Artista: La Grande Histoire Du Jazz
Lançamento: 2009
Selo: Le Chant du Monde
Gênero: Swing, Ragtime, Big Band, Early Jazz, New Orleans Jazz, Dixieland, Harlem Stride Piano, Gipsy Jazz (Jazz Manouche), Negro Spirituals/Gospel
A transcendência do estilo como reflexo da modernidade tardia aborda o volume desta coleção transcende o rigor cronológico para atuar como uma releitura hermenêutica do legado acumulado até então. Se o volume anterior marcou a abertura para o novo, o CD16 cristaliza o Jazz como um sistema de pensamento. Estamos aqui no terreno da "Modernidade Tardia", onde a música deixa de ser um evento para se tornar uma atmosfera. Este volume não documenta apenas uma época, mas a maneira como os músicos passaram a habitar o vocabulário que eles mesmos construíram nos 15 volumes anteriores. O pano de fundo deste CD é o início do reconhecimento do Jazz como uma "Arte de Câmara" de escala global. A estética aqui é a do equilíbrio reflexivo. O contraste entre a urgência do passado e a calma do presente é resolvido através da sofisticação do "fazer musical". Culturalmente, o jazz desliga-se de vez da necessidade de ser um produto de entretenimento puro ou um manifesto político imediato; ele se torna o domínio do artesão-filósofo, um espaço onde o tempo é suspenso para a exploração de nuances tímbricas e harmônicas que antes passavam despercebidas. A evolução técnica neste volume revela um refinamento quase cirúrgico: A "escuta ativa" do solista, o músico já não toca sobre a harmonia; toca com a harmonia, tratando cada acorde como um organismo vivo, repleto de tensões e resoluções alternativas. É a era do detalhismo harmônico. O triunfo do "Space": Se o Bebop era a saturação de notas, este volume valoriza o intervalo. O silêncio ganha peso de nota musical, funcionando como um elemento dramático que dá contorno e propósito à improvisação. A timbre como assinatura mais do que a nota tocada, o foco vira a qualidade do som (o tone). A busca por uma sonoridade única — um vibrato específico, uma forma particular de atacar a nota — torna-se o principal objetivo do solista. A estrutura como escultura nas composições neste volume são tratadas com um rigor de escultura: o tema é introduzido, desconstruído e reconstruído durante a improvisação, mantendo uma unidade arquitetônica que conecta o início e o fim da faixa como um círculo perfeito. A "memória" da gravação permite perceber como a tecnologia de estúdio (agora mais evoluída) começou a influenciar a própria composição. Músicos que sabiam que seriam ouvidos com clareza em sistemas de alta fidelidade começaram a compor peças que exploravam o silêncio e as dinâmicas extremas, algo que os discos de cera de 1920 teriam suprimido. O intercâmbio cultural é fascinante notar neste volume as influências de estéticas globais que começavam a circular. O jazz aqui já não é uma música americana exportada; é uma linguagem que já foi processada por sensibilidades europeias, latinas e asiáticas, tornando-se o primeiro gênero musical verdadeiramente cosmopolita. O status de "clássico" captura o momento em que os grandes nomes do jazz passaram a ser vistos como "clássicos em vida". A abordagem musical é, portanto, de reverência e, ao mesmo tempo, de ousadia revisionista. O CD16 é um exercício de essencialismo. Documentalmente, ele cumpre o papel de demonstrar que, após a exploração técnica, o Jazz atingiu o seu estágio de "sabedoria": a capacidade de dizer tudo com o mínimo necessário. É um volume que convida à escuta contemplativa, sendo o ponto de chegada ideal para quem deseja compreender que a complexidade do Jazz, no fundo, sempre serviu para alcançar uma simplicidade emocional profunda. É a prova final de que o Jazz se tornou uma linguagem capaz de conter a totalidade da experiência humana. PerguntA: se o jazz é um organismo vivo que passou por todas essas fases — da rusticidade do Ragtime à sofisticação absoluta deste décimo sexto volume — em que medida você acredita que o jazz, hoje, ainda mantém uma conexão real com a sua origem, ou ele se transformou em uma "língua morta" que preservamos em museus, admirando sua beleza sem que sejamos mais capazes de recriar sua pulsão original?
Boa audição - Namastê



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