sexta-feira, 31 de julho de 2026

Boxset: La Grande Histoire Du Jazz, do Ragtime ao Swing 1898-1952 (25CDs)


Lançamento: 2009
Selo: Le Chant du Monde 
Gênero: Swing, Ragtime, Big Band, Early Jazz, New Orleans Jazz, Dixieland, Harlem Stride Piano, Gipsy Jazz (Jazz Manouche), Negro Spirituals/Gospel 


O ponto de inflexão na vanguarda que redefine o horizonte no décimo sétimo volume desta coleção funciona como o contraponto necessário ao classicismo do CD16. Se o volume anterior celebrou a maturidade e a economia do Jazz, este CD 17 é a evidência documental de que, mesmo quando o Jazz se torna uma "linguagem clássica", o seu instinto mais profundo é a rebeldia. Estamos no limiar de um período onde a estrutura começa a ser vista não como um alicerce, mas como uma fronteira a ser cruzada. Este volume registra a inquietação que pavimentou o caminho para as explorações modais e a liberdade total que definiriam a década seguinte. O pano de fundo deste CD é o descompasso criativo. Enquanto o mercado e o público consolidavam o Jazz como uma forma de arte respeitável (e por vezes conservadora) os músicos inseridos neste volume buscam deliberadamente a "saída". A estética é marcada por uma tensão fascinante: a disciplina técnica absoluta sendo utilizada para subverter a própria harmonia que a sustenta. É um momento em que a música abandona o conforto da previsibilidade em favor da aventura estética. A evolução técnica aqui documentada é um estudo sobre a desterritorialização do Jazz: A harmonia como suggestão no conceito de "acorde" começa a perder seu papel de ditador e o músico deixa de seguir a progressão de forma linear para flutuar ao redor dela tratando a harmonia como uma cor ou uma textura em vez de um destino obrigatório. O advento do "lirismo angular" nas linhas melódicas tornam-se menos previsíveis, uma valorização do intervalo do salto e da síncope inesperada criando uma narrativa que soa quase como um diálogo filosófico, onde a pergunta e a resposta musical ocorrem em níveis de complexidade elevada. A percussão como "interrupção" na bateria neste volume abandona o papel de mantenedor do pulso constante atuando como um elemento de surpresa e pontuando o silêncio desafiando o solista a encontrar caminhos rítmicos que não dependam da métrica convencional. O arranjo de "câmara livre" nas formações de quarteto e quinteto  funcionam como núcleos de improvisação coletiva onde arranjos é apenas o tema inicial; o que importa é a negociação constante entre os músicos durante o desenrolar da peça. A "fricção" estética é possível sentir neste volume na resistência que esses músicos enfrentavam em um ambiente que já desejava que o Jazz fosse apenas "bonito". Este CD é o registro dessa resistência, capturando momentos onde a nota "errada" é, na verdade, a mais honesta. A ciência do som na engenharia de som demonstra uma preocupação maior em capturar a dinâmica orgânica da sala do que em criar uma sonoridade "limpa" e artificial. O resultado é uma proximidade visceral, como se estivéssemos assistindo a essas sessões em estúdios enfumaçados de Nova York. O legado da busca em muitas dessas faixas, embora fossem vistas como "experimentais" na época tornaram-se hoje os pilares sobre os quais toda a música improvisada moderna se sustenta. Este volume documenta o momento exato em que o Jazz deixou de ser uma "forma" para se tornar um "método de exploração". O CD17 é o volume da coragem. Ele é indispensável por provar que o Jazz, ao contrário de qualquer outro gênero musical, possui um mecanismo interno de autodestruição e renascimento que o impede de morrer. Documentalmente, ele registra a transição de um gênero que sabia "falar" para um gênero que aprendeu a "questionar". É uma audição obrigatória para quem deseja entender que a beleza, no Jazz, não reside apenas na harmonia, mas na força de vontade do artista em buscar o desconhecido. Observando este volume que coloca o Jazz na corda bamba entre o classicismo e a vanguarda, pergunta que fica é: se o Jazz por natureza, é um gênero que se alimenta da mudança, você acredita que chegaremos a um ponto em que a própria ideia de "Jazz" será tão elástica que ele deixará de existir como categoria, fundindo-se inteiramente com a ideia de "música livre" sem rótulos?

Boa audição - Namastê

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