Artista: La Grande Histoire Du Jazz
Lançamento: 2009
Selo: Le Chant du Monde
Gênero: Swing, Ragtime, Big Band, Early Jazz, New Orleans Jazz, Dixieland, Harlem Stride Piano, Gipsy Jazz (Jazz Manouche), Negro Spirituals/Gospel
O silêncio eloquente: O Jazz no domínio da introspecção pura no vigésimo primeiro volume foi o limiar da transcendência, o CD22 desta coleção antológica é o mergulho definitivo na subjetividade. Estamos além da história, além da técnica e além da necessidade de categorização. Este volume não documenta uma evolução do Jazz, mas sim a sua estabilização como estado de espírito. É o registro do momento em que o Jazz, tendo percorrido o caminho da periferia para o centro da cultura, decide retirar-se para o interior do indivíduo. O pano de fundo deste CD é o silêncio reflexivo. Esteticamente, ele contrapõe-se a tudo o que o Jazz foi em seus momentos de maior exuberância orquestral ou radicalismo harmônico. Aqui, a temática é a solidão habitada. Culturalmente, o Jazz deixa de ser um "gênero de performance" e consolida-se como uma "filosofia de vida". O contraste estético é quase minimalista: a beleza reside não no que é tocado, mas na consciência profunda de cada nota emitida. A técnica neste volume, atinge o que se pode chamar de ascetismo musical: A "nota única" como Evento, a economia torna-se total, o virtuosismo não é medido pela quantidade de notas mas pela capacidade de carregar uma única nota com uma densidade emocional que preenche todo o espaço acústico. É o triunfo da respiração sobre o fraseado, a desmaterialização do pulso no ritmo já não é um "bater de pés" mas uma pulsação interna quase biológica. O ouvinte percebe o tempo passar pela cadência da própria emoção do músico, e não pela marcação mecânica da bateria ou do baixo. O instrumento como extensão da voz na fronteira entre o sopro (ou a corda) e a voz humana é apagada. O som torna-se orgânico, capaz de expressar nuances de tristeza, júbilo ou contemplação que não possuem tradução em palavras. O diálogo com o vácuo na instrumentação é esparsa., a música parece emergir do silêncio e para ele retornar criando um ciclo onde a escuta é uma forma de meditação compartilhada entre o artista e o ouvinte. O estúdio como santuário nass gravações deste volume possuem uma característica única: a ausência de "teatro", não há a intenção de impressionar ou de entreter. O registro soa como uma confissão privada, captada acidentalmente em um momento de introspecção profunda. A tecnologia como transparência na qualidade técnica aqui é tão elevada que ela desaparece completamente. Não se ouve "a musica"; ouve-se o músico. A tecnologia serviu ao seu propósito final: tornar-se invisível para que a verdade da performance fosse preservada intacta. O legado da "escuta" neste CD funciona como um convite à desconstrução da expectativa em um registro do Jazz que não exige nada do ouvinte — nem a dança, nem o estudo intelectual —, apenas a presença. O CD22 é essencialidade, documentalmente a prova de que o Jazz em seu destino final, retorna à sua fonte original: o grito solitário do Blues, agora purificado de toda a necessidade de explicação. É a antologia concluída não por um estrondo, mas por um suspiro. É o registro da maturidade absoluta, onde a música se torna uma extensão da própria existência do músico, provando que o Jazz é, em última análise, a arte de revelar quem somos através do som. Do nascimento ruidoso do Ragtime ao silêncio eloquente deste vigésimo segundo volume — gostaria de lhe deixar uma pergunta derradeira: após ouvirmos o Jazz tornar-se estrutura, revolução, abstração e, finalmente, esta introspecção pura, você acredita que a missão do Jazz na história da humanidade era nos ensinar a tocar música, ou a nos ensinar a ouvir o silêncio que existe entre as notas que compõem a vida?
Boa audição - Namastê



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