sábado, 13 de fevereiro de 2010

A Filosofia do Jazz - Primeira Parte

" O improviso e o ensaio na vida ou ao tocar um tema musical, são elementos importante para enfrentar o porvir de forma serena e consciente" - Pensador Anonimo.

Foi por volta dos anos 30 que a Europa se rendeu aos improvisos de Louis Armstrong e de Duke Ellington. Escritores próximos a Virginia Woolf Assumiram o estilo intimista de Ella Fitzgerald e de Sarah Vaughan. À exceção de um ou outro, muitos foram os intelectuais, especialmente os poetas da Beat Generation, que se encantaram com a música sincopada de Charles Parker e Dizzy Gillespie. Em um de seus romances mais importante (A Náusea), Sartre tecia um rasgado elogio ao jazz e suas variáveis. Havia muita coisa em comum entre esta música afro-americana e a filosofia. Arrisco dizer que desde os antigos e certos elementos do jazz já faziam parte da investigação filosófica. Louis Armstrong e Duke Ellington, o primeiro de origem humilde e o outro de classe média, um de Chicago o outro de Washington, transformaram o jazz na arte do estilo e do improviso. Desses dois sugiram mais e mais estilos numa profusão de experimentações. Primeiro veio o Hot, depois o Sweet e o Bebop, o Cool, o Progressive, o Hard-bop e não parou mais. Estava combinado: o jazz deveria ser tradicional e inovador, uma música em transformação. Mas como se aprende a tocar jazz?????. Apenas uma definição - sentido o que se tem para sentir. Isso nunca foi um problema para os afro-americanos, uma gente comprometida com a emoção. Pelo que dizem, o improviso surge meio que do nada e já chega pronto, assim como a revelação fotográfica de uma experiência passada. Era desse jeito, vivendo intensamente suas canções que Billie Holiday cantava: “Se você aprende uma canção e ela tem algo a ver com você, não há nada a desenvolver. Você simplesmente sente algo também. Para mim não tem nada a ver com trabalho, arranjo ou ensaio. Dê-me uma canção que eu possa sentir e ela não me dará trabalho algum. Existem algumas canções que eu sinto tanto, que nem consigo cantá-las, mas isso já é outra coisa. Cantar canções como “The Man I Love” ou “Porgy” não me dão mais trabalho do que sentar-me e devorar um prato a chinesa e eu adoro pato à chinesa. Já vivi canções como essas. Quando as canto, eu as vivo outra vez e adoro”. O que mais uma pessoa pode fazer em sua vida a não ser: ensaiar, tentar, errar, corrigir, interpretar, nascer e morrer?. Que não se pense do jazz como uma música sem requintes. Longe disso. Sua constante renovação só foi possível graças a uma sofisticada interpretação da tradição musical afro-americana. Como se para viver intensamente o presente, fosse preciso estar quite com o passado. Por essa via pode-se interpretar o testemunho de Charles Parker: “Sentia que devia existir outra coisa. Às vezes podia ouvi-la, mas era incapaz de tocá-la. Pois bem, naquela noite improvisando sobre “Cheroke”, descobri que usando intervalos mais altos de um acorde com linha melódica e escorando-os com as seqüências adequadas, eu podia tocar aquilo que vinha ouvindo há muito tempo. Foi como se tivesse nascido de novo”. Num texto clássico sobre a tradição e o talento individual, o poeta e critico literário T.S. Eliot (1888-1965), jazzista de primeira hora, deu novas cores a esta mesma idéia: “Não é provável que o artista saberá o que será concebido, a menos que viva naquilo que não é apenas o presente, mas o momento presente do passado, a não ser que esteja consciente , não do que esta morto mas do que agora continua a viver”.

Boa Leitura - Namastê.

3 comentários:

CAIO disse...

Belíssimo texto, direto e sensível , sópor desaforo vou ouvir um Charlie Parker de 53, já que as gravações imortalizadas nos permitem sentir um pouco de tudo isso tb.

MJ FALCÃO disse...

Foi um prazer ler o post! Continue a falar assim do jazz, único!
o falcão de jade

Murilo Barbosa disse...

Grande texto. Não é a toa que este blog está na minha lista de favoritos. De minha parte, acho que uma das melhores definições de improviso foi a de Bill Evans em uma nota de algum disco, não lembro qual. Ele comparou a arte de improvisar com a técnica de arte japonesa de escrita. O artista só tem um momento preciso para realizar um movimento certeiro e poético com o pincel sobre o papel, deixando sua marca com precisão e criando uma letra legível e bela. Não há borracha nem "liquid paper"... O jazzista tem a mesma responsabilidade: a cada compasso, ele deve criar melodias e harmonias que se inscrevam no tempo da música e enriqueçam a interpretação, usando um repertório de idéias que instantaneamente se juntam às que já foram tocadas e às que ainda serão. Por isso creio que, sem prévio estudo, talvez não surgissem muitas idéias ou talvez elas não se concatenassem muito bem.
Sem querer polemizar, apenas ilustrando a importância de um maior conhecimento musical na improvisação, Billie Holliday era puro sentimento na hora de cantar pois podia contar com seu arcabouço de emoções intensas devido ao seu histórico de sofrimento e intensas paixões que se refletiam em sua música. Mas não era uma improvisadora - no estilo scat singing - como Ella Fitzgerald, Sarah Vaughn ou Lena Horne, cantoras que contavam com técnicas musicais mais sofisticadas por terem tido algum contato mais profundo com a música em algum momento de suas vidas.