Artista: VA
Álbum: Jazz Noire Vol: 02 (2xCD)
Lançamento: 2011
Selo: Fantastic Voyage/FVDD148
Gênero: Rhythm & Blues, Score, Swing, Big Band, Boogie Woogie, Jump Blues
Entrar no universo de "Drink Up - Light Up! (Jazz Noire Tales Of Dope, Booze & Sleaze)" é como atravessar a porta dos fundos de um speakeasy clandestino em 1947, onde a fumaça de tabaco é tão densa quanto o mistério de um crime não resolvido. Lançada pela curadoria impecável da Fantastic Voyage, esta antologia transcende a mera compilação de catálogo; ela funciona como um documento antropológico e cinematográfico das décadas de 1940 e 1950. O compilador Dave Penny executa uma tarefa magistral ao costurar 50 faixas que orbitam o "lado B" do sonho americano. O álbum não se contenta em apresentar apenas o Jazz e o R&B de auditório; ele mergulha no argot das ruas, trazendo à tona o Jump Blues febril, o Swing malicioso e o Jazz de vanguarda que serviam de trilha sonora para a marginalidade. O gênio da obra reside na sua estrutura narrativa: a inserção estratégica de diálogos e temas de filmes cult — como Reefer Madness, D.O.A. e o visceral The Man With The Golden Arm — transforma a audição em uma experiência de rádio-teatro noir. Musicalmente, o disco é um banquete de contrastes. Temos o humor anfetamínico e frenético de Harry "The Hipster" Gibson em "Who Put the Benzedrine in Mrs. Murphy's Ovaltine?", contrapondo-se à elegância esfumaçada de Sarah Vaughan e ao carisma magnético de Cab Calloway em seu hino canábico "Reefer Man". Há uma crueza deliciosa em ouvir Wynonie Harris e Nelson Alexander Trio celebrando a indulgência em tempos onde tais temas eram tabus rigorosamente vigiados pela censura. Profissionalmente, a produção merece aplausos pela restauração sonora, que preserva o chiado orgânico da era sem sacrificar a clareza dos metais e a profundidade dos contrabaixos. De forma lúdica, podemos dizer que este CD é um "coquetel perigoso": começa com a euforia do primeiro gole de gim, passa pela paranoia das substâncias ilícitas e termina no balanço melancólico de uma madrugada solitária em uma esquina de Los Angeles. "Drink Up - Light Up!" é, em última análise, um triunfo da curadoria musical. É cínico, sofisticado, sujo e irresistivelmente dançante. Uma peça essencial para quem entende que o Jazz, antes de chegar às academias, foi forjado no calor do vício, do suor e da rebeldia das sombras. Veredito: Uma obra-prima de cinco estrelas para ser ouvida no volume máximo, de preferência com uma dose de bourbon ao alcance da mão. Para além da sua aura mística de fumaça e neon, "Drink Up - Light Up!" revela-se, sob um olhar clínico, uma aula magna de transição fonográfica e crônica social proibida. O que o curador Dave Penny articula nesta antologia não é apenas uma sucessão de canções, mas uma autópsia sonora da metamorfose do Jazz das Big Bands para o R&B visceral e o Cool Jazz analítico, capturando o exato momento em que o virtuosismo técnico encontrou a urgência das ruas. Tecnicamente, a compilação é um triunfo da restauração. A preservação do punch percussivo original das gravações em 78 RPM mantém o calor analógico necessário, sem sacrificar a clareza dos metais "sujos" (dirty brass) — saxofones e trompetes que utilizam bends e growls para mimetizar a voz humana em estados de embriaguez ou êxtase. O piano, motor rítmico de figuras como Harry "The Hipster" Gibson e Julia Lee, abandona a polidez das salas de concerto para assumir uma função quase puramente percussiva, onde o Stride e o Boogie-Woogie ditam o nervosismo das substâncias celebradas nas letras. A arqueologia musical aqui presente é o que realmente eleva o álbum ao status de item de colecionador. O conjunto resgata "pérolas negras" que habitaram o limbo da censura e dos selos independentes (race records). Faixas como a frenética "Who Put the Benzedrine in Mrs. Murphy's Ovaltine?" — que custou a carreira de Gibson devido à sua alusão explícita a anfetaminas — e a raríssima "Weed", de Bea Foote, oferecem um realismo lírico que antecipa em décadas a crueza do rap moderno. O diálogo estabelecido com as trilhas cinematográficas, especialmente o tema de "The Man With The Golden Arm" (de Elmer Bernstein), amarra a experiência técnica: aqui, o Jazz deixa de ser entretenimento para se tornar a linguagem psicológica da agonia e do vício urbano. Em última análise, "Drink Up - Light Up!" é um registro essencial da "música maldita". É o som de uma era onde o contrabaixo acústico já galopava no walking bass que daria luz ao Rock 'n' Roll, e onde artistas como Tiny Grimes e Clarence Williams usavam o improviso como fuga e reflexo de uma sociedade em transe. Uma obra tecnicamente impecável e historicamente subversiva.
Boa audição - Namastê



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