quarta-feira, 26 de maio de 2010

As Ra[izes do Jazz - Uma Arte Indomável Parte IV (Final)


Sem o apoio esperado, os criadores do bebop ficaram isolados e adotaram uma postura anárquica e boêmia. Escolas de música e instituições universitárias reconheceram a importância do bebop para a cultura norte-americana de raiz, mesmo que vinda de uma fonte inesperada e “não respeitável”. O próprio governo norte-americano, ciente do valor propagandístico do jazz como produto de exportação cultural, enviou o trompetista Dizzy Gillespie para o exterior, como embaixador cultural. Exatamente da maneira que, anos antes, fizera com o cantor e trompetista Louis Armstrong.

Música Para Ouvir e Tocar
A unidade fundamental da arte ortodoxa é a “obra de arte” que, uma vez criada, vive a sua vida independentemente de tudo, a não ser do criador. Se for um quadro, tem apenas de ser preservado; se for um livro, de ser reproduzido. A música e o drama têm de ser executados. No entanto, alguns acadêmicos têm a pretensão de interpretar a obra o mais próximo possível da intenção de seu produtor. É comum chamar uma obra de arte especialmente apreciada de “obra- prima”, uma categoria totalmente independente da execução. Ninguém diminui, por exemplo, o valor de Figaro, de Wolfgang Mozart, porque o humorista brasileiro Tom Cavalcanti utilizou um trecho dessa ópera para fazer alguma gag de mau gosto. Com o jazz, a coisa simplesmente não funciona assim. A sua arte não é reproduzida, mas criada; e existe apenas no momento da criação. Jazz é uma arte que tem origens populares, para não dizer vulgares, como as artes de palco, o teatro, o circo e a dança. Um grande drama teatral, se apresentado de maneira abominável, é apenas um drama em potencial. Quando se trata de artistas de teatro, admitimos livremente: atores como Paulo Autran e Fernanda Montenegro produzem grande arte, mesmo quando o assunto em questão é, pelos padrões ortodoxos, arte menor, ou não é absolutamente arte. É isso o que acontece com o jazz – embora sua maior contribuição para as artes populares seja a combinação do individualismo e da criação coletiva, há muito esquecida pela cultura ortodoxa. Um cantor como Louis Armstrong poderia dizer para si mesmo, ouvindo um playback de West End Blues, de 1928: “É uma boa versão, vou repeti-la sempre.” Duke Ellington ou John Lewis poderiam dizer a respeito de uma gravação: “é quase assim que deve ser”. Mas se nós escutássemos todos os West End Blues, Across the Track, ou Django já tocados, mesmo por Armstrong, pela banda de Ellington e pelo Modern Jazz Quartet, ouviríamos uma série de recriações e modificações. A obra individual não é, para o músico de jazz, a real unidade da arte. Se há uma unidade natural do jazz, ela é a execução – na noite ou ocasião em que a música é tocada após a outra – rapidamente e devagar, formal e informalmente, cobrindo o espectro das emoções. A contínua criação é a essência dessa música, e o fato de que a maior parte é fugaz não preocupa o músico. O jazz é música para músicos, expressando diretamente as emoções. Os compositores mais espertos sempre reconheceram que o jazz não é composto por notas ou instrumentos, mas por homens e mulheres criativos. Quais são, portanto, as realizações musicais do jazz? Sua maior e talvez única realização real é existir: um estilo que esgotou as qualidades da música folk, em um mundo projetado para expatriá-las e que até hoje as manteve protegidas dos ataques enfraquecedores do pop e da música erudita. Por tudo isso, o jazz é uma arte popular e indômita.

Referencias: HOBSBAWN, E. História Social do Jazz. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990. SHAPIRO, N. e HENTOFF, N. Hear me talkin’ to ya. Londres, 1955. The Rolling Stone Jazz Record Guide. Suplementos da Revista Rolling Stone. FEATHER, L. Encyclopedia of jazz. Londres, 1988. TRAVENIER, B. Round Midnight. Filme, com o saxofonista Dexter Gordon.

NEY VILELA é Mestre em comunicação midiática pela UNESP - Bauru; professor de Cultura e Artes e de História da Comunicação.

Boa Leitura - Namastê.

Um comentário:

dadacestmoi disse...

Meu caro Butterfly!
Faz um tempo que não apareço por aqui (tenho escrito mais do que lido e, portanto, tenho ouvido mais que tocado) e me deparo com esta excelente série sobre a história e a natureza do jazz!!!
Me deu uma vontade imensa de aquecer o dedo nas cordas...
Valeu!!