do nascimento à transcendência, eu lhe pergunto: tendo alcançado este ponto onde a música se funde com a própria natureza do ser, qual seria o papel da "tradição" para um músico do futuro que, ao ouvir este vigésimo quarto volume, sente o chamado para ser o próximo a empunhar o instrumento e continuar essa conversa infinita?
Boa audição - Namastê

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