Artista: La Grande Histoire Du Jazz
Lançamento: 2009
Selo: Le Chant du Monde
Gênero: Swing, Ragtime, Big Band, Early Jazz, New Orleans Jazz, Dixieland, Harlem Stride Piano, Gipsy Jazz (Jazz Manouche), Negro Spirituals/Gospel
O ciclo da eternidade: O Jazz como ontologia sonora marca presença profunda no vigésimo segundo volume representou a entrega ao silêncio, o CD23 desta série monumental atua como a ressurreição da totalidade. Estamos diante de um documento que não se propõe a ser o "fim" de uma cronologia, mas o "centro" de um sistema. Este volume funciona como um prisma: ele absorve toda a poeira das estradas de New Orleans, o suor dos clubes de Chicago, a sofisticação de Nova York e o radicalismo da abstração, sintetizando-os em uma expressão que parece existir fora do tempo linear. É o Jazz como uma forma de conhecimento sobre a própria natureza do ser. O pano de fundo deste CD é o eterno retorno. A estética não se pauta pela inovação, mas pela intensidade. O contraste é resolvido: aqui, o popular e o erudito, o arcaico e o vanguardista, deixam de ser opostos para se tornarem facetas da mesma verdade. Culturalmente, o Jazz aqui é apresentado como a "música total", uma estrutura capaz de conter as contradições humanas sem buscar resolvê-las. A temática é a celebração da presença: o Jazz como o ato supremo de estar vivo, aqui e agora, com a plena consciência de todo o passado. A técnica, neste volume, atinge o grau de inefabilidade: A "escrita" do improviso nas linhas improvisadas aqui são tão fluidas e bem estruturadas que desafiam a distinção entre composição e improvisação. É como se os músicos estivessem acessando um "banco de dados" ancestral de melodias, moldando-as com uma autoridade que sugere que a música já existia antes de ser tocada. O equilíbrio dos contrastes no CD23 demonstra um domínio magistral da alternância entre o denso e o rarefeito onde o grupo pode mergulhar em uma complexidade harmônica vertiginosa e, subitamente, dissolver-se em uma melodia simples, quase infantil, sem quebrar a unidade emocional da obra. A ergonomia do som em uma compreensão profunda de como o instrumento ressoa no espaço físico, o músico aqui "toca o ar" utilizando a acústica como um parceiro silencioso em cada nota colocada com um peso específico, calculada para vibrar em simpatia com a alma de quem ouve. A desintegração da hierarquia como ideia de "solista" e "acompanhante" é substituída por uma consciência coletiva. O que ouvimos é um sistema de retroalimentação onde as ideias musicais circulam livremente, criando um ambiente onde todos são, simultaneamente, compositores e ouvintes. A "memória orgânica": É fascinante observar como, neste estágio da antologia, os músicos utilizam citações melódicas aos grandes mestres dos primeiros volumes de forma natural, quase inconsciente é, por natureza, um diálogo constante com os fantasmas da história do Jazz. O estúdio como espelho é diferente de volumes anteriores onde o estúdio era um palco ou um laboratório, mas aqui ele funciona como um espelho. O registro documenta a autodescoberta do músico. A "fidelidade" buscada não é a da máquina, mas a da verdade emocional da performance. O legado da resistência deste volume é em última instância uma vitória, documenta que apesar de todas as crises,da obsolescência tecnológica e da pressão do mercado, a centelha que começou em 1898 permaneceu intacta, apenas refinada pelo fogo do tempo. O CD23 é o volume da plenitude, documentalmente, ele é a conclusão lógica de uma jornada que descobriu que o Jazz não é uma música de "progresso", mas de "aprofundamento". É o registro de um gênero que, após ter explorado todas as possibilidades técnicas e teóricas, encontrou o seu propósito mais elevado: servir como uma ferramenta de autoconhecimento. Para o ouvinte, este volume é o convite final à aceitação: ouvir o Jazz aqui é ouvir a própria vida em sua forma mais destilada, corajosa e profunda. Ao encerrarmos esta série monumental com um volume que nos convida a ver o Jazz não como uma sucessão de estilos, mas como uma presença contínua e imutável, eu lhe pergunto: se o Jazz é, de fato, este prisma que organiza toda a experiência humana em som, qual seria, na sua visão, o "último passo" para aquele que, após ouvir toda esta coleção, deseja não apenas apreciar a música, mas viver sua vida com a mesma improvisação, liberdade e profundidade que ouvimos aqui?
Boa audição - Namastê



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